ALGARAVÁRIA
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sábado, abril 15, 2006
Algaravariações (02): Ana Peluso




Ana Peluso, a primeira inédita em livro convidada da algaravária, paulistana, desenhista, escritora, poeta, um filho, idéias a torto e a direito, dança ao encontro do destino, sem pressa, sem alarde, mas em constante combustão. Editou por 4 anos o site de arte e literatura Officina do Pensamento, e participou de algumas antologias com prosa e poesia. Escreve todo dia para se manter sã, percebe que não funciona muito, e por isso mesmo continua tentando.

Confira abaixo quatro poemas e a entrevista inéditos gentilmente cedidos à algaravaria.







QUATRO POEMAS



o peixe ante o sismo


o peixe advinha o mar.
...docas
...submersas
em civilizações de areia e cal.

o peixe adivinha as ondas
...expostas
...circunflexas
ante o cal e as civilizações de areia.

o peixe advinha
- se, estilete
entre moléculas de civilizações de areia
e cal

e
........seus dois lados refletem
os dramas vizinhos
dos mundos.

adensam-se mudras.
o céu
feito de espumas revoltas.
a visão do cataclismo.
o início
e fim do cordeiro.

o peixe advinha.
e precede
o cordeiro.


POESIA SEM ESTILO


Se isso é um canto, poema ou saudade
de um tempo que vai e vem sem sentido,
seria esférica a estúpida realidade,
à qual fere o senso, essa falta de estilo?

O que aspiro foge à realidade,
e me sinto ao léu num mundo sem fermento,
enquanto discorro sobre a possibilidade
de ser bolo, bala, antepasto, ungüento.

Nada do que sinto encanta-me os ouvidos
melhor do que esse breve e insano instante,
em que não busco palavras, nem as duvido:
apenas ausculto seus tambores errantes.

Torpes e rotas, elas se fazem mutantes,
e libertas, tramelam seus estampidos:
ecoam seus gritos transbordantes
entre giros e giros, e, entretanto, giros.

O tanto que podem, me observam ausentes
de tudo o que transborda de mim, delirante.
E quando retornam para si, entre dentes,
de onde saíram, o silêncio é gritante.

O mesmo que não nirvana minha mente
durante e após esse rito absurdo,
e que só encontro igual novamente
quando fecho os olhos, à noite, e não durmo.




Morte como Hélio Oiticica


entre a cama e a parede
há espaço suficiente
para se entregar
às eternas garras
da vida na carne

entre a cama e a parede
há quatro dias sem fim
quatro noites afins
e o quarto inteiro
- um jardim -
de rosas embaladas
em filó

no quarto de Hélio Oiticica
há uma espremeção
que mata a gente
um pouco aos poucos
um pouco devagar

há um não sei quê
de sem caminho
um retrato sozinho
na mente
e um monte de lembrança

como a vida é sacana
e como é duro amar
..........................o
bicho e suas cabeças
todas as sete vezes
.................setenta
que elas surgirem
rugindo

esse desalinho espremido
gemido quase mudo
mas em fúria
toda essa rachadura
do limite
a dinamite que explode

tudo isso tenho
montado
no quarto de Hélio Oiticica
aonde eu durmo



Tronco


dois olhos ovóides
sobre um nariz ovóide
sobre uma boca ovóide
sobre um queixo ovóide
sobre um pomo ovóide
sobre dois mamilos ovóides
sobre um umbigo ovóide
e
sob um membro
dois ovos de aço






ENTREVISTA



1. Trajetória de antes


Há uma obra ou autor com a qual tenha descoberto a literatura e a poesia em particular?

Sim, na infância gostava muito de Charles Dickens e Maurice Druon. Na adolescência, de Veríssimo, o filho. Só aos trinta e três anos fui ler poesia, porque meu pai era sonetista, e eu tinha aversão àquela métrica, então a poesia demorou a conversar comigo. Foi quando dei de cara com Drummond. Foi um encontro muito marcante. Eu lembro que parei e pensei putaquepariu, esse homem sente o mundo exatamente como eu!. Claro que tentei imitá-lo, no inicio, mas não deu certo. Haroldo e seus seguidores musicais já tinham falado comigo por outras vias.


O que falta para publicar o primeiro livro?

Sinceramente, não sei. Não é medo de levar não de editora, mesmo porque não descarto a opção da edição do autor, e também não é falta de material. Talvez, seja uma espera pela maturação. Eu sou uma poeta sem estilo. Tenho vários, e isso não é muito bem visto. Pelo menos, não para quem teve coragem de me dizer. Em todo caso, se demorar mais um pouco, e meus vários estilos se mantiverem, assim, intactos em sua não opção de comungar de uma mesma gleba estilística, vou dar a cara à tapa, e me assumir como uma poeta sem estilo, mesmo. Até porque o mundo, e meu mundo em particular, é bastante diversificado para eu me ater a um mesmo formato.
No fundo, isso, de estilo, empobrece a poesia, enquanto arte. Essa coisa de marca, de estilo, de saber quem é o autor pela poesia dele... sei lá.
Eu quero ser lida sempre com surpresa! Não quero aquela coisa, é isso ou aquilo, porque é da Ana Peluso. Ou isso é a cara da Ana Peluso, só podia ser dela! Eu não tenho cara, enquanto poeta. E me pergunto freqüentemente o porquê desse lance de estilo ser tão cobrado. Porque não abrimos espaço para a diversificação que alguns autores têm a habilidade de explorar. Enfim... isso daria um bom debate.


Ser poeta é mais talento ou esforço? Descobriu-se ou inventou-se poeta?

Me descobri. Poderia ter me inventado há mais de vinte anos, se soubesse de coisas que não sabia na época. Como eu coloquei na primeira questão, só fui ler poesia aos trinta e três anos, e fugi literalmente da faculdade de Letras. Me levantei e saí sem dar, ao menos, um tchau. É tempo demais sem conhecimento das possibilidades.
Mas não acredito que seja apenas o talento ou o dom que fazem um bom poeta. Tem o esforço de rever cada verso, buscar a palavra perfeita, que traduza melhor aquilo que se quer passar.
É um labor (, mas) com sabor!


Quais livros fizeram parte de sua formação?

Crônicas. Eu devorava as crônicas do Veríssimo! Lia, relia! Era algo incrível. Sempre gostei do humor refinado dele. Acho que muito pelo bom humor que carrego comigo, também. Já dos clássicos que me apresentaram na escola, nenhum deles me marcou. Eu achava um saco, aquela coisa de ler o livro, e fazer a prova. E eram livros enfadonhos. Ninguém colocou um Kafka nas minhas mãos aos treze anos, infelizmente. Ou uma Clarice, ou ainda um Machado. Foi falta de sorte. Eu poderia ser escritora há muito mais tempo, se tivesse lido a coisa certa.


2. Psicologia da composição


Tem obsessão em reescrever o mesmo texto? A emenda é pior do que o soneto?

Isso acontece mais com a prosa. A emenda nunca foi pior do que o soneto, nesse caso. A prosa precisa mesmo de revisão à exaustão. Existe uma curva dramática, um momento certo para algo acontecer, uma frase que conte aquilo com o enlevo necessário, existe um barro a ser moldado da melhor forma possível, senão se perde a forma. A prosa é um trabalho mais engenhoso (pra mim), e revendo, a gente consegue dar um contorno melhor, um arremate no ponto, e também no momento certo. Escrever um conto pode ser um exercício de anos. Talvez por isso eu tenha centenas deles, inacabados e inéditos. Nunca me satisfaço com eles. E os poucos que destinei à publicação, não estão prontos, noto depois.
Chega a ser um processo doloroso, principalmente quando o fôlego se estende, e percebo que não estou mais escrevendo um conto, mas o início de um romance. Aí, paro. Não existem condições financeiras para parar a vida e dedicar tempo para a existência de um romance. Não, no momento. E infelizmente.


Guarda tudo o que escreve? Ou elimina sumariamente?

Quando eu tinha vinte e seis anos, queimei dezoito volumes de escritos. Fiz uma fogueira no quintal e fiquei horas vendo tudo aquilo virar cinza. Me arrependi até o último fio de cabelo, mas só muito tempo depois. Eu não levava nada daquilo a sério, e hoje vejo que deveria ter levado. No mínimo, era um material para ser revisto agora. Depois disso, aprendi. Não deleto, nem jogo fora, nada, nada do que foi escrito ou desenhado. Tive um professor de desenho que dizia pra gente jamais jogar fora um esboço, que fosse. Desobedeci. Quando queimei os escritos, queimei esboço, tela, queimei até arte final... Depois percebi que estava querendo fugir da arte, queimar o caminho que me ligava à ela... Eu queria, naquele momento, portanto, outro caminho. Tracei e quebrei a cara.
Eu sempre fui um pouco rebelde mesmo.


Sua criação é mais notívaga ou diurna? Poesia tem hora?

Totalmente notívaga. A noite tem um silêncio quase mágico. O contato que eu tenho comigo mesma à noite é diferente daquele que tenho durante o dia. Eu consigo um diálogo interno mais intenso. Tudo flui melhor. Ainda mais, nessa cidade de São Paulo, que já amanhece fazendo barulho.
Já a poesia não tem hora. Anoto no papel que estiver mais perto, e trabalho à noite. Perdi muita poesia feita com a boca, por falta de papel, caneta e boa vontade de quem estava por perto, na ocasião. Hoje ando com um caderno e uma caneta na bolsa para o caso de acontecer qualquer eventualidade.


Tem muitas epifanias? Quando?

Eu acho que já nasci epifânica. Vivo em duas dimensões ao mesmo tempo, desde que me conheço por gente. Posso estar aqui e lá, e aqui e lá terem a mesma intensidade de realidade, ao mesmo tempo. É algo um tanto inexplicável. Então, chegar nesse êxtase, para mim, é fácil. Um pôr-do-sol pode fazer isso. Qualquer acontecimento, por mais simples, banal, que possa parecer aos olhos de outras pessoas, para mim, pode se tornar um portal para o divino.


Para escrever, é necessário comer, beber, fumar? O que organicamente anima sua escrita?

Café, água e cigarro. Uma bela mistura!


Com quantas metáforas se faz um poema?

Com todas ao alcance, num momento impreciso, sem coordenadas cardinais, e totalmente sem moral.
Se baixar algum juiz, eu mando ele, categoricamente, à merda.


O que é matéria para a poesia?

Toda a disponível, incluindo a prima: o pensamento.



3. Prosa do próprio mundo


Como define a sua poesia? Como caracterizaria suas ambições estéticas principais?

Eu acho que tenho várias vozes, se é que podemos definir a minha poesia especificamente - assim, pelo lance dos vários estilos acontecerem sem existir fases poéticas. Até porque acabo de começar! Sou um bebê-poeta ainda, fazendo um gugú-dadá musical. E acho que não tenho ambição estética, mas gosto de escrever para quem sabe ler. E uma vírgula, para que lê bem, trança o babado todo de tal forma, que a poesia fica rica, sendo simples. Mas tenho experiências guardadas à sete chaves, e pretendo fazer delas, uma tentativa estética, digamos.


Qual a relação entre seu trabalho e sua escrita?

É uma relação estreita, porque trabalho com desenho, com cores, com formas, que me levam à outras formas, e isso acaba possibilitando um mundo surreal, assim, de cara. Atrás da ponta de um lápis, existe alguém que pode desenhar o que não existe. Então, a literatura tenta fazer o mesmo caminho. Nem sempre acerta, mas tenta.


O que mais lhe agrada em um poema?

Um belo soco no estômago. Sou antiga. Gosto de coisas fortes, temperos fortes, nuances fortes, cores gritantes, vida. Não faço parte dessa turma que tenta suavizar o sangue, apelando para um improvável tom rosa, de um sangue misturado à água, quando se lavou o cadáver. Sou muito visceral pra isso. Um improvável tom rosa de um provável sangue já faz do sangue um não-sangue, mas água com um pouco de sangue. Então, não me venha com essa de que isso só é poesia. Pode até ser. A poesia de outra pessoa, não a minha. E não falo das metáforas, mas da idéia que compõe a poesia.


Qual a relação entre sua poesia e a música? Alguma com letras?

Total. Numa das oficinas do Willer, ouvi dele o seguinte: você deve ter lido muito Chico Buarque. Sim, li muito poema do Chico Buarque, do Caetano Veloso, do Zé Ramalho, e de tantos outros. Música é um mundo àparte, e acho que só faço poesia, porque sendo ela bem escrita, e, conseqüentemente, bem lida, a música está ali, nas quebras, no ritmo. Adoro ler poesia em voz alta, só para sentir a musicalidade dela.


Qual a relação entre sua idéia de infância e sua poesia?

Nunca parei para pensar nisso..., gozado... Mas sua questão suscitou uma série de imagens poéticas. Talvez seja um bom material a ser trabalhado. Por outro lado, acabo de descobrir porque nunca pensei nisso... Mesmo criança, eu sempre fui adulta. Com dez anos de idade eu já discutia o desmatamento da Amazônia com políticos amigos do meu pai. E eles me ouviam, o que não sei se é bom ou ruim.
Lembro de um escândalo envolvendo o filho do Figueiredo, que estourou e foi recolhido rapidamente, quando o pai fez uma viajem ao exterior. O filho, já nos anos 70, estava envolvido com a venda ilegal de madeira do Amazonas para os norte-americanos... Aí vejo essa movimentação toda em torno do assunto, e penso que o povo não tem memória mesmo. As provas estão sempre no passado.


O que além da poesia precisa ser lido?

Um pouco de tudo. Gosto muito do que chamo de fonte. Então, leio muita coisa considerada maluca, ou apócrifa. Não porque eu esteja atrás da verdade, mas por estar, justamente, atrás da farsa. Das grandes mentiras criadas para controlar o ser humano. Isso é um assunto de suma importância para mim. Não posso criar uma literatura de entretenimento, apenas. Já estamos entretidos o suficiente para não sacar o movimento de controle que acontece, há séculos, sobre nossas pobres cabeças endividadas. Em cada época, houve um bobo da corte. Agora, abrindo os jornais, fica evidente que existem vários, e que isso tem um porquê; e ainda: que esse porquê é bastante significativo, apesar de passar desapercebido pela grande massa.
E leio de forma totalmente desorganizada no que diz respeito à ordem cronológica muita filosofia.


Já ganhou prêmios literários? Quais? Qual a importância deles?

Nunca. Quer dizer, ganhei um, por um conto, mas nunca recebi. Não acho que prêmios validem um texto. A bancada julgadora está observando apenas os textos participantes, e podem existir pessoas escrevendo coisas muito melhores, no mesmo quarteirão, sem que a bancada saiba... Acho que prêmios são uma maneira rasa de qualificar qualquer feito. Mas aceito um, na boa. Principalmente, se for em espécime.


Como se sente quando comparado com outros escritores?

Me considero uma sortuda. Certa vez li, vindo de alguém: Nossa, isso que você escreveu parece de fulano!. E a gente sente, percebe, lê a entrelinha que a pessoa nos destina, quando envia um comentário desses. Ela quer dizer que não há nada novo ali, que é apenas uma influência. E como a pessoa não conhece sua trajetória, ela erra.
É quando penso Poxa, que bom! Eu sequer li fulano, e escrevo como ele?!.
Eu vivo dizendo que sou a prova viva de Kant. Tudo comigo acontece a priori. Ou seja, eu não preciso ler fulano e beltrano para saber o que eles pensaram. Eu penso, elaboro minhas filosofias próprias, e só depois descubro que já existiu alguém com a mesma idéia. Isso é muito recorrente em mim, em vários sentidos, com causas diferentes. Acontece com fatos contemporaníssimos, de sacar uma coisa, pensar porra, é isso!, e quinze dias depois encontrar alguém que publica algo igual, sem tirar, nem pôr.
É quando penso não ou a única louca.
Mas acho chatíssimo esse lance de comparação. Você pode escrever estiliscamente falando como alguém, mas trazer novas imagens, novas sacadas, a visão de outro momento do mundo. Enfim, é outra questão para se debater. Não há nada novo, e parece que uma grande maioria fica meio puta com isso. Ninguém tem paciência de aguardar o novo chegar, se é que isso é possível. Digo novo, na forma de expressão literária. Fica mais fácil descer o pau em quem que recria sobre o velho.
E, por outro lado, quando você ousa, aparece alguém para dizer Ei, ei, você não pode tudo, não.
É como um jogo de agrados a gregos e troianos.


Criação é risco? É libertação? O que é e envolve?

Criação é risco, é libertação, é cárcere, é loucura, é santidade, é sacerdócio, é um troço louco que te invade (ou já te habita), e precisa ser expresso. Envolve o eu, a essência, a forma de ver o mundo. Quem se mete à besta de escrever, criar ou re-criar, pintar, desenhar, seja-lá-o-que-for, sabe que isso vai exercer uma profunda transformação, antes de tudo, em sua própria vida, em sua própria essência, na sua forma de encarar o mundo. Por isso não ligo muito para elogios ou críticas, relativas à nada do que eu faço, porque tudo o que eu mostro, já conversou comigo antes, e o diálogo funcionou bem. Como na maior parte dos casos, a criação não é um produto, ou seja, não se ganha um puto com ela, eu, pessoalmente, acredito que ela deva agradar ao seu criador, antes de tudo. Senão, não faria o menor sentido concebê-la.



4. A poesia e suas questões em questão


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

Algumas experiências nesse campo me parecem bastante interessantes. Não são todas. Eu não sei dizer se o trabalho poético de um ensaísta/ crítico/ acadêmico é livre de seu próprio filtro - aquele que zela pela impressão da qualidade do que ele já conhece - a ponto de permitir que ele vá além daquilo que ele já sabe ser (muito) bom. Além de tudo, paira a dúvida: poderia ser considerado um trabalho genuíno?

Existirá mesmo o poeta, o ingênuo, o que não freqüentou uma aula sequer, mas percebe o mundo como mundo, sem precisar da visão alheia como referência, seja estética ou de qualquer outra espécie?

Por outro lado, acho estimulante a participação desse pessoal, por se tratar, antes de tudo, de um estudo in locco, ou seja, são pessoas que tem o prazer de experimentar seu objeto de estudo. Escritores, de certa forma, também são cientistas. E, nesse caso, aludindo à (e alcunhando por) uma possível metalinguagem aplicada, fica patente a vastidão dessa arte.

Quanto à erudição, para quem olha e vê o mundo, falta tempo. Acho que pode existir um erudito em um poeta, ou um poeta num erudito, e isso fica muito bem representado por Haroldo de Campos, que expandiu seus conhecimentos aliados ao seu dom de tal forma, que alcançou a música popular brasileira, e foi além. Escreveu idiomas. Cantou, decantou, vestiu príncipe de pobre. Fez o diabo. E era um erudito. Um poeta erudito. Um erudeta ou um poetito, como talvez concordasse ele, se não fosse modesto por ser honesto, e pudesse estar aqui, conosco, trocando idéias.

Poesia também se faz com leitura. O estudo é opcional. E a escolha: dirigido ou autodidata, a escolha ainda é do poeta.

Aliás, a educação formal deveria ser toda autodidata, ou incentivar ao máximo sua prática. Quanto mais cedo as pessoas descobrem seus verdadeiros interesses, menos elas vagueiam por aí, para servirem-se de suas buscas como metas, ou servirem às buscas incessantemente fakes de um - aí, sim! - utópico bem estar. Quem está endividado, não pode se sentir bem.

E, cogitar a felicidade como bem estar seria uma atitude por demais leviana, por ser insana a idéia de sua existência. Ao menos, aqui, nesse tipo de existência.


O que a poesia tem em comum com a filosofia?

Talvez a poesia - em muitos casos - ambicione sintetizar a filosofia. É uma forma mais imediata de passar uma idéia, um conceito ou mesmo um pensamento inteiro de um filósofo, se utilizando poucos versos. E quando isso cria um elo com a contemporaneidade, fica bastante interessante.


A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?

Eu gostaria de responder de forma irônica, porquê já sabemos a resposta: não. Ninguém compra poesia no mesmo tanto que vai o teatro, cinema ou shows. Por mais que se criem eventos, basta um olhar: 80% dos participantes são do ramo. Não sai em coluna social, porque não interessa nem ao pouco ao sistema promover algo que faz pensar, que abre possibilidades outras, de vários teores, e que, ainda por cima, bate de frente com a sua estrutura.

Não é produto, e nem pegaria bem o merchandising que temos à disposição servir à sua difusão. Imagine uma propaganda que torne a poesia conhecida para recolher o prestigio que merece, com o seguinte slogan: "Fulano(a) (modelos, atores, socialites, homens de negócios, dançarinos, políticos, e sabe-se-lá-o-quê-mais) lê "Beltrano" (o poeta que virou estrela; melhor, produto)". Em seguida, ele(a) leria um trecho de algum poema do livro, e um texto contendo o valor do livro, o nome do autor, dedicatória e a editora, surgiria da transparência para a visibilidade.

Isso tudo seria válido se o mundo fosse ético. O que é uma utopia tão grande, quanto achar que, um dia, a mídia vá veicular livros, assim como se vende sabão em pó. Livros são armas, já disse "um deles". Voltadas para que comanda, emendo.

E o prestígio que ainda existe fora da comunicação mais amplamente difundida, é pouco para o tanto da produção existente.

Existe pouco espaço para muito autor. E existe pouco leitor, porque existindo pouco espaço, o "produto que não é produto" não se torna conhecido.


Qual o papel do escritor na sociedade?

Essa é uma pergunta um tanto difícil de responder, porque vejo a literatura como essa arma, descrita aí em cima, mas em favor de um entendimento.

Entretanto, do que adiantaria armar essa população, se o sistema já chegou num ponto em que lutar contra ele significa morrer de fome?
Acho que - enquanto modelo de sociedade - já fomos longe demais para acontecer um retorno.
A não ser que o mundo inteiro acordasse iluminado (recado poético que o sol não conseguiu passar até hoje), qualquer tentativa de elucidação em massa seria desperdiçada.

De nada adianta a liberdade, se não houver comida.

Ao mesmo tempo, a relação é estreitíssima, porque o escritor, mesmo sabedor de que, por mais que chegue, ainda chega a poucos, é o grande narrador de seu tempo. O agora não pode ter essa importância para todos, e muito menos sua compreensão.

Por isso a literatura não conta com um incentivo de porte, digamos. Quanto menos pessoas adquirirem livros, e apreenderem seus conteúdos, menos pessoas capazes teremos. E poucos sempre comandaram mais do que muitos. Só não sei se melhor.


A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

Não acho que isso seja possível, porque ao mesmo tempo em que eu continuo achando que o totalmente novo seja impossível ou improvável, a combinação do que já aconteceu com aquilo que a mídia virtual possibilita, pode ser uma via interessante. E acho que isso responde às duas questões.


Há obras meramente comerciais de poesia? O que pensa delas?

Não. Não acredito que exista. Não conheço poeta que vive de poesia, só. Se for meramente comercial, já se pressupõe-na como um produto, e poesia sequer cabe comercialmente nesse conceito. Poesia não é produto. É concepção.

Entretanto, se surgir alguma, será a poesia do produto, e intuo que eu, já de cara, pensarei em levantar uma bandeira imensa: SAY NO TO INC POETRY.

E a bandeira será tarjada na língua dos donos do mundo, que é para ficar bem mais clara a intenção e direção da seta.


Políticas literárias: faz qualquer negócio para sua obra ser editada? é justa a percentagem que fica para o editor e para as livrarias? É justo que o escritor seja a causa produtora de um sistema literário que não o beneficia corretamente? O que se pode fazer?

Por partes: não, não faço, nem faria qualquer negócio para editar meus contos e poemas. O máximo de sacrifício que poderia acontecer de minha parte seria bancar uma edição do autor, caso houvesse o banco...

É injusta a situação, mas é o que acontece com toda a gerência que ancora a arte. Músico fica com menos, ator, diretor e cia ltda, todos, idem, mal pagos. E é injusto, também pelo que você colocou: um lado entra com a possibilidade daquilo existir, mas aquilo já existia antes... É quase um paradoxo mal resolvido.

Só não chega a constituir um de fato, por ser esse sistema o órgão de condução da existência da obra do criador até conhecimento popular.
Então, eu diria que a passagem está muito cara, e que a condução atrasa, isso quando ela existe. Na maior parte das vezes, só se inaugura o ônibus. E se corta alguma fita. Ele mesmo só leva pedradas, e quem está dentro é que se fere.


Qual a melhor editora brasileira? E qual a que edita melhor a poesia?

Não me guio por editoras. O sabor está na obra. O tempero pertence à ela.


Qual a relação entre a poesia e técnica? Basta dominar certas técnicas para ser poeta?

De jeito algum. Inclusive acho isso um perigo. Existem inúmeros tecnopoetas, que podem servir, inclusive, para a poesia se tornar um produto.


Como avalia o movimento concretista em relação à produção poética contemporânea?

Bom, vou precisar resumir o movimento concretista a Haroldo de Campos, e alguma pouca coisa de Augusto, já que Décio nunca chegou até mim, ou eu nunca fui atrás dele, não sei. Então, partindo dessa premissa, eu acho que a música foi mais beneficiada pelo concretismo do que a poesia em si. É fácil reconhecer traços concretistas no trabalho de quem se dispõe (ou propõe) a ele, como condutor de linguagem. Mas pouca gente pegou o principal, que é o idioma que Haroldo de Campos criou. Ele conseguiu fazer da poesia, um idioma. Acredito que quem melhor traduz isso, pela forte influência que carrega, não nega, mas também não alardeia, é Caetano Veloso.

Entretanto, voltando à música feita para ler, acho que, antes de qualquer coisa, incluindo tudo o que eu escrevi até agora, o concretismo fundiu a metáfora convencional à multiplicação dos sentidos, de maneira a atingir cada vez mais a síntese, com o uso de menos recursos. Qualquer um que leia "Galáxias", percebe que, caso fosse escrito um ensaio ou um romance, no lugar de poesia, a idéia não caberia em um livro, apenas. É quase como filosofar em alemão (pela exatidão que carrega), caso o alemão pudesse conter todos os idiomas do mundo (pela quantidade e possibilidades de significados).

Nas mãos (boas) de seguidores do concretismo, o que, a leigos, pode parecer brincadeira, a um olhar mais atento, um universo pode ser vislumbrado. Então, essa síntese passa a acompanhar a pressa do mundo de hoje, provando sua legitimidade. A necessidade da urgência em comunicar, aliada à arte de fazer isso se expandir nessa abrangência, faz daquilo que já era uma pequena filosofia, algo ainda menor, mas menor apenas à primeira vista; se houver a compreensão, um mundo, imenso às avessas, está contido ali.

Quem sabe se um dia chegaremos a quark-poesia? E quem poderá dizer se isso será ruim? Não sabemos da capacidade intelectual que teremos adquirido, se isso um dia for possível.


A figura do escritor precisa ser mais mistificada ou desmistificada? O que isso envolveria?

Um escritor mistificado é um leviano, por concordar em participar disso. E isso não acontece por obra & graça do leitor, mas da mídia. Por isso, a leviandade. A mídia só vende aquilo que interessa a quem a banca. E quem a banca, não está nem um pouco afim de desentreter para revolucionar.

E isso envolve tudo. Envolve o cidadão, que termina engolindo o que está mais bem estampado na livraria, compra aquela idéia, e faz dela, um rito. É o caso dos livros de auto-ajuda, os best-sellers gringos (e mesmo os tupiniquins). Oh, Caox!, se é auto-ajuda, já está dado o recado: ninguém pode fazer por você o que é sua obrigação, ou aquilo que só você tem - em hipótese, pelo significado do termo - capacidade de fazer por si mesmo. Auto-ajuda é, antes de tudo, uma farsa.

Agora, se a gente tirar um ésse de uma das palavras da sua questão, e falar do autor mitificado, tudo muda de figura. Ele é um mito, porquê sua obra resistiu ao tempo. Resistiu ao controle das massas. Resistiu a tudo. Ele é um resistente, e isso envolve coragem e fé naquilo que se faz. Esse, ao contrário do primeiro, é autêntico.



5. Museu de agora e depois


Alguma epígrafe que o acompanha sempre? Algum epitáfio lhe contém?

Brinquei na oficina do Carlito Azevedo com a epígrafe do Sebastião Uchôa Leite, quase o xerocopiando: "Aqui concorre / para o ser confuso / Ana Luísa Peluso".

Meu epitáfio seria: "Viveu se confundindo para poder sobre viver".


Qual é hoje a marginália da poesia brasileira? Ela ainda é possível depois da internet?

Acho que ela cresceu. Somos todos marginais, mesmo. Em maioria esmagadora. Os marginalistas são os candidatos a marginais. Alguns são marginandos. E outros, já estão marginados. Tem margem pra todo lado. Só não vejo o leito do rio.


O que acha de saraus literários? Costuma participar?

Adoro, mas participo pouco. Minha relação com a literatura tem a ver com meu modo de ser. Sou mais de freqüentar encontros musicais, onde se possa beber, cantar, e nenhuma regra social necessite ser obedecida, como horário, traje social, e outros quetais que não me interessam. Mas já fui a saraus bem malucos, bem livres dessa onda de intelectualidade estampada na cara, que geralmente ronda esses ambientes.


O que pensa sobre a algaravária?

Acho um projeto bastante interessante e ousado, já que hoje em dia é impossível saber quantos são os blogs de literatura existentes, e se neles se firma um real compromisso com a literatura, enquanto, também, tema de discussão, e não apenas uma amostra dela.

E aproveito para perguntar ou sugerir aos leitores: qual o significado de "algaravária"?

algaravária
(10) no algaravial

 

 

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