ALGARAVÁRIA
Home|Algarapostal|Cronópios|Orkut

domingo, abril 30, 2006
Um novo algaravariável!


A Algaravária dá boas-vindas ao novo algaravariável permanente, Felipe K., um nome de peso da poesia internáutica. Confira logo abaixo sua biografia e dois poemas. Algaravante!

algaravária
(3) no algaravial

 


Felipe K.: FASE BLUES




Felipe Kenji Sudo nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Formou-se em medicina na UFF e faz residência em Psiquiatria no IPUB/UFRJ. Gosta de poesia, ler e (até) escrever. Qualquer dia, ainda compõe um samba-canção da década de 30. É um cara que nem sabe o que é ser um cara. Mantém um blog de poemas, o la vie en blues.

Felipe K. escreve, doravante, semanalmente às sextas no Algaravária.







pra começar


além de ontem
- azul de ladrilhos -
espectra a manhã
num relance:
página em branco,
grito de galo, fogo perpétuo
- despertar é áspero,
poroso
golpe de luz
a frio - alarde de cristais.



voyeurismo


deslizar a mão livre
percutir
tambores do corpo
dizer boa noite
meu grande amor
vagaroso e urgente
- como um suspiro
pulsátil semente
derramada no vento -
e nunca chegar a ti.

algaravária
(7) no algaravial

 

sábado, abril 29, 2006
Algaravariações (03): Astier Basílio




Astier Basílio nasceu em pernambuco, veio cedo para Campina Grande na Paraíba e mora há dois anos em João Pessoa. Ainda na casa dos vinte anos, já publicou uma dezena de livros, mas renega alguns. Trabalha como jornalista cultural, tanto à frente do Correio das Artes quanto de Augusto (suplemento cultural do Jornal da Paraíba). É possível encontrar vários de seus poemas nos principais sites do gênero na Internet, principalmente no seu blog pessoal, o Eu sou mais veneno que paisagem.

Confira logo abaixo quatro poemas inéditos e a entrevista cedidos gentilmente à Algaravária.






QUATRO POEMAS



Anteprojeto


carrego n'alma
um domingo com a filha que terei
a velhice na cama dividida
o horizonte concluído da janela

mas um escorpião tem medo de fogo
em meu sangue
dança e derruba sua peçonha de 4 patas
que me põe de pé quando sou homem

e eu sou mais veneno
que paisagem




westerns land


minha arte
é marcial,
lutada em claro.

Minha solidão
tem mais auroras
que cansaços.

Os vencedores andam em bando,
mas, a verdade,
ainda, a cavalo.

Meu nome é ninguém,
porém, não aceito pactos:
minha parte
é com o silêncio.

O meu estado é de sítio;
a minha casa, o contrário.
Sou mais meu conflito
do que o palco.

Meu número
não tem comentários
e o que eu miro
não é no fácil




impressão digital


após todos os fins
nasço:

nos escombros do muro,
das torres,
do mundo.

Eu,
rascunho permanente,
de um já escrito
epitáfio.




lugar


onde o
desespero
escava um
nó exato.
Uma verdadeira
solidão
não seu relato,
o vazio mais intacto.
Descobrir um
caminho
e apagar
os rastros







ENTREVISTA



1. Trajetória de antes


Como construiu o escritor que é hoje?

Foi um processo de muito entusiasmo, no primeiro momento, quando de devoção mística. Essa vontade de estar além de melhorar e a disposição para auto-crítica e auto-destruição foram fundamentais. Sou mutável, quase um hiv, quase me identifico mudo.


Qual sua trajetória literária até o primeiro livro?

Uma loucura. Consegui o dinheiro das duas primeiras parcelas com uma professora de literatura do ginásio, que praticamente custeou o livro, sem me cobrar nada, sóme pedindo que eu omitisse o seu gesto. Ficou o impasse pois me faltava a terceira prestação. Tive de abrir o jogo em casa. Por fim, consegui um dinheiro emprestado com meu tio, e vim a pagá-lo com as vendas do livro. Eu tinha dezoito anos.


Atualmente o grande problema do jovem escritor é publicar seus poemas. Neste sentido, no início, quais eram os seus problemas?

Se eu tivesse o discernimento que tenho hoje não publicaria um livro tão cedo. Publicação e produção são coisas plenamente diferentes. O publicar deve ser a etapa última. Bem, meus poemas caíam nas graças das moçoilas estudantis, que as faziam circular por meio de xeror. Eu as publicava em painés, em fanzines e participava ativamente dos saraus e atividades literárias. O meu problema era a ânsia de ver meu livro na livraria.


Ser poeta é mais talento ou esforço? Descobriu-se ou inventou-se poeta?

Venho de uma família de repentistas. Então o convívio com a poesia popular veio desde cedo. Sempre tive a premonição que seria poeta, em algum momento da minha vida. As artes sempre me tocaram. Cheguei a enveredar pela música e pelo desenho. A poesia me tomou por completo. Eu tinha catorze anos. Aprendi as técnicas do versejar, mas sempre procurava ir além de meus limites, sempre com alto grau de desconfiança.


Quais livros fizeram parte de sua formação?

Minha casa não tinha uma biblioteca boa. Meus pais não dispunham de condições econômicas para tal. Havia vários livros didáticos. Meu conhecimento de literatura adveio, metodicamente, daí. Isso afora os poetas populares que eu lia, Zé da Luz, Zé Laurentino, Patativa do Assaré. Era um poesia repleta de música e oralidade. Eu gostava muito dos românticos, pois eles cumpriam os postulados previstos entre os poetas populares cujas regras me eram parâmetro e modelo. Meus autores fundamentais foram Castro Alves, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, Bilac, Camões, Antero de Quental, Florbela Espanca e Vinícius de Morais. Demorei muito para ter acesso a livros. Só na universidade através de bibliotecas. Quando pude comprar livros, creio que volumes que foram fundamentais para minha formação são: A Divina Comédia, Ilíada e Odisséia, Grande sertão:veredas e A Pedra do Reino.


Tentou vários gêneros literários? Ainda os pratica em segredo?

Pratico o exercício para a prosa. É um projeto meu. Estou anotando, lendo muita prosa. Não é algo para breve. Tenho em mente escrever contos e romance.



2. Psicologia da composição


O que é matéria para a poesia?

Essencialmente a idéia. Poesia pra mim é uma forma de pensar. Não concebo um poema que não parta desse pressuposto. Não sou capaz de escrever a partir de uma solução de imagem, de um trocadilho. Minha poesia é reflexiva.


Com quantas metáforas se faz um poema?

Até com nenhuma. Pra mim metáfora não é o mais importante, embora eu faço uso corrente dela. O foco principal, o núcleo irradiador do poema, pra mim, é o pensamento. O resto écomplemento, que tem de se subordinar a este prisma maior, que é idéia.


Tem obsessão em reescrever o mesmo texto? A emenda é pior do que o soneto?

Quando a idéia se sobrepõe demais às outras estruturas de organização como ritmo, principalmente, sinto que algo está fora do lugar e só fico em paz quando consigo a harmonia entre pensamento e expressão. Cada poema é um suicídio.


Guarda tudo o que escreve? Ou elimina sumariamente?

Guardo, mas não me sinto confortável em reler coisas que já fiz. Meu prazo de validade com a beleza é muito curto e sou sempre mais feliz com o que não fiz do que com o já feito.


O resultado final do poema coincide sempre com sua idéia inicial?

Meus poemas são desenvolvimentos de idéias. Necessariamente, cada poema é uma provocação, uma questão, um axioma, um aforismo, cujo desenvolvimento organizacional me é pedra de toque.


Para escrever, é necessário comer, beber, fumar? O que organicamente anima sua escrita?

É necessário ter o que dizer. Estes apelos extra-sensoriais não me tocam. Todos os meus poemas partem de observações que faço sobre o meu tempo e o que eu escrevo é uma tentativa de dar resposta a estas questões que me assaltam. É só olhar ao redor, motivo não me falta. Não há droga pior que o ser o humano, nem lugar pior pra se viver que o mundo.


Há autores que inspiram e outros que bloqueiam o impulso poético? Cite.

Para que eu não fique repetitivo é melhor eu fazer uma divisão em dois momentos. Um antes de minha experiência no Santo Daime e outro depois. Antes, de eu ouvir um caboclo no meio de uma miração me dizer que a minha poesia buscava muito a beleza e que eu tivesse cuidado porque a beleza escraviza, é uma senhora cruel e que eu, em minha poesia, deveria buscar a verdade, antes então eu era todo aura, todo rito. Depois disso, do conselho de que a minha poesia deveria ser a expressão da busca de minha verdade, tudo mudou. Mas, antes, o autor que me bloqueava era João Cabral, pela sua singularidade, e um autor que me estimulou foi o Francisco Carvalho, do Ceará. Hoje, qualquer leitura que possa contribuir para despertar algo no meu pensamento está, indiretamente, me influenciando. Mas há dois poetas que me inspiram muito: Alberto Cunha Melo, de Pernambuco, e Tahar Ben Jelloun, do Marrocos.


O sentimento de estranhamento cumpre um papel na sua escrita? Ou ela é mais mimética?

O estranhamento já foi objetivo principal de meus poemas. Mas, eu me enganava. O que eu estava fazendo eram ornatos, volteios superficiais. O estranhamento, quanto menos aparecer, melhor. Aí está a arte difícil do dizer com pouco, com menos.


Costuma começar pela primeiro ou pela último verso? Qual deles é o mais difícil?

Tenho uma idéia. Vou pensando, juntando elementos, desenvolvendo-a. Até que os outros elementos vêm em segundo plano, como figurantes. Parto primeiro de um pensamento.


Há idéias ou imagens que lhe perseguem no fio dos anos? Sente-se escrevendo o mesmo poema ou o mesmo livro?

Idéias. Muitas me perseguem. Tenho algumas. Projetos de livros inteiros que aguardam o circuito concluir-se, consumar-se. Não penso em poemas, penso em livros, em unidades inteiras, em estruturas que se desenvolvam a partir de uma idéia central. Penso num livro chamado a vida é uma rave, em que, numa festa psicodélica, eu tente repassar as problemáticas do homem-hoje. Faz anos que salvo isso comigo, mas, ainda não fui ao papel.



3. Prosa do próprio mundo


Como define a sua poesia? Como caracterizaria suas ambições estéticas principais?

Minha poesia é a maneira como que eu respondo ao mundo em que vivo, ao tempo a que eu pertenço, sem, contudo, ter uma resposta. Minha ambição maior é flagrar o meu tempo, as agonias do agora, é ser um retrato em digital numa máquina sem memória.


Entre seus próprios poemas, quais os seus preferidos? Eles coincidem com os preferidos dos leitores ou mais divulgados em geral?

O poema de que mais gosto é anteprojeto, pois melhor me define. Acho que está entre os preferidos da meia dúzia de leitores que visitam meu blog. O último verso eu sou mais veneno que paisagem dá título ao meu próximo livro.


Recebeu ou recebe conselhos importantes de escritores na sua trajetória? Como foi e é o diálogo com outros escritores?

Tive vários Virgílios ao longo de minha trajetória. Sempre tive que matá-los depois, para ter vida própria. O principal deles e primeiro foi o paraibano Hildeberto Barbosa Filho, por sua mão de crítico conheci praticamente boa parte da produção contemporânea brasileira; depois Carlos Newton Jr, que me fez ler Dante, Homero, Guimarães Rosa; Alexei Bueno, de quem me tornei amigo, foi uma grande influência; os paraibanos Bráulio Tavares, Antônio Morais e José Nêumanne, além de Alberto da Cunha Melo, grande amigo, mestre e modelo. Já vivi mais intensamente a vida literária, me interessava em manter contato com determinados autores, ligava, queria criar vínculo, hoje me libertei disso, mas continuo tendo um bom contato com escritores os mais diversos, sobretudo pela profissão de jornalista e de editor de suplemento cultural.


Qual a relação entre seu trabalho e sua escrita?

Trabalho profissional? Quase nenhuma. O jornalismo não me deixa pensar muito (risos).


O que mais lhe agrada em um poema?

A verdade que ele desenterra ou apresenta.


Como percebe suas principais qualidades como escritor? Há algum defeito de que não abra mão?

Antes do Daime eu era um poeta da imagem. Era um defeito que eu assumia. Hoje eu procuro abrir mão dos meus defeitos com muita intensidade. Não abro mão do erro do risco. Quero arriscar, procuro um ar novo, pois o que leio me sufoca. Do erro de pensar o agora, do risco que pode ser ter opinião, eu não abro mão. Mas, defeito estilístico, não sei. Opto pelo simples, sempre.


Como a poesia do seu estado está enquadrada no contexto brasileiro?

A Paraíba está na periferia histórica, sócio-econômica e cultural do país. O modernismo de fato só se instaurou aqui com 4 décadas de atraso, como grupo Sanhauá. Apesar disso, das dificuldades, estamos vivendo um ótimo momento. Temos bons autores como Sérgio de Castro Pinto, José Antônio Assunção, Antônio Mariano de Lima, Lau Siqueira, André Ricardo Aguiar, Hildeberto Barbosa Filho, Linaldo Guedes e muitos outros que pontificam na Paraíba, marcam sua presença e imprimem sua voz em nosso cenário.


Em que geração literária você se concebe? Ela tem um projeto definido?

Na geração 00, a do novo milênio, a que está aí nos blogs, na internet. Viemos, creio que o Algaravária reúne um esboço de geração sim, no esfacelamento pós-tudo. Eu tenho um poema em que eu digo ainda não me perguntaram nada mas tudo já foi dito. Não temos projeto, queremos espaço e não estamos preocupados em projetos de grupo, mas em nossas perspectivas individuais. A solidão é o mal da nossa geração, que prefere olhar pra trás e sonhar com um tempo perdido, a enxergar no seu tempo a matéria de sua poesia.


Qual a relação entre sua idéia de infância e sua poesia?

Tenho 20 e poucos anos e creio que soaria ridículo revisitá-la agora. É um espaço de tempo muito recente. É material para o futuro, para outra época. Por enquanto me interessa o mundo.


Como seus livros foram recebidos publicamente?

Tive uma boa recepção crítica em meu estado. Artigos em jornais, quatro ensaios publicados em livro. Fora recebi cartas com apreciações sucintas mas elogiosas de nomes como Carlos Nejar, Ivo Barroso, Alexei Bueno, Marco Lucchesi, Foed Castro Chama, Luís Augusto Cassas, André Sefrin, entre outros.


Quanto tempo dedica à leitura de crítica literária?

Leio sempre. Leio as que saem no Correio das Artes, Rascunho e nas revistas e grandes jornais do país e principalmente as que são publicadas em sites, blogs, e revistas eletrônicas, como zunái e cronópios, onde verdadeiramente está sendo feita a crítica militante de hoje em dia.


Como se sente quando comparado com outros escritores?

Pra quem quer mostrar sua voz no mundo, é o fim.



O que além da poesia precisa ser lido?

O mundo. Com suas faces em mutação e em pergunta. Mas, sendomais conotativo, importante ler filosofia, história, crítica literária e prosa.


Já ganhou prêmios literários? Quais? Qual a importância deles?

Ganhei o Novos Autores Paraibanos, com um livro que hoje renego. Mas, foi uma sensação ímpar à época. Prêmios têm sua importância para difusão do nome, divulgação da obra.


Fale um pouco de suas seções de autógrafos. São boas experiências ou as dispensaria?

São boas sim. É um encontro com leitor, que vê em você um futuro Nobel de Literatura, não pela qualidade de seu texto, mas por ter em mãos uma relíquia e uma glória pra contar aos outros. Tudo é vaidade, já diria o pregador.



4. A poesia e suas questões em questão


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

Cultura seria a palavra, a meu ver. Nem sempre erudição se transforma em bom material poético. O que tem de autor chato, arrotando Lacan, Cioran, ee cumings e cuja obra é um arremedo em bricolagem do que se leu, sem assinatura própria, sem verdade, apenas jogos vazios e estéreis.


A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?

Não dá pra lhe tirar a aura, mesmo que não se concorde com isso, o senso comum não vê um poeta com olhos indiferentes. Sempre o distingue, para bem ou para mal.


Qual a função social da poesia?

Nenhuma. Poesia não tem função, em si. Como de sorte toda a arte produzida não tem função de sorte alguma. Ela pode expressar um sentimento de inquietação social, mas ter uma função social eu não vejo.


A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

O que se esgotou foram os poetas. Repetitivos, chatos, auto-plagiadores, fechados em seus mundinhos enquanto o mundo se acaba ao seu lado, a poesia é incapaz de se comunicar, perdida em jogos de metalinguagem, que não suporto, nem tolero ler, e na obsessão da influência expressada pela praga da intertextualidade, quase um pré-requisito pra se tornar poeta hoje em dia.


Há obras meramente comerciais de poesia? O que pensa delas?

Poesia, como diria Alberto da Cunha Melo, éa antimercadoria. Nem um autor que queria fazer uma poesia comercial consegue. Poesia não cabe em papel de presente.


Políticas literárias: faz qualquer negócio para sua obra ser editada? É justa a percentagem que fica para o editor e para as livrarias? Éjusto que o escritor seja a causa produtora de um sistema literário que não o beneficia corretamente? O que se pode fazer?

Não sei se é justo. Nunca editei meus livros através de ninguém, desconheço esse metier, não sei o que se pode fazer.


Qual a melhor editora brasileira? E qual a que edita melhor a poesia?

Acho que a Landy tem se dedicado à poesia de forma sistemática, assim como a Lamparina.


A figura do escritor precisa ser mais mistificada ou desmistificada? O que isso envolveria?

Não consigo responder pelos outros e acho que cada poeta tem um forma de se comportar diante de sua arte. A mim, tanto mistificação como desmistificação excessiva parecem a mesma coisa. Anti-aura é também uma aura. Cada situação, momento, exige um comportamento diferente. Não dápra ser Olavo Bilac o tempo todo, nem João Cabral de Melo Neto.


Como avalia o movimento concretista em relação à produção poética contemporânea?

Como uma moeda de dois lados. O primeiro, importante. Abriu os caminhos de outras literaturas, expandiu as perspectivas vanguardistas, incutiu o senso de invenção. O segundo, o negativo, que nem a si próprio compete, mas aos seguidores tardios. A proposta estética do concretismo não responde mais aos apelos e questões de nosso tempo.



5. Museu de agora e depois


"Escrever sobre escrever é o futuro do escrever"? (Haroldo de Campos)

Quem agüenta este deserto? Eu tô fora. Acho que a metalinguagem já era.


Qual é hoje a marginália da poesia brasileira? Ela ainda é possível depois da internet?

Estamos na era a ressignificação quase automática, instantânea, das cooptações, das releituras. O chique hoje é ser marginal. O marginal, pela repetição é recorrência, é quase a reprodução da previsibilidade do poeta oficial da poesia de salão do século passado. O que mais se vê é maldito de botique. Temos que buscar coisas novas: posturas, sentidos, significações, assuntos. O pessoal hoje em dia está interessado em sucesso e ponto final.


Como você se vê frente ao recebimento de originais? Comenta tudo o que recebe?

Sim, com a franqueza que norteia meus princípios.


Que conselhos daria a quem está começando?

Tem um poema visual do Marcelo Sahea, no livro leve recém lançado, que diz muito do que eu penso. É uma pegada em forma de interrogação. O conselho é: siga em frente duvidando.


Que livro prepara para logo? Qual seu eixo principal?

Eu sou mais veneno que paisagem. Mais uma tentativa de entender e de lançar perguntas sobre este conturbado tempo em que vivemos, da apatia, do nada e do vazio.


O que pensa sobre a algaravária?

Uma idéia genial e a possibilidade de nos organizarmos diante dos outros enquanto geração.

algaravária
(7) no algaravial

 

sexta-feira, abril 28, 2006
SOLFAZ

Paulo de Toledo
(3) no algaravial

 

quinta-feira, abril 27, 2006
O Dia da Noite

Estêncil

A palma da tua mão
Escrita em sangue
Sobre o lençol
Sobre minha pele

A palma da tua mão
em verso rupestre
Eu em oferenda trêmula

Que nunca terminem
Os dias, as noites
sacrificiais.

Carol Custodio
(5) no algaravial

 


esvaziando gavetas número quatro

O outono escrito em meu rosto
faz da tristeza
um aceno perdido no tempo.
Sozinho
reescrevo imagens mentidas na alma
enxerto lembranças nas falhas da carne.

Eu não me basto
[conseguiria ser diferente?]
Eu não me esboço
[mereceria você novamente?]

douglas D.
(4) no algaravial

 

quarta-feira, abril 26, 2006
Quatro Riscos

Barra Funda

Irei a Buenos Aires, uísque em ambiente cheio de fumaça,
como previ, há dez anos.

Dez anos e ainda
penso em você,
peixes,
rio,
água.

Daniela
(3) no algaravial

 


Imundo, mundo: provisório


[Fazer água IV]



I

Deixo minha casa tão suja,
tão dominada pelo pó de mim orvalhando,
que eu, por mais que sujo:
me sinto limpo.

Depois, deixo minha casa tão limpa,
tão recendida a pinho e eucalipto, a floral e lavanda,
que eu, por mais que limpo:
me sinto sujo.


II

Quando deságuo perfumes à flor da pele,
as portas fazem esquina com a rua,
desdobrando, como uma língua, as cadeiras de praia,
que são as da sala.

Bem odorado porque desodorado,
acesso jardins sem chamar a atenção das roseiras.


III

A grama já é mar.


IV

Mas quando soergo os braços fatigados como para uma cruz,
varrendo num longo espreguiçar os lamentos do corpo,
as janelas enferrujam os músculos das dobradiças,
jamais a lingüeta rígida da fechadura.

Quer porque gasto, quer porque economizo: sem desodorante,
nenhuma ginástica alarga os pulmões da casa,
e só me tonifico para mim mesmo, para nada.


V

Solto como um bicho, eu me enquadro,
como se usasse óculos exclusivamente para dissipar o foco.
Encarcerado nos bigodes da ratoeira,
eu me liberto, como se, enorme, pudesse correr,
como se, enorme, pudesse esconder-me.


VI

Sou como não sou e como não estou.
E se ser é sentir, até me dou razão,
de forma a entender depois
o que nego e o que afirmo agora.

Ser é eu me compreender quando puder.
Digo, tudo o que concluo: inutilizo.

Sou provisório como um corpo limpo.

Carlos Besen
(6) no algaravial

 

terça-feira, abril 25, 2006
saraIvada 04inho

tábua afogada

Dezessete nuvens negras, algumas dessas foram anos.

É o fundo do rio na minha cara como água,
quando eu me maquio do avesso, é pra combinar com o teu pulso transparente.

Crianças correndo sempre carregam um gato de segredos.

Não moldo meu corpo na cama dos outros, dear
deixaria os meus e o teus fantasmas baratinados no mesmo quarto.

Eu prefiro um balanço soando a rima do galho de nogueira,
o vento roubando e rindo a alma do capinzal,
minhas pernas são doces pra espinho
e isso faz bem, acupuntura de correr pelado.

Dezessete nuvens negras, eu sempre gozo que chova.

Dezessete negras me benzem de sol negro entre o Nilo, o Amazonas e o Mississipi.

Ali, de dentro de onde eu vim a ter em ti, nos espalho como um feriado sem nome.

francieli spohr
(7) no algaravial

 


Imp. 04

Vox Infimus


A


Ocos os olhos
Não brilham
Tateiam


Os olhos lâmina

Os ocos vértices


Esquivos à fala
Uivos opacam
Sombras sem campos


A


Onde
Existir para pedra no
Lago

Onde
Na glosa pedra
De repente parar


..............Sem vida
Seca semente

Tornar-se
Perda
Insinuação......¨
.
.
.



(continua na próxima terça)

Thiago Ponce de Moraes
(3) no algaravial

 

segunda-feira, abril 24, 2006
96020-004

a mina de ouro de minha mãe & de minha tia

se chamava
ilha da feitoria
ou ilha do meio
onde as duas vendiam
cosméticos avon
chegavam de bote
motorizado
com fardos de produtos
batons rímeis perfumes
e sobretudo rouges
eram recebidas
pelas donas de casa
cabeludas
bigodudas
panos de prato no ombro
filhos ranhentos no colo
minha mãe & minha tia procediam
ao embelezamento das nativas
devolviam-lhes cores
às faces
todo o espectro de cores
de um céu de fim de tarde
na lagoa dos patos
azuis e roxos e laranjas e rosas
e depois lhes emprestavam
espelhos
as donas de casa da ilha do meio
compravam muita maquiagem
minha mãe & minha tia
enchiam sacos de dinheiro.

praia do laranjal, 24/4/2006

Angélica Freitas
(6) no algaravial

 


Ninguagem

Da série Nutrição da Pele



Reflexos



I

Debaixo deste sol dolente
ficas deitada com teu ventre
pro céu que como a tua pele
a luz o leve do ar reflete
o beijo doce
à doçura que a conduz.
continua na próxima semana

Daniel Sampaio
(3) no algaravial

 

domingo, abril 23, 2006
Augusto dos Anjos: o verdadeiro artista

As cismas do destino - III

Poeta, feto malsão, criado com os sucos
De um leite mau, carnívoro asqueroso,
Gerado no atavismo monstruoso
Da alma desordenada dos malucos;

Última das criaturas inferiores
Governada por átomos mesquinhos,
Teu pé mata a uberdade dos caminhos
E estereliza os ventres geradores!

O áspero mal que a tudo, em torno, trazes,
Análogo é ao que, negro e a seu turno,
Traz o ávido filóstomo noturno
Ao sangue dos mamíferos vorazes.



.
Martírio do Artista
.
Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!

Tarda-lhe a idéa! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento!

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!...
É como o paralítico que, à mingua
Da própria voz e na que ardente o lavra

Febre de em vão falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem à boca uma palavra!


(Eu e outras poesias)

Thiago Ponce de Moraes
(2) no algaravial

 


Henry Miller: o artista americano

Posso resumir tudo numa frase: nenhuma esperança para o verdadeiro artista. Os únicos artistas que não levavam uma vida de cachorro eram os artistas comerciais. Esses possuíam casas, lindos pincéis, modelos maravilhosos. Os outros viviam como condenados à prisão perpétua. Essa impressão foi confirmada e tornou-se uma dura realidade com a continuação da viagem [ao interior dos Estados Unidos]. A América não é um lugar para artistas: ser um artista é ser, moralmente falando, um leproso, uma pessoa economicamente desajustada, uma responsabilidade social. Um porco alimentado a milho goza de uma vida melhor do que a de um artista criador, um pintor ou um músico. Um bom coelho é um privilegiado, se comparado com um artista americano.


(Pesadelo Refrigerado, Prefácio)

Carlos Besen
(2) no algaravial

 

sexta-feira, abril 21, 2006
enquanto 2

.

.

.
TUDOCOMQUANTOTONTOENTRETANTONADAPORTANTO

.

.

Pablo Araujo
(8) no algaravial

 


{S}

Paulo de Toledo
(2) no algaravial

 

quinta-feira, abril 20, 2006
O Dia da Noite

No final

No final
Eu nem sou gente
gosto de abelha e vento
gosto de carne e gordura
gosto de mar espalhado
roupa úmida
trilha perdida

no final eu
nem sou gente
coisa empestada
de coisa do mundo mais mundo
nem sou gente
nem fui à missa
nem me dei o gosto
desse sal mais pisado
eu quero é caldo grosso
pão na minha mão
a rua da tarde só pra mim
o domingo sem nome da minha praça

no final eu nem sou gente
no final eu nem quero ser gente
é bom que ninguém vê
que não sou gente

Carol Custodio
(9) no algaravial

 


esvaziando gavetas número três

CANÇÃO AZUL
(DEUS ESQUECEU-NOS AQUI)

uma das mãos sobre a cadeira de embalo
e você vê a si próprio
emudecido diante da morte
[ que chega roubando aos que tanto amas]
como se ao silenciares pudesses fazer tudo parar e ser como antes,


infância.


o que são memórias
senão você sozinho?

o que são tristezas
senão você fingindo?

o que são preces
senão você fugindo?

douglas D.
(2) no algaravial

 

quarta-feira, abril 19, 2006
Perda líquida

[Fazer água III]

Uma vida,
uma pedra
tão próxima,

mas

o receio de
se derramar

Carlos Besen
(13) no algaravial

 


Riscos

"O dia, os dias, o fim dos dias"

Hoje acordei cedo mas antes de dormir lembrei de três ou quatro palavras. Mostra Fassbinder. O que é uma roleta chinesa? Pessimismo em relação a toda e qualquer espécie de ser vivo, exceto, talvez, a flora brasileira. As grafites descem e sobem dentro da lapiseira. Ninguém vê pois ela está na minha mão agora, e se a escrita mata o pai, eu assassino esperanças.

Daniela
(5) no algaravial

 

terça-feira, abril 18, 2006
"saraIvada treis"

Lâmpadas de raio sem x, para tesouros com asas

É claro que o azul não virá voluntariamente engolir teus pés
e que a primeira visão a se ter na mata do escuro fechado é um homem de chapéu mau
enfiado na redonda e careca burrice,
(orelhas de corredor de vento conduzindo mãos de matar voz ainda na garganta)
é claro que o rio não vai fazer a volta na nossa cintura
e que a segunda visão a se ter na tarde sal-amarga é um punho contra o muro que não cansa
cravado na rugada e sozinha mudez,
e leva mais de um tempo inteiro até entrar pela outra porta da própria falta,
é claro que as vezes a sombra parece ter um anzol pescando perdas e duvidações
e o café esfria antes do cigarro
e o ponto as vezes nasce cego por que é melhor nem ver
mas é claro.
É tão claro, que podemos sempre nadar no avesso disso tudo,
o furo de bala e acaso mais limpos do mundo.

francieli spohr
(8) no algaravial

 


Vox Infimus


A


Cada dinâmica na qual
Se turva
Mesmo em riste
Prece ou brusca
Contenta
Mais discurso que si


A


Houvesse
Ou visse cromos-líricos
Ave às avessas
Adormecida dor

Dúvida
Conceito
Experiência


Sorver o verso
Vesúvio


(continua na próxima terça)

Thiago Ponce de Moraes
(3) no algaravial

 

segunda-feira, abril 17, 2006
96020-003

a insone senhorita eneida

cai a noite e eu me deprimo
pois fico aqui a pensar
naquele endinheirado primo
com quem não quis me casar

cai a noite e eu me deprimo
a cidade não quer conversar
o telefone não toca estridente
schlaf gut! azar

o meu que tenho insônia
que tenho medo de levantar
e ir ao banheiro - que vergonha!

só retorço na cama, em agonia
e quando enfim raiar o dia
talvez eu possa babar na fronha.

Angélica Freitas
(4) no algaravial

 


Ninguagem

Da série Nutrição da Pele



Esclerótica




losango bran-

co no

teu cham-

bre que a-

bre a-

berto pul-

so de

ti

Daniel Sampaio
(4) no algaravial

 

domingo, abril 16, 2006
Dados sobre a ressurreição no chocolate

Só um pedaço,
emtigo eu sou o umbigo do mundo se avessando
pra conter e preservar
daqui, o outro lado.
Só uma palma pra todos os pés,
dezessete anos e dando a mão por debaixo do rio.
Água pra molhar os joelhos e os tombinhos
é risada.
Só um pedaço,
se você também vai por ali eu descalço o caminho cansado
arranjo pras mãos um fio de mascar medo
duas torres, uma outra habilidade
uma camada extra.
A viagem é que faz todo dia uma outra lua
da mesma.
Eu não espero nem guardo a tarde.
São só os meus sentidos supervivendo,
além do gosto, do som, do tato, do visto e do faro.
Nossos pulmões extras,
pra susto, espera, pega
tapa, beijo, ausência, medo, gargalheira
e outros espécimes de improváveis.
Nossos pulmões extras, onde dá até pra plantar.

francieli spohr
(2) no algaravial

 


esvaziando gavetas, domingo.

pontue um domingo: horas que passam arrastadas porque você sequer telefona.
emudeça um domingo: chuva sobre o telhado e sobras de poesias mal acabadas .
empalideça um domingo: mãos desencantadas pelo sol que não soube chegar.
eviscere um domingo: leonard cohen e a maldita saudade inscrita ao lado do peito.

douglas D.
(5) no algaravial

 

sábado, abril 15, 2006
Algaragratos!

A algaravária agradece imensa às poetas convidadas - Virna Teixeira e Ana Peluso - pelos poemas e entrevistas inéditos (confira logo abaixo). Na semana que vem, mais duas algaravariações de peso. Aguarde.

algaravária
(2) no algaravial

 


Algaravariações (02): Ana Peluso




Ana Peluso, a primeira inédita em livro convidada da algaravária, paulistana, desenhista, escritora, poeta, um filho, idéias a torto e a direito, dança ao encontro do destino, sem pressa, sem alarde, mas em constante combustão. Editou por 4 anos o site de arte e literatura Officina do Pensamento, e participou de algumas antologias com prosa e poesia. Escreve todo dia para se manter sã, percebe que não funciona muito, e por isso mesmo continua tentando.

Confira abaixo quatro poemas e a entrevista inéditos gentilmente cedidos à algaravaria.







QUATRO POEMAS



o peixe ante o sismo


o peixe advinha o mar.
...docas
...submersas
em civilizações de areia e cal.

o peixe adivinha as ondas
...expostas
...circunflexas
ante o cal e as civilizações de areia.

o peixe advinha
- se, estilete
entre moléculas de civilizações de areia
e cal

e
........seus dois lados refletem
os dramas vizinhos
dos mundos.

adensam-se mudras.
o céu
feito de espumas revoltas.
a visão do cataclismo.
o início
e fim do cordeiro.

o peixe advinha.
e precede
o cordeiro.


POESIA SEM ESTILO


Se isso é um canto, poema ou saudade
de um tempo que vai e vem sem sentido,
seria esférica a estúpida realidade,
à qual fere o senso, essa falta de estilo?

O que aspiro foge à realidade,
e me sinto ao léu num mundo sem fermento,
enquanto discorro sobre a possibilidade
de ser bolo, bala, antepasto, ungüento.

Nada do que sinto encanta-me os ouvidos
melhor do que esse breve e insano instante,
em que não busco palavras, nem as duvido:
apenas ausculto seus tambores errantes.

Torpes e rotas, elas se fazem mutantes,
e libertas, tramelam seus estampidos:
ecoam seus gritos transbordantes
entre giros e giros, e, entretanto, giros.

O tanto que podem, me observam ausentes
de tudo o que transborda de mim, delirante.
E quando retornam para si, entre dentes,
de onde saíram, o silêncio é gritante.

O mesmo que não nirvana minha mente
durante e após esse rito absurdo,
e que só encontro igual novamente
quando fecho os olhos, à noite, e não durmo.




Morte como Hélio Oiticica


entre a cama e a parede
há espaço suficiente
para se entregar
às eternas garras
da vida na carne

entre a cama e a parede
há quatro dias sem fim
quatro noites afins
e o quarto inteiro
- um jardim -
de rosas embaladas
em filó

no quarto de Hélio Oiticica
há uma espremeção
que mata a gente
um pouco aos poucos
um pouco devagar

há um não sei quê
de sem caminho
um retrato sozinho
na mente
e um monte de lembrança

como a vida é sacana
e como é duro amar
..........................o
bicho e suas cabeças
todas as sete vezes
.................setenta
que elas surgirem
rugindo

esse desalinho espremido
gemido quase mudo
mas em fúria
toda essa rachadura
do limite
a dinamite que explode

tudo isso tenho
montado
no quarto de Hélio Oiticica
aonde eu durmo



Tronco


dois olhos ovóides
sobre um nariz ovóide
sobre uma boca ovóide
sobre um queixo ovóide
sobre um pomo ovóide
sobre dois mamilos ovóides
sobre um umbigo ovóide
e
sob um membro
dois ovos de aço






ENTREVISTA



1. Trajetória de antes


Há uma obra ou autor com a qual tenha descoberto a literatura e a poesia em particular?

Sim, na infância gostava muito de Charles Dickens e Maurice Druon. Na adolescência, de Veríssimo, o filho. Só aos trinta e três anos fui ler poesia, porque meu pai era sonetista, e eu tinha aversão àquela métrica, então a poesia demorou a conversar comigo. Foi quando dei de cara com Drummond. Foi um encontro muito marcante. Eu lembro que parei e pensei putaquepariu, esse homem sente o mundo exatamente como eu!. Claro que tentei imitá-lo, no inicio, mas não deu certo. Haroldo e seus seguidores musicais já tinham falado comigo por outras vias.


O que falta para publicar o primeiro livro?

Sinceramente, não sei. Não é medo de levar não de editora, mesmo porque não descarto a opção da edição do autor, e também não é falta de material. Talvez, seja uma espera pela maturação. Eu sou uma poeta sem estilo. Tenho vários, e isso não é muito bem visto. Pelo menos, não para quem teve coragem de me dizer. Em todo caso, se demorar mais um pouco, e meus vários estilos se mantiverem, assim, intactos em sua não opção de comungar de uma mesma gleba estilística, vou dar a cara à tapa, e me assumir como uma poeta sem estilo, mesmo. Até porque o mundo, e meu mundo em particular, é bastante diversificado para eu me ater a um mesmo formato.
No fundo, isso, de estilo, empobrece a poesia, enquanto arte. Essa coisa de marca, de estilo, de saber quem é o autor pela poesia dele... sei lá.
Eu quero ser lida sempre com surpresa! Não quero aquela coisa, é isso ou aquilo, porque é da Ana Peluso. Ou isso é a cara da Ana Peluso, só podia ser dela! Eu não tenho cara, enquanto poeta. E me pergunto freqüentemente o porquê desse lance de estilo ser tão cobrado. Porque não abrimos espaço para a diversificação que alguns autores têm a habilidade de explorar. Enfim... isso daria um bom debate.


Ser poeta é mais talento ou esforço? Descobriu-se ou inventou-se poeta?

Me descobri. Poderia ter me inventado há mais de vinte anos, se soubesse de coisas que não sabia na época. Como eu coloquei na primeira questão, só fui ler poesia aos trinta e três anos, e fugi literalmente da faculdade de Letras. Me levantei e saí sem dar, ao menos, um tchau. É tempo demais sem conhecimento das possibilidades.
Mas não acredito que seja apenas o talento ou o dom que fazem um bom poeta. Tem o esforço de rever cada verso, buscar a palavra perfeita, que traduza melhor aquilo que se quer passar.
É um labor (, mas) com sabor!


Quais livros fizeram parte de sua formação?

Crônicas. Eu devorava as crônicas do Veríssimo! Lia, relia! Era algo incrível. Sempre gostei do humor refinado dele. Acho que muito pelo bom humor que carrego comigo, também. Já dos clássicos que me apresentaram na escola, nenhum deles me marcou. Eu achava um saco, aquela coisa de ler o livro, e fazer a prova. E eram livros enfadonhos. Ninguém colocou um Kafka nas minhas mãos aos treze anos, infelizmente. Ou uma Clarice, ou ainda um Machado. Foi falta de sorte. Eu poderia ser escritora há muito mais tempo, se tivesse lido a coisa certa.


2. Psicologia da composição


Tem obsessão em reescrever o mesmo texto? A emenda é pior do que o soneto?

Isso acontece mais com a prosa. A emenda nunca foi pior do que o soneto, nesse caso. A prosa precisa mesmo de revisão à exaustão. Existe uma curva dramática, um momento certo para algo acontecer, uma frase que conte aquilo com o enlevo necessário, existe um barro a ser moldado da melhor forma possível, senão se perde a forma. A prosa é um trabalho mais engenhoso (pra mim), e revendo, a gente consegue dar um contorno melhor, um arremate no ponto, e também no momento certo. Escrever um conto pode ser um exercício de anos. Talvez por isso eu tenha centenas deles, inacabados e inéditos. Nunca me satisfaço com eles. E os poucos que destinei à publicação, não estão prontos, noto depois.
Chega a ser um processo doloroso, principalmente quando o fôlego se estende, e percebo que não estou mais escrevendo um conto, mas o início de um romance. Aí, paro. Não existem condições financeiras para parar a vida e dedicar tempo para a existência de um romance. Não, no momento. E infelizmente.


Guarda tudo o que escreve? Ou elimina sumariamente?

Quando eu tinha vinte e seis anos, queimei dezoito volumes de escritos. Fiz uma fogueira no quintal e fiquei horas vendo tudo aquilo virar cinza. Me arrependi até o último fio de cabelo, mas só muito tempo depois. Eu não levava nada daquilo a sério, e hoje vejo que deveria ter levado. No mínimo, era um material para ser revisto agora. Depois disso, aprendi. Não deleto, nem jogo fora, nada, nada do que foi escrito ou desenhado. Tive um professor de desenho que dizia pra gente jamais jogar fora um esboço, que fosse. Desobedeci. Quando queimei os escritos, queimei esboço, tela, queimei até arte final... Depois percebi que estava querendo fugir da arte, queimar o caminho que me ligava à ela... Eu queria, naquele momento, portanto, outro caminho. Tracei e quebrei a cara.
Eu sempre fui um pouco rebelde mesmo.


Sua criação é mais notívaga ou diurna? Poesia tem hora?

Totalmente notívaga. A noite tem um silêncio quase mágico. O contato que eu tenho comigo mesma à noite é diferente daquele que tenho durante o dia. Eu consigo um diálogo interno mais intenso. Tudo flui melhor. Ainda mais, nessa cidade de São Paulo, que já amanhece fazendo barulho.
Já a poesia não tem hora. Anoto no papel que estiver mais perto, e trabalho à noite. Perdi muita poesia feita com a boca, por falta de papel, caneta e boa vontade de quem estava por perto, na ocasião. Hoje ando com um caderno e uma caneta na bolsa para o caso de acontecer qualquer eventualidade.


Tem muitas epifanias? Quando?

Eu acho que já nasci epifânica. Vivo em duas dimensões ao mesmo tempo, desde que me conheço por gente. Posso estar aqui e lá, e aqui e lá terem a mesma intensidade de realidade, ao mesmo tempo. É algo um tanto inexplicável. Então, chegar nesse êxtase, para mim, é fácil. Um pôr-do-sol pode fazer isso. Qualquer acontecimento, por mais simples, banal, que possa parecer aos olhos de outras pessoas, para mim, pode se tornar um portal para o divino.


Para escrever, é necessário comer, beber, fumar? O que organicamente anima sua escrita?

Café, água e cigarro. Uma bela mistura!


Com quantas metáforas se faz um poema?

Com todas ao alcance, num momento impreciso, sem coordenadas cardinais, e totalmente sem moral.
Se baixar algum juiz, eu mando ele, categoricamente, à merda.


O que é matéria para a poesia?

Toda a disponível, incluindo a prima: o pensamento.



3. Prosa do próprio mundo


Como define a sua poesia? Como caracterizaria suas ambições estéticas principais?

Eu acho que tenho várias vozes, se é que podemos definir a minha poesia especificamente - assim, pelo lance dos vários estilos acontecerem sem existir fases poéticas. Até porque acabo de começar! Sou um bebê-poeta ainda, fazendo um gugú-dadá musical. E acho que não tenho ambição estética, mas gosto de escrever para quem sabe ler. E uma vírgula, para que lê bem, trança o babado todo de tal forma, que a poesia fica rica, sendo simples. Mas tenho experiências guardadas à sete chaves, e pretendo fazer delas, uma tentativa estética, digamos.


Qual a relação entre seu trabalho e sua escrita?

É uma relação estreita, porque trabalho com desenho, com cores, com formas, que me levam à outras formas, e isso acaba possibilitando um mundo surreal, assim, de cara. Atrás da ponta de um lápis, existe alguém que pode desenhar o que não existe. Então, a literatura tenta fazer o mesmo caminho. Nem sempre acerta, mas tenta.


O que mais lhe agrada em um poema?

Um belo soco no estômago. Sou antiga. Gosto de coisas fortes, temperos fortes, nuances fortes, cores gritantes, vida. Não faço parte dessa turma que tenta suavizar o sangue, apelando para um improvável tom rosa, de um sangue misturado à água, quando se lavou o cadáver. Sou muito visceral pra isso. Um improvável tom rosa de um provável sangue já faz do sangue um não-sangue, mas água com um pouco de sangue. Então, não me venha com essa de que isso só é poesia. Pode até ser. A poesia de outra pessoa, não a minha. E não falo das metáforas, mas da idéia que compõe a poesia.


Qual a relação entre sua poesia e a música? Alguma com letras?

Total. Numa das oficinas do Willer, ouvi dele o seguinte: você deve ter lido muito Chico Buarque. Sim, li muito poema do Chico Buarque, do Caetano Veloso, do Zé Ramalho, e de tantos outros. Música é um mundo àparte, e acho que só faço poesia, porque sendo ela bem escrita, e, conseqüentemente, bem lida, a música está ali, nas quebras, no ritmo. Adoro ler poesia em voz alta, só para sentir a musicalidade dela.


Qual a relação entre sua idéia de infância e sua poesia?

Nunca parei para pensar nisso..., gozado... Mas sua questão suscitou uma série de imagens poéticas. Talvez seja um bom material a ser trabalhado. Por outro lado, acabo de descobrir porque nunca pensei nisso... Mesmo criança, eu sempre fui adulta. Com dez anos de idade eu já discutia o desmatamento da Amazônia com políticos amigos do meu pai. E eles me ouviam, o que não sei se é bom ou ruim.
Lembro de um escândalo envolvendo o filho do Figueiredo, que estourou e foi recolhido rapidamente, quando o pai fez uma viajem ao exterior. O filho, já nos anos 70, estava envolvido com a venda ilegal de madeira do Amazonas para os norte-americanos... Aí vejo essa movimentação toda em torno do assunto, e penso que o povo não tem memória mesmo. As provas estão sempre no passado.


O que além da poesia precisa ser lido?

Um pouco de tudo. Gosto muito do que chamo de fonte. Então, leio muita coisa considerada maluca, ou apócrifa. Não porque eu esteja atrás da verdade, mas por estar, justamente, atrás da farsa. Das grandes mentiras criadas para controlar o ser humano. Isso é um assunto de suma importância para mim. Não posso criar uma literatura de entretenimento, apenas. Já estamos entretidos o suficiente para não sacar o movimento de controle que acontece, há séculos, sobre nossas pobres cabeças endividadas. Em cada época, houve um bobo da corte. Agora, abrindo os jornais, fica evidente que existem vários, e que isso tem um porquê; e ainda: que esse porquê é bastante significativo, apesar de passar desapercebido pela grande massa.
E leio de forma totalmente desorganizada no que diz respeito à ordem cronológica muita filosofia.


Já ganhou prêmios literários? Quais? Qual a importância deles?

Nunca. Quer dizer, ganhei um, por um conto, mas nunca recebi. Não acho que prêmios validem um texto. A bancada julgadora está observando apenas os textos participantes, e podem existir pessoas escrevendo coisas muito melhores, no mesmo quarteirão, sem que a bancada saiba... Acho que prêmios são uma maneira rasa de qualificar qualquer feito. Mas aceito um, na boa. Principalmente, se for em espécime.


Como se sente quando comparado com outros escritores?

Me considero uma sortuda. Certa vez li, vindo de alguém: Nossa, isso que você escreveu parece de fulano!. E a gente sente, percebe, lê a entrelinha que a pessoa nos destina, quando envia um comentário desses. Ela quer dizer que não há nada novo ali, que é apenas uma influência. E como a pessoa não conhece sua trajetória, ela erra.
É quando penso Poxa, que bom! Eu sequer li fulano, e escrevo como ele?!.
Eu vivo dizendo que sou a prova viva de Kant. Tudo comigo acontece a priori. Ou seja, eu não preciso ler fulano e beltrano para saber o que eles pensaram. Eu penso, elaboro minhas filosofias próprias, e só depois descubro que já existiu alguém com a mesma idéia. Isso é muito recorrente em mim, em vários sentidos, com causas diferentes. Acontece com fatos contemporaníssimos, de sacar uma coisa, pensar porra, é isso!, e quinze dias depois encontrar alguém que publica algo igual, sem tirar, nem pôr.
É quando penso não ou a única louca.
Mas acho chatíssimo esse lance de comparação. Você pode escrever estiliscamente falando como alguém, mas trazer novas imagens, novas sacadas, a visão de outro momento do mundo. Enfim, é outra questão para se debater. Não há nada novo, e parece que uma grande maioria fica meio puta com isso. Ninguém tem paciência de aguardar o novo chegar, se é que isso é possível. Digo novo, na forma de expressão literária. Fica mais fácil descer o pau em quem que recria sobre o velho.
E, por outro lado, quando você ousa, aparece alguém para dizer Ei, ei, você não pode tudo, não.
É como um jogo de agrados a gregos e troianos.


Criação é risco? É libertação? O que é e envolve?

Criação é risco, é libertação, é cárcere, é loucura, é santidade, é sacerdócio, é um troço louco que te invade (ou já te habita), e precisa ser expresso. Envolve o eu, a essência, a forma de ver o mundo. Quem se mete à besta de escrever, criar ou re-criar, pintar, desenhar, seja-lá-o-que-for, sabe que isso vai exercer uma profunda transformação, antes de tudo, em sua própria vida, em sua própria essência, na sua forma de encarar o mundo. Por isso não ligo muito para elogios ou críticas, relativas à nada do que eu faço, porque tudo o que eu mostro, já conversou comigo antes, e o diálogo funcionou bem. Como na maior parte dos casos, a criação não é um produto, ou seja, não se ganha um puto com ela, eu, pessoalmente, acredito que ela deva agradar ao seu criador, antes de tudo. Senão, não faria o menor sentido concebê-la.



4. A poesia e suas questões em questão


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

Algumas experiências nesse campo me parecem bastante interessantes. Não são todas. Eu não sei dizer se o trabalho poético de um ensaísta/ crítico/ acadêmico é livre de seu próprio filtro - aquele que zela pela impressão da qualidade do que ele já conhece - a ponto de permitir que ele vá além daquilo que ele já sabe ser (muito) bom. Além de tudo, paira a dúvida: poderia ser considerado um trabalho genuíno?

Existirá mesmo o poeta, o ingênuo, o que não freqüentou uma aula sequer, mas percebe o mundo como mundo, sem precisar da visão alheia como referência, seja estética ou de qualquer outra espécie?

Por outro lado, acho estimulante a participação desse pessoal, por se tratar, antes de tudo, de um estudo in locco, ou seja, são pessoas que tem o prazer de experimentar seu objeto de estudo. Escritores, de certa forma, também são cientistas. E, nesse caso, aludindo à (e alcunhando por) uma possível metalinguagem aplicada, fica patente a vastidão dessa arte.

Quanto à erudição, para quem olha e vê o mundo, falta tempo. Acho que pode existir um erudito em um poeta, ou um poeta num erudito, e isso fica muito bem representado por Haroldo de Campos, que expandiu seus conhecimentos aliados ao seu dom de tal forma, que alcançou a música popular brasileira, e foi além. Escreveu idiomas. Cantou, decantou, vestiu príncipe de pobre. Fez o diabo. E era um erudito. Um poeta erudito. Um erudeta ou um poetito, como talvez concordasse ele, se não fosse modesto por ser honesto, e pudesse estar aqui, conosco, trocando idéias.

Poesia também se faz com leitura. O estudo é opcional. E a escolha: dirigido ou autodidata, a escolha ainda é do poeta.

Aliás, a educação formal deveria ser toda autodidata, ou incentivar ao máximo sua prática. Quanto mais cedo as pessoas descobrem seus verdadeiros interesses, menos elas vagueiam por aí, para servirem-se de suas buscas como metas, ou servirem às buscas incessantemente fakes de um - aí, sim! - utópico bem estar. Quem está endividado, não pode se sentir bem.

E, cogitar a felicidade como bem estar seria uma atitude por demais leviana, por ser insana a idéia de sua existência. Ao menos, aqui, nesse tipo de existência.


O que a poesia tem em comum com a filosofia?

Talvez a poesia - em muitos casos - ambicione sintetizar a filosofia. É uma forma mais imediata de passar uma idéia, um conceito ou mesmo um pensamento inteiro de um filósofo, se utilizando poucos versos. E quando isso cria um elo com a contemporaneidade, fica bastante interessante.


A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?

Eu gostaria de responder de forma irônica, porquê já sabemos a resposta: não. Ninguém compra poesia no mesmo tanto que vai o teatro, cinema ou shows. Por mais que se criem eventos, basta um olhar: 80% dos participantes são do ramo. Não sai em coluna social, porque não interessa nem ao pouco ao sistema promover algo que faz pensar, que abre possibilidades outras, de vários teores, e que, ainda por cima, bate de frente com a sua estrutura.

Não é produto, e nem pegaria bem o merchandising que temos à disposição servir à sua difusão. Imagine uma propaganda que torne a poesia conhecida para recolher o prestigio que merece, com o seguinte slogan: "Fulano(a) (modelos, atores, socialites, homens de negócios, dançarinos, políticos, e sabe-se-lá-o-quê-mais) lê "Beltrano" (o poeta que virou estrela; melhor, produto)". Em seguida, ele(a) leria um trecho de algum poema do livro, e um texto contendo o valor do livro, o nome do autor, dedicatória e a editora, surgiria da transparência para a visibilidade.

Isso tudo seria válido se o mundo fosse ético. O que é uma utopia tão grande, quanto achar que, um dia, a mídia vá veicular livros, assim como se vende sabão em pó. Livros são armas, já disse "um deles". Voltadas para que comanda, emendo.

E o prestígio que ainda existe fora da comunicação mais amplamente difundida, é pouco para o tanto da produção existente.

Existe pouco espaço para muito autor. E existe pouco leitor, porque existindo pouco espaço, o "produto que não é produto" não se torna conhecido.


Qual o papel do escritor na sociedade?

Essa é uma pergunta um tanto difícil de responder, porque vejo a literatura como essa arma, descrita aí em cima, mas em favor de um entendimento.

Entretanto, do que adiantaria armar essa população, se o sistema já chegou num ponto em que lutar contra ele significa morrer de fome?
Acho que - enquanto modelo de sociedade - já fomos longe demais para acontecer um retorno.
A não ser que o mundo inteiro acordasse iluminado (recado poético que o sol não conseguiu passar até hoje), qualquer tentativa de elucidação em massa seria desperdiçada.

De nada adianta a liberdade, se não houver comida.

Ao mesmo tempo, a relação é estreitíssima, porque o escritor, mesmo sabedor de que, por mais que chegue, ainda chega a poucos, é o grande narrador de seu tempo. O agora não pode ter essa importância para todos, e muito menos sua compreensão.

Por isso a literatura não conta com um incentivo de porte, digamos. Quanto menos pessoas adquirirem livros, e apreenderem seus conteúdos, menos pessoas capazes teremos. E poucos sempre comandaram mais do que muitos. Só não sei se melhor.


A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

Não acho que isso seja possível, porque ao mesmo tempo em que eu continuo achando que o totalmente novo seja impossível ou improvável, a combinação do que já aconteceu com aquilo que a mídia virtual possibilita, pode ser uma via interessante. E acho que isso responde às duas questões.


Há obras meramente comerciais de poesia? O que pensa delas?

Não. Não acredito que exista. Não conheço poeta que vive de poesia, só. Se for meramente comercial, já se pressupõe-na como um produto, e poesia sequer cabe comercialmente nesse conceito. Poesia não é produto. É concepção.

Entretanto, se surgir alguma, será a poesia do produto, e intuo que eu, já de cara, pensarei em levantar uma bandeira imensa: SAY NO TO INC POETRY.

E a bandeira será tarjada na língua dos donos do mundo, que é para ficar bem mais clara a intenção e direção da seta.


Políticas literárias: faz qualquer negócio para sua obra ser editada? é justa a percentagem que fica para o editor e para as livrarias? É justo que o escritor seja a causa produtora de um sistema literário que não o beneficia corretamente? O que se pode fazer?

Por partes: não, não faço, nem faria qualquer negócio para editar meus contos e poemas. O máximo de sacrifício que poderia acontecer de minha parte seria bancar uma edição do autor, caso houvesse o banco...

É injusta a situação, mas é o que acontece com toda a gerência que ancora a arte. Músico fica com menos, ator, diretor e cia ltda, todos, idem, mal pagos. E é injusto, também pelo que você colocou: um lado entra com a possibilidade daquilo existir, mas aquilo já existia antes... É quase um paradoxo mal resolvido.

Só não chega a constituir um de fato, por ser esse sistema o órgão de condução da existência da obra do criador até conhecimento popular.
Então, eu diria que a passagem está muito cara, e que a condução atrasa, isso quando ela existe. Na maior parte das vezes, só se inaugura o ônibus. E se corta alguma fita. Ele mesmo só leva pedradas, e quem está dentro é que se fere.


Qual a melhor editora brasileira? E qual a que edita melhor a poesia?

Não me guio por editoras. O sabor está na obra. O tempero pertence à ela.


Qual a relação entre a poesia e técnica? Basta dominar certas técnicas para ser poeta?

De jeito algum. Inclusive acho isso um perigo. Existem inúmeros tecnopoetas, que podem servir, inclusive, para a poesia se tornar um produto.


Como avalia o movimento concretista em relação à produção poética contemporânea?

Bom, vou precisar resumir o movimento concretista a Haroldo de Campos, e alguma pouca coisa de Augusto, já que Décio nunca chegou até mim, ou eu nunca fui atrás dele, não sei. Então, partindo dessa premissa, eu acho que a música foi mais beneficiada pelo concretismo do que a poesia em si. É fácil reconhecer traços concretistas no trabalho de quem se dispõe (ou propõe) a ele, como condutor de linguagem. Mas pouca gente pegou o principal, que é o idioma que Haroldo de Campos criou. Ele conseguiu fazer da poesia, um idioma. Acredito que quem melhor traduz isso, pela forte influência que carrega, não nega, mas também não alardeia, é Caetano Veloso.

Entretanto, voltando à música feita para ler, acho que, antes de qualquer coisa, incluindo tudo o que eu escrevi até agora, o concretismo fundiu a metáfora convencional à multiplicação dos sentidos, de maneira a atingir cada vez mais a síntese, com o uso de menos recursos. Qualquer um que leia "Galáxias", percebe que, caso fosse escrito um ensaio ou um romance, no lugar de poesia, a idéia não caberia em um livro, apenas. É quase como filosofar em alemão (pela exatidão que carrega), caso o alemão pudesse conter todos os idiomas do mundo (pela quantidade e possibilidades de significados).

Nas mãos (boas) de seguidores do concretismo, o que, a leigos, pode parecer brincadeira, a um olhar mais atento, um universo pode ser vislumbrado. Então, essa síntese passa a acompanhar a pressa do mundo de hoje, provando sua legitimidade. A necessidade da urgência em comunicar, aliada à arte de fazer isso se expandir nessa abrangência, faz daquilo que já era uma pequena filosofia, algo ainda menor, mas menor apenas à primeira vista; se houver a compreensão, um mundo, imenso às avessas, está contido ali.

Quem sabe se um dia chegaremos a quark-poesia? E quem poderá dizer se isso será ruim? Não sabemos da capacidade intelectual que teremos adquirido, se isso um dia for possível.


A figura do escritor precisa ser mais mistificada ou desmistificada? O que isso envolveria?

Um escritor mistificado é um leviano, por concordar em participar disso. E isso não acontece por obra & graça do leitor, mas da mídia. Por isso, a leviandade. A mídia só vende aquilo que interessa a quem a banca. E quem a banca, não está nem um pouco afim de desentreter para revolucionar.

E isso envolve tudo. Envolve o cidadão, que termina engolindo o que está mais bem estampado na livraria, compra aquela idéia, e faz dela, um rito. É o caso dos livros de auto-ajuda, os best-sellers gringos (e mesmo os tupiniquins). Oh, Caox!, se é auto-ajuda, já está dado o recado: ninguém pode fazer por você o que é sua obrigação, ou aquilo que só você tem - em hipótese, pelo significado do termo - capacidade de fazer por si mesmo. Auto-ajuda é, antes de tudo, uma farsa.

Agora, se a gente tirar um ésse de uma das palavras da sua questão, e falar do autor mitificado, tudo muda de figura. Ele é um mito, porquê sua obra resistiu ao tempo. Resistiu ao controle das massas. Resistiu a tudo. Ele é um resistente, e isso envolve coragem e fé naquilo que se faz. Esse, ao contrário do primeiro, é autêntico.



5. Museu de agora e depois


Alguma epígrafe que o acompanha sempre? Algum epitáfio lhe contém?

Brinquei na oficina do Carlito Azevedo com a epígrafe do Sebastião Uchôa Leite, quase o xerocopiando: "Aqui concorre / para o ser confuso / Ana Luísa Peluso".

Meu epitáfio seria: "Viveu se confundindo para poder sobre viver".


Qual é hoje a marginália da poesia brasileira? Ela ainda é possível depois da internet?

Acho que ela cresceu. Somos todos marginais, mesmo. Em maioria esmagadora. Os marginalistas são os candidatos a marginais. Alguns são marginandos. E outros, já estão marginados. Tem margem pra todo lado. Só não vejo o leito do rio.


O que acha de saraus literários? Costuma participar?

Adoro, mas participo pouco. Minha relação com a literatura tem a ver com meu modo de ser. Sou mais de freqüentar encontros musicais, onde se possa beber, cantar, e nenhuma regra social necessite ser obedecida, como horário, traje social, e outros quetais que não me interessam. Mas já fui a saraus bem malucos, bem livres dessa onda de intelectualidade estampada na cara, que geralmente ronda esses ambientes.


O que pensa sobre a algaravária?

Acho um projeto bastante interessante e ousado, já que hoje em dia é impossível saber quantos são os blogs de literatura existentes, e se neles se firma um real compromisso com a literatura, enquanto, também, tema de discussão, e não apenas uma amostra dela.

E aproveito para perguntar ou sugerir aos leitores: qual o significado de "algaravária"?

algaravária
(10) no algaravial

 

sexta-feira, abril 14, 2006
"o espaço"

Paulo de Toledo
(4) no algaravial

 

quinta-feira, abril 13, 2006
O Dia da Noite

Puta ao ar livre

Eu também
mereço
com minha cara
com minha cara cheia de vergonha
com a cara que minha mãe me deu e meu pai cuspiu
eu também mereço
passear pelo campo
comer coisa boa
vestir flor
receber sorriso

Eu também mereço
desdenhar
de tudo que é desse bom e do melhor

Só não posso negar
a quem merece.

Carol Custodio
(5) no algaravial

 


esvaziando gavetas número dois

REZA - Apequeno-me diante desse dia que nasce e morre afunilando meu peito emudecido pelo descaso das primaveras.

ROGO - Rumino essa fome que volta e remói as minhas entranhas cegas e empobrecidas pelo abandono da sorte.

RÉSTIA - Sustento esse céu avermelhado a esperar pela chuva que devolverá estrelas cadentes aos meninos que sonham.

REDENÇÃO - Temo esse silêncio que adormecido expurga meus anjos arremessando virtudes no meu rosto.

[o silêncio da dor fingindo morte; a dor suja; imóvel; calcificada na alma]

douglas D.
(2) no algaravial

 

quarta-feira, abril 12, 2006
Partir da água


[Fazer água II]


1.

Ralo do orvalho à brisa,
o sol sujo,
a luz de salsugem
nas sobras do corpo.

A pele achacada pelo sol:
quase um charque.


2.

No fim do dia,
a carne salgada procura o mar
como se ele fosse uma boca.

A alga nos cabelos,
os cabelos de alga se contentam
com os poros finos da pele do chuveiro,
dardos de frio.

A água economiza o caminhante.


3.

Aceito imitar mármore de fonte, canto.
Tenho alegria na voz,
dissolvo o alfabeto a cada som.

Canto no banho,
a água me ensina a ser partitura.


4.

Minha música não erra,
minha alegria é o erro.

Quando o chuveiro se fecha,
arremessado beijo arrependido,
não cogito o que perdi.

Sei que sou ralo, e me basto.

Carlos Besen
(8) no algaravial

 


Riscos

Satisfy my soul

Amanhã te conto o que não aconteceu:
ópio & civilização,
fruição.

uma esperança vaga que encontro
todo dia
de canto em canto,
outro canto,
possibilidade,
debaixo da cartola.

Tarde: sonhei que não conseguia acordar, meus olhos não abriam. Eu estava numa banheira com você, que não me deixava ir embora. Perdi a hora. E mesmo assim eu não ia, tentava entender como há tanto tempo parecia que "só na despedida", e me abaixava entre as suas pernas.

Daniela
(3) no algaravial

 

terça-feira, abril 11, 2006
saIvada segunda

Atadura, solidão, aí não é raso


aquela era a minha barriga queimada
a minha briga sem porta nem faca
a flor contida em branco
a peste e a amora.

aquela era a minha vadia travando os dentes
a ponta do dia num traço cravado a facão
aquela era a minha barriga queimada
silêncio, morram todos.
Botar o mundo do lado de lá.

Quando eu era pequena já sabia que teria que fechar a casa,
mas por enquanto eu ainda era salva
por toda a fome fervente que a pele pudesse agüentar.
E um jardim com pernas, e as rosas falhadas, e as pedradas
marcando a água, e a televisão lá longe falando pela nossa nudez
e um silêncio que aos 13 anos não faz.

Na hora do chocolate, eu acordei, aquela era a minha barriga queimada.
Porque a gente é criança, e aprende melhor quando o brinquedo é colorido
ou quando dói.

francieli spohr
(9) no algaravial

 


Imp. 02

Que provém da sabedoria: provençal


Em certa feita
Montpelier não vale
O preço destes peda-
Ços.....(
...........Arte
...........Poictiers
...........)
De
N e-V e

Conciso Chaucer
Litterae Humaniores'

Father
E
Cia

Cai
Logos

Anos
N o-V a

Aurora
Viga

...........(
...........Nou-Veau
...........Nau
...........)

N u-V em
Vida

Experience is right
Ynough

Thiago Ponce de Moraes
(5) no algaravial

 

segunda-feira, abril 10, 2006
Ninguagem

Da série Nutrição da Pele



Entre as mãos



Em tua pele
petróleo
afogo a línguafogo
de minha fome
de sol
até teu busto
em combustão
engastar-se
Carol
no surto das mãos
que a sede
do óleo
de teus cabelos lodos
lacera como
o sol
e encena o susto
que a custo
tento conter
Carol
entre as duas mãos.

Daniel Sampaio
(7) no algaravial

 


96020-002

previsão do tampo

you don't need a weatherman
to know which way the wind blows
- b.d.

difícil falar em nuvens
quando você acabou de pisar
em merda na calçada

e não dá pra falar da bosta
entre os fumos
de uma vida boa

e quando teu corpo conspira
e não quer sair da cama
como chover na página?

e contra o tijolo dos dias
onde a fenda
para vazar água?

pela variedade
recomenda-se

além da mudança
de estados

sólido líquido e são paulo

ser feroz nas bavardages
maneirar no pó-de-arroz

Angélica Freitas
(6) no algaravial

 

domingo, abril 09, 2006

escutei meus ossos, besen [as tardes de domingo tem um fim; um sol POENTE, sempre, até quando não estamos por lá, ao avesso]

roí minhas unhas, sphor [domingo, fim de tarde; as paredes do meu quarto ganham nova brancura, SILENCIOSA. dá-me tuas palavras!]

há impensados buracos bem no meio céu, ponce [ as noites de domingo tem um início; um terno de estrelas CADENTES, mesmo quando não há mais o que desejar]

incomoda-me o calor úmido de belém, carol [domingo, anoitecendo; as preces chegam entreolhando aquilo que ESCONDO de mim]

vasculhei minhas gavetas vazias, pablo [danem-se todos os domingos de abril; abdico da lucidez, esse é o mês dos presságios ESQUELÉTICOS]

sonhei que deus sabia sorrir, angélica [malditas vozes RESSOANDO aos domingos; não desistem de saber mais e mais de mim]

costumava aninhar girassóis, daniel sampaio [ minhas vísceras mentem; desaceleram a PUREZA que os sinos anunciam, domingo]
não soube escapar ao lirismo, daniela ramos [meu corpo é fratura; PESA mais aos domingos, mas ninguém parece notar]
brinco de imaginar bichos nas nuvens, paulo de toledo [lanço os dados; espero a sorte SORRIR, é domingo]

Virna, as sinapses devoram a razão.
Ana, os instintos deliram o estilo.
Eu, espantalho.

douglas D.
(4) no algaravial

 


Cronópios!





A partir de hoje, a ALGARAVÁRIA está mensalmente na Cronópios! Nada pode ser melhor.

Nosso imenso abraço ao Edson Cruz e ao Pipol, fundadores e mantenedores do melhor site de literatura e arte no Brasil.

algaravária
(2) no algaravial

 


Uma idéia

Algumas pessoas têm da poesia uma idéia tão vaga que elas tomam o próprio vago como idéia da poesia.

Paul Valéry

Carlos Besen
(6) no algaravial

 


Richard Serra em três tempos, no nosso tempo

Freddie King, 1999
.
.

Al Green, 1999
.
.

Billie Holiday, 1999
.
.

Thiago Ponce de Moraes
(1) no algaravial

 




O golpe do anti-ceifo. © Francisco dos Santos.

"A sexualidade, mais do que no tema, está na maneira, no viscoso da busca, nas desfigurações desses esboços protagônicos que não chegam a personagens, que escapam a qualquer nomenclatura, que se representam na metamorfose de uma evanescente pantomima. Seres sozinhos, feridos nos labirintos de suas ilhas, no informe de um fundo que o pincel revela. Podemos, então, falar de paisagens diante desses fundos neutros que Francisco constrói? Paisagens que são, paradoxalmente, paisagens até lugar nenhum, limbos de um não tempo, territórios, - sem perspectiva e sem expectativa de saída - para o jogo eterno das aparições e desaparições."

Víctor Sosa
(Tradução: Virna Teixeira)
Víctor Sosa é poeta, pintor e crítico de arte. Nasceu em Montevidéu, Uruguai em 1956 e vive na Cidade do México.

poeta convidado
(1) no algaravial

 


esvaziando gavetas, domingo.

RIGIDEZ
Uma hora.
Outra vez
madrugada anunciando.
Insônia.
*
DEMÊNCIA
O quarto vazio relendo palavras
[ soltas, esquecidas, atropeladas]
Palavras-carne destrinchadas desse corpo magro e não tão branco assim.
*
PANÓPTICO-VÉRTEBRA
Manter os olhos fixos no monitor.
Manter os olhos fixos no monitor.
Qualquer movimento deve ser relatado.
Qualquer movimento deve ser deletado.
Control alt o quê?
*
ABSOLVIÇÃO
No banheiro
a torneira mal fechada
gota após gota
competindo com o tique-taque
do relógio da cozinha
[tenho o pressentimento de que há um ritmo único
a cadenciar meus pensamentos, lentidão]
*
DESESPERO, NU
Amparo a infância que agora chega às minhas retinas
[manter os olhos fixos no monitor por vezes fabrica memórias que a chuva não tocou]
*
O PESO DAS MÃOS SANGRA A PRIMAVERA
Aos treze ou doze anos estava sentado numa cadeira de balanço
vendo minha mãe morrer a morte arrastada que teimou em possuí-la
durante trinta e seis longos meses.
[creio que o menino em mim é imune à morte, sonho]
*
SOBRE DEUS, UM ACENO
Outra hora.
Vez por outra
é preciso silenciar o peito.
Poesia.

douglas D.
(5) no algaravial

 


saraIvada xxx

Meia-noite, matemática de variáveis dedos

Conte suas maçãs com as minhas laranjas e
não desconte o quebrado.
Nem o que o bicho levou.
O que caiu no chão também vale se tiver sido
juntado
antes do cão do vento.
Considere minhas laranjas nas suas maçãs.
Como caninos imaginários.

Por um punhado de jujubas um engasgo e meio.
Meninas que nadam às vezes acordam no céu.
Perto eu vejo pra vir,
eu não enxergo pra desossar.

Você vai e eu acho que esquecia de abrir a porta
dou leite para o gato,
nunca imagine sair da minha vida
sem um abraço ou um bom dia.

Dou leite para o gato,
posso montar sobre a tarde no meu rosto
a maquiagem da noite.
E não importa o que eu puser, serei feliz por baixo.

Conte as minhas tuas maçãs e laranjas.
Sem o que pudermos dispensar,
expulsando o desagrado,
as teias, o fardado, o fardo
o quarto quebrado, o meio bom.
Considere o minuto uma esfera
que nos solta do tempo.

francieli spohr
(3) no algaravial

 

sábado, abril 08, 2006
33!



Hoje a algaravariante Angélica Freitas disse 33! Parabéns e felicidades, eis o que deseja a trupe Algaravária.

algaravária
(3) no algaravial

 


Algaravariações (01): Virna Teixeira




Virna Teixeira, a primeira poeta editada em livro convidada pela Algaravária, é poeta e tradutora. Nasceu em Fortaleza e mora em São Paulo há vários anos, onde trabalha como neurologista. Publicou dois livros pela 7Letras, Visita (2000) e Distância (2005). Colabora com várias revistas de poesia e periódicos. Publica traduções e inéditos no Papel de Rascunho, escreve com o poeta mexicano Jair Cortès no Los excessivos, edita, ao lado de Claudio Daniel e Ana Rüsche, o blog de poesia africana Olokum e é também colunista do Cronópios.

Confira abaixo quatro poemas e a entrevista inéditos que Virna forneceu gentilmente à Algaravária.







QUATRO POEMAS



Titan


contava histórias
nos desenhos
da pele

mensageiro do submundo
mercúrio

um vulto
de mãos velozes
na poeira lunar

em trânsito
visões onde

se escondeu
das crateras
sulcos - mofados

na outra
superfície



o golpe do anti-ceifo


uma linha, arremesso. abismo de cores. a violência da nudez, o torso. a pressão dos dedos, suas marcas. possessão, obscenidade. o instante: um espasmo - descontínuo. eram imortais os corpos? azuis e rubros.

*

a paixão - uma simbiose. le diable, halo de morte, corrente de palavras. bestas que se arrastam, presas, egos, sombras.

*

dependência. libertação. o gesto de afastar-se, brusco. um ataque, braços em guarda, armados. lanças.

*

isolamento, ruptura. desnudar as palavras, uma por uma. être nu. imóvel, em silêncio.


(para catálogo de Francisco dos Santos)




fantaisie


o barcarolle se afasta
seu movimento incerto
distância líquida

impressões de chopin na água
devaneios móveis
noturnos

harmonia de delicadas ondas
angústia, profundidade

em forte crescente
pianíssimo

emoção:
transbordamento



Winterreise (gute Nacht)


a neve caía ao entardecer
montanhas de gelo
avalanches

abismos no íntimo
lembranças

silhuetas de galhos
as lágrimas congeladas
um amor de partida

Fein Liebchen, gute Nacht!

perambular no escuro
estrangeiro em toda parte








ENTREVISTA


1. Trajetória de antes


Qual sua trajetória literária até o primeiro livro?

Começei a escrever poesia na adolescência, e de forma mais regular após os vinte anos de idade. Em 1994, vim para São Paulo fazer residência médica e já morando aqui, fiz contato com alguns poetas quando passava férias em Fortaleza, como o Carlos Augusto Lima e o Manoel Ricardo de Lima. Através deles, entrei em contato com alguns poetas da região do ABC paulista, principalmente com o Fabiano Calixto e o Tarso de Melo. Nesta época começei a freqüentar alguns leituras em São Paulo. Foi uma época estimulante, pois o Robert Creeley tinha vindo ao Brasil e logo após sua passagem, estiveram em São Paulo os poetas norte-americanos Charles Bernstein e Douglas Messerli. Publiquei poemas em algumas revistas no final dos anos 90: Afinidades Eletivas (Fortaleza-CE), Monturo (Santo André-SP), e Inimigo Rumor (Rio de Janeiro-RJ). Depois entrei em contato com a editora 7 letras, onde publiquei meu primeiro livro, em 2000.


Ser poeta é mais talento ou esforço? Descobriu-se ou inventou-se poeta?

Ser poeta é mais esforço que talento. Descobri cedo meu interesse pela poesia, mas inventei-me poeta.


Teve algum incentivador principal?

Um incentivador indireto, meu pai, que sempre me estimulou a ler poesia.


Tentou vários gêneros literários? Ainda os pratica em segredo?

Eventualmente tentei escrever contos, em segredo. Mostrei para poucas pessoas. No momento tenho escrito ensaios.



2. Psicologia da composição


O que é matéria para a poesia?

Uma fotografia, um quadro, um filme, uma paisagem, uma cena urbana. Descobri com Edwin Morgan que pode-se escrever poesia sobre qualquer coisa.


Costuma começar pela primeiro ou pela último verso? Qual deles é o mais difícil?

Costumo começar pelo primeiro verso. O mais difícil é o último.


O resultado final do poema coincide sempre com sua idéia inicial?

Às vezes não.


Com quantas metáforas se faz um poema?

Poucas.


Para escrever, precisa conhecer muitas cidades e ler todos os livros?

Preciso conhecer muitas cidades, me deslocar, isso me estimula a escrever.



3. Prosa do próprio mundo


Como a poesia cearense está enquadrada no contexto brasileiro?

A poesia que se faz hoje no Ceará está muito bem enquadrada no contexto brasileiro e vive a sua melhor fase. Há jovens poetas de ótima qualidade como o Eduardo Jorge, o Diego Vinhas, o Henrique Dídimo, para citar alguns. Hárevistas como a Gazua e a Fantôme, que logo estará no mercado. Em breve também uma revista eletrônica. Estas revistas não são revistas locais, são nacionais, com integrantes de outros estados nos seus conselhos editorais.

O Carlos Augusto Lima, que atualmente é diretor do Instituto Cultural Dragão do Mar, tem sido um estímulo constante em Fortaleza, e publicado plaquetes de poesia contemporânea, de poetas estreantes; tem divulgado esse trabalho pelo país, além de incentivar vários eventos de poesia na cidade. Há leituras de poesia e grupos de estudo como o Palavra Cruzada e o Palavra Líquida, que atrai não só poetas, mas também leitores de poesia. Há ainda ótimos tradutores, como o Ruy Vasconcelos, que foi aliás o primeiro poeta no Brasil a traduzir o Robert Creeley. O Ruy tem traduzido vários poetas objetivistas no momento, como o George Oppen.


Qual a relação entre sua profissão e sua escrita?

Eu sou neurologista. Um bom neurologista deve ser observador, concentrado. Você deve rapidamente apreender uma situação clínica, realizar um exame neurológico metódico e imaginar o que acontece ali. Onde é a lesão? No cérebro, na medula, em um nervo periférico? A partir deste raciocínio, você estabelece um plano de ação. De certa forma eu utilizo essa técnica no meu trabalho, de apreender uma imagem e tentar entendê-la. Além disso, me especializei recentemente em Dependência Química e tenho incorporado um pouco desse conhecimento ao escrever, como uma série de poemas baseados no trabalho da fotógrafa americana Nan Goldin, que dialoga com comportamentos adictivos.


Como define a sua poesia? Como caracterizaria suas ambições estéticas principais? O que sua poesia procura compreender?

Minha poesia tende a ser concisa, embora eu tenha recentemente escrito poemas mais longos e também poemas em prosa. Há às vezes uma tendência narrativa e também descritiva. Também uma relação estreita com a imagem, a fotografia, é o que procuro compreender ou decifrar quando escrevo.



Qual a relação entre sua poesia e as artes plásticas?

Muito próxima. Gosto bastante de artes plásticas. Costumo freqüentar exposições, museus. Escrevi alguns poemas que dialogam com trabalhos de Leonilson, com a escultora inglesa Rachel Whiteread, com Henry Moore, com a pintora portuguesa Paula Rêgo, com Francis Bacon. Recentemente escrevi um poema em prosa para o catalógo do Francisco dos Santos, que também é poeta e editor da Lumme, gosto de conversar com o Francisco sobre artes plásticas.


Como vê a pontuação na sua poesia?

Gosto da tensão da pontuação, permite pausas, silêncios. Mas não gosto de reticências.


No fundo, sente-se escrevendo sempre o mesmo livro?

Não, embora exista uma espécie de continuidade no meu trabalho, que é tema do deslocamento.


Já ganhou prêmios literários? Quais? Qual a importância deles?

Minha única experiência foi o concurso da Funalfa, onde recebi menção honrosa com o livro Distância. O que me motivou a participar do concurso foi a possibilidade de publicação. Os prêmios também podem funcionar como uma espécie de termômetro da escrita, embora isso seja variável, a depender do júri.


O que além de poesia precisa ser lido? Cite outras obras.

Clássicos, filosofia, psicanálise, mitologia. Leio bastante, e gosto de não me limitar apenas à literatura.



4. A poesia e suas questões em questão


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo? A tradução de poesia é um trabalho de poetas?

Sim, o poeta de preferência deve ser um erudito. Poesia se faz com esforço e estudo. Acho que a tradução de poesia é um trabalho que deve ser feito de preferência por poetas.


Que movimento literário de vanguarda mais lhe surpreendeu? Por quê?

Eu preferiria não falar em movimentos, mas em poetas que procuraram caminhos diferentes, surpreendentes, de revoluções na linguagem, como Gertrude Stein, Ezra Pound, William Carlos Williams, Lorine Niedecker.


Qual a relação entre a poesia e técnica? Basta dominar certas técnicas para ser poeta?

Não basta apenas dominar a técnica. Há uma diferença entre vocação e talento.


A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?

Há mais leitores de poesia do que se pensa. A internet tem mostrado isto. Mas em geral há pouco hábito de se ler poesia no Brasil, como em toda parte. Quanto ao prestígio dos poetas, penso que em alguns lugares, como na Grã-Betanha, o poeta é mais valorizado. Existe a figura do poeta laureado, do poeta condecorado pela Rainha. E não é um mero academicismo, ou nacionalismo, são poetas da qualidade de um Ted Hughes, de um Ian Hamilton Finlay.


A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

Não. Caminhos para evitar um esgotamento? O make it new de Ezra Pound é um ótimo conselho.


Há obras meramente comerciais de poesia? O que pensa delas?

Difícil falar em obras meramente comerciais de poesia, mas há poetas que escrevem versos fáceis para alcançar o grande público, uma espécie de escrita pop. Este tipo de poesia não me interessa.


Como deve ser a poesia para crianças? Tratar-se-ia de um novo gênero? 

Uma poesia que exercite a imaginação e que tenha uma linguagem rítmica. A sonoridade atrai a atenção das crianças. Não é outro gênero, apenas o público-alvo é distinto.



5. Museu de agora e depois


Já ministrou ou pensa em ministrar oficina de poesia? Como ela foi/será?

Nunca ministrei oficina de poesia. Objetivamente penso que seria talvez uma oficina de tradução, onde eu poderia expor um pouco do meu trabalho como tradutora, discutir alguma coisa sobre tradução, propor exercícios, discuti-los.


O que acha de saraus literários? Costuma participar?

Tenho participado de leituras de poesia recentemente, é um aprendizado ler sua própria poesia em voz alta para um público, escutar outros poetas. Há muitos eventos em São Paulo neste momento, a Casa das Rosas, por exemplo, ébastante receptiva para leituras de poesia. Há outro espaço interessante, a Rato de Livraria, que organiza saraus mensais.


Que conselhos daria a quem está começando?

Muita leitura e persistência.


Como você se vê frente ao recebimento de originais? Comenta tudo o que recebe?

Sim, comento. Se alguém me mostrar um poema eu procuro comentá-lo.


Prepara um livro para logo? Qual seu eixo principal?

Sim, estou terminando um terceiro livro, que tem um título provisório, Em trânsito. O eixo principal é o deslocamento, as viagens, mas também a idéia de transitar por outras artes e de experimentar um pouco com outras formas.


O que pensa sobre a algaravária?

Uma idéia excelente, reunir poetas estreantes com estilos diversos, de diferentes partes do país, e que ainda não publicaram seus livros. Isso facilita bastante o diálogo, quebra o isolamento, porque o início é difícil, há muitas dúvidas: em que revistas publicar, como publicar o primeiro livro, entre outras.

algaravária
(1) no algaravial

 

 

Arquivos
Abril 2006
Maio 2006
Junho 2006
Julho 2006
Agosto 2006
Setembro 2006

 

 

Powered by Blogger

Template by Ernesto Diniz



 

eXTReMe Tracker