ALGARAVÁRIA
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sexta-feira, junho 30, 2006

Paulo de Toledo
(3) no algaravial

 


fase blues

sol por um rasgo
na vidraça a tua dor
insiste em arder -
qual a noite entoasse
o seu póstumo canto

...

sol esse fosso
a dissimular calor
enquanto adverso
faz que desperta o dia
ao brilhar - tão somente...

...

sol acabado
e tudo foge ao olhar -
neste instante em que
da tarde apenas restam
folhas molhadas ao chão

Felipe K.
(3) no algaravial

 


enquanto 7


(fragmento)



fúria.......:.......e não destrói as coisas.
coloca-se cada coisa no próprio lugar
arruma-se.........e pronto.......:.......o que não há de chegar
o que há.......:.......não move sequer um passo
o centro do gesto.........inteiro.........definitivo.
antes e depois.........ainda enquanto.
.............................:.......por quantas vezes
ler tudo isto............e não se sabe ler.



.

Pablo Araujo
(3) no algaravial

 

quinta-feira, junho 29, 2006
O Dia da Noite

Casa Antiga

Andar por dentro de tuas fronteiras macias, tua arquitetura
Sendo você como se faz, assim, minha casa
Teus salões, olhos
Tua pele, o fino cal que transcende
Pelo sol sobre as paredes calmas.

O vento espalma o temperamento das alturas
O leite derrama seus insucessos
Os olhos emergem como plumas negras
Faz-se novamente a dança
Em teu perfume azeite
Em tuas costas chãs

E me pergunto e volto se volto
Envolta em teus lacres sagrados
Três dobras em três noites perpétuas

Devolva meu sentido.

Carol Custodio
(1) no algaravial

 


esvaziando gavetas número treze

dei-te meu arco-íris feito de sombras
você sorriu e pintou aquarela
rasguei meus sonhos em plena alvorada
você balançou a cabeça e fez colcha de retalhos

.
.

fui pedinte na madrugada vazia
a tua saliva veio nutrir meus ossos
esqueci meu chapéu azul no meio da sala
você deu um salto e tirou a razão pra dançar

. . . . . . . . . .

a primavera trouxe pássaros e besouros
você colheu papoulas e fez delírios em forma de chá
ergui no teu corpo abrigo às minhas tardes de inverno
você abriu as asas e engoliu a lucidez do verão

.
..
.
.....


expus as entranhas em carne viva
deleguei a ti meu destino
subi na carruagem de gelo
que um dia roubei de breton

.

mas você partiu
e não mais voltou
deixou o vazio em mim
transbordando solidão

douglas D.
(4) no algaravial

 

quarta-feira, junho 28, 2006
Lucidez



[Fazer água XIII]



I

Lucidez,
e queimo sem arder.

Lucidez,
elevo a chama sem me
perder dentro de casa.

Lucidez,
os deveres do dízimo,
dôo a lágrima ao rio.

Lucidez,
sei iluminar e fluir,
luz de água.



II

Lucidez,
clandestino, não sei
me abandonar.

Lucidez,
abono quando fico
no escuro.

Lucidez,
e ardo sem queimar.

Carlos Besen
(2) no algaravial

 


13 Riscos

Me escreve junto,

com as piores dores ressentidas, um poema não tem forma. Ele vaga (rasga), encarna. Estamos igualmente damaged.
Damaged people. Permanentemente danificados.

Daniela
(3) no algaravial

 

terça-feira, junho 27, 2006
saraIvada 13

Dá pra fazer sol de longe

Eu me concentro na luz do amarelo pra caber num cordão verde que nunca desamarre.
Pode parecer patriotismo, mas minha terra tem mais cores do que cabe contar;
parece charada, mas é o que não era mas seríamos se tivesse sido na semana passada há tempos atrás;
quem não gosta de passear de tapete
nos cabelos, pela realidade que faz fora lá dentro?
Eu me concedo não ser pecado nos dias santos,
por isso,
pra quem está mesmo vivo,
pode tudo trezentos e sessenta e todos os outros dias por ano.
Eu existo todos os pedaços,
como se fosse o balanço no abraço com pimenta de açúcar e um salto pra cima até cair no mar do que.
Ponto infinito
de lã
macio pra rima e pro frio.
Eu me concentro na luva.

francieli spohr
(5) no algaravial

 


Imp. 13

Guizo-ingresso fugidio


A bell
Is a bell
Is a door

Thiago Ponce de Moraes
(4) no algaravial

 

segunda-feira, junho 26, 2006
Ninguagem

Tradução:

Ezra Pound



The beautiful toilet


Blue, blue is the grass about the river
And the willows have overfilled the close garden.
And within, the mistress, in the midmost of her youth,
White, white of face, hesitates, passing the door.
Slender, she puts forth a slender hand;

And she was a courtezan in the old days,
And she has married a sot,
Who now goes drunkenly out
And leaves her too much alone.

(Attributed to Mei Shêng, 140 b.C.)



O belo toilet


Azul, azul é a grama à margem do rio
E os salgueiros alagaram ao longo do jardim;
E por lá, a dama, nas flamas de sua juventude,
Branca, branca face, vacila, passando a porta.
Delicada, ela expõe os delicados dedos;

E ela foi cortesã ao passar dos anos,
E ela se casara com um ébrio,
Que ora embriagado vai à troça
E a deixa ademais sozinha.

(Atribuído a Mei Shêng, 140 a.C.)

Tradução de Daniel Sampaio

Daniel Sampaio
(3) no algaravial

 


96020-013, agora sim

oh jack, estou voando

pra você, de blusa verde, e pra você, que teve um dia de merda hoje

meu bem, vou comprar a varig
é tudo que sempre quis
meu bem, vou comprar a varig
e salvar este país

pode parecer besteira
gastar milhares
de milhas e dólares
pra sarar a altaneira

companhia voadora
pra depois que estiver sã
tantararantantan
chegar a american

vai querer comprar, a american
mas não estará a venda, ó american
decola logo daqui, vai american
manda um beijo pro bush, tá american

e depois vai chegar
numa espécie de transe
oh la la
a air france

vá-se embora daqui, vas-y
nem adianta sivuplê, beibê
vamos servir croissant, benhê
no dejeuner du matin, manhê

e depois vai aterrissar
aquela que não descansa
ach du lieber gott
a lufthansa

nein nein nein, non tá pra fenda
guarde os óirros pra gasolina
que amanhã no aerofristique
nós fai serrrrfir uns berliner

meu bem, vou comprar a varig
que nos eua vira verig
na argentina enfim é barig
e aqui não tá varigud

mas meu bem, vou comprar a varig
é tudo que eu sempre quis
meu bem, vou comprar a varig
e salvar este país

Angélica Freitas
(5) no algaravial

 

sexta-feira, junho 23, 2006

Paulo de Toledo
(0) no algaravial

 


fase blues

"nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa"
(Alexandre O´Neill)


três tankas


uma gaivota
atravessou a tarde
e logo a tarde
caiu-me embriagada:
tinta da noite a subir

...

partiu a ave
(assisti da varanda):
sol nas espáduas
alçou a curva do céu
e minúscula sumiu

...

desde que se foi
fico a olhar o nada
atrás de lembrar -
posto ontem a refletir
pensei tê-la visto ao mar

Felipe K.
(2) no algaravial

 

quinta-feira, junho 22, 2006
O Dia da Noite

Farnel

Eu fiquei
uma conformidade em ruínas
diante da porta trancada
esgarcei sorriso
reencontrei o
mundo das chances de pai e mãe
amarrei os sapatos e
pus-me ao dispor
de desembestada carreira

besta

a rua estava melhor
ornada assim de meus despojos
de meu sorriso industrial

Carol Custodio
(3) no algaravial

 


esvaziando gavetas número doze

ajoelha-te, seu puto!
o deus de merda ouviu teus rogos
e veio cuspir na tua cara

quem mandou crer na felicidade
e semear girassóis
deixando a vida habitar esse coração?

ajoelha-te, douglas!
o pai eterno está ao teu lado
é hora de expiar sonhos

quem mandou abrir o baú de brinquedos
e tirar teus soldadinhos de chumbo
do esquecimento que os embalava?

[lava as mãos antes de tocar no meu rosto
eu não reconheço os caminhos da tua fé]

douglas D.
(1) no algaravial

 

quarta-feira, junho 21, 2006
Pedagogia do rio



[Fazer água XII]



I

Um rio pedagogo:
o abraço da água alfabetiza
o esforço do equilíbrio.

Eu me embaralho,
as pernas:

dois lábios esquecidos
do destino de boca.



II

Rio,
um lírio desigual.



III

Minha mão colhe a correnteza
e a constelação da alga:

o rio corre o céu,
espelho de coral.



IV

A água que se alastra
como a estação no pássaro:

estrutura mineral do fogo,
quando anda.



V

Esfriar a assimetria
com que passo:
permito cicatrizes
para desaparecer,

cesso a impureza
para advir.



VI

A alegria do rio chia
os favos da labareda,

o cansaço de proibir
um segredo.



VII

A água ensina a macular
para dividir.

Carlos Besen
(5) no algaravial

 


12 Riscos

La mala suerte

"Deve ser bom isso". É bom isso.

A Kombi branca ao meu lado com o caixão exposto.
No rádio toca reggae, Are We a Warrior,

Os sinais abrem,
os sentidos abrem,
sai um pouco do verniz.

Estaciono.

Daniela
(1) no algaravial

 

terça-feira, junho 20, 2006
saraIvada XII

Não vale a impressão
Odeio ser tão seca e vazia.
E ter que fazer tanto alvo e terra e tanta carne dessa própria aridez.
Nunca é exagero ou forçado, mas a verdade é que o sertão sou eu,
e nem posso pleitear assistência nem benefício,
não pego nem bem o folclore ou o suplício,
eu nem tenho o direito adquirido
por legítimo pitoresco
de rimar.
Pode me chamar de ?o meio?,
por onde eu me rasgo,
espichando as pernas cada vez mais,
um lado me chamando no outro.
Eu me penduro em janelas opostas
como uma calça se esvaindo no esquecimento da disputa,
onde mesmo eu queria ser?
Já não dá tempo de ser roubada.
O que não sobra de mim também se desperdiça.
Foi o mundo que nasceu apertado, ou eu que evaporei.
Nova hora de o chapeleiro trocar de cabelo.

francieli spohr
(3) no algaravial

 


Imp. 12

poisacousa


Isto
Intimamente
Plástico
Continuum estético
.
.
.
.

Artifício
Artífice

Thiago Ponce de Moraes
(10) no algaravial

 

segunda-feira, junho 19, 2006
96020-013

sereia a sério

o cruel era que por mais bela
por mais que os rasgos ostentassem
fidelíssimas genéticas aristocráticas
e as mãos hábeis fossem
no manejo de bordados e frangos assados
e os cabelos atestassem pentes de tartaruga
e grande cuidado

a perplexidade era sempre
com o rabo da sereia

não vou contar a história
e depois de andersen & co
todos conhecem as agruras:
primeiro o desejo impossível
pelo príncipe (boneco em traje de gala)
depois a consciência
da macumba poderosa

em troca deixa-se algo
a voz, o hímen elástico
a carteira de sócia do mediterranée

são duros os procedimentos
bípedes femininas se enganam
imputando a altos saltos
a dor mais acertada
pois a sereia pisa em facas
ao testar os pés

e quem a leva a sério?
melhor seria um final
em que voltasse ao rabo original
e jamais se depilasse

em vez do elefante dançando no cérebro
quando encontra o príncipe
e dos 36 dedos
que brotam quando ela estende a mão.

Angélica Freitas
(10) no algaravial

 


Ninguagem

Claro enigma




perdido
atrás da porta:

ouve-se um barulho,
houve-se só

claro enigma
na conversão do escuro

frente à porta
da parede surda

Daniel Sampaio
(4) no algaravial

 

sexta-feira, junho 16, 2006

enquanto 6



(fragmento)



confusão total do homem.......:.......um minuto a algum acontecimento.
as coisas sem-nome apontam para o zero...........o círculo
e todas as diferenças.......:.......isto que está aqui
não está mais...........e está.......:.......o um.




.

Pablo Araujo
(3) no algaravial

 


fase blues

tankas sobre a infância

I

"como cresceste!"
seis anos numa frase
da tia no hall -
infância de demoras
como o tempo a se estirar

II

cinco pessoas:
pai mãe dois filhos homens
e uma menina -
retrato para o sempre -
velha sépia a contrapor

III

certa vez ouvi:
"ojiichan foi pro céu!"
não dei ouvidos
à noite fui buscá-lo
em minha nave azul

IV

da janela vi
o telhado da casa
um gato saltou
sobre o muro mais alto
(depois acho que cresci)

Felipe K.
(7) no algaravial

 


Paulo de Toledo
(0) no algaravial

 

quinta-feira, junho 15, 2006
O Dia da Noite

Monstro em repouso

Não quero falar do barco
Nem da árvore
Quero apenas o barulho emocionante
Da minha irresolução(.)

Carol Custodio
(3) no algaravial

 


esvaziando gavetas número onze

pelas ladeiras descem poesias
chuva e lembranças escoando a infância
do velho palhaço que desistiu do circo

[existe um abandono próprio àqueles que insistem em sonhar]

é com o sol poente que despertam estrelas
é no silêncio azul que guardamos nossas tristezas
é nos sorrisos trôpegos que resistimos à vida
é escondidos de nós mesmos
que de vermelho
pintamos o nariz
damos piruetas
inventamos cambalhotas
tropeçamos no destino
&
brincamos de ser feliz

douglas D.
(0) no algaravial

 

quarta-feira, junho 14, 2006
Pulso de vestígio


[Fazer água XI]



I


O leito:

uma câmara de ecos
para os apelos da pele.

O corpo queima
suas paisagens
sob os lençóis.

Durmo,
estou vestido
como pálpebra.



II


Meus anseios rotos
são esféricos
como pupila,
rolo amarelo.

Coroamento solitário,
guerreio para devolver
os fósforos celestes
às pestanas,

retorço córneas gastas.



III


A noite me envolve,
envelope,
sempre para o mais escuro.



IV


Remetido para a lucidez,
o dia encarna para os olhos.

A flor da íris repõe em mim
o coração lusco-fusco.

Carlos Besen
(1) no algaravial

 


11 Riscos

Gostei da camiseta:
desarmy. Should I invite her?
Of course. Vê no que dá depois,
cordões umbilicais ligados; telefones
quebrados, desastres súbitos na madrugada.

Crueldade.
Quando ela ligou para ele para cobrar a
infidelidade fui forçada a falar com ela.
Eu disse assim, e era um sonho:
- Cuida de você.

Daniela
(4) no algaravial

 

terça-feira, junho 13, 2006
saraIvada Um Um - pulo atrasada

ontem parda


quando parece que eu perdi a vida, ela afivela as minhas calças com um par de asas

cordinha verde em posteridade vos digo

há dois universos de crenças entre a amada e amarga

e quando parece que eu perdi a morte,
ela não liga.
meu nome é em seu telefone, o coringa.

não volto quando eu puder,
vingo em todos os quintais, tinindo minha passagem
surgindo nas formigas.

só a tua doçura me ressuscita.

francieli spohr
(3) no algaravial

 


Imp. 11

Sorrateira

É torcer para não fugir
Um estalo
Foi -
Seria

Thiago Ponce de Moraes
(5) no algaravial

 

segunda-feira, junho 12, 2006
Ninguagem



Cabíria




a noite sarra a barra de tua saia

a vida são sempre mambos & mambos pra putas & putas

(menos tu)

e se fosse pra sofrer, deixa a gueixa

andar pierrô

Daniel Sampaio
(3) no algaravial

 


96020-011

r.c.

os grandes colecionadores de mantras pessoais não saberão a metade/ do que aprendi nas canções/ é verdade/ nem saberão/ descrever com tanta precisão/ aquela janela da bolha de sabão/meu bem eu li a barsa/ eu li a britannica/ e quando sobrou tempo eu ouvi/ a sinfônica/ eu cresci/ sobrevivi/ a privada de perto/ muitas vezes eu vi/ mas a verdade é que/quase tudo aprendi/ ouvindo as canções do rádio/ as canções do rádio/quando meu bem nem/ a verdadeira maionese/ puder me salvar/ você sabe onde me encontrar/quando meu mundo cair/ e a luz faltar/ num cantinho do meu quarto/ vou estar/com um panasonic quatro pilhas AAA/ ouvindo as canções do rádio

Angélica Freitas
(6) no algaravial

 

sábado, junho 10, 2006
Algaravariações (08): Ronald Augusto




Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992) e Confissões Aplicadas (2004). Traduções de seus poemas apareceram em Callaloo African Brazilian Literature: a special issue, vol. 18, n0 4, Baltimore: The Johns Hopkins University Press (1995), DichtungsringZeitschrift für Literatur, Bonn (de 1992 a 2002, colaborações em diversos números, poesia verbal e não-verbal) www.dichtungsring-ev.de. Artigos e/ou ensaios sobre poesia publicados em revistas do Brasil e sites de literatura: Babel (SC/SP), Porto & Vírgula (RS), Morcego Cego (SC), Suplemento Cultural do Jornal A Tarde (BA),Caderno de Cultura do Diário(SC), Suplemento Cultura do jornal Zero Hora (RS); Revista ATO (MG); www.germinaliteratura.com.br; www.slope.org; entre outros. Assina o blog www.poesia-pau.zip.net. Ministra oficinas de poesia. E-mail: (dacostara@hotmail.com).

Confira logo abaixo poemas inéditos e a entrevista gentilíssimamente cedidos à grata Algaravária.








POEMAS (dois deles sem título)


1


primeiro
pode ser que um homem se chame pinheiro
pode ser que este homem se mova
entre pinheiros se
comova de vê-los
se é que é possível estar atento
a qualquer coisa que se mova enquanto o vento
no coque dos pinheiros calmo
geme como se
se prestasse a seda sendo
arrastada através de um espinheiro

segundo
que um homem se inscreva ao ouvir
o chamado: pinheiro
não é de arrepiar os cabelos
nem de pelar pinheiros
para que vento não se perceba em parte
alguma e algum vendo-o
ave empalhada em ramo tateante
não se detenha siga
rumo ao monte



2


caminho cerrado trecho de via interior
mergulho por escadaria
meus faróis disparam um túnel na treva porosa
fachopaco não alcanço nunca a desembocadura

ao longo
pegadas no arco dessa não-parede
impregnada de úmida música muda
pequenas solertes pessoas
só olhos flutuantes
lagartixas de cera



Raul Gusmão define-se pelo novo


nossos antigos desde muito pernósticas
barbatanas no estígio sorviam pérolas
dissolvidas em vinagre
não eram lá de palato muito fino
e a extravagância nada significava

eu pratico
rendilhados de prata e ouro onde
não há sequer
limalha de ouro migalha alguma
que disfarce a prata barata
da casa

e bebo a verde esmeralda salut
cifra da mater natura num
frasco de bolso a meio de xerez
em troca
da pérola mórbida doença afecção
a que me afeiçôo de um marisco
moribundo

no acre vinagre bebo
o revirente dos prados
a buliçosa reboada das
palmeiras
o friúme dos perfumes
tudo o que no vale
tudo que o verde (moitas manietando
aramados) veda
ao simiótico colhedor de
açafrão


porto alegre/salvador,1989







ENTREVISTA


1. Trajetória de antes

Porque poeta?

Lá pelos meus 12 ou 13 anos, minha mãe me escolheu como o ouvinte primeiro de seus poemas. Aquilo para mim foi uma tortura. Ela lia entusiasmada os seus versos. Meu jeito quieto e reflexivo ou minha condição de filho mais velho, talvez tenham lhe sugerido a idéia de que eu seria o leitor adequado. Fiquei sem palavras. Era tudo muito chato. Uns três anos depois, escrevi meus primeiros versos. Que lição tiro disso? Nenhuma.


Qual sua trajetória literária até o primeiro livro? E do primeiro para o último?

Duas perguntas que suscitam respostas intermináveis. Mas, não vou dar essa alegria ao divino internauta. Escrevi muito e li, durante algum tempo, só Manuel Bandeira. Depois dos poemas motivados pelas paixões da adolescência, resolvi sondar a real qualidade do que eu vinha escrevendo. Entrei em concursos literários. Em 1979, um poema meu mereceu menção de "destaque" num certame que envolvia várias etapas ao longo de um ano. Fiquei feliz porque o júri era composto, aos meus olhos, pelos melhores poetas da época: Mário Quintana, Heitor Saldanha e Carlos Nejar. Ao final do concurso uma antologia foi publicada e lá estava o meu poema. Minha estréia em livro. Meu primeiro livro não foi o primeiro, é que antes dele (1980, 1981), "pirado" com a poesia marginal, editei livrinhos em xerox bem vagabundos e participei de intervenções-bomba de autores independentes na Feira do Livro. O leão de chácara da Feira aparecia para expulsar a patota. Numa dessas, o Heitor Saldanha foi visitar os poetas marginais para prestar sua solidariedade, e folheando os precários livretos, abriu o meu e elogiou com entusiasmo as imagens e metáforas que encontrara. Isto para mim serviu como o empurrão definitivo: pronto, eu era um poeta, meio hippie, mas poeta. Mas, Homem ao Rubro, de 1983, é que foi, de fato, o meu livro inaugural. Eu tinha 22 anos. De lá até agora, é como diz Borges, a cada novo livro, acho que tento reescrevê-lo.


Quais livros fizeram parte de sua formação? Háuma obra com a qual tenha descoberto a poesia de um modo mais contundente?

A obra capital para a minha formação é a de Manuel Bandeira. Sua poesia é tanto mallarmeana, quanto antropofágica, isto é, Bandeira consegue dosar anti-poesia e poesia pura em seu percurso textual; suas traduções, que vão desde o barroco da poeta mexicana Sor Juana Ines de la Cruz (séc. 17), passando pelo poeta e ativista negro Langston Hughes (1902-1967) e chegando até os "poemas à maneira de...", que gosto de interpretar como exemplos de traduções heterodoxas, onde o velho Manu (como o chamava Mário de Andrade) inventa, por exemplo, um poema afivelando a máscara de e. e. cummings. Também adoro sua prosa voltada às questões da poesia, isto é, sua metalinguagem. Itinerário de Pasárgada é um livro incomparável. Outros livros: A Commedia de Dante, Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis, Museu de Tudo de João Cabral de Melo Neto, etc. Nada de especial.


Teve algum incentivador?

Que eu saiba, não. Sempre associei a imagem do chato à do incentivador. Hoje em dia há a figura do motivador, pior ainda. O incentivador esconde um moralista. Prefiro os opostos e complementares: o admirador e o crítico.


Recebeu ou recebe conselhos importantes de escritores? Como foi e é o diálogo com outros escritores?

Escritor que dá conselhos não merece crédito. O diálogo com os outros escritores não difere muito daquilo que acontece com qualquer pessoa que vive em sociedade, é preciso que haja afinidades eletivas. A expressão parece pernóstica, mas é isso. E é comum acontecer que o seu melhor amigo seja um torcedor obtuso do time adversário. E tem aquele para quem a gente dá "bom dia" não se sabe porquê, o sujeito não fede nem cheira. Vá de retro.


Tentou vários gêneros literários? Ainda os pratica em segredo?

Quando fiz curso de interpretação teatral (fiz e, por enquanto, não nego), escrevi textos dramáticos. Passou. Na mesma época, década de 80, também escrevi alguns contos. Passou também.



2. Psicologia da composição


Com que se inspira para escrever? O que é matéria para a poesia? Com quantas metáforas se faz um poema? Quando escreve, qual o efeito estético visado?

Geralmente aquilo que me "inspira" é alguma solução de linguagem que hesita, como diz Valéry, entre som e sentido, uma paronomásia, para usar um conceito de Roman Jakobson. Qualquer coisa pode se tornar matéria para um poema. Do contrário, eu estaria jogando as minhas fichas no anacronismo da "poesia pura". Um poema se faz com metáforas boas. Dependendo da situação, nenhuma metáfora é a melhor saída. Aliás, na minha opinião, a metáfora representa o kitsch da função poética. Qualquer resposta criativa no trato com a linguagem que ponha em cheque a sua naturalização (da metáfora) e os medianeiros da metaforização indecorosa, seráválida. Eu viso um poema que suscite muitas e contraditórias leituras.


Tem obsessão em reescrever o mesmo texto? Ou a emenda é pior do que o soneto? E mais: guarda tudo o que escreve? Ou elimina sumariamente?

Homem ao Rubro foi um livro escrito a partir desta perspectiva, da reescritura em abismo. Hoje em dia, sou mais atraído pelos poemas "errados e estropiados", como diz o poeta Mauro Faccioni, da Ilha do Desterro. Não guardo, não. Também não tenho livros engavetados. Minha produção é mirrada. Atualmente, considero que tenho dois livros in progress, só. Livro pronto, na gaveta, nenhum.


Para escrever, precisa conhecer muitas cidades e ler todos os livros?

Algumas cidades e alguns livros. Passei minha infância no Rio de Janeiro, mais exatamente em Niterói. Depois, durante a crise dos meus 30 anos, morei em Salvador/BA. Ambas são cidades fundamentais para mim. Mas, éclaro que tudo depende da leitura, do nosso ponto de vista de forasteiro. E as cidades estão na base das mitologias da modernidade. Baudelaire, T. S. Eliot, Oswald de Andrade, etc., todos os grandes poetas do cânone ocidental leram o livro das cidades.


Há idéias ou imagens que lhe perseguem no fio dos anos e das obras?

Não, acho que não. Talvez porque me assuste um pouco a questão da repetição ou da auto-imitação, estou sempre tentando experimentar lances novos. Não chega a ser uma idéia, mas a minha divisa é: experimentação.



3. Prosa do próprio mundo


Como define a sua poesia? Como caracterizaria suas ambições estéticas principais?

Isso é trabalho para os críticos interessados. Mas, para não deixar o divino internauta sem resposta, indico o texto do poeta Cândido Rolim a respeito da minha poesia, que apareceu recentemente em www.cronópios.com.br . Este mesmo texto foi re-trabalhado e ampliado e será publicado oportunamente por Edimilson de Almeida Pereira (MG), que organiza um livro de ensaios onde diversos autores escrevem sobre questões poéticas.


Qual a relação entre seu trabalho e sua escrita?

Nenhuma.


Qual a relação entre sua poesia e as artes plásticas?

Quanto a esta questão, ainda sou poundiano, "a poesia está mais perto da música e das artes plásticas ou visuais do que da literatura", cito de memória. Hoje em dia poderíamos ampliar o parentesco incluindo o cinema. Muita gente se opõe a esta proposição de Pound. Com efeito, ela causa algum desconforto, principalmente para quem vê na literatura este arco generoso a abrigar todas as manifestações verbais marcadas por uma desenvoltura de imaginação. Mas, para Ezra Pound, literatura não é senão a forma refinada desta instituição pernóstica conhecida como sistema literário. Acho que esta proximidade, intuída por ele, entre a poesia e tudo o que não fosse "lixeratura", só confirma a sua devoção a esta arte que é, toda, apenas "cernes e medulas". E há um esforço violento por detrás deste apenasque, agora sim, a literatura é incapaz de experimentar.


Qual a relação entre sua poesia e a música?

Pode parecer estranho, já que também sou músico, mas acho que não há nenhuma relação notável. Gosto muito de música, de fazer e de ouvir. Assim como gosto de cinema. A música na minha poesia representa um estímulo como qualquer outro. Quando faço um poema, deixo o músico no banco de reservas.


Em que geração literária você se concebe? Ela tem um projeto definido?

Minha formação se deu durante a década de 80 e meus primeiros livros também foram publicados neste momento. Os teóricos de estética acomodam este trecho histórico dentro do período pós-moderno. Um traço desta geração parece ser o de uma construção poética que se espoja num pastiche tanto do passado como de um futuro algo cínico.


Como vê a pontuação na (sua) poesia?

Não vejo, porque não a utilizo. Exceto quando busco algum efeito icônico, por exemplo: um parêntese aberto sugerindo um "crescente", uma "vírgulágrima", etc.


Como percebe suas principais qualidades como escritor? Há algum defeito de que não abra mão?

Não sei se é uma qualidade, mas só começo a escrever quando acho que esbarrei em alguma coisa que escapa à convenção. Um defeito de que não abro mão: os parênteses.



4. A poesia e suas questões em questão


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

Os poetas contemporâneos não se envergonham de um certo virtuosismo técnico a que se submetem ludicamente. Transitam com leveza pelo círculo vicioso da competência. Sua erudição é um banquete após uma expedição de conquista. O refinamento é tudo. Numa espécie de réplica soft ao politicamente correto, re-instauram o poeticamente correto.


O que mais lhe agrada em um poema, dado o variegado múltiplo da poesia atual?

A beleza do difícil que ele possa conter. E a coragem da anti-poesia, que pode ser uma tradução para a beleza já referida.


A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?

Não, acho inclusive que a condição marginal da poesia, relativamente ao prestígio gozado por outras formas de linguagem no âmbito do embate cultural e malgrado o risco de desaparição que tal marginalidade pressupõe , é interessante porque obriga o poeta a assumir uma postura de maior autonomia crítica. E jáque nada se espera dele, talvez desde aí possa surgir alguma coisa.


Qual a função social da poesia?

Propor formas estéticas ao indecidível e ao equívoco que marcam o privado e o individual, de modo que eles disponham de forças para a deglutição meditativa/corrosiva dos signos do espaço público.


A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

Se eu soubesse como identificar os sinais de um tal esgotamento a rondar a arte da poesia, eu não os revelaria. Injetaria o contraveneno só na minha poesia. Você pensa que é mole ser um novo Homero?


Há obras meramente comerciais de poesia? O que pensa delas?

Alguém já disse que a expressão "poesia formalista" é uma redundância, pois poesia é forma, mesmo. Então, "poesia comercial" para mim, é uma contradição entre termos. Tem poesia ruim, isto é uma coisa. Mas, se é comercial, não é poesia. Portanto, a indignação de Augusto de Campos dizendo, num seu poema, que não se vende, tem algo de moralismo teatral. Faltou aprender a lição de Pessoa/Ricardo Reis: "Cala e finge./ Mas finge sem fingimento".


Quanto tempo dedica à leitura de crítica literária? Concorda com a idéia de que, nos jornais e revistas, ela está mais digestivo-introdutória do que analítico-crítica?

O tempo que dedico à leitura de textos críticos é mesmo que dedico à leitura de poesia, isto é, o tempo que dura o prazer textual. Meu desejo de linguagem dita as regras. O jornalismo literário tende cada vez mais a tornar-se um mero relações-públicas do mercado editorial.


Políticas literárias: faz qualquer negócio para sua obra ser editada? é justa a percentagem que fica para o editor e para as livrarias? É justo que o escritor seja a causa produtora de um sistema literário que não o beneficia corretamente? O que se pode fazer?

Não. Não. Não. Aproximar a poesia da música e das artes não-verbais. Afastá-la da literatura do sistema literário.


Quais são os vícios e as virtudes da poesia brasileira moderna e contemporânea?

Só um: o verso livre. Embora seja um exagero insistir em dizer que o "ciclo histórico do verso está encerrado", parece ficar cada vez mais claro que o verso livre modernista que, diga-se de passagem, a maioria pratica ainda imperitamente, sem fazer vacilar suas contradições e possibilidades constitutivas experimenta um momento de estagnação. Nem mesmo as vanguardas, que inventaram a "música sem-versista": o poema como uma constelação suspensa na página; nem mesmo elas conseguiram mudar o quadro. Talvez isso se deva, em parte, a precoce canonização do versolibrismo. Aliás, sua defesa, em alguns casos, foi tão dogmática quanto a dos que o repudiavam. O verso livre ainda tem alguma coisa a ver com o verso metrificado que pretendeu substituir.



5. Museu de agora e depois


"Escrever sobre escrever é o futuro do escrever"? (Haroldo de Campos)

Escrever sobre escrever sempre fez parte do nosso repertório, desde Homero, passando pelos griots africanos, pelos cantores provençais, pelos simbolistas, etc., e chegando até aqui. A metalinguagem está no passado da tradição e no presente que põe em cheque ou em movimento este passado. Escrever sobre escrever é um dos quesitos do escrever. Se isso tem futuro? É cedo para saber.


Alguma epígrafe que o acompanha sempre? Algum epitáfio lhe contém?

Invejo o poeta peruano Mirko Lauer que colocou como epígrafe ao seu livro Os poetas en la republica del poder, esta maravilha de José Lezama Lima : "...el encapotado odio de siempre de los poetas tejedores de la gran resistencia en contra de los asquerosos y progéricos, porcinos y tarados protectores de las letras". Como epitáfio, um poema-verso do Ricardio Silvestrin: "quero ser cromado".


Que conselhos daria a quem está começando?

Numa das primeiras perguntas desta entrevista, já disse algo sobre o escritor e os conselhos.


Como você se vê frente ao recebimento de originais? Comenta tudo o que recebe?

Hoje em dia considero um trabalho. Quando me pedem para ler, eu cobro pela leitura e escrevo um comentário crítico. É claro que leio, "na faixa", os originais dos poetas de minha predileção e geração. Neste caso, não estou na posição de orientador, volto a minha condição de fruidor. Ultimamente ando lendo, entre outros, os originais do Ademir Demarchi e do Paulo de Toledo, estou adorando. Ambos grandes poetas que conheci de uns anos para cá. Outro poeta de quem espero e recebo sempre poemas perturbadores, é o Cândido Rolim, autor do livro Pedra Habitada.


Que livro prepara? Qual seu eixo principal?

Os editores da Ameopoema, Alexandre Brito e Ricardo Silvestrin, querem lançar um livro reunindo todos os meus livros anteriores ao Confissões Aplicadas, editado pela mesma editora em 2004. Acho uma bela idéia, jáque estes livros remotos tiveram edições bastante reduzidas. O Homem ao Rubro, por exemplo, foi o de maior tiragem, teve 300 exemplares.


O que pensa sobre a algaravária?

Só coisas boas. Longa vida e longas vaias porque a perfeição é um lixo-luxo a que não temos direito a algaravária.

algaravária
(14) no algaravial

 

sexta-feira, junho 09, 2006
fase blues

tankas


II

rajar de vento
onda cravada no chão
água pelos pés -
nossos passos na areia
assistem à ressaca


III

de novo noite
solitária entre vultos
de estrelas - você
aflora junto à lua
como se ferisse o céu

Felipe K.
(4) no algaravial

 


para a D

Paulo de Toledo
(0) no algaravial

 

quinta-feira, junho 08, 2006
O Dia da Noite

Virtuoso(a)(e)

De si
Nunca diria nada
Apenas dividiria
Coisas sem importância
Coisas de fazer
rir
De si
Mas nunca diria nada.

Carol Custodio
(4) no algaravial

 


esvaziando gavetas número dez

pequenos homens
feitos de silêncio e medo
escondem a esperança
debaixo das vestes
e sob os olhos de deus
e sob a graça dos anjos
ruminam nosso destino
cuspindo dor
evacuando sonhos
&
selando-nos os olhos

nós

os que padecemos na fé
os que fingimos na dor
os que escrevemos lamentos
os que sangramos poesia
os que fomos um dia
abortados de toda aurora
esquecidos de todo amor
acamados de todo sorriso
qual criança sem cata-ventos
num domingo azulado
quando o que mais se quer
é tão somente
um instante de carinho

douglas D.
(0) no algaravial

 

quarta-feira, junho 07, 2006
Ração do racional


[Fazer água X]



I


Em migalhas,
a luz do milho
ruída em mim,

indago se estou nu
ou se sou núcleo.



II


Aos farelos,

ignoro se disseminado
ainda semeio.



III


Íntegro,

estive amarelo,
mas não estava vencido.

Não me convenci,
era tarde,

devorei
minha própria lucidez.



IV


Às migalhas,

sobro
o que sequer
cogito.

Carlos Besen
(3) no algaravial

 


Dez Riscos

- É assim que a vida passa
a proa
os passageiros atrás
em direção ao rio mar delta
ainda não o delta, nem tenho amor
mas um dia em Parnaíba ou em comunidades ribeirinhas,

da amurada deste barco
não há mais os seios da sereia
já não o que era o que acontece no meio do caminho que muda e as pegadas se apagam e então se perde e então se ganha e então se acha tudo de novo e uma alegria e outra e depois o deserto, e rio,

disposição triangular.

Daniela
(2) no algaravial

 

terça-feira, junho 06, 2006
Imp. 10

Mirabilia


parar por ora esse
monumento mínimo
agora desabasse

................movimenta-se em
................torno, dúvida
................inseparável face
................ao acolhimento
................amanhã desejado,
................ele existe

uma urna, excitação
em si
nua mudez
do gesto
miúda
a se
por sua vez
deteriorar

urdes
curvatura, oras,
, areias, ínfima
figura posta
entre
dois braços
falha
se reparando rasa

embora rezes
imprecisas
preces supliques
mantos distancies
hesitas
disparar

Thiago Ponce de Moraes
(5) no algaravial

 

segunda-feira, junho 05, 2006
96020-010

manuel s.v. confessa aos pais a
orientaçao sexual. inconformados,
compram-no linda viagem de navio,
fazendo-o crer que era apenas uma fase,
e ele pensaria melhor sobre o assunto.



el mar no es para pensar en el
- enrique lihn

todo eso fuiste pero perdiste
- gilda



e tinha o manuel ele queria ver o mar
ver o mar encapelar e as gaivotas vomitar

ai ai ai ai as gaivotas vomitar
ai ai ai ai depois de o mar encapelar

as gaivotas muito loucas
põem-se todas a bailar
mas depois de tanto frege
não conseguem evitar

ai ai ai ai não conseguem evitar
ai ai ai ai depois de o mar encapelar

vem andando pelo deck
um senhor bem bonitão
será mister titanique
ou será o capitão?

ai ai ai ai será o capitão?
ai ai ai ai que tremendo bonitão

manuel de pé no deck
satisfeito com o mar
fez um bom salamaleque
para o bonitão passar

e as gaivotas já revoltas
começaram a soltar
bosta e peixes no convés
sujam mãos e sujam pés

ai ai ai ai gaivotas filhas duma puta
ai ai ai ai a passarada está maluca

o bonito capitão
percebendo a natureza
direcionou-lhes o canhão
fez de todas sobremesa

ai ai ai ai as gaivotas se foderam
ai ai ai ai depois que tudo emporcalharam

manuel estupefato
com a fúria masculina
piscou olhos pros marujos
imitou maria alcina

ai ai ai ai piscou olhos pros marujos
ai ai ai ai imitou maria alcina

disse: vejam, belos gajos
agora estou em andrajos
mas posso ficar pelado!
a marujada entendeu o recado

ai ai ai ai o manuel ficou pelado
ai ai ai ai naquela noite foi coroado

até hoje no barco imenso
do capitão nada sonso
cantam a história de manuel
e todos acham normal

ai ai ai ai etc.

Angélica Freitas
(0) no algaravial

 


Ninguagem

Minha bicicleta Azul





Minha bicicleta azul.
Para onde vai
Minha bicicleta azul?!

Os pneus estão murchos.
Pedaladas menos densas
Com os pneus murchos

Baqueando por impulsos tão lentas
Na minha bicicleta azul.

Minha bicicleta azul
Bicicleta azul

Azulblue.

Daniel Sampaio
(0) no algaravial

 

sábado, junho 03, 2006
Algaravariações (07): Nícollas Ranieri




Nícollas Ranieri nasceu em 1991, em Uberaba (MG), onde vive até hoje. É estudante. Publicou o livro Fragmentos (Uberaba: Instituto Triangulino de Cultura, 2005). Mantém o blog O Barco Bêbado.

Confira abaixo o de praxe: entrevista e poemas inéditos, gentilmente cedidos à Algaravária.







5 POEMAS INÉDITOS




cena


o ar queima
o mar arde
borboletas
cospem larvas
dragões vomitam
infernos
universos
sóis implodem

silêncio

uma mulher
se despe
se masturba
da vulva
ás
vísceras



gentis


sugar
as gotas
restantes
na taça
tatuar em
líquidos

navalhas
nos olhos
espadas
nos lábios
estrelas
cortantes
línguas
secas
lâminas
minas
fendas

regiões
em erosão

atalhos

florestas
abismos
aceitam
raios
furacões
orgasmos

restam
genitais
gentis
suspiros
suspiros



fontes


ex(certos) do (passa)do
arca(ísmos) em ped(aços)
(ser)es des(manchados)
em lug(ares)
em ralos
- elos -
esgotos
ex gostos
quase ent(errados)



quadros


i

o velho relevo da tinta
quadros antigos
retratos em preto e branco
fotografias feridas

em estado de estátua
conversam e dialogam
as imagens de dentro
e as de fora

quadros enquadrados nas paredes
paredes enquadradas nos quadros
enquadrar o homem
o velho homem
o man

paredes não mais se sustentam
quadros não mais sustentam paredes
não sustentam
tentam


ii

quadros
retratos
em pedaços
cacos

genealogia
analogia
fria orgia

ser humano
secular
ocu
lar

retratados
tratados
atados
mal lembrados
desconhecidos
os

antigos retratos
quadros pesados


iii

molduras
duras
impuras
puras

ele murmura
ele nos retratos
tratos
ratos
atos



templo


vinhos frutos
num templo sinistro
brisa embriagada em breu
fumaça funesta mirando a oeste
palco que ninguém mais

ecos movem-se por colunas
vozes de vultos
luta
volutas livros
incensos cigarros esculturas

decoração de cor púrpura
em hieróglifos escritura
altar de pinturas nuas
- museu de musas -
meta que nunca recusa
extorquir o sabor uva

sob tempestade turva
salivas desenhando curvas
: música






ENTREVISTA


1. Trajetória de antes


Por que poeta?

Poeta?! Poesia é uma coisa muito séria e difícil, ainda não me considero exatamente um poeta. Existem várias pessoas da minha idade que escrevem versos em segredo, na maioria das vezes sem rigor ou leitura alguma, mas escrevem. O que faço pode ser somente uma conseqüência desta fase, só que de um jeito mais intenso e desenvolvido; eu espero que não seja, mas pode ser.


Qual sua trajetória literária até o seu livro?

Eu comecei a ler poesia através de algumas antologias escolares, e também com uma antologia organizada pelo Manuel Bandeira, a "Apresentação da Poesia Brasileira", que eram os livros que eu tinha em casa. Li muito Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Vinicius de Moraes. Paralelamente comecei a escrever uma poesia infantil, sem conhecimento algum. Mostrei esses poemas a um poeta de minha cidade (Uberaba), Guido Bilharinho, que editou a revista Dimensão. Ele me disse que meus poemas eram ruins, me falou sobre poesia de uma maneira muito nova para mim até então, entregou-me João Cabral e os concretistas para ler, o que foi importantíssimo na minha formação. Durante dois anos reuni 30 poemas de caráter visual; assim nasceu meu primeiro livro, o "Fragmentos", que foi publicado no fim do ano passado. Creio que esse é um livro de exercícios de estilo, não de poemas originais.


Ser poeta é mais talento ou esforço? Descobriu-se ou inventou-se poeta?

É mais esforço; creio que é somente esforço. Pretendo tanto descobrir-me quanto inventar-me poeta.


Quais livros que fazem parte de sua formação?

São muitos os livros que fazem parte da minha formação, mas cito alguns:
- Abc da Literatura - Ezra Pound
- Poesia - Ezra Pound - Traduções de Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, J. L. Grünewald e Mário Faustino.
- Poesia Russa Moderna - Tradução de Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman
- Poesia Toda - Herberto Helder


Há uma obra com a qual tenha descoberto a poesia de um modo mais contundente?

Sim, há várias obras, mas gostaria de destacar o conjunto "Psicologia da Composição" de João Cabral de Mello Neto, e em especial o poema "Fábula de Anfion". Quando eu li esse conjunto, fiquei fascinado, uma nova face da poesia revelou-se pra mim.



2. Psicologia da composição


Com que se inspira para escrever? O que é matéria para a poesia? Com quantas metáforas se faz um poema?

Acredito no que Baudelaire disse, "inspiração consiste em trabalhar todos os dias". Acho que qualquer matéria, ou matéria nenhuma, é matéria pra poesia. Tudo depende de como se relaciona com a matéria, com a linguagem, essa grande matéria-prima da poesia. Acho que deve se tomar um cuidado maior com certos temas, porque eles são perigosos pela quantidade de produção sobre eles, o amor e a morte são exemplos desse tipo de temática perigosa. Quanto a metáforas, eu acho que se faz um poema com quantas metáforas forem necessárias, às vezes com infinitas, às vezes com nenhuma. Mas temos que tomar muito cuidado com elas, não podemos ficar usando metáforas fáceis e ingênuas, que são muito correntes.


O resultado final do poema coincide sempre com sua idéia inicial?

Não, na maioria das vezes não coincide, é como se o poema crescesse sozinho, e estivesse em luta comigo, nem sempre chegamos a um acordo. Mas meus poemas nunca possuem necessariamente idéias.


Tem obsessão em reescrever o mesmo texto? Ou a emenda é pior do que o soneto? Guarda tudo o que escreve? Ou elimina sumariamente?

Tenho sim, até demais, os meus poemas normalmente possuem mais de dez versões e a emenda quase sempre é melhor que o soneto. Guardo tudo o que escrevo, eu esqueço e ignoro muitos textos, mas os guardo.


Há idéias ou imagens que lhe perseguem?

Há sim, mas não consigo defini-las ou explica-las fora da própria poesia. É uma perseguição cheia de mistérios.



3. Prosa do próprio mundo


Como define a sua poesia? Como caracterizaria suas ambições estéticas principais?

Acho que ela ainda está no início do início, é uma poesia que ainda está aprendendo, e que se centra no "nec spe nec metu" (sem esperança, sem temor), e que, portanto, não tem grandes ambições. Não sei caracterizar as minhas ambições estéticas.


O que sua poesia procura compreender?

Não sei se ela procura compreender, talvez ela não procure compreender coisa alguma.


Em que geração literária você se concebe? Ela tem um projeto definido?

As minhas inquietações poéticas são as mesmas de quem começa a produzir na primeira década do século XXI, e acredito que ela não tem um projeto definido, ela é múltipla, indefinida. Mas, como disse o Ricardo Domeneck, é cedo demais para responder.


Como percebe suas principais qualidades como escritor? Há algum defeito de que não abra mão?

Prefiro sempre perceber os defeitos a perceber as qualidades, e faço isso através da leitura e da autocrítica, baseadas no que conheço. Às vezes eu sou complacente comigo mesmo, mas não conheço algum defeito exato de que não abriria mão.


Como é recebido nos meios literários?

Bem, extremamente bem, é no mínimo o que me parece.



4. A poesia e suas questões em questão


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

Sim, o estudo e a curiosidade são vitais. Não sei se o poeta precisa necessariamente ser um erudito, mas quanto mais o for, melhor.


A tradução de poesia é um trabalho de poetas? Cite exemplos de tradução exemplar de poesia, modelos e referências. Aliás, qual o papel, hoje, da tradução para a criação?

A tradução de poesia quase sempre é melhor quando é feita por poetas, e existe um aspecto de diálogo, de "crítica via tradução". A grande referência na tradução criativa é Ezra Pound, e aqui no Brasil a grande referência são os irmãos Campos. Ainda não fiz tradução alguma, até por uma questão de incompetência e ignorância lingüística, mas a tradução possui uma importância muito grande na criação, pois ensina ao poeta tradutor várias possibilidades, métodos, etc.


A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

Não, mas acredito que ela vive uma crise muito séria, e isso não é uma mania minha de "crises". Essa crise não é uma novidade, não estou declarando coisa alguma. A poesia foi levada a um ponto de truques e fórmulas, há muitas pessoas querendo negar, disfarçar ou contornar essa crise, mas os resultados interessantes são pouquíssimos, quase nenhum. Em toda a história houve crises em todos os aspectos, elas são normais e importantes para o desenvolvimento, é um processo dialético; temos que encarar essas crises. Eu acredito que o caminho é o "Make it New" pregado por Pound.


Há obras meramente comerciais de poesia? O que pensa delas?

Sim, e há bem mais do que nós pensamos ou imaginamos. Existe também uma boa parcela de obras que não são comerciais, mas que só servem para o narcisismo de alguns poetas. Em geral é um tipo de literatura extremamente fácil, a qual eu trato com indiferença.


Como avalia o movimento concretista em relação à produção poética contemporânea?

O concretismo ainda não foi totalmente assimilado. Ele foi um movimento extraordinário, que atualizou e melhorou o pensamento poético da época, que era dominado pela Geração de 45. Meu livro foi completamente influenciado pelo concretismo, mas tenho uma grande autocrítica, não acho que um poeta atualmente deva repetir os mesmos processos, acho que ele deve inventar e dialogar com outros e novos processos. Acredito que deva ainda ser feita uma revisão do concretismo, que, como disse acima, ainda não foi completamente assimilado, e que é importantíssimo para quem quer fazer poesia atualmente, tanto em questão de poesia propriamente dita, quanto em questão de repertório.



5. Museu de agora e depois


"Escrever sobre escrever é o futuro do escrever"? (Haroldo de Campos)

Todo bom poema até certo ponto é metalingüístico, porque todo bom poema, independente do tema, reflete sobre sua linguagem, tem consciência e quer contribuir para a sua estrutura orgânica, mesmo falando sobre algo que não esteja diretamente ligado à metalinguagem.


Qual é hoje a marginália da poesia brasileira? Ela ainda é possível depois da internet?

Muito do que é considerado marginal é consagrado e consumido. Confio na "margem da margem", aquela contundente, aquela que vai contra o fácil, que inova, mas com rigor. Essa sim existe e sempre existirá.


Prepara atualmente algum livro? Qual seu eixo principal?

Preparo um conjunto pequeno de poemas, que está mais próximo do que penso atualmente e que possui outras influências. Acho que ele não possui um eixo principal.


O que pensa sobre a algaravária?

Uma idéia excelente, que reúne novos poetas, que se propõe a discutir e produzir poesia de uma maneira séria. Parabéns a vocês todos.

algaravária
(15) no algaravial

 

sexta-feira, junho 02, 2006

enquanto 5



(fragmento)


a sarça......o fogo que a engole.
as coisas quase posicionadas.....:.....sempre será preciso partir.
os trabalhos e os crimes são enormes.......outros nomes.
o instinto das convocações......:......pois têm de ser feitos
o fogo......a sarça......as coisas......:......fazemos
mas não fazemos.......o nome enquanto.




.

Pablo Araujo
(0) no algaravial

 


As Anas

Paulo de Toledo
(5) no algaravial

 


fase blues

tankas

I

rumor de sombras:
som de mar numa concha
lua a calcinar
o teu rosto na areia -
ébrio de amor te avistei.

Felipe K.
(3) no algaravial

 

quinta-feira, junho 01, 2006
O Dia da Noite

Caldo do Engodo

Quando nos encontrarmos
Nossas linhas serão lúcidas
Veremos pontualmente
Nossas mentiras sonoras
O construto desnudo
de nossas caras repintadas
Desmodeladas
Depauperadas

Aqui vão as primeiras preces
Para esse dia de não chegarmos
a uma consistência maior.

Carol Custodio
(3) no algaravial

 


esvaziando gavetas número nove

o menino que em mim ainda brinca de chuva
retém a dor das noites vazias
enquanto deságua esperanças afluentes
inventando felicidade na beira do rio

[rememora]

nessas águas barrentas de deserta candura
nesse peito encharcado por lembranças ribeirinhas
aos que partem, roga
aos que ficam, ora

douglas D.
(3) no algaravial

 

 

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