ALGARAVÁRIA
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sábado, maio 27, 2006
Algaravariações (06): Ricardo Domeneck




Ricardo Domeneck nasceu em 1977, em Bebedouro (SP). É poeta, tradutor e DJ. Depois de alguns anos em São Paulo, vive hoje em Berlim (Alemanha), onde edita o fanzine HILDA e é o DJ residente da festa semanal Berlin Hilton. Publicou a coletânea Carta aos anfíbios (Rio de Janeiro: Editora Bem-Te-Vi, 2005).



Abaixo, confira os poemas inéditos e a entrevista cedidos gentilmente à grata Algaravária. Realmente imperdível, algarantimos.






Fragmentos da seqüência "Dedicatória dos Joelhos" in A Cadela sem Logos


§

inveja das cartas a que
basta dedilhar um
nome completo e sempre
conseguem a atenção
do destinatário e
enquanto ele e
ele abrem
a boca permitem
a visita ao estômago
alheio minha garganta
de mão dupla abre
a passagem mais
uma vez devo bastar
-me limito-me a
olhar sua
boca limítrofe o
álcool realmente não
auxilia a
confusão de
estômagos entre
interno e externo



§

reconhecer uma
voz um rosto
reconhecer pela
dor um órgão desperto o
pé encontra diligente
a falha no chão que
o tempo prestou
estaca
o joelho dobra-se à
força do impulso
a queda é a
entrega à falta
de assistência
do ar JUBILATE
se é assim é
assim por um
segundo tudo
real como uma
cena em jean-marie
straub somos todos
adultos ou não
digo EXSULTATE
nem dói estar
um tanto
deslocado
na esfera da atenção
alheia como a
rejeição da
rua paralela



§

se algo importa tudo
importa mas a querença
desvia o fundo
para o raso
do específico
como a rasura do
ignorado aplaude o
múltiplo busco
seus pés pelos
cantos encontro
ângulos precisos
demais para a
tortuosidade do
meu enrodilhar-me
a seleção do
desejo projeta
o desaparecimento
de grande
parte do
mundo

...................a Daniel Schaarenberg



§

a subnutrição ocorre
não
diante do esvaziamento
do continente mas na
proliferação dos
conteúdos atravesse o
rio resoluto
o distante o
erro do
horizonte magro
a corrente dos
eventos que o
carregue para
a fonte dos fatos
o desejo a dieta
de todo um
século o móvel
o inconstante o sujeito
subsista subsista
na impaciência
do objeto fixo
pele e osso meu
filho você está
pele e osso



§

as bases
do íntimo e
expressivo as correntes
do similar sem validade
o discurso
produz e
nomeia teste de
desempenho da
identidade este
tempo não
é tempo de sutilezas
de um mundo simpático
1967
nancy sinatra
lee hazelwood
equivaliam
flowers are the things
we know
secrets are the things
we grow
2003
kate moss
bobby gillespie
distoam
flowers are the things
we grow
secrets are the things
we know
não se perde
valor reajusta-se
na inflação da
querença as
versões do mesmo
entre o contíguo e
o similar as
ansiedades do comum
do próprio e do nome




Da coletânea "Sons: Arranjo: Garganta"


Sujeito ao mundo

...........................a Heitor Ferraz


não
ser o centro
do universo não
implicou na inexistência
do planeta a mesma
conjunção numa
cama única a ânsia
da manhã na garganta
sinaliza
a reentrada
no continente no
possível
se o copo
rejeitasse a água
antes de abraçá-la
como ver nuvem
e dizer chuva
ocupar-se tanto
com a
respiração para
esquecer os
pulmões mas
às vezes
quer-se ênfase procura-se
o que o
século XIX e diz-se
"que a digestão recuse
o que o
paladar aceitara"
pois a queda não
é a única
opção do passo
em falso como
umedecer a boca
antes de toda
e qualquer
resposta





Pela elipse confundir caça e fuga


Objeto aberto estabelece
a perda onde
antes o
núcleo e ela
olha-se no
espelho e diz "Vossa
Iminência". A mão
dirige-se ao
telefone para fazer
uma chamada mas
um segundo
antes ele toca,
como se
perder a consciência
fosse apenas
o primeiro após 97
dias de
inverno em que
os cafés pôem
de novo
nas calçadas as mesas.
Que delícia usa
o prazer como
desperdício?
Dizer estômago e
pensar de imediato:
"quao vermelho?"
ou o terror do
trem entre
estações e a dança
que estaciona
em meio
ao dançarino,
não, dançarino
que estaciona
em meio à
dança.




Cão são da ex-ilha

........................a Carlito Azevedo


o desgosto de cada
passo confirmar o mapa
e o diafragma contraído
entende o queixo
no joelho,
meio-dia e meia
o centro da certeza
que caminha do ,,quero"
ao ,,não-quero",
palha, fênix, Joana
dArc, como perceber
que abismo e precipício
não
são sinônimos
exatos,
como acordar no meio da
noite sem energia
elétrica
e sussurrar com a calma
do fim da força:
equivalendo
silêncio e escuridão,
real
apenas a escolha
da língua, entre-
tanto a
memória
das possibilidades
morre
para que o fato
entre inassistido
nas atas
do verídico;
saiu o sol,
deve estar tudo
bem; subiu a lua,
deve estar tudo
bem;
trocar de pele
continuamente
talvez
leve-me ao centro
e a ausência
me escame
como quem diz
,,eu sinto
a falta"



(untitled)


yes
the exquisitely delicate
reality demands
salt & sugar
to be kept
in separate bowls
so the past will
extrude stains
& I
fear
the present
is no
stalemate
for the memory to
expound, expunge et al
as I fell
asleep in
berlin
& did not wake up
in hong kong
to taste the fact
that arrows of causality
pierce
the silhouettes
of my expectations
and decorate
the immaculate blank future






ENTREVISTA


1. Trajetória de antes


Como se tornou o escritor que é hoje?

Talvez da mesma maneira com que me tornei a PESSOA que sou hoje? Eu gosto de me alinhar aos escritores que não fazem a distinção entre vida eobra. Assim, eu teria que responder que foi nascendo onde nasci, sendo criado por meus pais como fui, desenvolvendo-se minha vida sexual tal qual aconteceu, por ter vivido desde muito cedo em outros países como os Estados Unidos e a Alemanha, e ao aprender as línguas, ter tido contato com a poesia destes países com a mesma intensidade (quase) com que travei a luta com a brasileira. E hásempre aquela coisa estranha chamada de temperamento, que faz com que tenhamos uma reação distinta perante certos fatos e obras compartilhados por todos.


Qual sua trajetória literária até o primeiro livro?

Há muito pouca coisa anterior aos poemas publicados no meu primeiro livro. Quase tudo perdido por gavetas na casa dos meus pais, talvez. Tomei uma decisão de não publicar nada antes dos 28 anos, a idade em que Drummond e Murilo Mendes publicaram seus primeiros livros. Parece arbitrário, e é, mas foi uma decisão que me impus. Queria ter certeza que publicaria quando tivesse um projeto poético delineado, consciente. Antes do primeiro livro, as experiências literárias restringiram-se ao trabalho de dramaturgia com um grupo de teatro de que fiz parte na ECA-USP.


Teve algum incentivador? Quem?

Houve pessoas importantes no sentido de me passar livros que moldaram meu pensamento. Sempre menciono minha professora de literatura nos Estados Unidos, Pamela Peak, que ensinava de maneira genial, de tal modo que nos fazia amar a literatura ao invés de detestá-la, como faz a maioria de (péssimos) professores. Suas aulas sobre Poe, Dickinson, Whitman e Thoreau seguem frescas em minha memória. Mais tarde, na faculdade de filosofia da USP, conheci meu caro amigo, o poeta Érico Nogueira, com quem foi sempre ótimo discutir poesia. Nossas idéias são quase opostas, mas sua inteligência e crítica sempre foram muito estimulantes no nosso debate.


Há uma obra com a qual tenha descoberto a poesia de um modo mais contundente?

Há as obras determinantes, como a "Janela de Caos" de Murilo Mendes, os "Pisan Cantos" de Ezra Pound, o "Silence" de John Cage, as "Illuminations" de Rimbaud, as "Investigações Filosóficas" de Wittgenstein, para ficar entre as que mais me obcecam.


Tentou vários gêneros literários? Ainda os pratica em segredo?

Há poemas em que os tento a todos ao mesmo tempo. Mas já escrevi para o teatro e estou escrevendo prosa agora.



2. Psicologia da composição


Com que se inspira para escrever? O que é matéria para a poesia? Com quantas metáforas se faz um poema?

Em algum lugar entre "Seu pensamento é de fato sua forma", de Sérgio Buarque sobre Dante Milano e "The poet thinks with his poem" de William Carlos Williams. Gostaria de acreditar que isto responde às duas primeiras perguntas. Talvez a melhor resposta para a segunda seria que "um poema escreve-se com palavras, não com idéias", como disse Mallarmé. Assim, a matéria para a poesia é a língua. Mas isso poderia gerar mal-entendidos como os cometidos pelos concretos, de que a língua seria um mundo em si. Não, não penso assim. Como não sou capaz de traçar a linha que separa mundo e língua, diria que o poema vive aínesta linha. Quanto às pobres metáforas, tão fora de moda, eu rebateria com uma pergunta: por que, de todas as figuras de linguagem, de todas as técnicas poéticas, pergunta-se "com quantas metáforas se faz um poema"? Isto é uma escolha estética pessoal, é claro, mas confundir metáfora e poesia está na base da crise poética do nosso tempo no Brasil. Vide os neobarrocos brasileiros dos menininhos brincando de safári com Mogli no Himalaia, ou das menininhas brincando de biólogas marinhas em Atlântida.


Quando escreve, qual o efeito estético visado?

Uma intervenção via linguagem no mundo, já que estão inextricavelmente amalgamados.


O resultado final do poema coincide sempre com sua idéia inicial?

Eu não acredito na poesia como veiculação de uma idéia. Na verdade, eu me oponho completamente à noção de poesia como a arte de veicular mensagens por linguagem metafórica. A poesia não participa dos jogos de linguagem de comunicação, como aprendi com Wittgenstein. Já existe gente demais no Brasil veiculando suas mensagens de sabedoria através de metáforas, bancando consultório sentimental, assistência social a famílias em crise e reconstituindo a merencória infância antes mesmo dos 40 (o caso mais gritante é o de Fabrício Carpinejar), se "auto-expressando" (coitada da poesia) como se seus sentimentos fossem mais sublimes que os de seus leitores.
Portanto, a não ser que se escreva da forma que descrevi acima, nunca se sabe aonde o poema nos levará simplesmente porque não existe idéia SEM o poema. O poeta pensa com seu poema, e não háassim objetivo inicial e produto final neste caso, apenas o processo em si.

Tem obsessão em reescrever o mesmo texto? Ou a emenda é pior do que o soneto? Guarda tudo o que escreve? Ou elimina sumariamente?

Robert Duncan considerava poemas remendados ou reescritos como novos poemas. Há textos que surgem prontos e em que não preciso mudar muito, há alguns em que venho trabalhando lentamente, adicionando e cortando lentamente há meses.


Para escrever, é necessário comer, beber, fumar? O que organicamente anima sua escrita?

Bom, alguns poetas vilamadalênicos parecem acreditar que sim, que precisa beber, fumar e dar em cima da moça ali da calçada. Deve ser efeito colateral de ler John Fante ou a prosa de Bukowski (que émuito melhor poeta). Ao mesmo tempo, certas poetas muito comportadas são bastante irritantes também. O desregramento de todos os sentidos pode ser praticado sem ajuda química, o que requer mais coragem. O que anima organicamente minha poesia é jamais esquecer que possuo um corpo biodegradável e o fato de que eu não tenho o menor interesse em ser um axioma.


Para escrever, precisa conhecer muitas cidades e ler todos os livros?

Emily Dickinson nunca saiu de Amherst e escreveu uma poesia tão importante quanto a de Whitman perambulando. Precisar, então, não deve, feito a Dickinson que só não viajou, mas leu muitíssimo. Não é necessário conhecer os 5 continentes para confrontar-se com o mundo pela linguagem, mas que é mais divertido, isso é.


Há idéias ou imagens que lhe perseguem no fio dos anos e das obras?

Meus poemas e livros são ciclos obsessivos. Sim, há muitas imagens e figuras que retornam o tempo todo.



3. Prosa do próprio mundo


Como define a sua poesia? Como caracterizaria suas ambições estéticas principais?

Se for poesia, já que há quem diga que não é, e não me importa muito se é ou não, defino-a como TEXTOS, defino minha poesia como textos, e não me importa ir muito além disso. Há quem vai entender. Minha ambição estética, ou ética, ou como ser humano (o que deveria ser o mesmo) é colaborar com o trabalho de artistas ao longo dos tempos que tentaram levar a si e aos outros a uma relação mais saudável com sua condição limitada organicamente, sem recorrer a remédios dualistas ou escapistas. 


O que sua poesia procura compreender?

O inverno.


Entre seus próprios poemas, quais os seus preferidos? Eles coincidem com os preferidos dos leitores ou mais divulgados em geral?

Os mais citados raramente são os meus favoritos. Ouço com freqüência comentários de pessoas que gostam de poemas como "Sempre o exílio" ou "Refrigerador", que eu talvez nem pensasse em incluir numa antologia. Falam também do "A pele medrosa cicatriza-se: e recomeça", mas deste eu tenho muito carinho, meu poeminha pré-pé-na-bunda, já que na maioria dos casos escrevi poemas pós-pé-na-bunda. Mas eu gosto bastante do "Ao ver Adriano Costa atravessar a Augusta" e ele é sempre citado. Poemas como "Breviário de secreções" ou as "Seis canções óbvias", que estão com certeza entre os meus favoritos, são sempre ignorados.


No fundo, sente-se escrevendo sempre o mesmo livro?

Ciclos obsessivos têm a característica de retornar.


Recebeu ou recebe conselhos importantes de escritores na sua trajetória? Como foi e é o diálogo com outros escritores?

O diálogo é importante, mesmo que pela discordância. Mas só fui conhecer escritores há pouco tempo. Meus amigos sempre foram artistas plásticos, músicos ou atores, gente muito mais estimulante que escritores, uns chatos, em geral.


Quanto tempo dedica à leitura de crítica literária? Concorda com a idéia de que ela, nos jornais e revistas, está mais digestivo-introdutória do que analítico-crítica?

Eu leio gente como Walter Benjamin, Hugh Kenner e Marjorie Perloff com MUITO PRAZER, eles são incrivelmente estimulantes. Alfredo Bosi também. Poetas críticos como Rosmarie Waldrop, Octavio Paz, Haroldo de Campos, Bertold Brecht, Jack Spicer, Alberto Pimenta, são mais prazerosos ainda. Crítica literária praticamente inexiste em jornais e revistas do Brasil. O que há são resenhas em que o autor lista características do livro da forma mais neutra possível (como se o leitor não fosse percebê-las ao ler) e ao fim elenca certos elementos de que discorda para ensaiar independência crítica. Um sindicato de covardes com medo de tomar partido e encarar os problemas críticos de seu tempo. Mais fácil escrever sobre os mortos, que não têm como reclamar. Há exceções, mas raras. E não estão em jornais e revistas, onde poesia e sabão-em-pó recebem o mesmo tratamento. O que há é gente que aprecia e considera bons, vamos ver que exemplos dar... tanto Fabrício Carpinejar quanto Marcos Siscar, e sim, senhoras e senhores, eu considero impossível respeitar e apreciar o trabalho dos dois ao mesmo tempo, se se quer encarar os que chamo de problemas críticos do nosso tempo.


Qual a relação entre seu trabalho e sua escrita?

Trabalho como DJ. Vide resposta abaixo. Também trabalho como professor de línguas como inglês e português. E isto é muito interessante como campo de pesquisa para o funcionamento da língua na cabeça das pessoas.


Qual a relação entre sua poesia e a música?

A de antigas sócias, doidas para voltar a trabalhar juntas, mas impedidas pela atual condição dos negócios.


Em que geração literária você se concebe? Ela tem um projeto definido?

Cedo demais para responder. Geração pode ser agrupada de forma cronológica ou estilística, e creio cedo para saber, em ambos os casos. Mas não ando sentindo projetos muito definidos que levem a organizar grupos.


O que além da poesia precisa ser lido?

Tudo precisa ser lido: poesia, prosa, teatro, filosofia, lingüística, gibis.



4. A poesia e suas questões em questão


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

Se ele realmente tem paixão pela linguagem, nunca será questão de obrigação, mas simplesmente de interesse, curiosidade, sede, vontade. Quanto mais, melhor. Mantendo em mente que um poeta pode ser erudito, mas um erudito não éum poeta. Tentei por um tempo, enquanto respondia esta pergunta, pensar num bom poeta que fosse uma pessoa sem muita leitura... não consegui achar nenhum. Mas é outra questão se erudição é sinônimo de "acadêmico".


A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?

Não.


Qual a função social da poesia?

Um poema é um ato de responsabilidade, pois o bom poema interfere na língua, que é propriedade de todos. Mario Faustino disse que o mau poeta é, como o mau professor, um criminoso. Exagero?


O que mais lhe agrada em um poema?

A surpresa e a intervenção no meu mundo. E já disse Ezra Pound: "Only emotion endures", adicionando que acredito ser possível emocionar o pensamento.


A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

Não se esgotou. Quanto aos caminhos, vide meu ensaio "Ideologia da Percepção", a sair na próxima Inimigo Rumor. Não haveria espaço para responder esta questão de forma séria e responsável numa entrevista.


Quais os grandes poetas da atualidade?

Na categoria VELHOS mas VIVOS: John Ashbery e Nicanor Parra. Entre os contemporâneos mais estimulantes, não vivo mais sem Lyn Hejinian, Rosmarie Waldrop, Friederike Mayröcker, Emmanuel Hocquard, Adília Lopes e Alberto Pimenta. 


Políticas literárias: faz qualquer negócio para sua obra ser editada? éjusta a percentagem que fica para o editor e para as livrarias? É justo que o escritor seja a causa produtora de um sistema literário que não o beneficia corretamente? O que se pode fazer?

Não, não faço qualquer negócio. Moro longe, bem longe das intrigas de boteco da poesia brasileira. Além do mais, os que costumam, no Brasil, usar suas coleções de poesia em editoras e revistas literárias como manobras para levar poetas jovens e inéditos para a cama são homens heterossexuais.
Fui editado, em todos os casos, porque meus editores, SEM ME CONHECER, leram meus poemas (que tratei de fazer chegar a suas mãos) e gostaram deles, acreditaram em sua qualidade. Gente corajosa. Foi o caso do meu primeiro livro na Editora Bem-Te-Vi (escolhido por Lélia Coelho Frota, Armando Freitas Filho, Silviano Santiago, Luiz Paulo Horta e Lucia Almeida Braga) e do meu segundo na CosasNaify/7 Letras, escolhido por Carlito Azevedo, este editor corajoso e generoso o suficiente para não se importar com a politicagem poética no Brasil e editar, numa coleção como a Ás de Colete, a dois zés-ninguéns como Angélica Freitas e eu. O mesmo se deu com minha inclusão na antologia argentina "Cuatro Poetas Recientes del Brasil", editada e traduzida por Cristian de Nápoli, que por acaso leu meu livro em uma livraria em São Paulo e me contatou, sem se importar se eu dirigia alguma revista, ou tinha qualquer outro "cargo de poder" na "cena" poética do Brasil.
Quanto às outras perguntas, é justo que o leitor pague TANTO por um livro no Brasil? A coisa toda precisava ser mais justa. O escritor receberia mais se fosse possível vender mais, a preços mais justos. Anda impossível pagar por livros no Brasil. Eu, como nunca imaginei viver de literatura no sentido financeiro, não me importo muito com a questão. Queria apenas que os livros fossem mais baratos para os leitores, já que eu também sou um.


A figura do escritor precisa ser mais mistificada ou desmistificada? O que isso envolveria?

O escritor precisa ser tratado com o respeito que merece, nem mais, nem menos. Lida com um bem comum importantíssimo de uma comunidade, que é a linguagem. Istolhe traz grandes responsabilidades, que deveriam ser cobradas, e deveria trazer-lhe respeito. Mas já estamos longe do papel do bardo, do xamã, do místico. É melhor nos acostumarmos, o que nos pouparia de passar por papéis ridículos, como alguns poetas, metidos a sacerdotes, passam.


Quais são os vícios e as virtudes da poesia brasileira moderna e contemporânea?

Complexo demais para o pouco espaço, sem acabar repetindo o que já disse em minha entrevista à Inimigo Rumor. Portanto, refiro os leitores a ela, editada no número 17 da revista e disponível na internet no site da revista Germina, ou novamente ao meu ensaio "Ideologia da Percepção" a sair no próximo número.



5. Museu de agora e depois


"Escrever sobre escrever é o futuro do escrever"? (Haroldo de Campos)

Todo bom poema traz em si, implícitos, uma crítica da poesia anterior a ele e caminhos para a que está por vir, o que torna poemas estritamente metalíngüísticos uma chatice desnecessária e sem tamanho.


Qual é hoje a marginália da poesia brasileira? Ela ainda é possível depois da internet?

A marginália hoje é a mesma de todos os tempos. Os bons. Os que buscam o necessário. Os que estão mais interessados em intervir na tal de tradição que contribuir com ela. Todos os momentos em que houve mudanças foram momentos em que poetas perceberam que os métodos de escrever poesia estavam em descompasso com o mundo e suas descobertas em outros campos ou transformações em suas maneiras de viver. E não vejo em que a internet pode mudar isso.


Que livro prepara para logo?

Meu segundo livro, uma coletânea com 3 textos ou seqüências longas, está no prelo. Preparo minha terceira coletânea em português e minha primeira em inglês.


Como você se vê frente ao recebimento de originais? Comenta tudo o que recebe?

Não comento tudo por falta de tempo. Trabalho muito e sobra-me muito pouco tempo para correspondência.


O que pensa sobre a algaravária?

Todos os poetas anteriores responderam entusiasticamente sobre os aspectos positivos do Algaravária, então vou tentar complicar um pouco as coisas, num ato crítico que eu considero ser de respeito também.
Em primeiro lugar, me agrada que vocês usem o termo "dissonantes" e não a lengalenga mais comum de "polifônicos" ou sobre a "multiplicidade de possibilidades técnicas e de vozes da poesia contemporânea" pós-qualquer coisa. Seria necessário definir esta dissonância, e como está ali, creio que seja entre os poemas dos que contribuem semanalmente e convidados, sendo todos poetas muito diferentes em estilo e projeto, já que não deixa claro a que harmonia estabelecida tenta-se comparar esta dissonância. O que acaba fazendo com o que o Algaravária, sem querer, talvez, contribua com este discurso que acabo de criticar, o de que hoje em dia pode-se escrever poesia como quiser, que "todas as formas históricas são viáveis aos poetas". Discordo disto, e já disse o porquê em várias ocasiões. Além disso, por mais que seja interessante haver um fórum de discussão, acho sempre importante desconfiar de tentativas de centralização, todos nós deveríamos sempre manter isso em mente.
Também questionei junto aos organizadores do Algaravária se pretendiam manter este ritmo de 1 poeta por semana, o que, em minha opinião, tornava impossível manter qualquer nível de qualidade. Responderam que criam ser possível mantê-lo, e que podiam pensar em 150 poetas bons para publicarem. Infelizmente, discordo do otimismo. A não ser que estejamos passando por uma nova Renascença e não fiquei sabendo porque a Globo não chega aqui na Alemanha. Mas me lembreiagora que em nenhuma fase da história houve, em um mesmo momento, tantos poetas de qualidade. Ezra Pound diria que nem mesmo juntando todos, de todas as épocas. Não precisamos de mais um tour panorâmico pela geração, precisamos de quem assuma os riscos de uma leitura crítica da poesia sendo feita no Brasil e que tenha a coragem de dizer "isto é necessário" ou "isto é desnecessário", e que seja capaz de dizer o porquê, de forma honesta e direta. Na balbúrdia da poesia no Brasil de hoje, está na hora de incorporar ao MAKE IT NEW um MAKE IT NECESSARY. Mas os sacerdotes do vago, que confundem poesia com uma vaga noção de poético não vão entender e farão mais um discurso sobre como a poesia é independente do mundo que a cerca, ou sobre a liberdade poética de se fazer o que se bem entende (defendo-a também) enquanto fazem, no entanto, suas manobras políticas para assegurarem seu lugarzinho ao sol da história literária.

algaravária
(33) no algaravial

 

 

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