ALGARAVÁRIA
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domingo, maio 07, 2006
Algaravariações (04): Lau Siqueira


"Escrever poemas não é fácil. A Poesia é a utopia do poeta."





Lau Siqueira nasceu em Jaguarão-RS e reside na Paraíba. Publicou O comício das veias (Ed. Idéia-PB, 1993), O guardador de sorrisos (Ed. Trema-PB, 1998) e Sem meias palavras (Ed. Idéia, 2002). Tem poemas na antologia Na virada do século - poesia de invenção no Brasil (Ed. Landy-SP, 2002) e mantém o ótimo blog pessoal Poesia Sim.

Leia logo abaixo 10 poemas do livro ainda inédito Texto Sentido e a entrevista cedida gentilmente à Algaravária, agradecida deveras.






10 POEMAS INÉDITOS


teia


então fui diluindo a loucura
ao compreender que a nascente
de tudo era um caos

urbano e diurno

aprendi a velejar pelas calçadas
como uma sombra entre sombras

sem inventar rastros
ousei vestir os sapatos da morte
e revelar-me ao círculo visceral
da existência

nem fui o
insano ou o decrépito humano

apenas despi a coragem e vivi
sem pele a lapidação da alma

.....................perdi o que
.....................não era essência

e agora
pleno de mim
não sei nem sou



poeta interino


todo dia substituo um
cidadão de jeans...san
dálias e cabelos gris
por um martelo e prego
sílabas no
branco da folha branca

cada.........pan.........cada
.....uma plêiade de me
...........mória e lixo

todo dia
revelo o bêbado ocioso
que nada
..............nada
......................nada
e sempre é um rosto e
um nome ensacado em
...........minha pele



pedra sobre sabão


sem voz nenhuma
nego apelos
............ao silêncio


vivo porque
em mim fazem pouso
as palavras e o universo
oco dos sentidos
de onde a poesia sempre
voa como um pássaro
imprevisto

e some como um risco



debandada


nada do meu amor restou
nem as águas do mar morto
nem o vinho em qualquer
porto

nada do meu amor restou
só esse riso que não tenho
esse sopro

nada do meu amor restou
além dos cacos de espelho
e um eu que é outro



quatro paredes


e se te amo ainda como
em eterna e cálida despedida
......cozendo em trapos a vida
sem ânimo para colher o pomo

deste olhar lacerado e inútil
de onde sopro tua ausência
e meus olhos de eterna ânsia
desmembram tua beleza fútil

é que trago em mim a lágrima
e os destroços do naufrágio
- corpo e alma em desvario

vestindo a soberba demência
do que soçobra entrementes
solidão entre quatro paredes



Senha


Ela tinha um rio de seda no abraço



estirpe


sou inconstante
e uma parte de mim
- confesso ) anda distante

como um pássaro noturno
em sobrevôo perco meu sonho
no sumidouro da estrada

sou inconstante
e uma parte de mim
- confesso ) anda distante



blindagem


vivo neste redemoinho
como um cogumelo de ondas
invisíveis sobre a areia

um nada que se avoluma cada
vez que domino a palavra
como amante que permanece
esguio diante do amor

começo a tecer meus rios
paralelos como os rios que em
mim permanecem

cálidos e correntes como um
certo expressionismo curdo

(uma vez vencido sou outro)



boca boca


sem mira
atiro em mim mesmo
às vezes
-
saio lanhado e disforme
e novamente me transformo
: assumo a interina forma

no mais
sou o verso que voa
no espetáculo sem bis
do instante



idílio paulistano


somente os pássaros nos quintais
do morumbi cagam a burguesia pau
lista que sempre parece tão distante
em suas ocas rebocadas pelo lucro
das fábricas e pelos suores que des
cem a consolação no coletivo para
lamber pipocas no ibirapuera

sampa concentra as uvas do estio
nas madrugadas de poemas restritos
ao delírio

(que frio)






ENTREVISTA


1. Trajetória de antes


Qual sua trajetória literária até o primeiro livro?

Comecei a escrever poemas muito cedo, ainda na adolescência. Antes disso, li muito. Na década de 80 publiquei alguns folhetos mimiografados, participei da arte-correio e publiquei em muitos fanzines, revistas, colunas, suplementos e jornais literários. Até que em 93 pude publicar "O comício das veias", juntamente com a contista Joana Belarmino, com quem era casado na época.


Ser poeta é mais talento ou esforço? Descobriu-se ou inventou-se poeta?

Penso que sem trabalho com a linguagem, sem respeito às tradições literárias (incluindo os diversos movimentos de vanguarda) e sem disposição para negar permanentemente toda espécie de cânone inventado pelos oportunistas patológicos, não há talento que sobreviva. Quanto me descobrir como poeta... Tenho muitas dúvidas acerca do que possa ser realmente um poeta. Vejo poesia em manifestações de linguagem não literária. Conheço poetas que nunca escreveram um verso. Como num poema de Leminski: "aqui jaz um grande poeta/ nada deixou escrito/ este silêncio, acredito/ são suas obras completas."


Teve algum incentivador? Quem? De que forma?

Tive e ainda tenho vários. A primeira foi minha irmã que hoje mora em Cascavel-PR e é professora de Português e Literatura. Através dela, li alguns clássicos ainda na adolescência. Foi com ela que aprendi o insubstituível prazer da leitura. Ao longo da vida, muitas pessoas me incentivaram, como Ilma Fontes do Jornal O Capital, de Aracaju-SE; Alexandre Inagaki (de Sampa) que organizou visualmente meu blog; minha filha, Mariana, que criou meu blog e a minha comunidade no orkut; Frederico Barbosa que me incluiu na antologia "Na virada do século - poesia de invenção no Brasil"; Décio e Regina, que me publicaram durante anos no Livro da Tribo; Antônio Mariano, que editou "O guardador de sorrisos", meu segundo livro; Vera Casanova, professora de Letras na UFMG e que estuda meus poemas em sala de aula, lá em BH; Amador Ribeiro Neto que faz a mesma coisa na UFPB... Uma leitora de Nova Jérsei que me escreveu dizendo que meu poema "Aos predadores da utopia" era um amuleto na vida dela. Enfim, tanta gente de tantos lugares e de tantas formas.


Há uma obra com a qual tenha descoberto a poesia de um modo mais contundente?

Muita coisa me fez descobrir a poesia de um modo mais contundente, alguns livros fundamentais como "O ABC da Literatura", de Ezra Pound, "O exercício do verso", de Jorge Luiz Borges, "Cartas a um jovem poeta", de Rilke... e mais, as obras de Cummings, Augusto de Campos, Hopkins, Sebastião Uchoa Leite, Drummond, Bandeira, Quintana, Leminski, Petrarca, Pessoa, enfim, uma série de poetas que me ensinaram e ensinam a buscar uma coisa aparentemente absurda (e talvez por isso me interessa) que eu chamo de liriconcretude, ou seja: o canal aberto a todas as influências para que seja possível uma poesia original, honesta.


Tentou vários gêneros literários? Ainda os pratica em segredo?

Já escrevi os piores contos do mundo. Já escrevi esquetes razoáveis para um grupo de teatro amador, no Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações da Paraíba, onde trabalhei alguns anos. Já publiquei algumas croniquetas no Jornal O Norte, aqui em João pessoa, nos anos 80. Vezenquando escrevo alguns artigos, como este que está na revista Discutindo Literatura, sobre o mercado editorial para a poesia. Mas, me basta escrever poemas. Até porque é uma tarefa extremamente árdua. Escrever poemas não é fácil. A Poesia é a utopia do poeta.



2. Psicologia da composição


Com que se inspira para escrever? O que é matéria para a poesia? Com quantas metáforas se faz um poema?

1 - Para escrever, transpiro e me inspiro nas minhas próprias possibilidades e impossibilidades;
2 - A matéria para a Poesia é o tratamento simultâneo que se dá para a vida e para a linguagem. De certa forma, é este acasalamento que fornece régua e compasso;
3 - A metáfora é apenas uma alternativa ao poema. É como pontuação e letra maiúscula. Pode ser usada ou não. A metáfora só é válida, quando representa o risco, a experimentação... a invenção.


Quando escreve, qual o efeito estético visado?

Quando escrevo é como se mergulhasse num oceano muito profundo. No caminho vou descobrindo peixes e algas... visões e invenções de areias e pedras com as quais vou elaborando efeitos que, muitas vezes, me surpreendem e revelam as imensas possibilidades do poema.


O resultado final do poema coincide sempre com sua idéia inicial?

Nunca tenho uma idéia inicial. Tenho sim uma disposição permanente de me aventurar na escrita de forma razoavelmente planejada. Geralmente a minha "idéia inicial" é a última. É quando começo a polir o poema, retirando as fuligens, as poeiras, as gorduras... até que tudo seja reduzido ao que interessa na Poesia: a essência.


Tem obsessão em reescrever o mesmo texto? Ou a emenda é pior do que o soneto? Guarda tudo o que escreve? Ou elimina sumariamente?

Algumas vezes procuro reescrever um texto que possa apresentar algum vestígio poético. Mas não chega a ser uma obsessão. Quando a emenda vai ficando pior que o soneto, vou deletando, apagando, eliminando... Não, não guardo tudo que escrevo. Já joguei no lixo mais de 200 poemas de uma tacada só. (Todos muito ruins!) Já deletei, também, mais de cem de uma única vez. E ainda sobrou muita coisa ruim, tenho certeza. Inclusive publicada.


Para escrever, precisa conhecer muitas cidades e ler todos os livros?

Eu andei viajando um pouco. De carona, de ônibus, de avião... parado. Acabei me deslocando definitivamente de Porto Alegre para João Pessoa. Sempre achei interessante aquela história do Raul Bopp que andou viajando o Brasil e escreveu Cobra Norato. Mas acho que meus poemas falam muito mais de viagens existenciais no cavalo alado da linguagem. Tenho convicção, porém, que os livros que li foram viagens inesquecíveis que me ajudaram e ajudam a escrever.


Há idéias ou imagens que lhe perseguem no fio dos anos e das obras?

As imagens da infância me acompanham. E se revelam em muitos textos. A idéia de liberdade, principalmente representada pela metáfora do pássaro... enfim, a liberdade política, estética... a idéia de liberdade, em mim, é permanente e ideológica.



3. Prosa do próprio mundo


Como percebe suas principais qualidades como escritor? Há algum defeito de que não abra mão?

Não sei se posso dizer que percebo minhas qualidades. Muitas vezes fiquei espantado quando alguém disse que gostou de um poema meu. Perceber as minhas qualidades é perceber a empatia de um leitor ou leitora através de um texto poético. Os defeitos dos quais não abro mão são tantos. Vejamos alguns: negar os cânones, as "imortalidades acadêmicas" que em sua maioria são injustificáveis... não me filiar a corrente alguma, não buscar espelhos, mas pegadas...


O que sua poesia procura compreender?

Minha Poesia procura compreender porque vem sendo tratada como neobarroca. Minha Poesia tenta sair desse cerco... Mas, até mesmo em comunidades neobarrocas no orkut venho sendo citado. O que fazer? Isto é incompreensível!


Entre seus próprios poemas, quais os seus preferidos? Eles coincidem com os preferidos dos leitores ou mais divulgados em geral?

Eu aprendi a respeitar e gostar de alguns poemas meus, a partir dos leitores e leitoras. Como por exemplo, "aos predadores da utopia", que escrevi quando o ditador Fujimori apresentou para a imprensa do mundo todo um líder do Sendero Luminoso numa jaula, como um bicho. Esse poema teve algumas interpretações puramente existenciais, e eu achei isso o máximo. Geralmente são os leitores que me ensinam a ler e gostar dos meus poemas.


Qual a relação entre seu trabalho e sua escrita?

Meu trabalho faz parte da minha vida, da minha história. Portanto, também o meu trabalho me fornece elementos para a escrita. Não há uma compartimentalização. Minha escrita se relaciona com tudo que eu vivo, através da linguagem.


Em que geração literária você se concebe? Ela tem um projeto definido?

Olha, eu não teria competência para responder a uma pergunta dessas. Publiquei meu primeiro livro em 93, mas sempre penso que estou vivendo um tempo um pouco acima ou um pouco abaixo. Com certeza minha geração não tem um projeto definido. O individualismo é grande e a vaidade tem gerado conflitos desnecessários entre poetas. Um dia desses um amigo uruguaio me perguntou, "por que vocês brigam tanto"? Eu, realmente, não procuro detratar ninguém apenas porque escreve sonetos ou poemas concretos em pleno século XXI. O mínimo que devemos fazer é respeitar a liberdade de criação de cada um. No mais, preocupação com projeto é tarefa de arquiteto.


Como a poesia do seu estado está enquadrada no contexto brasileiro?

Que Estado? Meu estado de espírito? A Paraíba? O Rio Grande do Sul? Na Paraíba temos alguns dos maiores poetas da história da Literatura deste País, como Sérgio de Castro Pinto, Augusto dos Anjos... Temos jovens como Astier Basílio, Daniel Sampaio, André Ricardo Aguiar. No Rio Grande do Sul, Mário Quintana imortalizou-se com uma obra que sempre foi maior que a Academia Brasileira de Letras. Tem o Nejar e uma geração de jovens poetas despontando que é, simplesmente, de alegrar qualquer alma sorumbática. Tem também uma figura ímpar que mais que poeta é todo Poesia, o Mário Pirata. Qual é mesmo o meu estado? Minha nação sim eu sei. Sou tricolor, gremista. Na verdade, falando sério, a poesia brasileira vive um grande momento em todas as regiões.


Recebeu ou recebe conselhos importantes de escritores na sua trajetória? Como foi e é o diálogo com outros escritores?

Eu era muito equivocado em relação ao coloquialismo marginal. Um dia um poeta lá de Teresina-PI, Rubervan du Nascimento, me disse: "você precisa cuidar mais da linguagem, trabalhar mais o poema..." Algumas leituras já tinham me falado a mesma coisa. Eu escutei o poeta e minhas leituras e passei a ter mais humildade. Aquele coloquialismo era um pouco arrogante. Percebi que precisava e preciso mesmo trabalhar mais, exaustivamente, ter uma visão cada vez mais crítica da minha Poesia e do mundo. Isso foi e é fundamental! Sou consciente das minhas muitas limitações. Sou, contraditoriamente, tranqüilo e inquieto. Meu diálogo com outros escritores se inicia sempre através da leitura. E de um modo geral tenho uma relação cordial com as pessoas, não é diferente com os escritores.


O que além da poesia precisa ser lido?

Certamente que todos os gêneros de toda boa literatura. Como Raduan Nassar, Ruben Alves, Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Marcelino Freire. É necessário ler um pouco de filosofia, só pra ficar nos franceses. Pensadores como Bachelard, Morin, Barthes, Sartre... só pra ficar nos franceses. Bons romances, como "O século das luzes", do cubano Alejo Carpentier, Jorge Luiz Borges... enfim, tudo que, através da leitura, instiga e dá prazer.


Quanto tempo dedica à leitura de crítica literária? Concorda com a idéia de que ela, nos jornais e revistas, está mais digestivo-introdutória do que analítico-crítica?

Sempre leio alguma coisa. Não sei quanto tempo dedico a isto. Não há uma regra.

Quanto aos jornais e revistas, depende muito. Alguns suplementos trazem sempre preciosidades, como o Correio das Artes, Inimigo Rumor, Coyote e o Suplemento Literário de Minas Gerais. Outros confundem crítica literária com azedume pessoal, como o tal do Rascunho que se especializou em detratar escritores e, cada vez que fez isso, perdeu a confiabilidade crítica. Acho que esse aí é um péssimo exemplo. Buscam esconder a mediocridade jogando para a torcida, fabricando polêmicas a custo de baixarias. Eu li um texto sobre Arnaldo Antunes em O Rascunho, onde os dois primeiros parágrafos só falavam do cabelo do cara. Chamaram Sebastião Uchoa Leite de "empilhador de sílabas". Tenha dó, bróder! Às vezes, jornais e revistas limitam-se a uma crítica indigesta, preconceituosa, desonesta.



4. A poesia e suas questões em questão


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

Olha, nem sei por onde começar. Penso que alguns eruditos gostariam muito de ser poetas. Alguns até tentam, mas... Infelizmente, não conseguem escrever um só verso que preste. Por favor, não me peça para citar nomes. Alguns tentam impor o curriculum. Certamente que precisamos ler muito e muito bem, os livros e a vida. No entanto, erudição não garante a qualidade do poeta, com certeza. O poeta, como qualquer pessoa, precisa estudar. E o bom poeta faz isso naturalmente, sem afetações. Quem disse que para ser erudito precisa ser pedante?


A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?

Acho que a Poesia Contemporânea está cada vez se impondo mais. Existem sim poetas ganhando espaço, conquistando respeito. O problema é que alguns não se dão o devido respeito. E outros pensam que são o supra-sumo e se trancam nas masmorras da própria vaidade.


Qual a função social da poesia?

Certamente, promover a subversão da ordem literária e eliminar de todo tipo de miséria estética. Principalmente a miséria de certos agentes do ensino da Literatura que impede toda uma geração de aprender com a beleza e com as provocações de toda boa Poesia.


A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

A Poesia está cada vez mais vigorosa. Estamos vivendo, em várias partes do mundo, um tempo de boas colheitas. Não há possibilidade de esgotamento enquanto houver poeta ciente do seu tamanho no Universo e do tamanho da sua Poesia diante das infinitas linguagens. Vivemos a sensação de que alguma coisa, em algum momento, haverá de explodir. Há quem confunda o insucesso editorial da imensa maioria dos poetas com o esgotamento da Poesia. É um equívoco ao qual me refiro em artigo recente na revista Discutindo Literatura.


Há obras meramente comerciais de poesia? O que pensa delas?

Não sei se existem obras meramente comerciais. Mas tenho certeza de que tem poeta aí que gostaria de ser um Paulo Coelho. O que eu penso? Na verdade, eu dispenso.


Políticas literárias: faz qualquer negócio para sua obra ser editada? É justa a percentagem que fica para o editor e para as livrarias? É justo que o escritor seja a causa produtora de um sistema literário que não o beneficia corretamente? O que se pode fazer?

Não faço qualquer negócio para ter um livro publicado. Tenho pena de quem faz isso. E pena em mim é sentimento de asco. Tenho imensas restrições aos tubarões do mercado editorial. Os que não conseguem ver mais do que cifras. A pior percentagem sempre fica com o escritor. Com alguns poetas o que fica, geralmente, é o prejuízo. As editoras apostam no risco zero. Por isso, é muito mais interessante aos poetas publicar fora dos grandes cartéis. O percentual do editor e do livreiro são bastante razoáveis, mas o que encarece o preço de capa é a máfia das distribuidoras. Esses atravessadores é que geram uma situação desigual entre o criador e o produto, ou seja: o escritor e o livro. O que se pode fazer? Prestar atenção no que acontece fora dessa moenda de ossos e memórias. Navegar na contracorrente.


Quais são os vícios e as virtudes da poesia brasileira moderna e contemporânea?

Os vícios são as panelinhas estéticas. A virtude da poesia contemporânea é desencanar em relação a uma nova "escola literária" e uma nova "geração de poetas". Parece que há uma agradável despreocupação generalizada quanto a isso.



5. Museu de agora e depois


Já ministrou ou pensa em ministrar oficina de poesia? Como ela foi/será?

Não foi bem uma oficina (acho que não tenho talento para isso), mas tive um lero maravilhoso com alunos da oitava série do Colégio Lourdinas, aqui em João Pessoa. O mesmo aconteceu no Departamento de letras da UFPB, com alunos do poeta Amador Ribeiro Neto. Já pensei em fazer uma oficina, a partir da experiência dadaísta. Mas nunca elaborei nada.


Alguma epígrafe que o acompanha sempre? Algum epitáfio lhe contém?

"Nos polimos as almas com a lixa do verso", do grande Maiakovski em Poeta Operário. Algum epitáfio me contém? Me contem!


Que conselhos daria a quem está começando?

Vamos, comece logo!


Que livro prepara para logo? Qual seu eixo principal?

Texto Sentido - poemas e pequenas prosas. Espero que saia logo. Já fiz uma breve pesquisa e vi que tem gente que toparia comprar um. O eixo? Acho que é um trabalho fora do eixo. Continuo minimalista, mesmo quando verborrágico. Continuo buscando a poesia além do verso... enfim. Fim.


Como você se vê frente ao recebimento de originais? Comenta tudo o que recebe?

Recebo muitos livros, mas poucos originais. Nem sempre comento tudo que recebo. Na maioria das vezes, por falta de tempo. Mas não gosto de ser indelicado apenas porque constato que alguém não tem talento como poeta. Se puder dou uns toques, mas ninguém jamais ensinará alguém a ser poeta. Já teve poeta que disse "faça o que quiser do meu livro, mude versos, altere formas..." Então eu perguntei se podeia assinar o livro como orientador e co-autor. Já teve poeta que disse "mudei quatro palavrinhas no seu prefácio". E eu disse: "então exclua o prefácio e vá procurar um prefácil".


O que pensa sobre a Algaravária?

Mais um valioso espaço para se discutir e ler boa poesia e se pensar a produção poética contemporânea. Mais um espaço para se interagir com leitores... Que bom que fui lembrado! Adorei as perguntas. Obrigado!

algaravária
(7) no algaravial

 

 

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