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sábado, abril 08, 2006
Algaravariações (01): Virna Teixeira




Virna Teixeira, a primeira poeta editada em livro convidada pela Algaravária, é poeta e tradutora. Nasceu em Fortaleza e mora em São Paulo há vários anos, onde trabalha como neurologista. Publicou dois livros pela 7Letras, Visita (2000) e Distância (2005). Colabora com várias revistas de poesia e periódicos. Publica traduções e inéditos no Papel de Rascunho, escreve com o poeta mexicano Jair Cortès no Los excessivos, edita, ao lado de Claudio Daniel e Ana Rüsche, o blog de poesia africana Olokum e é também colunista do Cronópios.

Confira abaixo quatro poemas e a entrevista inéditos que Virna forneceu gentilmente à Algaravária.







QUATRO POEMAS



Titan


contava histórias
nos desenhos
da pele

mensageiro do submundo
mercúrio

um vulto
de mãos velozes
na poeira lunar

em trânsito
visões onde

se escondeu
das crateras
sulcos - mofados

na outra
superfície



o golpe do anti-ceifo


uma linha, arremesso. abismo de cores. a violência da nudez, o torso. a pressão dos dedos, suas marcas. possessão, obscenidade. o instante: um espasmo - descontínuo. eram imortais os corpos? azuis e rubros.

*

a paixão - uma simbiose. le diable, halo de morte, corrente de palavras. bestas que se arrastam, presas, egos, sombras.

*

dependência. libertação. o gesto de afastar-se, brusco. um ataque, braços em guarda, armados. lanças.

*

isolamento, ruptura. desnudar as palavras, uma por uma. être nu. imóvel, em silêncio.


(para catálogo de Francisco dos Santos)




fantaisie


o barcarolle se afasta
seu movimento incerto
distância líquida

impressões de chopin na água
devaneios móveis
noturnos

harmonia de delicadas ondas
angústia, profundidade

em forte crescente
pianíssimo

emoção:
transbordamento



Winterreise (gute Nacht)


a neve caía ao entardecer
montanhas de gelo
avalanches

abismos no íntimo
lembranças

silhuetas de galhos
as lágrimas congeladas
um amor de partida

Fein Liebchen, gute Nacht!

perambular no escuro
estrangeiro em toda parte








ENTREVISTA


1. Trajetória de antes


Qual sua trajetória literária até o primeiro livro?

Começei a escrever poesia na adolescência, e de forma mais regular após os vinte anos de idade. Em 1994, vim para São Paulo fazer residência médica e já morando aqui, fiz contato com alguns poetas quando passava férias em Fortaleza, como o Carlos Augusto Lima e o Manoel Ricardo de Lima. Através deles, entrei em contato com alguns poetas da região do ABC paulista, principalmente com o Fabiano Calixto e o Tarso de Melo. Nesta época começei a freqüentar alguns leituras em São Paulo. Foi uma época estimulante, pois o Robert Creeley tinha vindo ao Brasil e logo após sua passagem, estiveram em São Paulo os poetas norte-americanos Charles Bernstein e Douglas Messerli. Publiquei poemas em algumas revistas no final dos anos 90: Afinidades Eletivas (Fortaleza-CE), Monturo (Santo André-SP), e Inimigo Rumor (Rio de Janeiro-RJ). Depois entrei em contato com a editora 7 letras, onde publiquei meu primeiro livro, em 2000.


Ser poeta é mais talento ou esforço? Descobriu-se ou inventou-se poeta?

Ser poeta é mais esforço que talento. Descobri cedo meu interesse pela poesia, mas inventei-me poeta.


Teve algum incentivador principal?

Um incentivador indireto, meu pai, que sempre me estimulou a ler poesia.


Tentou vários gêneros literários? Ainda os pratica em segredo?

Eventualmente tentei escrever contos, em segredo. Mostrei para poucas pessoas. No momento tenho escrito ensaios.



2. Psicologia da composição


O que é matéria para a poesia?

Uma fotografia, um quadro, um filme, uma paisagem, uma cena urbana. Descobri com Edwin Morgan que pode-se escrever poesia sobre qualquer coisa.


Costuma começar pela primeiro ou pela último verso? Qual deles é o mais difícil?

Costumo começar pelo primeiro verso. O mais difícil é o último.


O resultado final do poema coincide sempre com sua idéia inicial?

Às vezes não.


Com quantas metáforas se faz um poema?

Poucas.


Para escrever, precisa conhecer muitas cidades e ler todos os livros?

Preciso conhecer muitas cidades, me deslocar, isso me estimula a escrever.



3. Prosa do próprio mundo


Como a poesia cearense está enquadrada no contexto brasileiro?

A poesia que se faz hoje no Ceará está muito bem enquadrada no contexto brasileiro e vive a sua melhor fase. Há jovens poetas de ótima qualidade como o Eduardo Jorge, o Diego Vinhas, o Henrique Dídimo, para citar alguns. Hárevistas como a Gazua e a Fantôme, que logo estará no mercado. Em breve também uma revista eletrônica. Estas revistas não são revistas locais, são nacionais, com integrantes de outros estados nos seus conselhos editorais.

O Carlos Augusto Lima, que atualmente é diretor do Instituto Cultural Dragão do Mar, tem sido um estímulo constante em Fortaleza, e publicado plaquetes de poesia contemporânea, de poetas estreantes; tem divulgado esse trabalho pelo país, além de incentivar vários eventos de poesia na cidade. Há leituras de poesia e grupos de estudo como o Palavra Cruzada e o Palavra Líquida, que atrai não só poetas, mas também leitores de poesia. Há ainda ótimos tradutores, como o Ruy Vasconcelos, que foi aliás o primeiro poeta no Brasil a traduzir o Robert Creeley. O Ruy tem traduzido vários poetas objetivistas no momento, como o George Oppen.


Qual a relação entre sua profissão e sua escrita?

Eu sou neurologista. Um bom neurologista deve ser observador, concentrado. Você deve rapidamente apreender uma situação clínica, realizar um exame neurológico metódico e imaginar o que acontece ali. Onde é a lesão? No cérebro, na medula, em um nervo periférico? A partir deste raciocínio, você estabelece um plano de ação. De certa forma eu utilizo essa técnica no meu trabalho, de apreender uma imagem e tentar entendê-la. Além disso, me especializei recentemente em Dependência Química e tenho incorporado um pouco desse conhecimento ao escrever, como uma série de poemas baseados no trabalho da fotógrafa americana Nan Goldin, que dialoga com comportamentos adictivos.


Como define a sua poesia? Como caracterizaria suas ambições estéticas principais? O que sua poesia procura compreender?

Minha poesia tende a ser concisa, embora eu tenha recentemente escrito poemas mais longos e também poemas em prosa. Há às vezes uma tendência narrativa e também descritiva. Também uma relação estreita com a imagem, a fotografia, é o que procuro compreender ou decifrar quando escrevo.



Qual a relação entre sua poesia e as artes plásticas?

Muito próxima. Gosto bastante de artes plásticas. Costumo freqüentar exposições, museus. Escrevi alguns poemas que dialogam com trabalhos de Leonilson, com a escultora inglesa Rachel Whiteread, com Henry Moore, com a pintora portuguesa Paula Rêgo, com Francis Bacon. Recentemente escrevi um poema em prosa para o catalógo do Francisco dos Santos, que também é poeta e editor da Lumme, gosto de conversar com o Francisco sobre artes plásticas.


Como vê a pontuação na sua poesia?

Gosto da tensão da pontuação, permite pausas, silêncios. Mas não gosto de reticências.


No fundo, sente-se escrevendo sempre o mesmo livro?

Não, embora exista uma espécie de continuidade no meu trabalho, que é tema do deslocamento.


Já ganhou prêmios literários? Quais? Qual a importância deles?

Minha única experiência foi o concurso da Funalfa, onde recebi menção honrosa com o livro Distância. O que me motivou a participar do concurso foi a possibilidade de publicação. Os prêmios também podem funcionar como uma espécie de termômetro da escrita, embora isso seja variável, a depender do júri.


O que além de poesia precisa ser lido? Cite outras obras.

Clássicos, filosofia, psicanálise, mitologia. Leio bastante, e gosto de não me limitar apenas à literatura.



4. A poesia e suas questões em questão


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo? A tradução de poesia é um trabalho de poetas?

Sim, o poeta de preferência deve ser um erudito. Poesia se faz com esforço e estudo. Acho que a tradução de poesia é um trabalho que deve ser feito de preferência por poetas.


Que movimento literário de vanguarda mais lhe surpreendeu? Por quê?

Eu preferiria não falar em movimentos, mas em poetas que procuraram caminhos diferentes, surpreendentes, de revoluções na linguagem, como Gertrude Stein, Ezra Pound, William Carlos Williams, Lorine Niedecker.


Qual a relação entre a poesia e técnica? Basta dominar certas técnicas para ser poeta?

Não basta apenas dominar a técnica. Há uma diferença entre vocação e talento.


A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?

Há mais leitores de poesia do que se pensa. A internet tem mostrado isto. Mas em geral há pouco hábito de se ler poesia no Brasil, como em toda parte. Quanto ao prestígio dos poetas, penso que em alguns lugares, como na Grã-Betanha, o poeta é mais valorizado. Existe a figura do poeta laureado, do poeta condecorado pela Rainha. E não é um mero academicismo, ou nacionalismo, são poetas da qualidade de um Ted Hughes, de um Ian Hamilton Finlay.


A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

Não. Caminhos para evitar um esgotamento? O make it new de Ezra Pound é um ótimo conselho.


Há obras meramente comerciais de poesia? O que pensa delas?

Difícil falar em obras meramente comerciais de poesia, mas há poetas que escrevem versos fáceis para alcançar o grande público, uma espécie de escrita pop. Este tipo de poesia não me interessa.


Como deve ser a poesia para crianças? Tratar-se-ia de um novo gênero? 

Uma poesia que exercite a imaginação e que tenha uma linguagem rítmica. A sonoridade atrai a atenção das crianças. Não é outro gênero, apenas o público-alvo é distinto.



5. Museu de agora e depois


Já ministrou ou pensa em ministrar oficina de poesia? Como ela foi/será?

Nunca ministrei oficina de poesia. Objetivamente penso que seria talvez uma oficina de tradução, onde eu poderia expor um pouco do meu trabalho como tradutora, discutir alguma coisa sobre tradução, propor exercícios, discuti-los.


O que acha de saraus literários? Costuma participar?

Tenho participado de leituras de poesia recentemente, é um aprendizado ler sua própria poesia em voz alta para um público, escutar outros poetas. Há muitos eventos em São Paulo neste momento, a Casa das Rosas, por exemplo, ébastante receptiva para leituras de poesia. Há outro espaço interessante, a Rato de Livraria, que organiza saraus mensais.


Que conselhos daria a quem está começando?

Muita leitura e persistência.


Como você se vê frente ao recebimento de originais? Comenta tudo o que recebe?

Sim, comento. Se alguém me mostrar um poema eu procuro comentá-lo.


Prepara um livro para logo? Qual seu eixo principal?

Sim, estou terminando um terceiro livro, que tem um título provisório, Em trânsito. O eixo principal é o deslocamento, as viagens, mas também a idéia de transitar por outras artes e de experimentar um pouco com outras formas.


O que pensa sobre a algaravária?

Uma idéia excelente, reunir poetas estreantes com estilos diversos, de diferentes partes do país, e que ainda não publicaram seus livros. Isso facilita bastante o diálogo, quebra o isolamento, porque o início é difícil, há muitas dúvidas: em que revistas publicar, como publicar o primeiro livro, entre outras.

algaravária
(1) no algaravial

 

 

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