ALGARAVÁRIA
Home|Algarapostal|Cronópios|Orkut

sábado, maio 13, 2006
Algaravariações (05): Daniel Glaydson





Daniel Glaydson, poeta ainda inédito em livro solo, nasceu em Picos-PI, passou a maior fatia da vida até agora em Campos Sales, nos confins do Ceará, e atualmente habita Sobral, algo Ceará algo United States. Por ali cursa Letras - Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Estadual Vale do Acaraú, dividido entre pesquisas sobre a experiência trágica da loucura, o renascimento da poesia épica e a poesia contemporânea - coisas não tão estanques quanto parecem. Pratica poesia e tradução, mas labora oficialmente como servidor público federal - coisas que são bem estanques mesmo. Anda editando, faz um ano, a revista virtual de literatura & adjacências Famigerado e, por fim, por enquanto, tem também a exposição "P.o.l.i.s Insania" de poesia e fotografia, juntamente com o fotógrafo paraibano Marcílio Guedes.

Confira logo abaixo quatro poemas e a entrevista gentilmente cedidos à Algaravária.







QUATRO POEMAS



"da resistência do sopro", I


oiço uma ventania.
dentro ou num lugar não sei onde,
leva consigo algo - que não sei quê.

ou deixa, aceita, permanece, transcende

sinto esse vento de deserto,
não o calor a transbordar-me pelos poros
nem a sede a fazer-me suplicar miragens
a solidão
a fadiga
ou a perda

não há em meus cabelos terra
nem me seguem pegadas
ou vejo estes areais a correr fino por meu corpo

mas oiço.

e o que sinto, se sinto
é que deus, se existisse, se existe
perene, passa, sequioso, e sopra.

e não há nada, entre nós,
a ser dito.



"da resistência do sopro", II


vem
no equilíbrio de sua cadência eterna
arrancar-me dos pés o chão

sim, sugando-me
arrancar o chão
como um tornado ao fundo do mar
levando a areia
o espaço e o tempo

perca-me
em distância e profundidade
em fundo e forma
em mulher e homem
espaço e tempo

sim, machucando-me
em veneno de néctar e sal
et en diverses langues

equilibrado na cadência eterna
da tua sinfonia de vômito branco
mar

equilibrada na cadência extrema
da tua margem sem cor
mulher

dilacerem-me -
lubrifica os corpos
e interrompa os beijos
marítima

exército mulher

pela cadência eterna
daquela sinfonia de vômito branco

anterior a deus, amo-te

por sete gerações
pretérito e além

anterior
a deus



"p.o.l.i.s insania", I


...........ninguém tece a manhã além do concreto, imensidão de matéria oca que esconde seu negro sob a mais viva cor possível em suas vísceras - é a cor de quem vê e de quem pisa - cinza infecto
...........além do espetáculo único e cotidiano de barulhos impossíveis, para cima, para cima, para cima - de velocidade e bocejos, de decadência e sorrisos - são mulheres que saem a comprar flores, são homens que voltam da porta para engendrar cristos, são gritos de um moribundo a atravessar paredes, são cortes eternizando pactos
...........ninguém tece além de um amontoar-se de gente que é nenhuma gente, um abalroar-se de pernas que é nenhum corpo. muchedumbre de quienes. diz-se tarde, e já é tarde, e não há tardes
...........após a exibição não-vista e épica do sol a romper o ventre eternamente virginal do horizonte, olvidando lá uma mancha do mesmo sangue que dançará pelas calçadas e que será limpo ao novo outro amanhecer, borrão de sangue em busca do qual virá a noite, a farejar, sensual
...........pouco mais que as estradas possíveis, bem menos que a miscelânea de sombras projetadas em redor, como uma rosa-dos-ventos apontando a nenhures. agora, são ruas proibidas, são olhares de medo multiplicado, são corpos quase nus sob os postes
...........pero de nuevo el mundo se ha salvado



"p.o.l.i.s insania", II


feição fazenda desfeita

cidade de feitio
cidade feito bicho

bicho solto
cidade feita

...
cidade-passas







ENTREVISTA



1. Trajetória de antes


O que falta para publicar o primeiro livro?

Já faltaram muitas coisas, inclusive hesitação. Hoje continuam faltando as muitas coisas (aquilo que falta a todos os jovens escritores, aliás, e a muitos não-jovens também), enfim, a diferença é que, hoje, uma coisa cessou de faltar: a hesitação.
Sei o quanto é doloroso abrir um livro de poemas ruim, e oro para cometer o menos possível tal crime.


Ser poeta é mais talento ou esforço? Descobriu-se ou inventou-se poeta?

Descobrir e inventar, já basta o que faço com o ser-eu, muito às vezes.
Enquanto escritor de poemas, apenas arquiteto-me, planeio-me, arrisco construir-me, sorrateira e aflitamente.
Quanto a talento ou esforço, penso ser este um binarismo que nada diz. Ou seja: e, não ou.


Tenta vários gêneros literários? Ainda os pratica?

Na adolescência pratiquei muito o epistolar. Tive um clube de correspondências que foi divulgado até na revista do Zé Carioca... (risos)... Depois tramei ser crítico de cinema, e lotei cadernos e mais cadernos com resenhas da pior qualidade sobre milhares de filmes, ainda na dita adolescência. Se bem que não se pode considerar nada disso muito bem, sobretudo da maneira que se fazia ali, como gênero literário, mas é a ancestralidade que me persegue.
Hoje, pratico a poesia, por querer estar mais perto - contar estórias não me atrai nada, por enquanto; não capto bem a poesia no prosaico.


Há uma obra com a qual tenha descoberto a literatura?

Descobrir a literatura? Aquela relação que está se constituindo, que está se tornando obscuramente visível, mas ainda não pensável, entre a linguagem e o espaço, dito Foucault, quem me dera.
Estou descobrindo sim a poesia, que comecei a vislumbrar no cinema antes mesmo do poema, e que hoje persigo nas palavras, dependência química.
Um livro? O último, porque é fogo mais sem tamanho, a descoberta não cessa - Algo : preto de Jacques Roubaud.



2. Psicologia da composição


Com que se inspira para escrever? O que é matéria para a poesia?

A matéria da poesia é exatamente o avesso da matéria. Lembro-me aqui de alguns versos de Carlos Nejar: "Mas o amor é a energia predisposta ao / inteiro silêncio. À energia da salvação. / E a salvação éo avesso da matéria". Estes versos leu-me recentemente uma querida poetisa numa agradabilíssima noite. Ainda não tinha eu percebido sua circunstância como uma declaração, só agora que caiu a ficha... (risos)...
Capitulando, tudo, qualquer coisa, pode posicionar-se em tal avesso da matéria que é matéria da poesia, mas daquele tudo, daquela qualquer coisa, a essência apenas. E daí a peleja: como comunicar aquele essencial com palavras, palavras que aprendemos para reificar? Talvez descondicionando, desconstruindo então, e inventando-as, as palavras, mágicas, ou retornando-as a seu estado puro inicial, onde era magia.
Inspirações, indefiníveis.


Com quantas metáforas se faz um poema?

Gosto de Bergson quando diz que a metáfora é uma possibilidade de aplacar o espaço da linguagem e deixar passar o fluxo do tempo; gosto de Schopenhauer quando diz que a metáfora éuma das portas da poesia para transcender o conceito e fazer apreender a Idéia.
A metáfora independe de seu uso semântico explícito, e de suas quantidades, muito menos; ela desvela uma unidade íntima.


Há idéias ou imagens que lhe perseguem no fio dos anos?

Falta-me o fio dos anos, ou falta costurá-lo. Falta-me sobretudo memória para que se persiga. Minhas lembranças das primeiras idades são de uma ausência-reticências tal. Eu sou quem persigo alguma idéia ou imagem que me diga, e assim, só pode que no futuro meu leitmotiv será minha cena original... (risos)...



3. Prosa do próprio mundo


Como define a sua poesia? Como caracterizaria suas ambições estéticas principais?

Prefiro experimentá-la muito ainda para poder defini-la, antes preciso lapidar o paladar, aguçar a vista, etc; ou melhor nem, definir é dar fim, coitada, nem teve começo direito, nem esquerdo, ainda.
Ambiciono alimentar a parte do fogo, só.


O que sua poesia procura compreender?

A música do outro, talvez aquela ausência-reticência da memória, a própria magia da língua, a possibilidade de estar perto através de um outro espaço, as essências, os descondicionamentos, algo processo mormente por compreender, e de novo a música do outro.


Recebeu ou recebe conselhos importantes de escritores na sua trajetória? Como foi e é o diálogo com outros escritores?

Muito do que sei/sou brotou do diálogo com outros escritores, seja via palavra escrita, via palavra conversada.
De conselhos, conheço uma nova-franco-mineira algo desorientadora nesse sentido, conheço também um querido heteronímico paulista que bem os profere em verborrágicas quantidades - engraçado que este último parou no comunismo e a primeira inventou de acreditar num hiper-modernismo, jogos utópicos ambos, para disfarçar a incomunicabilidade.
Ah, dentre muitos cearenses e dalhurenses com diversos conselhos a dar mas nem um pouco dispostos a segui-los... (risos)...


O que além da poesia precisa ser lido?

Além da poesia deve haver apenas uma distância, para além dela, distância mesma. Dito Schiller, poesia é a força que atua de maneira divina e inapreendida, além e acima da consciência. Acima do iceberg, não abaixo, submerso; acima, há só o céu.
Precisar é coisa muito forte, mas vá lá, é preciso ler o que há de fundamental na filosofia, é preciso ler as dramaturgias fundamentais, os romances, enfim, os pontos de continuidade do esgotamento são precisos. Mas, a bem da verdade, leio bastante o não-fundamental também, talvez.



4. A poesia e suas questões em questão


Qual a relação entre poesia e religião? Sua obra manifesta, de alguma forma, essa relação?

A relação é de ter a poesia como uma seita mesmo, misticismo. Não há outra maneira de entender tamanha entrega carnal à metafísica tamanha.
Costumo dizer que nossos poemas prediletos, ou mesmo cada um daqueles que no ato imediato de sua leitura fizeram exalar aquela força inapreendida, arrepiar os pêlos, eriçar a espinha, articular um puta-que-o-pariu!, enfim, vocês sabem bem do que tento falar - tentar, sempre uma tentativa -, enfim, cada um desses poemas, costumo dizer, é um dos nossos evangelhos.
Isso não tem necessariamente a ver com o poeta ser algum tipo de religioso (além da religião da própria poesia, esta obrigatória), mas é muito interessante perceber como alguns dos melhores poetas do século passado exacerbaram algo disso na obra: Yeats e sua Hermetic Order of the Golden Dawn; Pessoa, também no ocultismo; e o próprio Jorge de Lima, cristão e poeta colossal.


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

Acho que foi o Ezra - desculpem-me se erro - quem comparou a complexidade do aprendizado de escrever poesia com o de tocar piano. Um pianista tem que aprender muitas coisas, de cara uma nova linguagem, símbolos, gramáticas e semânticas totalmente outras; imprimir uma habilidade, força-suavidade e velocidade tal aos dedos; desaprender também, uma certa coordenação motora que precisa ser substituída, uma certa organicidade no perceber o tempo que deve ser reorganizada, etc. Lá se vão muitos anos, décadas em busca de uma possível perfeição.
Instigante comparar esse processo com o do poeta: tem-se que aprender muito também, muitas técnicas; desaprender tão quanto, muitos condicionamentos. É essencial para se saber uma língua a fundo, entender outras. É uma conseqüência da leitura constante a habilidade da hermenêutica. Tais não se aprendem obrigatoriamente na universidade, existem outros meios.
Mas não esquecer que é preciso aprender (ou melhor, reaprender), mormente, a sentir sem percebê-lo nem refleti-lo (ou de alguma forma distorcer a relação desse triângulo). E depois, como escrever sobre uma sensação bruta, distante das barreiras da percepção e da reflexão? Aí uma das impossibilidades da poesia, seu inefável não-inefável.


Qual a função social da poesia? Qual o papel do escritor na sociedade?

Pergunta-se da função social de uma seita inscrita na região da sensibilidade? Sim, é possível, mas nenhuma resposta terá a mínima importância.


Como encara a Internet? Como utiliza a internet? Fale um pouco da idéia da revista Famigerado - o que o motiva a editá-la e mantê-la?

Em fevereiro último, ocorreu por aqui um evento onde Edson Cruz (da Cronópios), Carlos Emílio e eu discutimos um pouco a respeito da Literatura na internet, seus problemas (o excesso, a superfluidade, o status, etc) e suas várias qualidades. É um tema interessante de ser pensado mas que, com algum deslize, pode acabar em profetismos ou futurismos tolos.
A revista Famigerado veio com a proposta de construir-se enquanto porto de qualidade literária na rede, e ainda como ponte de diálogo entre a produção destas bandas de cá com a do resto do país e de fora também. Tal projeto se concretizou e continua se firmando - essa é a grande motivação.


A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

Gostaria de saber desses caminhos para poder evitá-los.
A poesia já nasceu esgotada, em Homero. E, felizmente, continuou se esgotando por milênios. E continuará a se esgotar, indefinidamente, para que possamos encontrar, como disse, os pontos de continuidade do esgotamento, e gozar.


Qual a melhor editora brasileira? E qual a que edita melhor a poesia?

Não me costumo encantar por editoras às vezes por projetos gráficos. Nesse sentido, encantam-me a Ateliê Editorial, a Cosac & Naify, entre algumas poucas outras.



5. Museu de tudo e depois


Alguma epígrafe que o acompanha sempre? Algum epitáfio lhe contém?

As epígrafes são tantas - todos os meus evangelhos são perfeitas epígrafes. Deixo esta aqui: "Hablo una lengua que llena los corazones según la ley de las nubes comunicantes", Vicente Huidobro em Altazor o el viaje em paracaídas.
Sou muito jovem para já estar contido por algum epitáfio. Se fosse possível, para pedra tão solene, um plágio, ficaria com o mesmo autor no mesmo livro: "Se abre la tumba y al fondo se ve el mar" - e assim está, dito no imperativo, na lápide do próprio Huidobro.


"Escrever sobre escrever é o futuro do escrever"? (Haroldo de Campos)

Prefiro o que soa mais adiante - escrever sobre o escrever é não escrever sobre não escrever, nas suas análises possíveis noves fora.
Essa coisa de que a única matéria da literatura é a própria linguagem nada tem de futuro, foi assertiva moda nas décadas de 50-60 levada na breca da moda estruturalista - e daí a mal-entender isso como meta-literatura exclusiva, um passo torto.
Sim, todo poema diz da palavra, assim como todo teatro diz do corpo, toda pintura diz da cor, toda arquitetura diz da pedra, toda música diz da vibração, mas dizem, ambas, artes, a seu modo, sobretudo dos essenciais no humano.


O que pensa sobre a algaravária?

Um projeto muito interessante. É talvez uma tentativa de resposta exatamente àquele problema do excesso que assola a Literatura publicada na internet, predito. Aportar algumas dissonâncias que andavam dispersas.
O que me assusta ou surpreende, não sei bem, é essa capacidade de escrever tantos poemas (1 por semana é algo assustador ou surpreendente mesmo), e percebo também níveis de consciência poética bem distintos dentre os algaravarianos.
Continuemos.

algaravária
(3) no algaravial

 

 

Arquivos
Abril 2006
Maio 2006
Junho 2006
Julho 2006
Agosto 2006
Setembro 2006

 

 

Powered by Blogger

Template by Ernesto Diniz



 

eXTReMe Tracker