ALGARAVÁRIA
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sábado, abril 01, 2006
Carlos Besen: FAZER ÁGUA




Carlos Besen nasceu e vive em Porto Alegre desde 1980. É bacharel em filosofia pela UFRGS, onde também realiza pós-graduação. Dá a cara à poesia desde 1997 e tem prêmios literários irrelevantes. Já apareceu em algumas revistas, reais e virtuais. Tem um blog pessoal, exclusivamente poético, e edita o blog O Mel do Melhor.

Carlos Besen escreve semanalmente às quartas no Algaravária.




Agulhar



1.

O que não posso suturar:
a vida mói.
O que está saturado:
não tem costura.

Existo aberto
e corrompido.


2.

Me precipito sem leveza.

A satura cresce o acre
nos lábios,

e continua insolúvel
mesmo que eu os dissolva.


3.

Vida farta, eu me aborreço.

E por mais que remoa a fatura,
não posso liquidar minha prestação.


4.

Mesmo prestes aos ossos,
mantenho a liga do esqueleto.

Apesar do fruto
maduro como farelo,
a vida engenha
o fio da cosedura.


5.

Comprar vida fiada,
desconfio:

ela cobra a conta.

Não me endivido,
não indivíduo,
logo alegro:

frio como agulha,
eu me desfio.




Caligrafia do avesso


1.

Minha biografia me faz em meu lugar.

Não sei ter uma árvore,
não sei plantar um livro,
não sei escrever um filho.

Meus gestos me refratam,
as folhas se vergam na rasura.


2.

Ao me poupar,
eu me abandonei.

Minha herança corrige
o vacilo do pulso,
me recorda ao contrário,
me inventa sem revide.

Meu desprezo próprio
cavou a gruta de minha figura,
desenterrou as rugas
de meu personagem.


3.

Ser palpável não é ter
a polpa diluída na terra.

Polpa é o filho
com um livro na árvore
a decifrar a velhice do pai
nos veios do caule.

Abraço os galhos,
tento perdoar o desperdício.


4.

Póstumo, não me queixo
à caligrafia das chagas:

o que um filho fere,
uma árvore cicatriza.

Minha biografia me cura
em meu lugar.

algaravária
(9) no algaravial

 

 

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