ALGARAVÁRIA
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quarta-feira, maio 31, 2006
Água de nó


[Fazer água IX]



Desperta: deposta
a graça do fogo,
próximo como no céu,
março, ainda:
decomponho orvalho
na relva das costas.

A camisa úmida
faz velcro com as costas,
quebra as nozes da pele,
expulsa os botões
de casa.

Meu rio de alga
não extravia
o endereço.
O tórax, órfão de arfar:
vira língua.

Maduro, o suor:
sela (d)a estação.

A água evacua
o tempo em mim.

Carlos Besen
(7) no algaravial

 


Nove Riscos


confiar no presente e no instante
sem nunca estar descoberto
mas, assim como a ordem indireta, reclamar, sempre

o fluxo

Daniela
(5) no algaravial

 

terça-feira, maio 30, 2006
saraIvada 9nuove (nu-bla)

manifesto segredo

o último ponto eu assino e não rasuro.

o último ponto, enrosco sem dó, ele é um fio pro universo

sobre si, os pontos são falsos de se realizar.

no último ponto eu cavo pra baixo.

no ultimo ponto, eu
enforco o banho por um desenlace.

francieli spohr
(3) no algaravial

 


Imp. 09

Comutação simples

I

Quê,
Prenhe enquanto pousa
Aventa sustentar esse
Que excede corte entanto sustos,
Aves de assobio coagulando olhos;
Entorna mas não cede, encolhe,
Ousa retornar de onde antes
Atravessasse outro atrito -
Adverso sob estatelado
Céu


II


Quê,
Prenhe enquanto pousa
Aventa sustentar esse
Que excede corte entanto sustos,
Aves de assobio coagulando olhos;
Entorna mas não cede, encolhe,
Ousa retornar de onde antes
Atravessasse outro atrito -
Adverso sob estatelado
Céu

Thiago Ponce de Moraes
(8) no algaravial

 

segunda-feira, maio 29, 2006
96020-009

votiva p/ miss pizarnik

quem dirá que olha manso quando tem olhar de osso?
golpeia, e mesmo noite, acerta em cheio?
hoje chove mais que ontem, cobre o rosto
este é o nosso passeio: o de barro, além do poço.

Angélica Freitas
(6) no algaravial

 


Ninguagem

O poetário




o candeeiro que
brado iluminar a pouco aos proletários
mina

a figura - escura -
quase meio foto espelho fosco des
n u d o

u n o entre correntes
em meio velar a negro centro ébano
escreve

das palavras o poetário.

Daniel Sampaio
(3) no algaravial

 

sábado, maio 27, 2006
Algaravariações (06): Ricardo Domeneck




Ricardo Domeneck nasceu em 1977, em Bebedouro (SP). É poeta, tradutor e DJ. Depois de alguns anos em São Paulo, vive hoje em Berlim (Alemanha), onde edita o fanzine HILDA e é o DJ residente da festa semanal Berlin Hilton. Publicou a coletânea Carta aos anfíbios (Rio de Janeiro: Editora Bem-Te-Vi, 2005).



Abaixo, confira os poemas inéditos e a entrevista cedidos gentilmente à grata Algaravária. Realmente imperdível, algarantimos.






Fragmentos da seqüência "Dedicatória dos Joelhos" in A Cadela sem Logos


§

inveja das cartas a que
basta dedilhar um
nome completo e sempre
conseguem a atenção
do destinatário e
enquanto ele e
ele abrem
a boca permitem
a visita ao estômago
alheio minha garganta
de mão dupla abre
a passagem mais
uma vez devo bastar
-me limito-me a
olhar sua
boca limítrofe o
álcool realmente não
auxilia a
confusão de
estômagos entre
interno e externo



§

reconhecer uma
voz um rosto
reconhecer pela
dor um órgão desperto o
pé encontra diligente
a falha no chão que
o tempo prestou
estaca
o joelho dobra-se à
força do impulso
a queda é a
entrega à falta
de assistência
do ar JUBILATE
se é assim é
assim por um
segundo tudo
real como uma
cena em jean-marie
straub somos todos
adultos ou não
digo EXSULTATE
nem dói estar
um tanto
deslocado
na esfera da atenção
alheia como a
rejeição da
rua paralela



§

se algo importa tudo
importa mas a querença
desvia o fundo
para o raso
do específico
como a rasura do
ignorado aplaude o
múltiplo busco
seus pés pelos
cantos encontro
ângulos precisos
demais para a
tortuosidade do
meu enrodilhar-me
a seleção do
desejo projeta
o desaparecimento
de grande
parte do
mundo

...................a Daniel Schaarenberg



§

a subnutrição ocorre
não
diante do esvaziamento
do continente mas na
proliferação dos
conteúdos atravesse o
rio resoluto
o distante o
erro do
horizonte magro
a corrente dos
eventos que o
carregue para
a fonte dos fatos
o desejo a dieta
de todo um
século o móvel
o inconstante o sujeito
subsista subsista
na impaciência
do objeto fixo
pele e osso meu
filho você está
pele e osso



§

as bases
do íntimo e
expressivo as correntes
do similar sem validade
o discurso
produz e
nomeia teste de
desempenho da
identidade este
tempo não
é tempo de sutilezas
de um mundo simpático
1967
nancy sinatra
lee hazelwood
equivaliam
flowers are the things
we know
secrets are the things
we grow
2003
kate moss
bobby gillespie
distoam
flowers are the things
we grow
secrets are the things
we know
não se perde
valor reajusta-se
na inflação da
querença as
versões do mesmo
entre o contíguo e
o similar as
ansiedades do comum
do próprio e do nome




Da coletânea "Sons: Arranjo: Garganta"


Sujeito ao mundo

...........................a Heitor Ferraz


não
ser o centro
do universo não
implicou na inexistência
do planeta a mesma
conjunção numa
cama única a ânsia
da manhã na garganta
sinaliza
a reentrada
no continente no
possível
se o copo
rejeitasse a água
antes de abraçá-la
como ver nuvem
e dizer chuva
ocupar-se tanto
com a
respiração para
esquecer os
pulmões mas
às vezes
quer-se ênfase procura-se
o que o
século XIX e diz-se
"que a digestão recuse
o que o
paladar aceitara"
pois a queda não
é a única
opção do passo
em falso como
umedecer a boca
antes de toda
e qualquer
resposta





Pela elipse confundir caça e fuga


Objeto aberto estabelece
a perda onde
antes o
núcleo e ela
olha-se no
espelho e diz "Vossa
Iminência". A mão
dirige-se ao
telefone para fazer
uma chamada mas
um segundo
antes ele toca,
como se
perder a consciência
fosse apenas
o primeiro após 97
dias de
inverno em que
os cafés pôem
de novo
nas calçadas as mesas.
Que delícia usa
o prazer como
desperdício?
Dizer estômago e
pensar de imediato:
"quao vermelho?"
ou o terror do
trem entre
estações e a dança
que estaciona
em meio
ao dançarino,
não, dançarino
que estaciona
em meio à
dança.




Cão são da ex-ilha

........................a Carlito Azevedo


o desgosto de cada
passo confirmar o mapa
e o diafragma contraído
entende o queixo
no joelho,
meio-dia e meia
o centro da certeza
que caminha do ,,quero"
ao ,,não-quero",
palha, fênix, Joana
dArc, como perceber
que abismo e precipício
não
são sinônimos
exatos,
como acordar no meio da
noite sem energia
elétrica
e sussurrar com a calma
do fim da força:
equivalendo
silêncio e escuridão,
real
apenas a escolha
da língua, entre-
tanto a
memória
das possibilidades
morre
para que o fato
entre inassistido
nas atas
do verídico;
saiu o sol,
deve estar tudo
bem; subiu a lua,
deve estar tudo
bem;
trocar de pele
continuamente
talvez
leve-me ao centro
e a ausência
me escame
como quem diz
,,eu sinto
a falta"



(untitled)


yes
the exquisitely delicate
reality demands
salt & sugar
to be kept
in separate bowls
so the past will
extrude stains
& I
fear
the present
is no
stalemate
for the memory to
expound, expunge et al
as I fell
asleep in
berlin
& did not wake up
in hong kong
to taste the fact
that arrows of causality
pierce
the silhouettes
of my expectations
and decorate
the immaculate blank future






ENTREVISTA


1. Trajetória de antes


Como se tornou o escritor que é hoje?

Talvez da mesma maneira com que me tornei a PESSOA que sou hoje? Eu gosto de me alinhar aos escritores que não fazem a distinção entre vida eobra. Assim, eu teria que responder que foi nascendo onde nasci, sendo criado por meus pais como fui, desenvolvendo-se minha vida sexual tal qual aconteceu, por ter vivido desde muito cedo em outros países como os Estados Unidos e a Alemanha, e ao aprender as línguas, ter tido contato com a poesia destes países com a mesma intensidade (quase) com que travei a luta com a brasileira. E hásempre aquela coisa estranha chamada de temperamento, que faz com que tenhamos uma reação distinta perante certos fatos e obras compartilhados por todos.


Qual sua trajetória literária até o primeiro livro?

Há muito pouca coisa anterior aos poemas publicados no meu primeiro livro. Quase tudo perdido por gavetas na casa dos meus pais, talvez. Tomei uma decisão de não publicar nada antes dos 28 anos, a idade em que Drummond e Murilo Mendes publicaram seus primeiros livros. Parece arbitrário, e é, mas foi uma decisão que me impus. Queria ter certeza que publicaria quando tivesse um projeto poético delineado, consciente. Antes do primeiro livro, as experiências literárias restringiram-se ao trabalho de dramaturgia com um grupo de teatro de que fiz parte na ECA-USP.


Teve algum incentivador? Quem?

Houve pessoas importantes no sentido de me passar livros que moldaram meu pensamento. Sempre menciono minha professora de literatura nos Estados Unidos, Pamela Peak, que ensinava de maneira genial, de tal modo que nos fazia amar a literatura ao invés de detestá-la, como faz a maioria de (péssimos) professores. Suas aulas sobre Poe, Dickinson, Whitman e Thoreau seguem frescas em minha memória. Mais tarde, na faculdade de filosofia da USP, conheci meu caro amigo, o poeta Érico Nogueira, com quem foi sempre ótimo discutir poesia. Nossas idéias são quase opostas, mas sua inteligência e crítica sempre foram muito estimulantes no nosso debate.


Há uma obra com a qual tenha descoberto a poesia de um modo mais contundente?

Há as obras determinantes, como a "Janela de Caos" de Murilo Mendes, os "Pisan Cantos" de Ezra Pound, o "Silence" de John Cage, as "Illuminations" de Rimbaud, as "Investigações Filosóficas" de Wittgenstein, para ficar entre as que mais me obcecam.


Tentou vários gêneros literários? Ainda os pratica em segredo?

Há poemas em que os tento a todos ao mesmo tempo. Mas já escrevi para o teatro e estou escrevendo prosa agora.



2. Psicologia da composição


Com que se inspira para escrever? O que é matéria para a poesia? Com quantas metáforas se faz um poema?

Em algum lugar entre "Seu pensamento é de fato sua forma", de Sérgio Buarque sobre Dante Milano e "The poet thinks with his poem" de William Carlos Williams. Gostaria de acreditar que isto responde às duas primeiras perguntas. Talvez a melhor resposta para a segunda seria que "um poema escreve-se com palavras, não com idéias", como disse Mallarmé. Assim, a matéria para a poesia é a língua. Mas isso poderia gerar mal-entendidos como os cometidos pelos concretos, de que a língua seria um mundo em si. Não, não penso assim. Como não sou capaz de traçar a linha que separa mundo e língua, diria que o poema vive aínesta linha. Quanto às pobres metáforas, tão fora de moda, eu rebateria com uma pergunta: por que, de todas as figuras de linguagem, de todas as técnicas poéticas, pergunta-se "com quantas metáforas se faz um poema"? Isto é uma escolha estética pessoal, é claro, mas confundir metáfora e poesia está na base da crise poética do nosso tempo no Brasil. Vide os neobarrocos brasileiros dos menininhos brincando de safári com Mogli no Himalaia, ou das menininhas brincando de biólogas marinhas em Atlântida.


Quando escreve, qual o efeito estético visado?

Uma intervenção via linguagem no mundo, já que estão inextricavelmente amalgamados.


O resultado final do poema coincide sempre com sua idéia inicial?

Eu não acredito na poesia como veiculação de uma idéia. Na verdade, eu me oponho completamente à noção de poesia como a arte de veicular mensagens por linguagem metafórica. A poesia não participa dos jogos de linguagem de comunicação, como aprendi com Wittgenstein. Já existe gente demais no Brasil veiculando suas mensagens de sabedoria através de metáforas, bancando consultório sentimental, assistência social a famílias em crise e reconstituindo a merencória infância antes mesmo dos 40 (o caso mais gritante é o de Fabrício Carpinejar), se "auto-expressando" (coitada da poesia) como se seus sentimentos fossem mais sublimes que os de seus leitores.
Portanto, a não ser que se escreva da forma que descrevi acima, nunca se sabe aonde o poema nos levará simplesmente porque não existe idéia SEM o poema. O poeta pensa com seu poema, e não háassim objetivo inicial e produto final neste caso, apenas o processo em si.

Tem obsessão em reescrever o mesmo texto? Ou a emenda é pior do que o soneto? Guarda tudo o que escreve? Ou elimina sumariamente?

Robert Duncan considerava poemas remendados ou reescritos como novos poemas. Há textos que surgem prontos e em que não preciso mudar muito, há alguns em que venho trabalhando lentamente, adicionando e cortando lentamente há meses.


Para escrever, é necessário comer, beber, fumar? O que organicamente anima sua escrita?

Bom, alguns poetas vilamadalênicos parecem acreditar que sim, que precisa beber, fumar e dar em cima da moça ali da calçada. Deve ser efeito colateral de ler John Fante ou a prosa de Bukowski (que émuito melhor poeta). Ao mesmo tempo, certas poetas muito comportadas são bastante irritantes também. O desregramento de todos os sentidos pode ser praticado sem ajuda química, o que requer mais coragem. O que anima organicamente minha poesia é jamais esquecer que possuo um corpo biodegradável e o fato de que eu não tenho o menor interesse em ser um axioma.


Para escrever, precisa conhecer muitas cidades e ler todos os livros?

Emily Dickinson nunca saiu de Amherst e escreveu uma poesia tão importante quanto a de Whitman perambulando. Precisar, então, não deve, feito a Dickinson que só não viajou, mas leu muitíssimo. Não é necessário conhecer os 5 continentes para confrontar-se com o mundo pela linguagem, mas que é mais divertido, isso é.


Há idéias ou imagens que lhe perseguem no fio dos anos e das obras?

Meus poemas e livros são ciclos obsessivos. Sim, há muitas imagens e figuras que retornam o tempo todo.



3. Prosa do próprio mundo


Como define a sua poesia? Como caracterizaria suas ambições estéticas principais?

Se for poesia, já que há quem diga que não é, e não me importa muito se é ou não, defino-a como TEXTOS, defino minha poesia como textos, e não me importa ir muito além disso. Há quem vai entender. Minha ambição estética, ou ética, ou como ser humano (o que deveria ser o mesmo) é colaborar com o trabalho de artistas ao longo dos tempos que tentaram levar a si e aos outros a uma relação mais saudável com sua condição limitada organicamente, sem recorrer a remédios dualistas ou escapistas. 


O que sua poesia procura compreender?

O inverno.


Entre seus próprios poemas, quais os seus preferidos? Eles coincidem com os preferidos dos leitores ou mais divulgados em geral?

Os mais citados raramente são os meus favoritos. Ouço com freqüência comentários de pessoas que gostam de poemas como "Sempre o exílio" ou "Refrigerador", que eu talvez nem pensasse em incluir numa antologia. Falam também do "A pele medrosa cicatriza-se: e recomeça", mas deste eu tenho muito carinho, meu poeminha pré-pé-na-bunda, já que na maioria dos casos escrevi poemas pós-pé-na-bunda. Mas eu gosto bastante do "Ao ver Adriano Costa atravessar a Augusta" e ele é sempre citado. Poemas como "Breviário de secreções" ou as "Seis canções óbvias", que estão com certeza entre os meus favoritos, são sempre ignorados.


No fundo, sente-se escrevendo sempre o mesmo livro?

Ciclos obsessivos têm a característica de retornar.


Recebeu ou recebe conselhos importantes de escritores na sua trajetória? Como foi e é o diálogo com outros escritores?

O diálogo é importante, mesmo que pela discordância. Mas só fui conhecer escritores há pouco tempo. Meus amigos sempre foram artistas plásticos, músicos ou atores, gente muito mais estimulante que escritores, uns chatos, em geral.


Quanto tempo dedica à leitura de crítica literária? Concorda com a idéia de que ela, nos jornais e revistas, está mais digestivo-introdutória do que analítico-crítica?

Eu leio gente como Walter Benjamin, Hugh Kenner e Marjorie Perloff com MUITO PRAZER, eles são incrivelmente estimulantes. Alfredo Bosi também. Poetas críticos como Rosmarie Waldrop, Octavio Paz, Haroldo de Campos, Bertold Brecht, Jack Spicer, Alberto Pimenta, são mais prazerosos ainda. Crítica literária praticamente inexiste em jornais e revistas do Brasil. O que há são resenhas em que o autor lista características do livro da forma mais neutra possível (como se o leitor não fosse percebê-las ao ler) e ao fim elenca certos elementos de que discorda para ensaiar independência crítica. Um sindicato de covardes com medo de tomar partido e encarar os problemas críticos de seu tempo. Mais fácil escrever sobre os mortos, que não têm como reclamar. Há exceções, mas raras. E não estão em jornais e revistas, onde poesia e sabão-em-pó recebem o mesmo tratamento. O que há é gente que aprecia e considera bons, vamos ver que exemplos dar... tanto Fabrício Carpinejar quanto Marcos Siscar, e sim, senhoras e senhores, eu considero impossível respeitar e apreciar o trabalho dos dois ao mesmo tempo, se se quer encarar os que chamo de problemas críticos do nosso tempo.


Qual a relação entre seu trabalho e sua escrita?

Trabalho como DJ. Vide resposta abaixo. Também trabalho como professor de línguas como inglês e português. E isto é muito interessante como campo de pesquisa para o funcionamento da língua na cabeça das pessoas.


Qual a relação entre sua poesia e a música?

A de antigas sócias, doidas para voltar a trabalhar juntas, mas impedidas pela atual condição dos negócios.


Em que geração literária você se concebe? Ela tem um projeto definido?

Cedo demais para responder. Geração pode ser agrupada de forma cronológica ou estilística, e creio cedo para saber, em ambos os casos. Mas não ando sentindo projetos muito definidos que levem a organizar grupos.


O que além da poesia precisa ser lido?

Tudo precisa ser lido: poesia, prosa, teatro, filosofia, lingüística, gibis.



4. A poesia e suas questões em questão


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

Se ele realmente tem paixão pela linguagem, nunca será questão de obrigação, mas simplesmente de interesse, curiosidade, sede, vontade. Quanto mais, melhor. Mantendo em mente que um poeta pode ser erudito, mas um erudito não éum poeta. Tentei por um tempo, enquanto respondia esta pergunta, pensar num bom poeta que fosse uma pessoa sem muita leitura... não consegui achar nenhum. Mas é outra questão se erudição é sinônimo de "acadêmico".


A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?

Não.


Qual a função social da poesia?

Um poema é um ato de responsabilidade, pois o bom poema interfere na língua, que é propriedade de todos. Mario Faustino disse que o mau poeta é, como o mau professor, um criminoso. Exagero?


O que mais lhe agrada em um poema?

A surpresa e a intervenção no meu mundo. E já disse Ezra Pound: "Only emotion endures", adicionando que acredito ser possível emocionar o pensamento.


A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

Não se esgotou. Quanto aos caminhos, vide meu ensaio "Ideologia da Percepção", a sair na próxima Inimigo Rumor. Não haveria espaço para responder esta questão de forma séria e responsável numa entrevista.


Quais os grandes poetas da atualidade?

Na categoria VELHOS mas VIVOS: John Ashbery e Nicanor Parra. Entre os contemporâneos mais estimulantes, não vivo mais sem Lyn Hejinian, Rosmarie Waldrop, Friederike Mayröcker, Emmanuel Hocquard, Adília Lopes e Alberto Pimenta. 


Políticas literárias: faz qualquer negócio para sua obra ser editada? éjusta a percentagem que fica para o editor e para as livrarias? É justo que o escritor seja a causa produtora de um sistema literário que não o beneficia corretamente? O que se pode fazer?

Não, não faço qualquer negócio. Moro longe, bem longe das intrigas de boteco da poesia brasileira. Além do mais, os que costumam, no Brasil, usar suas coleções de poesia em editoras e revistas literárias como manobras para levar poetas jovens e inéditos para a cama são homens heterossexuais.
Fui editado, em todos os casos, porque meus editores, SEM ME CONHECER, leram meus poemas (que tratei de fazer chegar a suas mãos) e gostaram deles, acreditaram em sua qualidade. Gente corajosa. Foi o caso do meu primeiro livro na Editora Bem-Te-Vi (escolhido por Lélia Coelho Frota, Armando Freitas Filho, Silviano Santiago, Luiz Paulo Horta e Lucia Almeida Braga) e do meu segundo na CosasNaify/7 Letras, escolhido por Carlito Azevedo, este editor corajoso e generoso o suficiente para não se importar com a politicagem poética no Brasil e editar, numa coleção como a Ás de Colete, a dois zés-ninguéns como Angélica Freitas e eu. O mesmo se deu com minha inclusão na antologia argentina "Cuatro Poetas Recientes del Brasil", editada e traduzida por Cristian de Nápoli, que por acaso leu meu livro em uma livraria em São Paulo e me contatou, sem se importar se eu dirigia alguma revista, ou tinha qualquer outro "cargo de poder" na "cena" poética do Brasil.
Quanto às outras perguntas, é justo que o leitor pague TANTO por um livro no Brasil? A coisa toda precisava ser mais justa. O escritor receberia mais se fosse possível vender mais, a preços mais justos. Anda impossível pagar por livros no Brasil. Eu, como nunca imaginei viver de literatura no sentido financeiro, não me importo muito com a questão. Queria apenas que os livros fossem mais baratos para os leitores, já que eu também sou um.


A figura do escritor precisa ser mais mistificada ou desmistificada? O que isso envolveria?

O escritor precisa ser tratado com o respeito que merece, nem mais, nem menos. Lida com um bem comum importantíssimo de uma comunidade, que é a linguagem. Istolhe traz grandes responsabilidades, que deveriam ser cobradas, e deveria trazer-lhe respeito. Mas já estamos longe do papel do bardo, do xamã, do místico. É melhor nos acostumarmos, o que nos pouparia de passar por papéis ridículos, como alguns poetas, metidos a sacerdotes, passam.


Quais são os vícios e as virtudes da poesia brasileira moderna e contemporânea?

Complexo demais para o pouco espaço, sem acabar repetindo o que já disse em minha entrevista à Inimigo Rumor. Portanto, refiro os leitores a ela, editada no número 17 da revista e disponível na internet no site da revista Germina, ou novamente ao meu ensaio "Ideologia da Percepção" a sair no próximo número.



5. Museu de agora e depois


"Escrever sobre escrever é o futuro do escrever"? (Haroldo de Campos)

Todo bom poema traz em si, implícitos, uma crítica da poesia anterior a ele e caminhos para a que está por vir, o que torna poemas estritamente metalíngüísticos uma chatice desnecessária e sem tamanho.


Qual é hoje a marginália da poesia brasileira? Ela ainda é possível depois da internet?

A marginália hoje é a mesma de todos os tempos. Os bons. Os que buscam o necessário. Os que estão mais interessados em intervir na tal de tradição que contribuir com ela. Todos os momentos em que houve mudanças foram momentos em que poetas perceberam que os métodos de escrever poesia estavam em descompasso com o mundo e suas descobertas em outros campos ou transformações em suas maneiras de viver. E não vejo em que a internet pode mudar isso.


Que livro prepara para logo?

Meu segundo livro, uma coletânea com 3 textos ou seqüências longas, está no prelo. Preparo minha terceira coletânea em português e minha primeira em inglês.


Como você se vê frente ao recebimento de originais? Comenta tudo o que recebe?

Não comento tudo por falta de tempo. Trabalho muito e sobra-me muito pouco tempo para correspondência.


O que pensa sobre a algaravária?

Todos os poetas anteriores responderam entusiasticamente sobre os aspectos positivos do Algaravária, então vou tentar complicar um pouco as coisas, num ato crítico que eu considero ser de respeito também.
Em primeiro lugar, me agrada que vocês usem o termo "dissonantes" e não a lengalenga mais comum de "polifônicos" ou sobre a "multiplicidade de possibilidades técnicas e de vozes da poesia contemporânea" pós-qualquer coisa. Seria necessário definir esta dissonância, e como está ali, creio que seja entre os poemas dos que contribuem semanalmente e convidados, sendo todos poetas muito diferentes em estilo e projeto, já que não deixa claro a que harmonia estabelecida tenta-se comparar esta dissonância. O que acaba fazendo com o que o Algaravária, sem querer, talvez, contribua com este discurso que acabo de criticar, o de que hoje em dia pode-se escrever poesia como quiser, que "todas as formas históricas são viáveis aos poetas". Discordo disto, e já disse o porquê em várias ocasiões. Além disso, por mais que seja interessante haver um fórum de discussão, acho sempre importante desconfiar de tentativas de centralização, todos nós deveríamos sempre manter isso em mente.
Também questionei junto aos organizadores do Algaravária se pretendiam manter este ritmo de 1 poeta por semana, o que, em minha opinião, tornava impossível manter qualquer nível de qualidade. Responderam que criam ser possível mantê-lo, e que podiam pensar em 150 poetas bons para publicarem. Infelizmente, discordo do otimismo. A não ser que estejamos passando por uma nova Renascença e não fiquei sabendo porque a Globo não chega aqui na Alemanha. Mas me lembreiagora que em nenhuma fase da história houve, em um mesmo momento, tantos poetas de qualidade. Ezra Pound diria que nem mesmo juntando todos, de todas as épocas. Não precisamos de mais um tour panorâmico pela geração, precisamos de quem assuma os riscos de uma leitura crítica da poesia sendo feita no Brasil e que tenha a coragem de dizer "isto é necessário" ou "isto é desnecessário", e que seja capaz de dizer o porquê, de forma honesta e direta. Na balbúrdia da poesia no Brasil de hoje, está na hora de incorporar ao MAKE IT NEW um MAKE IT NECESSARY. Mas os sacerdotes do vago, que confundem poesia com uma vaga noção de poético não vão entender e farão mais um discurso sobre como a poesia é independente do mundo que a cerca, ou sobre a liberdade poética de se fazer o que se bem entende (defendo-a também) enquanto fazem, no entanto, suas manobras políticas para assegurarem seu lugarzinho ao sol da história literária.

algaravária
(33) no algaravial

 

sexta-feira, maio 26, 2006
fase blues

exterior: dia

céu imoto
desabitado de nuvens
e astros -
tinta restante
extinguindo-se
sobre fundo branco
- difícil falar
de azuis sem vê-los
sem detê-los em pleno vôo -
aplacado vento
aves pairando no nada
planície desolada -
imperfeita manhã.

Felipe K.
(2) no algaravial

 


IMPAGÁVEL

para o meu impagável espanto
o gerente do meu banco

sem economizar palavras dizia
a vida é mais que poesia

e portando o cartão de crédito
fico em dívida com meu verso

Paulo de Toledo
(3) no algaravial

 

quinta-feira, maio 25, 2006
O Dia da Noite

O Cientista


É pecado
desprezar
todas as variáveis
desse corpus encarnado vasto

É pecado continuar
sem explorar
minúcia
sem aguardar ponto ideal
nas condições enunciadas
ideais

É pecado, é pecado, é pecado

Permita que me estenda - em calma fria
um pouco mais
sobre a mesa
seu corpus pode esperar minha
descoberta
minha conclusão

Transcender toda a descrença
Perdoa senhora, hei pecado
Sobre vosso mistério

Carol Custodio
(3) no algaravial

 


esvaziando gavetas número oito

PRECE

a morte é um instante abstrato

que pesa antes de nos roubar

aqueles a quem amamos

e depois torna-se leve

d?uma leveza insuportável

como a felicidade

que sempre parte

sempre

*

[eu tenho medo de escrever esta lista

com nomes que me custam caro perder;

eu tenho medo de estar certo e nada mais importar;

eu tenho medo de dormir sem ter sonhos pra sonhar]

*

é preciso olhar ao redor

e sentir falta do sol

pra que tudo adquira sentido

pois é entre 5h00 e 5h45

que mais me aproximo

da minha fé vazia

misturada ao que não entendo

ao que me rumina a alma

ao que me falta esquecer.

douglas D.
(1) no algaravial

 

quarta-feira, maio 24, 2006
Vésperas do trópico


[Fazer água VIII]



A infância da água
penetra o rosa dos poros,
penteia como língua
o açúcar da sede.

Os cabelos acariciam
o meneio do mar.

À bordo da espuma,
o coração marinho
da cavalgadura.

As mãos não sabem
perpetuar a brancura.


* * *


No rés do fundo,
o ventre chumba
a flauta dos corais.

A pérola remota
do céu
se fecha no rosto,

ostra.


* * *


Despeço minha vida
sem datar o destino,

sem dedurar
a derradeira epígrafe.

Os rumos revelam
desvelos.

.

Carlos Besen
(2) no algaravial

 


Oito Riscos

Na Quitanda

Das conversas que ouço na hora do almoço a que mais me interessa é a das duas moças na mesa do canto interior direito:
-"Uma questão de caráter. Há uma falta de compromisso dele nessa história. Estou me sentindo uma palhaça".
-"Visualiza a cena":
É quando descubro que as perguntas deste tipo são freqüentes. Existiam todas as possibilidades, menos esta.

Daniela
(1) no algaravial

 

terça-feira, maio 23, 2006
saraIvada 8ito

é tão simples que parece besta -
conto de gente com coração

Você me oferece,
THE BIG ONE
onda em uma bandeja,
dia de sol por um copo d´água,
você me devolve as minhas pernas,
desenrosca o meu umbigo por dentro,
e faz tantos fios
que de teia vira desenho vira traço vira mundo vira bonito virá vindo

não me penduro nem me desço
nós nunca começamos
porque qualquer ponto é sempre um acabar.

não te prevejo nem te meço
nós nunca costuramos
porque amor em conserva azeda

Eu te ofereço,
MY LOVE LUNGS
te soprar por aí,
cuidar da tua leveza sendo lilith e ceres,
e todos os amores que pudermos ter
que de teia virão desejos vira abraço virá fundo sem cansaço
virá bonito, como os tempos de virar vinho.

francieli spohr
(4) no algaravial

 


Imp. 08

Relato


.....Azul..................................... ´´
...........Fixar......................... -se
Sem
Tencionares......... flores atraves
Luz aa nil........ (
Nessa pintura de caracteres
....................................)
Qu' nada representa
Furos no..... arasaves
Syllabas de tempo

Thiago Ponce de Moraes
(2) no algaravial

 

segunda-feira, maio 22, 2006
96020-008

prestidigitação

o fim não arquiva as tristezas súbitas
nem com sutileza nos deixa prontas para outras
mas veja, eu posso, com um arrastar do mouse,
selecioná-las, mover tudo pra lixeira

Angélica Freitas
(5) no algaravial

 


Ninguagem

A poética de Maiakóvski miseramente empregada





Camarada,
entretanto tantos
és.
Não duvido
a escravidão destes versos
famintos.
Não penso em forma

EXPRESSO!
e perco o excesso
no incorreto
que o digo.

Bem diz:
Quando o poema
é o resto
da sujeira do Poeta!
E o poeta sofre
a uma enorme
distância da República.

"E agora o que me diz?"
saiu no caminho de casa
a palavra asa
que não conservo
uma só
casca.
E agora o que te digo?
na porta de casa saiu...
não a palavra...

mas a própria casa.

Daniel Sampaio
(2) no algaravial

 

domingo, maio 21, 2006
Bernardo Soares - III

Desde que a paisagem é paisagem, deixa de ser um estado de alma. Objectivar é criar, e ninguém diz que um poema feito é um estado de estar pensando em fazê-lo. Ver é talvez sonhar, mas se lhe chamamos ver em vez de lhe chamarmos sonhar, é que distinguimos sonhar de ver.
.
De resto, de que servem estas especulações de psicologia verbal? Independentemente de mim, cresce erva, chove na erva que cresce, e o sol doira a extensão da erva que cresceu ou vai crescer; erguem-se os montes de muito antigamente, e o vento passa com o mesmo modo com que Homero, ainda que não existisse, o ouviu. Mais certa era dizer que um estado de alma é uma paisagem; haveria na frase a vantagem de não conter a mentira de uma teoria, mas tão-somente a verdade de uma metáfora.
.
.
.
[trecho do 72º fragmento do Livro do Desassossego]

Thiago Ponce de Moraes
(2) no algaravial

 


Bernardo Soares - II

A artificialidade é a maneira de gozar a naturalidade. O que gozei destes campos vastos, gozei-o porque aqui não vivo. Não sente a liberdade quem nunca viveu constrangido.
A civilização é uma educação de natureza. O artificial é o caminho para uma apreciação do natural.
O que é preciso, porém, é que nunca tomemos o artificial por natural.
É na harmonia entre o natural e o artificial que consiste a naturalidade da alma superior.


[trecho do 50º fragmento do Livro do Desassossego]

Thiago Ponce de Moraes
(0) no algaravial

 


Bernardo Soares - I

Talvez o meu destino seja eternamente ser guarda-livros, e a poesia ou a literatura uma borboleta que, pousando-me na cabeça, me torne tanto mais ridículo quanto maior for a sua própria beleza.



[trecho do 18º fragmento do Livro do Desassossego]

Thiago Ponce de Moraes
(0) no algaravial

 

sexta-feira, maio 19, 2006

enquanto 4


(fragmento)




nove vezes abre-se a ferida.....lentamente
como se abre....o mar.....inteiro.....indestrutível
Sephir.....Sephir.....:.....o nome não revelado
outro a outro.....:.....nem isso.....nem aquilo.....:.....a coisa é
.
.
.
.

Pablo Araujo
(2) no algaravial

 


"o papel"

o papel
do poeta

fazer

da letra
música

do sentido
olvido

absoluto

Paulo de Toledo
(0) no algaravial

 


fase blues

noturnos
(continuação)


V

dizia da noite
cansada
pesando de solidão
urbanas espirais:
férvidas frustras
faíscas -
ínfima luz
- onde mais o breu


VI

macula a calma
um ondear de asas
auras ciano-negras
de pálida natureza:
gaivota
solitária ao mar
(- ao avistá-la
assomada ao céu
tomei a noite
por mais escura)

Felipe K.
(2) no algaravial

 

quinta-feira, maio 18, 2006
O Dia da Noite

Prisão

perscrutar a cidade
a partir dos teus olhos
onde mora abelha carpideira
e para onde vão teus anseios mais rudes
gulas e funerais

acompanho a cidade a partir desses teus olhos
não ouso maior ventura - pairo reticente
peço licença aos mansos que abrigo
que não se aflijam ao meu descuido
de permanecer impressa em teus olhos

difíceis, apertados, rascunho de todo perigo.

Carol Custodio
(2) no algaravial

 


esvaziando gavetas número sete

fratura - por dentro dos ossos, sombras invertidas

enervadas palavras - MÚSCULOS

um tom

sobre-


vive


distante



PESO & CORES

[o recuo é impreciso quando o corpo


sonha]



no hálito trazia silêncio -
um eco sujo de mar

douglas D.
(2) no algaravial

 

quarta-feira, maio 17, 2006
Sete Riscos

Under attack

Já tarde. Há algum tempo (desde que nascemos) fingimos. Mas nada deu errado. Sabíamos de tudo. O fogo nas ruas. Sob controle. Total controle, nós temos o controle. Quem não tem controle que não pegue o ônibus que não passa porque foi queimado. Sempre sobra para eles. Tristeza. Sem poesia. Eu não acredito. Mas nada deu errado, lembrem-se: nada deu errado. Paris? Certo. Nova Iorque? Certo. Capão Redondo? Muito errado. Brasil? Depende, mas ao que parece também errado.

Daniela
(2) no algaravial

 


Casca de pálpebra


[Fazer água VII]




Minha paciência estala,
voz de nó
no fogo dos dedos.

Ainda (a)guardo o gesto,
a bengala de pólvora
entre fósforos sadios.


* * *


Atraso
minha aspereza.

Sou desatento,
luz qualquer

chamando de longe
a distância para perto.



* * *



O que oscila é dia.
O jazigo dos olhos:

ou árvore para sombra,
ou persiana de transparência.



* * *



A pálpebra,

uma língua atrasada
para a água.



* * *



Compreendo o mundo,
piso como enxada.

Não tenho paciência
para durar.

O fogo me descasca.

Carlos Besen
(3) no algaravial

 

terça-feira, maio 16, 2006
saraIvada sépTima (e negra)

o MEU estômago não tem rebelião

Há o não ter fome que é só comendo se vai sanar.
Um sabonete demarcando a minha sujeita,
o meu peito naquela mão na lixeira.
Eu tenho um pé sendo esmagado no concreto que sangra,
entre as grades de pra sempre no escuro.
Eu tenho um nome pra quando tudo explode:
"sua branca média bem nutrida, sua vaca gorda mal agradecida,
dieta de fingimento, alma se contendo, duas garrafas do melhor vinho,
sua puta de biblioteca, preguiçosa de novela"
Uma vadia inventiva, eu não caibo em nenhum dos mundos,
eu não tenho fundo porque sou mais em cima,
nem a nata
o leite do meio, eu sou o que talha mas não dá queijo.
Isso não era pra ser sobre mim.
Era pra ser sobre os presos e os bandidos,
além do menino armado atrás do meu umbigo.

francieli spohr
(4) no algaravial

 


Imp. 07

Finis operae


Estar descansado. Dedilhar no piano
Do qual as cordas cortara. Percebes
O trágico é
Insustentável.

.

Estar em descanso. Nada,
Nada recorda;
Iças.
Raio origem,

Céu robusto de contrátil
Luz.

Thiago Ponce de Moraes
(6) no algaravial

 

segunda-feira, maio 15, 2006
Ninguagem

Daniel Sampaio
(2) no algaravial

 


96020-007

i stopped fucking faces

como alguém a um quarto
chegasse
e ao sentir o mesmo sexo
soubesse
exatamente o que fazer

e o fizesse

e gostasse tanto
que a si mesmo perdesse

e depois de tanto
pra rua saísse

quer mais mas nao quer ver
mais ninguém mais nunca mais mais

só depois os flashbacks
a perda momentânea das maos

Angélica Freitas
(12) no algaravial

 

domingo, maio 14, 2006
Ricardo Reis; idéia, emoção e ritmo

Quanto mais fria a poesia, mais verdadeira. A emoção não deve entrar na poesia senão como elemento dispositivo do ritmo, que é a sobrevivência longínqua da música no verso. E esse ritmo, quando é perfeito, deve antes surgir da idéia que da palavra. Uma idéia perfeitamente concebida é rítmica em si mesma; as palavras em que perfeitamente se diga não têm poder para a apoucar. Podem ser duras e frias: não pesa - são as únicas e por isso as melhores. E, sendo as melhores, são as mais belas.



Ricardo Reis
[Idéia, Emoção e Ritmo]

Thiago Ponce de Moraes
(6) no algaravial

 

sábado, maio 13, 2006
Algaravariações (05): Daniel Glaydson





Daniel Glaydson, poeta ainda inédito em livro solo, nasceu em Picos-PI, passou a maior fatia da vida até agora em Campos Sales, nos confins do Ceará, e atualmente habita Sobral, algo Ceará algo United States. Por ali cursa Letras - Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Estadual Vale do Acaraú, dividido entre pesquisas sobre a experiência trágica da loucura, o renascimento da poesia épica e a poesia contemporânea - coisas não tão estanques quanto parecem. Pratica poesia e tradução, mas labora oficialmente como servidor público federal - coisas que são bem estanques mesmo. Anda editando, faz um ano, a revista virtual de literatura & adjacências Famigerado e, por fim, por enquanto, tem também a exposição "P.o.l.i.s Insania" de poesia e fotografia, juntamente com o fotógrafo paraibano Marcílio Guedes.

Confira logo abaixo quatro poemas e a entrevista gentilmente cedidos à Algaravária.







QUATRO POEMAS



"da resistência do sopro", I


oiço uma ventania.
dentro ou num lugar não sei onde,
leva consigo algo - que não sei quê.

ou deixa, aceita, permanece, transcende

sinto esse vento de deserto,
não o calor a transbordar-me pelos poros
nem a sede a fazer-me suplicar miragens
a solidão
a fadiga
ou a perda

não há em meus cabelos terra
nem me seguem pegadas
ou vejo estes areais a correr fino por meu corpo

mas oiço.

e o que sinto, se sinto
é que deus, se existisse, se existe
perene, passa, sequioso, e sopra.

e não há nada, entre nós,
a ser dito.



"da resistência do sopro", II


vem
no equilíbrio de sua cadência eterna
arrancar-me dos pés o chão

sim, sugando-me
arrancar o chão
como um tornado ao fundo do mar
levando a areia
o espaço e o tempo

perca-me
em distância e profundidade
em fundo e forma
em mulher e homem
espaço e tempo

sim, machucando-me
em veneno de néctar e sal
et en diverses langues

equilibrado na cadência eterna
da tua sinfonia de vômito branco
mar

equilibrada na cadência extrema
da tua margem sem cor
mulher

dilacerem-me -
lubrifica os corpos
e interrompa os beijos
marítima

exército mulher

pela cadência eterna
daquela sinfonia de vômito branco

anterior a deus, amo-te

por sete gerações
pretérito e além

anterior
a deus



"p.o.l.i.s insania", I


...........ninguém tece a manhã além do concreto, imensidão de matéria oca que esconde seu negro sob a mais viva cor possível em suas vísceras - é a cor de quem vê e de quem pisa - cinza infecto
...........além do espetáculo único e cotidiano de barulhos impossíveis, para cima, para cima, para cima - de velocidade e bocejos, de decadência e sorrisos - são mulheres que saem a comprar flores, são homens que voltam da porta para engendrar cristos, são gritos de um moribundo a atravessar paredes, são cortes eternizando pactos
...........ninguém tece além de um amontoar-se de gente que é nenhuma gente, um abalroar-se de pernas que é nenhum corpo. muchedumbre de quienes. diz-se tarde, e já é tarde, e não há tardes
...........após a exibição não-vista e épica do sol a romper o ventre eternamente virginal do horizonte, olvidando lá uma mancha do mesmo sangue que dançará pelas calçadas e que será limpo ao novo outro amanhecer, borrão de sangue em busca do qual virá a noite, a farejar, sensual
...........pouco mais que as estradas possíveis, bem menos que a miscelânea de sombras projetadas em redor, como uma rosa-dos-ventos apontando a nenhures. agora, são ruas proibidas, são olhares de medo multiplicado, são corpos quase nus sob os postes
...........pero de nuevo el mundo se ha salvado



"p.o.l.i.s insania", II


feição fazenda desfeita

cidade de feitio
cidade feito bicho

bicho solto
cidade feita

...
cidade-passas







ENTREVISTA



1. Trajetória de antes


O que falta para publicar o primeiro livro?

Já faltaram muitas coisas, inclusive hesitação. Hoje continuam faltando as muitas coisas (aquilo que falta a todos os jovens escritores, aliás, e a muitos não-jovens também), enfim, a diferença é que, hoje, uma coisa cessou de faltar: a hesitação.
Sei o quanto é doloroso abrir um livro de poemas ruim, e oro para cometer o menos possível tal crime.


Ser poeta é mais talento ou esforço? Descobriu-se ou inventou-se poeta?

Descobrir e inventar, já basta o que faço com o ser-eu, muito às vezes.
Enquanto escritor de poemas, apenas arquiteto-me, planeio-me, arrisco construir-me, sorrateira e aflitamente.
Quanto a talento ou esforço, penso ser este um binarismo que nada diz. Ou seja: e, não ou.


Tenta vários gêneros literários? Ainda os pratica?

Na adolescência pratiquei muito o epistolar. Tive um clube de correspondências que foi divulgado até na revista do Zé Carioca... (risos)... Depois tramei ser crítico de cinema, e lotei cadernos e mais cadernos com resenhas da pior qualidade sobre milhares de filmes, ainda na dita adolescência. Se bem que não se pode considerar nada disso muito bem, sobretudo da maneira que se fazia ali, como gênero literário, mas é a ancestralidade que me persegue.
Hoje, pratico a poesia, por querer estar mais perto - contar estórias não me atrai nada, por enquanto; não capto bem a poesia no prosaico.


Há uma obra com a qual tenha descoberto a literatura?

Descobrir a literatura? Aquela relação que está se constituindo, que está se tornando obscuramente visível, mas ainda não pensável, entre a linguagem e o espaço, dito Foucault, quem me dera.
Estou descobrindo sim a poesia, que comecei a vislumbrar no cinema antes mesmo do poema, e que hoje persigo nas palavras, dependência química.
Um livro? O último, porque é fogo mais sem tamanho, a descoberta não cessa - Algo : preto de Jacques Roubaud.



2. Psicologia da composição


Com que se inspira para escrever? O que é matéria para a poesia?

A matéria da poesia é exatamente o avesso da matéria. Lembro-me aqui de alguns versos de Carlos Nejar: "Mas o amor é a energia predisposta ao / inteiro silêncio. À energia da salvação. / E a salvação éo avesso da matéria". Estes versos leu-me recentemente uma querida poetisa numa agradabilíssima noite. Ainda não tinha eu percebido sua circunstância como uma declaração, só agora que caiu a ficha... (risos)...
Capitulando, tudo, qualquer coisa, pode posicionar-se em tal avesso da matéria que é matéria da poesia, mas daquele tudo, daquela qualquer coisa, a essência apenas. E daí a peleja: como comunicar aquele essencial com palavras, palavras que aprendemos para reificar? Talvez descondicionando, desconstruindo então, e inventando-as, as palavras, mágicas, ou retornando-as a seu estado puro inicial, onde era magia.
Inspirações, indefiníveis.


Com quantas metáforas se faz um poema?

Gosto de Bergson quando diz que a metáfora é uma possibilidade de aplacar o espaço da linguagem e deixar passar o fluxo do tempo; gosto de Schopenhauer quando diz que a metáfora éuma das portas da poesia para transcender o conceito e fazer apreender a Idéia.
A metáfora independe de seu uso semântico explícito, e de suas quantidades, muito menos; ela desvela uma unidade íntima.


Há idéias ou imagens que lhe perseguem no fio dos anos?

Falta-me o fio dos anos, ou falta costurá-lo. Falta-me sobretudo memória para que se persiga. Minhas lembranças das primeiras idades são de uma ausência-reticências tal. Eu sou quem persigo alguma idéia ou imagem que me diga, e assim, só pode que no futuro meu leitmotiv será minha cena original... (risos)...



3. Prosa do próprio mundo


Como define a sua poesia? Como caracterizaria suas ambições estéticas principais?

Prefiro experimentá-la muito ainda para poder defini-la, antes preciso lapidar o paladar, aguçar a vista, etc; ou melhor nem, definir é dar fim, coitada, nem teve começo direito, nem esquerdo, ainda.
Ambiciono alimentar a parte do fogo, só.


O que sua poesia procura compreender?

A música do outro, talvez aquela ausência-reticência da memória, a própria magia da língua, a possibilidade de estar perto através de um outro espaço, as essências, os descondicionamentos, algo processo mormente por compreender, e de novo a música do outro.


Recebeu ou recebe conselhos importantes de escritores na sua trajetória? Como foi e é o diálogo com outros escritores?

Muito do que sei/sou brotou do diálogo com outros escritores, seja via palavra escrita, via palavra conversada.
De conselhos, conheço uma nova-franco-mineira algo desorientadora nesse sentido, conheço também um querido heteronímico paulista que bem os profere em verborrágicas quantidades - engraçado que este último parou no comunismo e a primeira inventou de acreditar num hiper-modernismo, jogos utópicos ambos, para disfarçar a incomunicabilidade.
Ah, dentre muitos cearenses e dalhurenses com diversos conselhos a dar mas nem um pouco dispostos a segui-los... (risos)...


O que além da poesia precisa ser lido?

Além da poesia deve haver apenas uma distância, para além dela, distância mesma. Dito Schiller, poesia é a força que atua de maneira divina e inapreendida, além e acima da consciência. Acima do iceberg, não abaixo, submerso; acima, há só o céu.
Precisar é coisa muito forte, mas vá lá, é preciso ler o que há de fundamental na filosofia, é preciso ler as dramaturgias fundamentais, os romances, enfim, os pontos de continuidade do esgotamento são precisos. Mas, a bem da verdade, leio bastante o não-fundamental também, talvez.



4. A poesia e suas questões em questão


Qual a relação entre poesia e religião? Sua obra manifesta, de alguma forma, essa relação?

A relação é de ter a poesia como uma seita mesmo, misticismo. Não há outra maneira de entender tamanha entrega carnal à metafísica tamanha.
Costumo dizer que nossos poemas prediletos, ou mesmo cada um daqueles que no ato imediato de sua leitura fizeram exalar aquela força inapreendida, arrepiar os pêlos, eriçar a espinha, articular um puta-que-o-pariu!, enfim, vocês sabem bem do que tento falar - tentar, sempre uma tentativa -, enfim, cada um desses poemas, costumo dizer, é um dos nossos evangelhos.
Isso não tem necessariamente a ver com o poeta ser algum tipo de religioso (além da religião da própria poesia, esta obrigatória), mas é muito interessante perceber como alguns dos melhores poetas do século passado exacerbaram algo disso na obra: Yeats e sua Hermetic Order of the Golden Dawn; Pessoa, também no ocultismo; e o próprio Jorge de Lima, cristão e poeta colossal.


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

Acho que foi o Ezra - desculpem-me se erro - quem comparou a complexidade do aprendizado de escrever poesia com o de tocar piano. Um pianista tem que aprender muitas coisas, de cara uma nova linguagem, símbolos, gramáticas e semânticas totalmente outras; imprimir uma habilidade, força-suavidade e velocidade tal aos dedos; desaprender também, uma certa coordenação motora que precisa ser substituída, uma certa organicidade no perceber o tempo que deve ser reorganizada, etc. Lá se vão muitos anos, décadas em busca de uma possível perfeição.
Instigante comparar esse processo com o do poeta: tem-se que aprender muito também, muitas técnicas; desaprender tão quanto, muitos condicionamentos. É essencial para se saber uma língua a fundo, entender outras. É uma conseqüência da leitura constante a habilidade da hermenêutica. Tais não se aprendem obrigatoriamente na universidade, existem outros meios.
Mas não esquecer que é preciso aprender (ou melhor, reaprender), mormente, a sentir sem percebê-lo nem refleti-lo (ou de alguma forma distorcer a relação desse triângulo). E depois, como escrever sobre uma sensação bruta, distante das barreiras da percepção e da reflexão? Aí uma das impossibilidades da poesia, seu inefável não-inefável.


Qual a função social da poesia? Qual o papel do escritor na sociedade?

Pergunta-se da função social de uma seita inscrita na região da sensibilidade? Sim, é possível, mas nenhuma resposta terá a mínima importância.


Como encara a Internet? Como utiliza a internet? Fale um pouco da idéia da revista Famigerado - o que o motiva a editá-la e mantê-la?

Em fevereiro último, ocorreu por aqui um evento onde Edson Cruz (da Cronópios), Carlos Emílio e eu discutimos um pouco a respeito da Literatura na internet, seus problemas (o excesso, a superfluidade, o status, etc) e suas várias qualidades. É um tema interessante de ser pensado mas que, com algum deslize, pode acabar em profetismos ou futurismos tolos.
A revista Famigerado veio com a proposta de construir-se enquanto porto de qualidade literária na rede, e ainda como ponte de diálogo entre a produção destas bandas de cá com a do resto do país e de fora também. Tal projeto se concretizou e continua se firmando - essa é a grande motivação.


A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

Gostaria de saber desses caminhos para poder evitá-los.
A poesia já nasceu esgotada, em Homero. E, felizmente, continuou se esgotando por milênios. E continuará a se esgotar, indefinidamente, para que possamos encontrar, como disse, os pontos de continuidade do esgotamento, e gozar.


Qual a melhor editora brasileira? E qual a que edita melhor a poesia?

Não me costumo encantar por editoras às vezes por projetos gráficos. Nesse sentido, encantam-me a Ateliê Editorial, a Cosac & Naify, entre algumas poucas outras.



5. Museu de tudo e depois


Alguma epígrafe que o acompanha sempre? Algum epitáfio lhe contém?

As epígrafes são tantas - todos os meus evangelhos são perfeitas epígrafes. Deixo esta aqui: "Hablo una lengua que llena los corazones según la ley de las nubes comunicantes", Vicente Huidobro em Altazor o el viaje em paracaídas.
Sou muito jovem para já estar contido por algum epitáfio. Se fosse possível, para pedra tão solene, um plágio, ficaria com o mesmo autor no mesmo livro: "Se abre la tumba y al fondo se ve el mar" - e assim está, dito no imperativo, na lápide do próprio Huidobro.


"Escrever sobre escrever é o futuro do escrever"? (Haroldo de Campos)

Prefiro o que soa mais adiante - escrever sobre o escrever é não escrever sobre não escrever, nas suas análises possíveis noves fora.
Essa coisa de que a única matéria da literatura é a própria linguagem nada tem de futuro, foi assertiva moda nas décadas de 50-60 levada na breca da moda estruturalista - e daí a mal-entender isso como meta-literatura exclusiva, um passo torto.
Sim, todo poema diz da palavra, assim como todo teatro diz do corpo, toda pintura diz da cor, toda arquitetura diz da pedra, toda música diz da vibração, mas dizem, ambas, artes, a seu modo, sobretudo dos essenciais no humano.


O que pensa sobre a algaravária?

Um projeto muito interessante. É talvez uma tentativa de resposta exatamente àquele problema do excesso que assola a Literatura publicada na internet, predito. Aportar algumas dissonâncias que andavam dispersas.
O que me assusta ou surpreende, não sei bem, é essa capacidade de escrever tantos poemas (1 por semana é algo assustador ou surpreendente mesmo), e percebo também níveis de consciência poética bem distintos dentre os algaravarianos.
Continuemos.

algaravária
(4) no algaravial

 

sexta-feira, maio 12, 2006
"forçar"

forçar
as bordas

transbordar
para fora

do círculo
do zero

criar
do nada

o que os
números

não
abordam

Paulo de Toledo
(1) no algaravial

 


fase blues

noturnos

I

negra escultura, escarpada
rocha que margeia -
abismo súbito da paisagem
queda em esplendor
contra um cinzel de estrelas:
treva que promete
o infinito


II

turva
sua natureza não diz
o espírito

rechaça olhar
impermeável

lado a lado
devolve um brilho:
bauxita


III

- mas o que produziu
em meu corpo
o degelo
de lúcidos prismas
e fez cair
esta noite
recuada de sombras?


IV

noite silenciosa
ou quase
- ao que rangem
pétalas ao vento -
lua a arder
em negro
- ogiva
onde a luz
não refrata - fratura

Felipe K.
(3) no algaravial

 

quinta-feira, maio 11, 2006
O Dia da Noite

Prova B

Cite, explique
(EXEMPLI)fique
à luz de nossas
discussões
em sala
(de aula)
tudo o que
te faz

(não querer estar aqui)

Carol Custodio
(2) no algaravial

 


esvaziando gavetas número seis

PERTURBAÇÃO
daquilo que se repete incansavelmente dentro da alma
fica o silêncio pesando sobre nossos sonhos
[restos de sonhos feitos de fé]
*
ISOLAMENTO
daquilo que resiste à sobrevida do instante
fica o escárnio das auroras devoradas por gafanhotos
[a palidez da lua velando teus olhos]
*
ABISMO
daquilo que escapa aos presságios do tempo
fica a solidão que não me deixa rabiscar girassóis na boca de deus
eu preciso sair daqui!
eu preciso sair daqui!

douglas D.
(3) no algaravial

 

quarta-feira, maio 10, 2006
Seis Riscos

Cada um lembra da parte que restou.
Afinal, nem todos têm a mesma memória. Meu pé atrapalha os transeuntes que quase tropeçam. Quase não ligo, penso na mulher que carregava um cachorrinho na trilha da Chapada. Será que é a mesma que vejo agora? É o mesmo tipo, o homem também parece o mesmo mas não é (ele diz "você me pega pelas palavras", porque ela tinha dito: "Repete. Repete o que você disse"). Ele não repetiu.
E ela: "Você está perdendo tempo".
De modo que achei óbvio e ele colocou (ou fingiu colocar) o rabo entre as pernas.

Daniela
(4) no algaravial

 


Hálito Marinho


[fazer água VI]


I

A água não refuta um abraço.
O amor aquático enlaça para dissolver.

Se afogo, invento sua noite,
sua paixão clara, seu afago.


II

Água: não um abraço solto, um soluço,
um vento jogando folhas ao redor.

Água, evito o desperdício de esquecer.


III

O mar desaparece o rumor.

A água, véspera oblíqua,
não costura cicatrizes.


IV

O líquido se constela,
uma pedra esfarela fácil.


V

Água, um grão de ar,
uma carícia sem piedade,

um mundo para o mundo.

Carlos Besen
(2) no algaravial

 

terça-feira, maio 09, 2006
saraIvada siXta(06)

Afoitos comem blues

Há fogos em fatos;
não tão leves que passem com água, sopro ou enfado,
há fogos que não cabem nas camisas,
apagam o limite dos punhos e desabrigam os botões.
Há fogos na água,
mascando as rugas do lençol que você rasgou porque não ardiam.

judith
judiaria.

Era uma vez uma luz e as suas tantas mordidas,
há fomes que não queimam,
e fogos azuis transparindo por causa das foices.
As vezes também dá incêndio no mato da casa na esquina

judith
me judiaria

(e machucou)
porque eu catei cabeças de bonecas pelas crianças assadas.

E machucou, pelo bem do silêncio em covardia.
Mas quando queima e eu vejo blues,
eu não sirvo pra tristeza alheia meu melhor arroz,
danço pra não perder a chama de amanhã.
O aguardo é uma licença protética, com sopro, curativo e descanso.

francieli spohr
(3) no algaravial

 


Imp. 06

Superas


Ingenuidade, cheio corpo. Nulo engenh o prisma d'interface
Presa ao genuíno.




.
Firme prece:

......Valsar sala;... superfície.




Thiago Ponce de Moraes
(3) no algaravial

 

segunda-feira, maio 08, 2006
96020-006

tem gente que sai pra rua e parece
que vai encontrar o amor de sua vida.
tem gente que sai e senta num bar
e escreve um poema.
tem gente que sai de casa e diz:
vou escrever um poema.
e nao vê quando passa na rua o amor de sua vida.
quando olha pra fora só tem carros passando
e por isso arranja outra página em branco
e escreve outro poema (este em prosa)
e lá na janela zum, passa um outro possível amor de sua vida.
nao viu, nao viu de novo,
é assim mesmo, fazer o quê.

Angélica Freitas
(8) no algaravial

 


Ninguagem

Da minissérie em 4 poemas Primeiras Horas

"... ter entre aurora
E meio-dia um homem e sua hora".

Mário Faustino




manhã


fazer o céu voar o pássaro
no ar faz o seu vôo passar

Daniel Sampaio
(0) no algaravial

 

domingo, maio 07, 2006
manifesto segredo

porque eu ligaria a luz se ainda vejo as minhas mãos?

um contador é um falsidade magra com números. como o dna, uma tripa.

quando as nuvens andam e eu estou sozinha, juro que só eu sei sentir na velocidade certa.

um caráter uma casa feita pro botãozinho não caber. ou não sair nunca mais.

porque eu ligaria a luz se agora a terra engole as minhas mãos?

francieli spohr
(0) no algaravial

 


Algaravariações (04): Lau Siqueira


"Escrever poemas não é fácil. A Poesia é a utopia do poeta."





Lau Siqueira nasceu em Jaguarão-RS e reside na Paraíba. Publicou O comício das veias (Ed. Idéia-PB, 1993), O guardador de sorrisos (Ed. Trema-PB, 1998) e Sem meias palavras (Ed. Idéia, 2002). Tem poemas na antologia Na virada do século - poesia de invenção no Brasil (Ed. Landy-SP, 2002) e mantém o ótimo blog pessoal Poesia Sim.

Leia logo abaixo 10 poemas do livro ainda inédito Texto Sentido e a entrevista cedida gentilmente à Algaravária, agradecida deveras.






10 POEMAS INÉDITOS


teia


então fui diluindo a loucura
ao compreender que a nascente
de tudo era um caos

urbano e diurno

aprendi a velejar pelas calçadas
como uma sombra entre sombras

sem inventar rastros
ousei vestir os sapatos da morte
e revelar-me ao círculo visceral
da existência

nem fui o
insano ou o decrépito humano

apenas despi a coragem e vivi
sem pele a lapidação da alma

.....................perdi o que
.....................não era essência

e agora
pleno de mim
não sei nem sou



poeta interino


todo dia substituo um
cidadão de jeans...san
dálias e cabelos gris
por um martelo e prego
sílabas no
branco da folha branca

cada.........pan.........cada
.....uma plêiade de me
...........mória e lixo

todo dia
revelo o bêbado ocioso
que nada
..............nada
......................nada
e sempre é um rosto e
um nome ensacado em
...........minha pele



pedra sobre sabão


sem voz nenhuma
nego apelos
............ao silêncio


vivo porque
em mim fazem pouso
as palavras e o universo
oco dos sentidos
de onde a poesia sempre
voa como um pássaro
imprevisto

e some como um risco



debandada


nada do meu amor restou
nem as águas do mar morto
nem o vinho em qualquer
porto

nada do meu amor restou
só esse riso que não tenho
esse sopro

nada do meu amor restou
além dos cacos de espelho
e um eu que é outro



quatro paredes


e se te amo ainda como
em eterna e cálida despedida
......cozendo em trapos a vida
sem ânimo para colher o pomo

deste olhar lacerado e inútil
de onde sopro tua ausência
e meus olhos de eterna ânsia
desmembram tua beleza fútil

é que trago em mim a lágrima
e os destroços do naufrágio
- corpo e alma em desvario

vestindo a soberba demência
do que soçobra entrementes
solidão entre quatro paredes



Senha


Ela tinha um rio de seda no abraço



estirpe


sou inconstante
e uma parte de mim
- confesso ) anda distante

como um pássaro noturno
em sobrevôo perco meu sonho
no sumidouro da estrada

sou inconstante
e uma parte de mim
- confesso ) anda distante



blindagem


vivo neste redemoinho
como um cogumelo de ondas
invisíveis sobre a areia

um nada que se avoluma cada
vez que domino a palavra
como amante que permanece
esguio diante do amor

começo a tecer meus rios
paralelos como os rios que em
mim permanecem

cálidos e correntes como um
certo expressionismo curdo

(uma vez vencido sou outro)



boca boca


sem mira
atiro em mim mesmo
às vezes
-
saio lanhado e disforme
e novamente me transformo
: assumo a interina forma

no mais
sou o verso que voa
no espetáculo sem bis
do instante



idílio paulistano


somente os pássaros nos quintais
do morumbi cagam a burguesia pau
lista que sempre parece tão distante
em suas ocas rebocadas pelo lucro
das fábricas e pelos suores que des
cem a consolação no coletivo para
lamber pipocas no ibirapuera

sampa concentra as uvas do estio
nas madrugadas de poemas restritos
ao delírio

(que frio)






ENTREVISTA


1. Trajetória de antes


Qual sua trajetória literária até o primeiro livro?

Comecei a escrever poemas muito cedo, ainda na adolescência. Antes disso, li muito. Na década de 80 publiquei alguns folhetos mimiografados, participei da arte-correio e publiquei em muitos fanzines, revistas, colunas, suplementos e jornais literários. Até que em 93 pude publicar "O comício das veias", juntamente com a contista Joana Belarmino, com quem era casado na época.


Ser poeta é mais talento ou esforço? Descobriu-se ou inventou-se poeta?

Penso que sem trabalho com a linguagem, sem respeito às tradições literárias (incluindo os diversos movimentos de vanguarda) e sem disposição para negar permanentemente toda espécie de cânone inventado pelos oportunistas patológicos, não há talento que sobreviva. Quanto me descobrir como poeta... Tenho muitas dúvidas acerca do que possa ser realmente um poeta. Vejo poesia em manifestações de linguagem não literária. Conheço poetas que nunca escreveram um verso. Como num poema de Leminski: "aqui jaz um grande poeta/ nada deixou escrito/ este silêncio, acredito/ são suas obras completas."


Teve algum incentivador? Quem? De que forma?

Tive e ainda tenho vários. A primeira foi minha irmã que hoje mora em Cascavel-PR e é professora de Português e Literatura. Através dela, li alguns clássicos ainda na adolescência. Foi com ela que aprendi o insubstituível prazer da leitura. Ao longo da vida, muitas pessoas me incentivaram, como Ilma Fontes do Jornal O Capital, de Aracaju-SE; Alexandre Inagaki (de Sampa) que organizou visualmente meu blog; minha filha, Mariana, que criou meu blog e a minha comunidade no orkut; Frederico Barbosa que me incluiu na antologia "Na virada do século - poesia de invenção no Brasil"; Décio e Regina, que me publicaram durante anos no Livro da Tribo; Antônio Mariano, que editou "O guardador de sorrisos", meu segundo livro; Vera Casanova, professora de Letras na UFMG e que estuda meus poemas em sala de aula, lá em BH; Amador Ribeiro Neto que faz a mesma coisa na UFPB... Uma leitora de Nova Jérsei que me escreveu dizendo que meu poema "Aos predadores da utopia" era um amuleto na vida dela. Enfim, tanta gente de tantos lugares e de tantas formas.


Há uma obra com a qual tenha descoberto a poesia de um modo mais contundente?

Muita coisa me fez descobrir a poesia de um modo mais contundente, alguns livros fundamentais como "O ABC da Literatura", de Ezra Pound, "O exercício do verso", de Jorge Luiz Borges, "Cartas a um jovem poeta", de Rilke... e mais, as obras de Cummings, Augusto de Campos, Hopkins, Sebastião Uchoa Leite, Drummond, Bandeira, Quintana, Leminski, Petrarca, Pessoa, enfim, uma série de poetas que me ensinaram e ensinam a buscar uma coisa aparentemente absurda (e talvez por isso me interessa) que eu chamo de liriconcretude, ou seja: o canal aberto a todas as influências para que seja possível uma poesia original, honesta.


Tentou vários gêneros literários? Ainda os pratica em segredo?

Já escrevi os piores contos do mundo. Já escrevi esquetes razoáveis para um grupo de teatro amador, no Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações da Paraíba, onde trabalhei alguns anos. Já publiquei algumas croniquetas no Jornal O Norte, aqui em João pessoa, nos anos 80. Vezenquando escrevo alguns artigos, como este que está na revista Discutindo Literatura, sobre o mercado editorial para a poesia. Mas, me basta escrever poemas. Até porque é uma tarefa extremamente árdua. Escrever poemas não é fácil. A Poesia é a utopia do poeta.



2. Psicologia da composição


Com que se inspira para escrever? O que é matéria para a poesia? Com quantas metáforas se faz um poema?

1 - Para escrever, transpiro e me inspiro nas minhas próprias possibilidades e impossibilidades;
2 - A matéria para a Poesia é o tratamento simultâneo que se dá para a vida e para a linguagem. De certa forma, é este acasalamento que fornece régua e compasso;
3 - A metáfora é apenas uma alternativa ao poema. É como pontuação e letra maiúscula. Pode ser usada ou não. A metáfora só é válida, quando representa o risco, a experimentação... a invenção.


Quando escreve, qual o efeito estético visado?

Quando escrevo é como se mergulhasse num oceano muito profundo. No caminho vou descobrindo peixes e algas... visões e invenções de areias e pedras com as quais vou elaborando efeitos que, muitas vezes, me surpreendem e revelam as imensas possibilidades do poema.


O resultado final do poema coincide sempre com sua idéia inicial?

Nunca tenho uma idéia inicial. Tenho sim uma disposição permanente de me aventurar na escrita de forma razoavelmente planejada. Geralmente a minha "idéia inicial" é a última. É quando começo a polir o poema, retirando as fuligens, as poeiras, as gorduras... até que tudo seja reduzido ao que interessa na Poesia: a essência.


Tem obsessão em reescrever o mesmo texto? Ou a emenda é pior do que o soneto? Guarda tudo o que escreve? Ou elimina sumariamente?

Algumas vezes procuro reescrever um texto que possa apresentar algum vestígio poético. Mas não chega a ser uma obsessão. Quando a emenda vai ficando pior que o soneto, vou deletando, apagando, eliminando... Não, não guardo tudo que escrevo. Já joguei no lixo mais de 200 poemas de uma tacada só. (Todos muito ruins!) Já deletei, também, mais de cem de uma única vez. E ainda sobrou muita coisa ruim, tenho certeza. Inclusive publicada.


Para escrever, precisa conhecer muitas cidades e ler todos os livros?

Eu andei viajando um pouco. De carona, de ônibus, de avião... parado. Acabei me deslocando definitivamente de Porto Alegre para João Pessoa. Sempre achei interessante aquela história do Raul Bopp que andou viajando o Brasil e escreveu Cobra Norato. Mas acho que meus poemas falam muito mais de viagens existenciais no cavalo alado da linguagem. Tenho convicção, porém, que os livros que li foram viagens inesquecíveis que me ajudaram e ajudam a escrever.


Há idéias ou imagens que lhe perseguem no fio dos anos e das obras?

As imagens da infância me acompanham. E se revelam em muitos textos. A idéia de liberdade, principalmente representada pela metáfora do pássaro... enfim, a liberdade política, estética... a idéia de liberdade, em mim, é permanente e ideológica.



3. Prosa do próprio mundo


Como percebe suas principais qualidades como escritor? Há algum defeito de que não abra mão?

Não sei se posso dizer que percebo minhas qualidades. Muitas vezes fiquei espantado quando alguém disse que gostou de um poema meu. Perceber as minhas qualidades é perceber a empatia de um leitor ou leitora através de um texto poético. Os defeitos dos quais não abro mão são tantos. Vejamos alguns: negar os cânones, as "imortalidades acadêmicas" que em sua maioria são injustificáveis... não me filiar a corrente alguma, não buscar espelhos, mas pegadas...


O que sua poesia procura compreender?

Minha Poesia procura compreender porque vem sendo tratada como neobarroca. Minha Poesia tenta sair desse cerco... Mas, até mesmo em comunidades neobarrocas no orkut venho sendo citado. O que fazer? Isto é incompreensível!


Entre seus próprios poemas, quais os seus preferidos? Eles coincidem com os preferidos dos leitores ou mais divulgados em geral?

Eu aprendi a respeitar e gostar de alguns poemas meus, a partir dos leitores e leitoras. Como por exemplo, "aos predadores da utopia", que escrevi quando o ditador Fujimori apresentou para a imprensa do mundo todo um líder do Sendero Luminoso numa jaula, como um bicho. Esse poema teve algumas interpretações puramente existenciais, e eu achei isso o máximo. Geralmente são os leitores que me ensinam a ler e gostar dos meus poemas.


Qual a relação entre seu trabalho e sua escrita?

Meu trabalho faz parte da minha vida, da minha história. Portanto, também o meu trabalho me fornece elementos para a escrita. Não há uma compartimentalização. Minha escrita se relaciona com tudo que eu vivo, através da linguagem.


Em que geração literária você se concebe? Ela tem um projeto definido?

Olha, eu não teria competência para responder a uma pergunta dessas. Publiquei meu primeiro livro em 93, mas sempre penso que estou vivendo um tempo um pouco acima ou um pouco abaixo. Com certeza minha geração não tem um projeto definido. O individualismo é grande e a vaidade tem gerado conflitos desnecessários entre poetas. Um dia desses um amigo uruguaio me perguntou, "por que vocês brigam tanto"? Eu, realmente, não procuro detratar ninguém apenas porque escreve sonetos ou poemas concretos em pleno século XXI. O mínimo que devemos fazer é respeitar a liberdade de criação de cada um. No mais, preocupação com projeto é tarefa de arquiteto.


Como a poesia do seu estado está enquadrada no contexto brasileiro?

Que Estado? Meu estado de espírito? A Paraíba? O Rio Grande do Sul? Na Paraíba temos alguns dos maiores poetas da história da Literatura deste País, como Sérgio de Castro Pinto, Augusto dos Anjos... Temos jovens como Astier Basílio, Daniel Sampaio, André Ricardo Aguiar. No Rio Grande do Sul, Mário Quintana imortalizou-se com uma obra que sempre foi maior que a Academia Brasileira de Letras. Tem o Nejar e uma geração de jovens poetas despontando que é, simplesmente, de alegrar qualquer alma sorumbática. Tem também uma figura ímpar que mais que poeta é todo Poesia, o Mário Pirata. Qual é mesmo o meu estado? Minha nação sim eu sei. Sou tricolor, gremista. Na verdade, falando sério, a poesia brasileira vive um grande momento em todas as regiões.


Recebeu ou recebe conselhos importantes de escritores na sua trajetória? Como foi e é o diálogo com outros escritores?

Eu era muito equivocado em relação ao coloquialismo marginal. Um dia um poeta lá de Teresina-PI, Rubervan du Nascimento, me disse: "você precisa cuidar mais da linguagem, trabalhar mais o poema..." Algumas leituras já tinham me falado a mesma coisa. Eu escutei o poeta e minhas leituras e passei a ter mais humildade. Aquele coloquialismo era um pouco arrogante. Percebi que precisava e preciso mesmo trabalhar mais, exaustivamente, ter uma visão cada vez mais crítica da minha Poesia e do mundo. Isso foi e é fundamental! Sou consciente das minhas muitas limitações. Sou, contraditoriamente, tranqüilo e inquieto. Meu diálogo com outros escritores se inicia sempre através da leitura. E de um modo geral tenho uma relação cordial com as pessoas, não é diferente com os escritores.


O que além da poesia precisa ser lido?

Certamente que todos os gêneros de toda boa literatura. Como Raduan Nassar, Ruben Alves, Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Marcelino Freire. É necessário ler um pouco de filosofia, só pra ficar nos franceses. Pensadores como Bachelard, Morin, Barthes, Sartre... só pra ficar nos franceses. Bons romances, como "O século das luzes", do cubano Alejo Carpentier, Jorge Luiz Borges... enfim, tudo que, através da leitura, instiga e dá prazer.


Quanto tempo dedica à leitura de crítica literária? Concorda com a idéia de que ela, nos jornais e revistas, está mais digestivo-introdutória do que analítico-crítica?

Sempre leio alguma coisa. Não sei quanto tempo dedico a isto. Não há uma regra.

Quanto aos jornais e revistas, depende muito. Alguns suplementos trazem sempre preciosidades, como o Correio das Artes, Inimigo Rumor, Coyote e o Suplemento Literário de Minas Gerais. Outros confundem crítica literária com azedume pessoal, como o tal do Rascunho que se especializou em detratar escritores e, cada vez que fez isso, perdeu a confiabilidade crítica. Acho que esse aí é um péssimo exemplo. Buscam esconder a mediocridade jogando para a torcida, fabricando polêmicas a custo de baixarias. Eu li um texto sobre Arnaldo Antunes em O Rascunho, onde os dois primeiros parágrafos só falavam do cabelo do cara. Chamaram Sebastião Uchoa Leite de "empilhador de sílabas". Tenha dó, bróder! Às vezes, jornais e revistas limitam-se a uma crítica indigesta, preconceituosa, desonesta.



4. A poesia e suas questões em questão


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

Olha, nem sei por onde começar. Penso que alguns eruditos gostariam muito de ser poetas. Alguns até tentam, mas... Infelizmente, não conseguem escrever um só verso que preste. Por favor, não me peça para citar nomes. Alguns tentam impor o curriculum. Certamente que precisamos ler muito e muito bem, os livros e a vida. No entanto, erudição não garante a qualidade do poeta, com certeza. O poeta, como qualquer pessoa, precisa estudar. E o bom poeta faz isso naturalmente, sem afetações. Quem disse que para ser erudito precisa ser pedante?


A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?

Acho que a Poesia Contemporânea está cada vez se impondo mais. Existem sim poetas ganhando espaço, conquistando respeito. O problema é que alguns não se dão o devido respeito. E outros pensam que são o supra-sumo e se trancam nas masmorras da própria vaidade.


Qual a função social da poesia?

Certamente, promover a subversão da ordem literária e eliminar de todo tipo de miséria estética. Principalmente a miséria de certos agentes do ensino da Literatura que impede toda uma geração de aprender com a beleza e com as provocações de toda boa Poesia.


A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

A Poesia está cada vez mais vigorosa. Estamos vivendo, em várias partes do mundo, um tempo de boas colheitas. Não há possibilidade de esgotamento enquanto houver poeta ciente do seu tamanho no Universo e do tamanho da sua Poesia diante das infinitas linguagens. Vivemos a sensação de que alguma coisa, em algum momento, haverá de explodir. Há quem confunda o insucesso editorial da imensa maioria dos poetas com o esgotamento da Poesia. É um equívoco ao qual me refiro em artigo recente na revista Discutindo Literatura.


Há obras meramente comerciais de poesia? O que pensa delas?

Não sei se existem obras meramente comerciais. Mas tenho certeza de que tem poeta aí que gostaria de ser um Paulo Coelho. O que eu penso? Na verdade, eu dispenso.


Políticas literárias: faz qualquer negócio para sua obra ser editada? É justa a percentagem que fica para o editor e para as livrarias? É justo que o escritor seja a causa produtora de um sistema literário que não o beneficia corretamente? O que se pode fazer?

Não faço qualquer negócio para ter um livro publicado. Tenho pena de quem faz isso. E pena em mim é sentimento de asco. Tenho imensas restrições aos tubarões do mercado editorial. Os que não conseguem ver mais do que cifras. A pior percentagem sempre fica com o escritor. Com alguns poetas o que fica, geralmente, é o prejuízo. As editoras apostam no risco zero. Por isso, é muito mais interessante aos poetas publicar fora dos grandes cartéis. O percentual do editor e do livreiro são bastante razoáveis, mas o que encarece o preço de capa é a máfia das distribuidoras. Esses atravessadores é que geram uma situação desigual entre o criador e o produto, ou seja: o escritor e o livro. O que se pode fazer? Prestar atenção no que acontece fora dessa moenda de ossos e memórias. Navegar na contracorrente.


Quais são os vícios e as virtudes da poesia brasileira moderna e contemporânea?

Os vícios são as panelinhas estéticas. A virtude da poesia contemporânea é desencanar em relação a uma nova "escola literária" e uma nova "geração de poetas". Parece que há uma agradável despreocupação generalizada quanto a isso.



5. Museu de agora e depois


Já ministrou ou pensa em ministrar oficina de poesia? Como ela foi/será?

Não foi bem uma oficina (acho que não tenho talento para isso), mas tive um lero maravilhoso com alunos da oitava série do Colégio Lourdinas, aqui em João Pessoa. O mesmo aconteceu no Departamento de letras da UFPB, com alunos do poeta Amador Ribeiro Neto. Já pensei em fazer uma oficina, a partir da experiência dadaísta. Mas nunca elaborei nada.


Alguma epígrafe que o acompanha sempre? Algum epitáfio lhe contém?

"Nos polimos as almas com a lixa do verso", do grande Maiakovski em Poeta Operário. Algum epitáfio me contém? Me contem!


Que conselhos daria a quem está começando?

Vamos, comece logo!


Que livro prepara para logo? Qual seu eixo principal?

Texto Sentido - poemas e pequenas prosas. Espero que saia logo. Já fiz uma breve pesquisa e vi que tem gente que toparia comprar um. O eixo? Acho que é um trabalho fora do eixo. Continuo minimalista, mesmo quando verborrágico. Continuo buscando a poesia além do verso... enfim. Fim.


Como você se vê frente ao recebimento de originais? Comenta tudo o que recebe?

Recebo muitos livros, mas poucos originais. Nem sempre comento tudo que recebo. Na maioria das vezes, por falta de tempo. Mas não gosto de ser indelicado apenas porque constato que alguém não tem talento como poeta. Se puder dou uns toques, mas ninguém jamais ensinará alguém a ser poeta. Já teve poeta que disse "faça o que quiser do meu livro, mude versos, altere formas..." Então eu perguntei se podeia assinar o livro como orientador e co-autor. Já teve poeta que disse "mudei quatro palavrinhas no seu prefácio". E eu disse: "então exclua o prefácio e vá procurar um prefácil".


O que pensa sobre a Algaravária?

Mais um valioso espaço para se discutir e ler boa poesia e se pensar a produção poética contemporânea. Mais um espaço para se interagir com leitores... Que bom que fui lembrado! Adorei as perguntas. Obrigado!

algaravária
(7) no algaravial

 

sexta-feira, maio 05, 2006

enquanto 3



(fragmento)


pronto....:....você terá de partir.
a garganta profética silencia o dia.
os objetos furiosos estão colocados à disposição.
usa-os como última e primeira arma.
aqui o amor permanece....:....há de ir embora agora mesmo e retornar.
irá enfrentar....fome....sede....iniqüidade....medo....cinismo
equívocos e dores de toda forma. e não esqueça o mais importante:
irá enfrentar isto....:....a morte que há de ser....:....a primeira palavra
o imenso e simples sem-nome de todas as coisas....:....vivas....:
e o mundo....foi....é....será....um só....:....o único sopro....:....isto.



.

Pablo Araujo
(6) no algaravial

 


"tudo"

tudo
passa
entre meus cílios

estou surdo

para o grito
das coisas
absurdas

finco meus pés

num nada
deveras real

toco com a língua

um corpo
composto
de olvido

Paulo de Toledo
(2) no algaravial

 


fase blues

quem me navega


mar -
confluência de azuis
salinos areais
submersos

ou mais que isso:
líquido abismo
tapete de vidro
acuada
ágrafa calmaria

(mergulho
a preamar
- de repente peixe -
disparando por dentro
claros silêncios e sílica)

Felipe K.
(3) no algaravial

 

quinta-feira, maio 04, 2006
O Dia da Noite

Terça Gorda

Espero que você-ele-ela-tu
Saiba comer
A minha presença
Permear-se dela
Fazer da minha estadia
A rua da tua infância
A marca do teu desfrute
Come minha presença ladina
Sai do regime imprudente
Da saudade

Hoje Mardi Gras

Amanhã
Fuligem e labor

Carol Custodio
(7) no algaravial

 

 

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