ALGARAVÁRIA
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sábado, junho 03, 2006
Algaravariações (07): Nícollas Ranieri




Nícollas Ranieri nasceu em 1991, em Uberaba (MG), onde vive até hoje. É estudante. Publicou o livro Fragmentos (Uberaba: Instituto Triangulino de Cultura, 2005). Mantém o blog O Barco Bêbado.

Confira abaixo o de praxe: entrevista e poemas inéditos, gentilmente cedidos à Algaravária.







5 POEMAS INÉDITOS




cena


o ar queima
o mar arde
borboletas
cospem larvas
dragões vomitam
infernos
universos
sóis implodem

silêncio

uma mulher
se despe
se masturba
da vulva
ás
vísceras



gentis


sugar
as gotas
restantes
na taça
tatuar em
líquidos

navalhas
nos olhos
espadas
nos lábios
estrelas
cortantes
línguas
secas
lâminas
minas
fendas

regiões
em erosão

atalhos

florestas
abismos
aceitam
raios
furacões
orgasmos

restam
genitais
gentis
suspiros
suspiros



fontes


ex(certos) do (passa)do
arca(ísmos) em ped(aços)
(ser)es des(manchados)
em lug(ares)
em ralos
- elos -
esgotos
ex gostos
quase ent(errados)



quadros


i

o velho relevo da tinta
quadros antigos
retratos em preto e branco
fotografias feridas

em estado de estátua
conversam e dialogam
as imagens de dentro
e as de fora

quadros enquadrados nas paredes
paredes enquadradas nos quadros
enquadrar o homem
o velho homem
o man

paredes não mais se sustentam
quadros não mais sustentam paredes
não sustentam
tentam


ii

quadros
retratos
em pedaços
cacos

genealogia
analogia
fria orgia

ser humano
secular
ocu
lar

retratados
tratados
atados
mal lembrados
desconhecidos
os

antigos retratos
quadros pesados


iii

molduras
duras
impuras
puras

ele murmura
ele nos retratos
tratos
ratos
atos



templo


vinhos frutos
num templo sinistro
brisa embriagada em breu
fumaça funesta mirando a oeste
palco que ninguém mais

ecos movem-se por colunas
vozes de vultos
luta
volutas livros
incensos cigarros esculturas

decoração de cor púrpura
em hieróglifos escritura
altar de pinturas nuas
- museu de musas -
meta que nunca recusa
extorquir o sabor uva

sob tempestade turva
salivas desenhando curvas
: música






ENTREVISTA


1. Trajetória de antes


Por que poeta?

Poeta?! Poesia é uma coisa muito séria e difícil, ainda não me considero exatamente um poeta. Existem várias pessoas da minha idade que escrevem versos em segredo, na maioria das vezes sem rigor ou leitura alguma, mas escrevem. O que faço pode ser somente uma conseqüência desta fase, só que de um jeito mais intenso e desenvolvido; eu espero que não seja, mas pode ser.


Qual sua trajetória literária até o seu livro?

Eu comecei a ler poesia através de algumas antologias escolares, e também com uma antologia organizada pelo Manuel Bandeira, a "Apresentação da Poesia Brasileira", que eram os livros que eu tinha em casa. Li muito Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Vinicius de Moraes. Paralelamente comecei a escrever uma poesia infantil, sem conhecimento algum. Mostrei esses poemas a um poeta de minha cidade (Uberaba), Guido Bilharinho, que editou a revista Dimensão. Ele me disse que meus poemas eram ruins, me falou sobre poesia de uma maneira muito nova para mim até então, entregou-me João Cabral e os concretistas para ler, o que foi importantíssimo na minha formação. Durante dois anos reuni 30 poemas de caráter visual; assim nasceu meu primeiro livro, o "Fragmentos", que foi publicado no fim do ano passado. Creio que esse é um livro de exercícios de estilo, não de poemas originais.


Ser poeta é mais talento ou esforço? Descobriu-se ou inventou-se poeta?

É mais esforço; creio que é somente esforço. Pretendo tanto descobrir-me quanto inventar-me poeta.


Quais livros que fazem parte de sua formação?

São muitos os livros que fazem parte da minha formação, mas cito alguns:
- Abc da Literatura - Ezra Pound
- Poesia - Ezra Pound - Traduções de Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, J. L. Grünewald e Mário Faustino.
- Poesia Russa Moderna - Tradução de Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman
- Poesia Toda - Herberto Helder


Há uma obra com a qual tenha descoberto a poesia de um modo mais contundente?

Sim, há várias obras, mas gostaria de destacar o conjunto "Psicologia da Composição" de João Cabral de Mello Neto, e em especial o poema "Fábula de Anfion". Quando eu li esse conjunto, fiquei fascinado, uma nova face da poesia revelou-se pra mim.



2. Psicologia da composição


Com que se inspira para escrever? O que é matéria para a poesia? Com quantas metáforas se faz um poema?

Acredito no que Baudelaire disse, "inspiração consiste em trabalhar todos os dias". Acho que qualquer matéria, ou matéria nenhuma, é matéria pra poesia. Tudo depende de como se relaciona com a matéria, com a linguagem, essa grande matéria-prima da poesia. Acho que deve se tomar um cuidado maior com certos temas, porque eles são perigosos pela quantidade de produção sobre eles, o amor e a morte são exemplos desse tipo de temática perigosa. Quanto a metáforas, eu acho que se faz um poema com quantas metáforas forem necessárias, às vezes com infinitas, às vezes com nenhuma. Mas temos que tomar muito cuidado com elas, não podemos ficar usando metáforas fáceis e ingênuas, que são muito correntes.


O resultado final do poema coincide sempre com sua idéia inicial?

Não, na maioria das vezes não coincide, é como se o poema crescesse sozinho, e estivesse em luta comigo, nem sempre chegamos a um acordo. Mas meus poemas nunca possuem necessariamente idéias.


Tem obsessão em reescrever o mesmo texto? Ou a emenda é pior do que o soneto? Guarda tudo o que escreve? Ou elimina sumariamente?

Tenho sim, até demais, os meus poemas normalmente possuem mais de dez versões e a emenda quase sempre é melhor que o soneto. Guardo tudo o que escrevo, eu esqueço e ignoro muitos textos, mas os guardo.


Há idéias ou imagens que lhe perseguem?

Há sim, mas não consigo defini-las ou explica-las fora da própria poesia. É uma perseguição cheia de mistérios.



3. Prosa do próprio mundo


Como define a sua poesia? Como caracterizaria suas ambições estéticas principais?

Acho que ela ainda está no início do início, é uma poesia que ainda está aprendendo, e que se centra no "nec spe nec metu" (sem esperança, sem temor), e que, portanto, não tem grandes ambições. Não sei caracterizar as minhas ambições estéticas.


O que sua poesia procura compreender?

Não sei se ela procura compreender, talvez ela não procure compreender coisa alguma.


Em que geração literária você se concebe? Ela tem um projeto definido?

As minhas inquietações poéticas são as mesmas de quem começa a produzir na primeira década do século XXI, e acredito que ela não tem um projeto definido, ela é múltipla, indefinida. Mas, como disse o Ricardo Domeneck, é cedo demais para responder.


Como percebe suas principais qualidades como escritor? Há algum defeito de que não abra mão?

Prefiro sempre perceber os defeitos a perceber as qualidades, e faço isso através da leitura e da autocrítica, baseadas no que conheço. Às vezes eu sou complacente comigo mesmo, mas não conheço algum defeito exato de que não abriria mão.


Como é recebido nos meios literários?

Bem, extremamente bem, é no mínimo o que me parece.



4. A poesia e suas questões em questão


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

Sim, o estudo e a curiosidade são vitais. Não sei se o poeta precisa necessariamente ser um erudito, mas quanto mais o for, melhor.


A tradução de poesia é um trabalho de poetas? Cite exemplos de tradução exemplar de poesia, modelos e referências. Aliás, qual o papel, hoje, da tradução para a criação?

A tradução de poesia quase sempre é melhor quando é feita por poetas, e existe um aspecto de diálogo, de "crítica via tradução". A grande referência na tradução criativa é Ezra Pound, e aqui no Brasil a grande referência são os irmãos Campos. Ainda não fiz tradução alguma, até por uma questão de incompetência e ignorância lingüística, mas a tradução possui uma importância muito grande na criação, pois ensina ao poeta tradutor várias possibilidades, métodos, etc.


A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

Não, mas acredito que ela vive uma crise muito séria, e isso não é uma mania minha de "crises". Essa crise não é uma novidade, não estou declarando coisa alguma. A poesia foi levada a um ponto de truques e fórmulas, há muitas pessoas querendo negar, disfarçar ou contornar essa crise, mas os resultados interessantes são pouquíssimos, quase nenhum. Em toda a história houve crises em todos os aspectos, elas são normais e importantes para o desenvolvimento, é um processo dialético; temos que encarar essas crises. Eu acredito que o caminho é o "Make it New" pregado por Pound.


Há obras meramente comerciais de poesia? O que pensa delas?

Sim, e há bem mais do que nós pensamos ou imaginamos. Existe também uma boa parcela de obras que não são comerciais, mas que só servem para o narcisismo de alguns poetas. Em geral é um tipo de literatura extremamente fácil, a qual eu trato com indiferença.


Como avalia o movimento concretista em relação à produção poética contemporânea?

O concretismo ainda não foi totalmente assimilado. Ele foi um movimento extraordinário, que atualizou e melhorou o pensamento poético da época, que era dominado pela Geração de 45. Meu livro foi completamente influenciado pelo concretismo, mas tenho uma grande autocrítica, não acho que um poeta atualmente deva repetir os mesmos processos, acho que ele deve inventar e dialogar com outros e novos processos. Acredito que deva ainda ser feita uma revisão do concretismo, que, como disse acima, ainda não foi completamente assimilado, e que é importantíssimo para quem quer fazer poesia atualmente, tanto em questão de poesia propriamente dita, quanto em questão de repertório.



5. Museu de agora e depois


"Escrever sobre escrever é o futuro do escrever"? (Haroldo de Campos)

Todo bom poema até certo ponto é metalingüístico, porque todo bom poema, independente do tema, reflete sobre sua linguagem, tem consciência e quer contribuir para a sua estrutura orgânica, mesmo falando sobre algo que não esteja diretamente ligado à metalinguagem.


Qual é hoje a marginália da poesia brasileira? Ela ainda é possível depois da internet?

Muito do que é considerado marginal é consagrado e consumido. Confio na "margem da margem", aquela contundente, aquela que vai contra o fácil, que inova, mas com rigor. Essa sim existe e sempre existirá.


Prepara atualmente algum livro? Qual seu eixo principal?

Preparo um conjunto pequeno de poemas, que está mais próximo do que penso atualmente e que possui outras influências. Acho que ele não possui um eixo principal.


O que pensa sobre a algaravária?

Uma idéia excelente, que reúne novos poetas, que se propõe a discutir e produzir poesia de uma maneira séria. Parabéns a vocês todos.

algaravária
(15) no algaravial

 

 

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