ALGARAVÁRIA
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segunda-feira, julho 31, 2006
Ninguagem


preto - uma - pedra
dobra (eclipsa) petra
pérola vertizonte.

Daniel Sampaio
(50) no algaravial

 

sexta-feira, julho 28, 2006

SOBREVIDA

resistir

até a última casca de ferida
socar
o fígado do diabo
até ele cuspir ácido sulfúrico
rasgar
os pulsos no primeiro impulso
de querer mijar fora do penico
roubar
a brisa dos moinhos
e lutar contra eles até o último sopro de vida
sobreviver
como um verso idiota
escrito numa língua morta

Paulo de Toledo
(7) no algaravial

 


fase blues

eros e psiquê

depois da ceia,
fumega o café
linhas no ar.
um hálito verde,
inextinguível
à tona das xícaras
entre nós ondula,
preenche, nada -
cruza o céu como
à noite
um arco de lua.

a fumar meditas.
dedo recolhido,
enlaçando a asa

: tudo sorvo
e precipito a manhã
sem querer.

Felipe K.
(4) no algaravial

 

quinta-feira, julho 27, 2006

FLORES
porque as certezas
TREMEM
.
.
.
PESARES
porque existe
A-DEUS

douglas D.
(7) no algaravial

 


O Dia da Noite

Agoragarrancho
Para Rodrigo Passarelli, meu menino


Uma conquista de anos
Dias calmos
Juntas as chuvas
Juntos os sóis
Juntas as lombadas de livros escurecidos
Pelas mãos graves

Uma conquista dos imprudentes
Dos levianos
Dos dissidentes
Dos desmedidos
Dos fantasiados de trabalho e guerra
Dias calmos
Dias festejados com as coisas que elegemos
Decentes coisas
para esses dias de alga do mar: pés nus, línguas de doce

Pudera você querer esses dias
Dias calmos
De salto raso
De pingos fora dos is
De grande tudo desfeito e rico
De grande ninguém foi feito todos foram lidos

Senta e lê
Teus dias calmos
Sob os olhos de quem
Não quis paz na lavoura
Nem mesmo um dia.

Carol Custodio
(2) no algaravial

 


Haicortes II

I.
Minto na palavra
com a cara mais lavada
de que posso dispor.


II.
Na sombra
um joelho
pode ser um seio
escultural.


III.
Tenho o coração fraco,
não por culpa de amores,
mas pelos bronco-dilatadores.


IV.
Sabe Deus a cara que terá o meu filho
os bracinhos que terá,
a cor de seus mamilos.


V.
Não é à toa
que o pato
é lógico.


VI.

Tento esquecer meu nome
quando leio
Millôr Fernandes.

Priscila de Freitas
(6) no algaravial

 

quarta-feira, julho 26, 2006

Ponto de Interrogação

se transbordar - se
densas lacunas
à noite calcula - surdos ecos
de mim escombros ruas
estreitas as metáforas
descritas
em transe na trama
do intento dos

olhos: eu em mim

não me construo
sem encontros opções
erros

tarde e ...



quarta-feira

Diego Ramires
(2) no algaravial

 


Configuração Buenos Aires

A dor escorre longe
não forma bolhas de umidade
nos azulejos como antes

Daniela
(1) no algaravial

 

terça-feira, julho 25, 2006
Imp. 17

Vida


É engraçado que existam pessoas que vivem para isso

Thiago Ponce de Moraes
(6) no algaravial

 

segunda-feira, julho 24, 2006
Ninguagem

ocaso asfalto




velas, meio velas. fogo!
escuro des-
vela s'scuro própri-ao -
escur'lho

às três da tarde

o oco diante. défycituoso
fonemnovo - ah - pegaks fogo -
ao'scur'lho - nas pontas
o relogástro?

não. sim. não. sim. mas é nem
s(f)im
quebran - s'no asfalto.

Daniel Sampaio
(3) no algaravial

 

sexta-feira, julho 21, 2006

Paulo de Toledo
(4) no algaravial

 


fase blues

monólogo de teseu


infeliz dia
em que deixei Atenas
e fui dar nesta
costa mais rude: ilha
transcrita em treva
sobre a treva - terra
acuada entre o mar
e um gélido sol.
punhos feridos, cem
lanças em riste -
a pagar com a vida
à ânsia animal
de uma gente cujo rei
não pesa sobre um
trono - vou adentrando
a fortaleza.
há de ser breve meu fim -
ou minha espada
como a de um deus da guerra
reinará sobre
este horizonte, este céu?
oh, sedoso mar,
calmas tardes da polis.
aqui é água
de mais puro negror e o
meu destino em contraluz.

Felipe K.
(2) no algaravial

 

quinta-feira, julho 20, 2006
16 Riscos

_____ . . ___ ___ ____

_ _ _ _ ..

___________ . ________

Tarta, varios gustos

y olores.

Calle Callao, it´s a long way. ¿Te gustan los olores?
- Me encantan las palabras ditas e não ditas.

Sem um nó na garganta: oui, c´est possible, na banda ocidental acontece. Viaje con tranquilidad. Porto é mais um lugar para chegar, pela noite, sempre.

Daniela
(6) no algaravial

 


O Dia da Noite

De Janela a Janela


Eu abriria minha janela
A flor exposta
Eu abriria se soubesse
Que dia
A que horas
Seus pais na sala
Meus irmãos na escola

Eu abriria os dois vãos
(atenção dedos trêmulos unhas azuis atenção a tensão)
Sem cuidados
Sem prece
Só meu mundo, todo meu mundo
A flor do meu mundo

E a sua festa
Festa boa, de janela a janela

Carol Custodio
(4) no algaravial

 


Pessimismo habitual

Como ácidos prussianos
no caracol contemporâneo
desse desafortunado mundo
de controvérsias:

saio descalça pela areia
piso num peixe morto
e escorrego.

Priscila de Freitas
(9) no algaravial

 


esvaziando gavetas número dezesseis

hei de saber

com as cigarras

o silenciar-me

consumido pelo poente

& com a noite

hei de sumir

junto à melancolia

para que ser feliz

não seja apenas

um fiapo

de esperança

preso entre os dentes

douglas D.
(9) no algaravial

 

quarta-feira, julho 19, 2006
Ponto e Vírgula

Poema Sociopata

aqui mais uma vez estou
e onde estaria se aqui não estivesse minha intrínseca
estrutura de intestinos junto à suas calças camisas adidas
e estigmas? consumido? cigarro garfo e faca entre dedos?
num pânico confronto de presunções que passos
algazarras avenidas
pelas geometrias de geografias de biologias de literaturas de
apostilas de histórias
surge
clandestino como esgoto bandoleiro de tiranias ante o parlamento
dos meus dentes furtando toda nascente convulsão
destas vãs palavras bêbadas no bico da boca?

este ano farei mais anos logo o ano continuará
sendo outro ano sobre a opulência de outros anos
mais uma vez - menos vezes do que se pode deve imaginar
daqui do alto do teto da cozinha
a mesa amarela
e três supostas cadeiras mancas o microondas
os vasos de vidro a prazo a geladeira Frost Free - portanto
nada espero embora esperaria

se me encontrasse repleto de encantos de cosméticos
com uma gravata de seda de flores de tantas outras cores
que não são as cores do arco-íris
que não são as cores das cores de Candim - olhando os estares das estrelas
do firmamento em Brodósqui - ou a cor das cores da cor
que não permanecem
dentro do olho do olho da pia do banheiro
mas que estão (sem reflexo)
futuramente fumegante
no palanque no discurso na praça festas comícios
comissões parlamentares de inquérito copa do mundo conspirações correios Rolling Stones


no piriririrí da urna eletrônica


"Lixo é lançado na lagoa da Pampulha tinha nome sem sobrenome ou cpf para consultas no Serasa ou SPC era somente droga
droga que tinha nome depois de ser encontrada"


dois números que somados dêem sete e seis quando multiplicados
mas que não sejam múltiplos de oito
uma verdade verdadeiramente falsa que contaremos enquanto gazeamos aula
para jogar videogame e nublar o quarto com asteriscos e tomar tubão e olhar revista de
mulher pelada
a essas altas horas baixas
aquela jovem prostituta loirinha do cemitério central
está sorrindo
com seu sorriso raiz de cinco
(dois e uns
quebrados) e o único agrado está na solvência da divergência do intervalo
da intransigência da inteligência que
entre um e outro coito trocando
vale-transportes
por salsichas e maionese
não sabe discernir entre um pingo e duas gotas

a essas tantas altas horas baixas
no sertão nordestino
um escravo ensina outro escravo (não a escrever) a ser mais um escravo
e tudo acontece na cana
no como isso isto pode alterar a ordem do fator sem que possa
assassinar o orgulho do produto interno bruto:


- José como vai?
- Venda escassa. Maria grávida, cinco meses. Onze para criar.
- Grilou?
- Trabalhar, suando dinheiro, pão na mesa. Faço quê João?
- Sei não...E agora José?

a festa acabou, a turma se foi e agora José Ezequiel Francisco Raimundo Tereza Carolina Adamastor Gilberto Bernadete Madalena Dolores Dinorá?

e agora quem se importa? o preço da gasolina quem espanta?

um drama serve nossa culpa
outra culpa sorve a nossa trama e

por estes trânsitos detentos


troam as tesouras suas
matemáticas de taquicardias

Diego Ramires
(6) no algaravial

 

terça-feira, julho 18, 2006
saraIvada dez e seis

jueio jaudim

as vezes dói antes
demais
no meio

há um zumbido entre as minhas articulações
deve ter sido a felicidade
que fez do açucar neon
formigas elétricas nos meus artelhos

jueio jaudim
se eu não puder mais dançar
nina a criança em mim?
bota a minha balada pra dormir,
não me carrega, me desobriga.

francieli spohr
(2) no algaravial

 


Imp. 16

Alcance



.......................................Ingênuo corpo
.......................................sublimado, teto vazio
.......................................singular,
.......................................pretérito sopro:
.......................................Limiar

Thiago Ponce de Moraes
(12) no algaravial

 

segunda-feira, julho 17, 2006
Ninguagem

O ofício da fé



No adro do mosteiro de São Bento
Três freiras discutiam sobre o vento:
Uma lançou as mãos - nelas um lenço;
Outra cambaleou os cabelos prensos;
E a última, parando, peidou dizendo:
Salvai-nos do infenso.

Daniel Sampaio
(8) no algaravial

 

sábado, julho 15, 2006
Algaravariações (11): Tarso de Melo



Foto: Bruno Hissatugu (Revista Bravo)


Nascido em Santo André (SP) em 1976, Tarso de Melo reside em São Bernardo do Campo. É autor dos livros de poesia A lapso (Alpharrabio, 1999), Carbono (Alpharrabio/Nankin, 2002), Planos de fuga (CosacNaify, 2005) e Lugar algum (escrito com apoio da Bolsa Vitae de Artes, 2005, ainda inédito). É autor ainda de História da Literatura em Santo André: um ensaio através do tempo(Fundo de Cultura, 2000). Colaborou na reedição das cartas de Paulo Leminski em Envie meu dicionário (Editora 34, 1999) e na coletânea de ensaios Drummond revisitado (Unimarco, 2002), além de publicar poemas e resenhas em vários periódicos. Editou a revista Monturo e, com Eduardo Sterzi, a revista Cacto. Faz parte atualmente do comitê editorial de K Jornal de Crítica. Coordena o núcleo de leitura de poesia contemporânea Observatório do poema, na livraria Alpharrabio, em Santo André. É advogado, formado pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, e cursa mestrado em Filosofia do Direito na Universidade de São Paulo.

Logo abaixo, seis poemas absolutamente inéditos e a imperdível entrevista.







SEIS POEMAS INÉDITOS DO LIVRO
Lugar algum




Paradeiro

não é aqui que se encontra
aquele
a quem pertence o exílio
: a casa é feita assim,
ao périplo das portas de aço,
igreja, farmácia, castelos
sob nova direção

assim se investiga a rua
constrói-se o roteiro

como ir a lugar algum
não diz aonde leva
aquela em que fica um amigo,
a outra por onde outro vai

desapareço
................ (a poesia não passa
de uma esquina) viela
das letras adentro



Praça Um

a estaca da praça
corta a rua em duas,
fende o passeio,
trespassa a paisagem,
implanta-se (mendigos
para um lado, para outro
carros)

dali se estuda
a letra fria das tardes,
a letra morta dos sonhos,
a gramática das guias,
lições de escada

já é impossível deter
o cansaço (o suor,
a dor) que despenca
das placas que anunciam
o preço da manhã,
da noite, de tudo



Avenida

segunda depois
do hospital, primeiro
farol à esquerda, dali
em diante se sabe
que não há como fugir,
aonde ir

motores, sonhos, pés
que nos lancem vida afora
não podem garantir chegar
muito além do que os olhos
tímidos
colhem no horizonte (que se fecha
como janela, que se lacra
como uma nuvem
a guardar toda esperança
e toda decepção)



Praça Zero

a regra é não achar
o lugar do qual se parte:
o passo se encaminha
onde se deu o parto
(e as mortes) da cidade

o universo, mínimo,
expande suas linhas a partir
do mármore daquele banco
fétido
.........aqui, onde este
e esse são um só
nada aqui, onde o olhar
perde a passante
na avalanche
................... de gravatas,
ambulantes, estátuas
(umas de carne, outras
de farda)

este é o ponto e o sol
já não pode (ainda mais quente,
por mais que tente) desfazer
esse quadro que o dia
todo dia inaugura e a noite
infecta esconde



Rua do Bar

daqui (desde
dentro) o que
vejo turva
o que via antes
de entrar

a fumaça,
a lua, o vulto
escorregadio
da musa,
escapam
pelas fendas
mínimas
entre

daqui (já há
tempos) a vida
que está
e a que vai
embora
consomem
líquidas
as horas que
restam

não há pressa
(daqui para
dentro), mas
nada quer
durar



Sem saída

o verso acaba no muro,
a vida
......... e o que dela fizemos
: figuras desta rua,
fria metáfora de asfalto
e tijolos, de concreto
e retorno

não tem o que faz
delas, como os carros gostam,
vias; retém,
............tem memória,
barra, volve, encerra
(martela, prensa, martela,
o som toma as formas
que forja)

nosso céu alto e cinza
começa e termina aqui
neste não
que o edifício leva
às costas



Calçadão

nada é daqui (o mar
que não se vê, o amor
que não se diz, as coisas
todas que se vendem
e as palavras que retinem
renitentes)

pensar (placas, veias,
o piso que racha sob os pés,
os ossos, os arcos
que pendem sobre
a cabeça) é obra que não se
completa

e não alivia fingir
que as pessoas que vejo
venham, como estão,
de outro poema
e que, dele, tragam para cá
alguma luz, algum
sentido (o rio,
que é outro,
é sempre o mesmo
esgoto
cano adentro)

nem importa
agora
ver que a tarde
pelas alças, bocas,
pelas dobras
escapa das sacolas
e passa







ENTREVISTA


Como construiu o escritor que é hoje? Qual sua trajetória literária até o primeiro livro? E qual a trajetória até os livros seguintes?

TARSO - Meu percurso desde antes do primeiro poema até hoje (e acho que deve seguir assim) é o de um leitor da poesia alheia que se sente confiante, de vez em quando, para fazer alguns poemas. Gosto muito de ler poesia e acredito que boa parte do que escrevi se deve ao consumo em grandes doses do que foi escrito pelos outros.


Ser poeta é mais talento ou esforço? Descobriu-se ou inventou-se poeta?

TARSO - Dá muito trabalho escrever poesia. Mas acho que existe alguma coisa que une os esforços do poeta (a leitura da poesia alheia, a reflexão sobre a poesia, a dedicação a cada verso) e que escapa um pouco do domínio do trabalho. O acaso, talvez, ou o erro. Um descuido pode deixar o poema construído melhor. E não me lembro da primeira vez em que cismei de escrever um poema.


Quais livros fizeram parte de sua formação?

TARSO - O livro que inaugurou meu interesse por literatura não foi um livro propriamente literário, mas uma biografia do Jim Morrison, vocalista do The Doors, por causa das muitas referências que eram feitas aos poetas do simbolismo francês. Acho que a imagem que criei deles (Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé) naquele momento, no embalo do livro, era de que se tratava de super-roqueiros! E depois fui encontrar os livros deles. Aí já é possível perceber que a coisa já começou meio torta. E posso garantir que nunca foi menos imprevisível a minha relação com os livros.


Com que se inspira para escrever? O que é matéria para a poesia? Quando escreve, qual o efeito estético visado?

TARSO - Meus poemas estão cada vez mais realistas. A inspiração para eles tem vindo cada vez mais de um mesmo lugar: a vida que levo, os lugares por onde passo, as coisas que faço sempre, as pessoas com quem mais convivo. E deve haver também alguma imaginação ligando essas coisas. E eu acabo achando que tudo é matéria para a poesia, desde que o poema ganhe vida, leve o leitor para seu (do poema) espaço.


Costuma começar pela primeiro ou pela último verso? Qual deles é o mais difícil? Tem dificuldade para nomear os poemas?

TARSO - Eu escrevo de um modo bastante aleatório. Em cada poema uma dessas coisas vem antes: o primeiro verso, o último, o título, uma idéia a perseguir. Escrevo normalmente fazendo pequenas anotações e depois vou colando os pedaços.


Há idéias ou imagens que lhe perseguem no fio dos anos e das obras?

TARSO - O passeio pelos livros como um passeio pelas cidades. E vice-versa.


Para escrever, precisa conhecer muitas cidades e ler todos os livros?

TARSO - Não há causalidade nessas coisas. Não é o simples conhecimento das cidades e dos livros que vai gerar poesia. E ele não é condição para a poesia. Para dizer o óbvio: um poeta pode se formar num espaço reduzidíssimo de referências.


Há condição possível para o cotidiano na poesia? Como se pode dar?

TARSO - Se bem entendi, a resposta (para as duas) é: há Manuel Bandeira!


Há jeitos de se escrever poesia que tenda para o social sem cair na simples representatividade dos fatos? Isso envolveria algum tipo de reinvenção?

TARSO - Assumir uma postura política com os poemas (e acho que ela é inevitável) é tão importante quanto todas as outras coisas que o poeta assume ao escrever (opções estéticas, culturais etc.). Mas, em todas elas, nada pode ser simplificado. A poesia, a não ser com si própria, é uma mediação - e é aí que ela pode acertar ou errar. Quero dizer: um "tema elevado" não "eleva" necessariamente o poema, da mesma forma que um "tema rebaixado" não "rebaixa" necessariamente o poema. A gente pode acreditar nisso ou naquilo quanto ao que a poesia consegue fazer, mas sempre acaba aparecendo um poema que mostra que estávamos errados. Sua imprevisibilidade é algo previsível!


Como define a sua poesia? Como caracterizaria suas ambições estéticas principais?

TARSO - Uma poesia que gosta de trabalhar com a dúvida, com o engano, como eu poderia definir o que escrevo, não encontra suas "ambições estéticas principais".


Entre seus próprios poemas, quais os seus preferidos? Eles coincidem com os preferidos dos leitores ou mais divulgados em geral?

TARSO - Gosto muito de uma série de poemas chamada "Deserto" (que está no livro Carbono). E, de certo modo, é uma das coisas que as pessoas mais parecem ter gostado.


Em que geração literária você se concebe? Ela tem um projeto definido?

TARSO - Prefiro pensar que as gerações (se fizermos os recortes temporais de costume) estão sempre em convivência (quem "é" dos anos 70 continua escrevendo nos 80, quando surgem os dos anos 80 e todos eles escreverão nos anos 90...), de modo que a idéia de geração fica bastante pulverizada. O que acaba unindo os poetas é uma afinidade mais profunda, mais livre em relação ao tempo e ao espaço, sem o determinismo que a idéia de geração literária costuma supor.


Há algum defeito de que não abra mão?

TARSO - Achar que os erros fazem parte do (acerto do) poema.


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

TARSO - Como já falei sobre o conhecimento de cidades e livros, vale o que disse acima: não é um "mal em si" nem um "bem em si". Depende do que cada um vai fazer com o que conhece. Fora isso, não concordo que seja algo de "hoje" - a imensa maioria dos poetas sempre teve muito trânsito entre essas linguagens próximas da poesia.


A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?

TARSO - De certo modo, tem. Mas é uma coisa engraçada: as pessoas felicitam alguém por ser poeta, mas isso não faz com que elas queiram ler o que ele escreve...

Qual a função social da poesia?

TARSO - É difícil falar de "função social da poesia" se levarmos em consideração a sociedade como um todo. No Brasil, por exemplo, em que a sociedade é uma colcha de retalhos, e a maior parte da colcha é composta de pessoas que não têm ou têm apenas um acesso formal à educação, não dá para imaginar a poesia fazendo grandes coisas.


A poesia atual é multiplicidade pura. O que deve haver num poema para lhe agradar?

TARSO - Não tenho qualquer prevenção contra formas e formatos que os poemas assumam. Gosto de um poema quando ele força o pensamento e a sensibilidade ao mesmo tempo, quando ele incomoda, quando ele mostra que estávamos vendo errado.


A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

TARSO - Certamente não se esgotou, seja como gênero literário, seja como tudo o mais que a poesia consegue ser. Quanto a um futuro esgotamento, eu prefiro apontar para o passado: conhecendo as transformações da poesia na história (e na geografia!), é muito difícil falar qualquer coisa sobre seu futuro, que é naturalmente (de novo) imprevisível.


Alguma epígrafe que o acompanha sempre? Algum epitáfio lhe contém?

TARSO - "O absoluto é o primeiro motor de todas as relatividades", Murilo Mendes.


O que pensa sobre a Algaravária?

TARSO - Eu acho muito bacana o formato do blog para uma experiência coletiva como a que a Algaravária apresenta. Até mais bacana por ser coletiva, porque o blog individual normalmente é repetitivo, cansativo, "big brother". O fato de ser feito a várias mãos, além de arejar mais o blog, certamente possibilita um diálogo permanente entre os participantes e eventuais colaboradores. Funciona meio como um laboratório, o poema nasce praticamente "no ar" e já dá a cara a tapa. Se todos ali estão começando, tenho certeza de que a passagem pelo Algaravária vai ser determinante para os rumos que cada um vai tomar. Mais que isso: a exposição cotidiana dos poemas e das idéias (e o debate que a ela se segue) vai ajudar a saltar várias das etapas de perplexidade que a gente vive quando inventa que vai escrever poesia. Mas dá muito trabalho... Que a Algaravária prossiga!

algaravária
(7) no algaravial

 

sexta-feira, julho 14, 2006

súplica da sereia a odisseu


logo o mar te abre.
rasga em seixos tua arca
ao cobrir mais que um
Argo, músculo frio
de lisa espalda,
para jazer-te em espuma
longe de casa -
há tantos perigos ao
teu horizonte,
monstros sombrios na alma -
peço então de vez:
atira-te no verde
colo a preamar.
sei carícias potáveis,
escamas brotam
do corpo em estiletes
para tocar-te,
até que a morte seja
um leve ondular
e a vida em teu navio
ferido, lugar nenhum.

Felipe K.
(2) no algaravial

 


enquanto 8






minha experiência é muito pouca.
os homens e as mulheres que não sei.
cada novo movimento no mundo que desconheço.
tempo zero.......:.......caça e contra-ataque
movimento........fogo........ferocidade........abertura





.

Pablo Araujo
(4) no algaravial

 


Paulo de Toledo
(2) no algaravial

 

quinta-feira, julho 13, 2006
Memorando

Penso num dia chamado outro:

Sabores se bifurcam
e nutrem horas
que teimam em azedar.

Tendões diluídos no discurso,
nas papilas o amargo
da língua.

Voz bipartida e tetraplégica.
Letra corroendo ouvido
como som de realejo.

Palavra polida em disfarces duplos:
espectros de mim.

Priscila de Freitas
(12) no algaravial

 


esvaziando gavetas número quinze

permanecer preso ao que te
acovarda
negar a esperança, mesmo tendo-a
sonhado
apagar o que fez de ti poesia, palavra por
palavra
até alcançar a brancura insensível do
papel
&
observar amargurado
as minúcias dessa dor ruminando teus
anjos
o descabimento dos tolos sonhando
felicidade
a sincronia das perdas tocando a
pele
a vida afrouxando as extremidades do
adeus
atando os nós que prenderão a tua
alma

douglas D.
(1) no algaravial

 

quarta-feira, julho 12, 2006
...Etc e tal...

O livro qualquer, terceiro capítulo, coisas após outros cigarros... Algumas estrelas adolescem vazias num ninguém de si mesmas.

Onde - formigas ilustram tempos em tempos nos reclusos pormenores do lustre da sala de estar - estávamos?

Amo - ela
Diz - você... Outros cigarros... e corujas, solidões e silêncios, a rasgar... Das janelas teias tramam tentativas de apatias...Letras espalhadas pelo chão... Ponto zenital... Quase seis...Bater na porta do vizinho, meia xícara de açúcar, resquício de bom dia. No trânsito do tempo, um momento de se restar... Apenas se restar,beijos, pelo chão,

espalhados...Outros cigarros.

Diego Ramires
(5) no algaravial

 


15 Riscos

Hay cosas que no pueden ser escritas. Ou faladas. Talvez mentidas. Mesmo sem graça da onde viemos para vamos, razao sem, erramos.

Daniela
(1) no algaravial

 

terça-feira, julho 11, 2006
Imp. 15

Tirania do minuto

Xeque

Aquilo que o diferencia de outro
Contagem regressiva
............No
Eco de cada camada
............Na
Heresia ortodoxa de semi-avesso -
Supra-sumo de filantropos e filomáticos -
...............................Prazer/
..................../Pesar
Sem valer dilúvio
(circunscrevem)
Palavra
Com autoria fiável
Confess
............Ou
Velar plural detento
............Ou
Irrevelável amputar moral:
Ele sabe seu falar;

-Tema

Thiago Ponce de Moraes
(4) no algaravial

 


saraIvada 15 (debutancias)

Ainda amo o rock, mas não dá mais pra desconfiar dele

Eu o encontrei antes da manhã propriamente dita
na quebra entre a Glória e a Alfama
querendo amor
e rasgado entre os dedos das mãos.
Amor eu daria, mas as frieiras me cansam.
Ele só quer amor de quem lamber a ferida.
Vinte e três horas depois, cinco quartas abaixo
quadras pró-tensas
na estação Ave Maria
de novo. Ele ria,
os dedos enfaixados como se não valessem mais a pena.
A camiseta tinha uma frase com naftalina
que parecia um contrato de gaveta com os dezessete anos não passados,
?qualquer nobre sem grana não passa de um mendigo?.
Eu convidei o rock´n roll pra almoçar lá em casa domingo
porque me deu pena dele não ter descoberto
que qualquer mendigo enganado nas verdinhas
deseja ser um nobre com spikes e batidas no sábado.
Eu convidei o rock´n roll pra almoçar lá em casa domingo
ele vai sujar delicadamente as caras calças limpas
pra não fazer feio.
E eu servirei espaguete na vitrolinha.

francieli spohr
(6) no algaravial

 

segunda-feira, julho 10, 2006
9020-015

dóris hair na rua penny

a frase "she loves me"
é wishful thinking
e wishful thinking
nas palavras do comediante
é "querias, mas não te dou"

a frase "she loves me
yeah yeah yeah"
é beatles
e beatles
era uma banda de rock and roll

dizer ela me ama
she said so
pode ser confundir
seishonoiê com shiseido
aquela marca de shampoo

no fim nem tem como saber
quem vai deixar seus cabelos melhores
shiseido ou seishonoiê
seishonagon ou a dóris
mas a dóris geralmente corta bem

Angélica Freitas
(7) no algaravial

 


Ninguagem

Da série Nutrição da Pele



o amor em dobras




no espaço a que nós dois nos damos
as mãos que o espanto desperta um corredor
em dobras a dar-se a si seus contornos de dedos o elidir
de sua forma a sua mais prevista como se concha
a fechar-se à pérola que lhe cabe em linhas-lâminas a eliminar-se as frestas de suas próprias dobras

Daniel Sampaio
(6) no algaravial

 

domingo, julho 09, 2006
Três novas figuras algaravariáveis


A algaravária saúda e apresenta suas três novas figuras algaravariáveis: Diego Ramires, Priscila Fernandes e Eduardo Jorge. Confira logo abaixo biografias e poemas. Viva!

algaravária
(9) no algaravial

 


Diego Ramires





Diego Ramires nasceu em Ponta Grossa, PR. Cosmopolita de bar, moleque de rua e poeta não por opção, gosto ou inclinação, mas por modesta cominação de algum vício imoral. Nunca nada escreveu, sempre escarrou. Tem 23 anos, fuma, bebe, volta para casa após o terceiro galo cantar. É um inveterado degustador de café. Médicos não sabem como sobreviveu a uma cirurgia de apendicite. Idealizador do periódico bimestral Art'Eco em parceria com a escritora Thaty Marcondes (futuramente voltará a circular junto com o grupo Gambá & Manacá). Ministrou oficinas de literatura (poesia) para crianças da periferia, alguns de seus trabalhos são encontrados em jornais e sites de literatura. Chegou, algum dia, a possuir pretensões literárias. Procura avidamente a incompreensão de seus versos, quando não mais os entender...


Diego Ramires doravante escreve sempre às quartas no Algaravária.






POEMAS



Vislumbre



jardins de pedras

mineral penumbrismo

calcografada a pseudo-arteriologia



ouro (1)



na hidrólise do anseio



................................. (2) tolo



.............................................pára pensa: rotação / translação

..................................................................a Terra gira








Noti - vagação

...............................*a Thaty Marcondes



rumoreja da insônia



o entrave



outona no impresso a

tectonia andrógina

...........................do destino desa-

.................................tino



.......................................Log11=0



.......................................a concluir








Apocalíptica





reamarro o mito

o rancor



....................- iconoclastismo

....................vôo-vulto -

....................(rasando como escatófila varejeira o diagrama da fratura)



em arritmia amazônica

acrescentando

à consciência....crise



do pensar...ser








*aos meus pais, in memoriam



a difração em proposta

sob a tênue conjugação preced

ente - bálsamo lacrimoso de pântanos:

............................................és-não-és cum grano salis



............................................a aliança

............................................para sempre vidalém



............................................até que a morte

............................................os uniu



na mesma cripta:...descansem em paz

algaravária
(6) no algaravial

 


Priscila Fernandes: CHAFARIZ






Priscila Fernandes é baiana, tem 20 anos, estuda letras na Universidade Federal da Bahia e psicologia na Faculdade Ruy Barbosa. Escreve poesia desde quando conheceu a poesia, na infância, por Cecília Meireles. Com alguns livros prontos mas nenhum publicado, exibe seus poemas em blog pessoal: o Chafariz.

Priscila Fernandes doravante escreve sempre às quintas-feiras no Algaravária.







POEMAS


Nomedoeu



I.

Esculpir cantos do próprio corpo
como quem nomeia
a si próprio
um desapropriado
de nome.



II.

Falecido enfeite póstumo:
sobrenome de família.




III.

Repito o som do apelido
repito o apelido
repito, repito
apelido
o som.




IV.

No gesto do nome
o ato urdia.









HAI-CORTES


I.

Eterno
só o que vibra
Todo o resto é curto
como cílios de boneca.


II.

Crescente num espaço
sem tropeços
a vida
desaba.


III.

Para dormir hoje
melhor contar ácaros
que carneirinhos.


IV.

Nem se quer a morte
- por sua parte imensa -
escapa ao erro


V.

Isento e livre
(como névoa amanhecida)
esse amor, já sem mim,
amará para sempre.








Verão

Nesta cidade o verão dói,
racha o hermético
dos poros.

Cão ofegante
pingando suores da língua
(respira perto dos meus pés)

Eu,
derretida na sala,
dissolvo-me em nada.

algaravária
(8) no algaravial

 


Eduardo Jorge





Eduardo Jorge, 1978, nasceu e mora em Fortaleza (CE). Viaja de vez em quando. Pesquisa vídeo-arte, poesia e fotografia. Publicou uma plaquete com o poema san pedro (2004) entre outros poemas dispersos em revistas e suplementos.

Eduardo Jorge escreve catorzenalmente às sextas no Algaravária.







POEMAS


a partir de uma luz de tungstênio acesa durante um dia cinza-escuro


...............................................................Não consigo encontrar Eduardo em casa
...............................................................Hélio Oiticica



o arrastado dos pés bambos, do som da preguiça
ao tacanho jogo de escadas dos anos vinte em
vários lances e outro aceno, até logo.
uma despedida de sempre, no novo jogo desvio:
a boca de dois leões amarelo embotado -
uma plântula desperta o pensamento
possível embrião e olhar sério de outro rumo,
que desce ao aroma de talco, vindo da
conversa com a senhora fotografada, antes:
hoje de um dia cinza-escuro,
balançando as qualidades do nulo e do passeio
em busca de ar , fluídos de água sobre
os passos rápidos de freira sem guarda-chuva
como continuar o pensamento do broto equilibrando
desequilibrando o corpo em direção a catedral,
cruzar o amontoado de pombos e indeciso
entre a direita e a esquerda, sempre.
um táxi rumo a festa na loteria, disse a senhora.
agora a situação de hazard - a espreita de
coincidências a vida e, de repente o passo acelera,
há uma firmeza áspera na resposta,

[ momento entre as ligações dos carbonos
do seu corpo e o traçado da hidra fêmea sobre o
centauro, croqui depois do cinza-escuro espalhado em
estrelas, setembro depois de 1978]

dobra a esquerda sagital. notícias tem deles por outros
desvios.



...............................................................PS: Diga ao Eduardo que eu escrevi para ele duas cartas
...............................................................e ele não me respondeu ainda, [...].
...............................................................Lygia Clark







glaciais

a página, esta sim, congelada, curva e suspensa em carta:
uma língua que se desfaz com o tempo se mistura a outras, pelo enquadramento de outra presença e chama a atenção, como está o seu tempo -
e ela vê o desaparecimento do português dela, a língua
desmanchando-se em distância: ilegibilidades de um oceano
entre grafias, um mar que não congela:
a lembrança depois do banho, um corpo úmido e fotogênico assinala depois de um mergulho.









algaravária
(5) no algaravial

 

sábado, julho 08, 2006
Algaravariações (10): Claudio Daniel




Claudio Daniel, poeta, tradutor e ensaísta, publicou, entre outros títulos, os livros Yumê (poesia, 1999), A Sombra do Leopardo (poesia, 2001), Na Virada do Século, Poesia de Invenção no Brasil (2002, com Frederico Barbosa), Romanceiro de Dona Virgo (contos, 2004), Jardim de Camaleões, A Poesia Neobarroca na América Latina (2004) e Figuras Metálicas (poesia, 2005). É co-editor de Zunái, Revista de Poesia e Debates (www.revistazunai.com.br) e mantém o blog Cantar a Pele de Lontra (http://cantarapeledelontra.zip.net).

Logo abaixo, duas vastas belezas: 11 poemas e a entrevista.







ANTICABEÇA

apartado de mim; ferocidade;
esse olhar atravessando folhas;
cegasse o vento reptante:
replicantes jias, alinhavando deserções.
entre breus, seara difratada
onde retráteis
garras do ínfero.
ao modo de borrão: ambíguo
desgarre, em acúmulo
áspero de grafias.
escavasse desde o centro
em desmedida,
e anulasse as cores da paisagem.

***

ambivalência do inseto
que se desenha íbis,
amêijoa, escaravelho,
folhas ou fíbulas, fúrias ou órbitas
insustentáveis
de outra orla, outro círculo
plasmático. tudo está
no dorso da pupila.



PARTITURA

Perplexidade, raios de um sol
que redesenha seu centro;
essa matéria tão delicada,
ferozes epitélios da flor;
deslizando das pupilas,
revoluta, para outro mar,
após tingir o flanco da noite.
Fosse apenas o perambular
em outra relva, seria tema
de chanson; dissociada de mim,
reclinada em lua minguante,
seria musa de retrato fauvista,
excedendo o rubro tigrino.
De todo modo, um dia vou
felinizá-la em partitura.



DEPURAR

Depurar a paisagem manuscrita,
seu árido vocabulário de fraturas.
Onde cada figura musical delineia
um animal desconhecido: animal
porque obscuro, entre rasurado
e ambíguo. Ler na pele do carneiro
a oblíqua sentença do desenlace
(seqüência de corvos e equívocos)
até borrar os planos da agrimensura
em cor amorfa, membrana devoluta.



RAPTO

Para iniciar uma lua pelos filamentos,
em articulações de répteis. Obliterar
os arredores ao esquadrinhar a pele.
Descrever joelhos como náutilos,
seios como escabelos, esse é o meu
hibridismo, minha fome vertebrada.
Acontece que a expansão do branco
bifurca-se, espraia-se esqualidamente
do lábio ao umbigo, em simulado
rapto. Ame o mapa de meu rosto,
sua caligrafia de incinerações.



DESVIO

Farto já de tanta ambigüidade, flor excessiva,
alfabeto cego que se desdobra em vogais.
Peixe branco, gris ou amarelo desgarrado
de sua guelra, no desvio das águas,
entre suposições, eufórico, justaposto
à inevitável precariedade. À meia-noite,
desmanchar esqueletos de anões,
é sempre a mesma música proliferante,
pautada nas ranhuras da cervical.
Até dilatar os debruns coaxiais da caixa
craniana; sublime é a arte do esquecimento.



EPIDERME EXILADA DE SI

Nenhum sol, minério ou latência do casulo:
só o silêncio duplicado em orquídea,
occipital do neblí que desinventa a metáfora
de uma estrela.



DECLIVE

aludindo incisões, talvez sombras,
tão híbridas que vociferam;
lupinas alinhadas abolindo
delicadeza; guturais,
obcecando
lúpulo.



ESCRITO EM OSSO (I)


(...)

Fósseis de argumentos
Esqueletos de grafias
Autofágica página
Inescrita, devoluta.



*
lepra da língua simulando sêmele.
mão-do-caos
olho-de-treva
um corvo azul irrompe
no poema.


*
Extinção de estrela ou
Mudez do mar.



*
falange deslabiada contradição
entre memória e mundo.


*
Fossem falcões de simetria,
Mas apenas figuras
Expiradas.



*
palavras desventradas
da cadela, sons fecais
em hinos de desmemória.


*
Pois toda história humana
É um volume fechado
De cíclica desleitura.



*
um corvo azul irrompe
no poema.


*
Essa a letra fosca a peripécia
O motejo expandido

Em espelhismo de lacraias.

(...)



ESCRITO EM OSSO (II)


(...)

sou espectro de mim.

*
no extravio das hipóteses,
expansão de territórios
fermentando fêmures

(ruínas de um vocabulário;
escura caligrafia
rasurando crânios).

desfoliante na curva do vento,
onde o leão do labirinto
recifra-se em ecos.

(...)

sou alimária de mim.

*

a mente como um focinho
escavando raízes
no aterro da memória

(palavras são despojos,
o sentido fraturado de tudo:
cegueira inventando cores).

precárias percepções
do caos ensimesmado:
nenhuma música aqui.

(...)

sou descosturado de mim.

*

flagelar os chifres do céu,
catarata-capricórnio
esfumada em carbono

(destrinchar o mapa celeste
com cálculos e equações
até o nada absoluto.)

num ponto qualquer
do planeta, órgãos retirados
de corpos sem autópsia.



ESCRITO EM FLOR (I)

Quem és tu, mulher inumerável?
- Kurt Schwitters


Paisagem musical onde o amarelo
....dá sentido ao vermelho:

esta é uma canção
....de amor.

Lábio (pétala) submerge
....em topázio-tigre,
....até sangrar as ilhas
....do desejo.

Esfinge do espelho
....ou cegueira:
....(real)
....imaginária.

Uma flor (a lebre), partículas
....do mundo
....nas retinas.

Cada abelha sonha
....uma rosa
....imantada.

Violetas indagam onde trópicos noturnos,
....ritmos
....bruxos,
....areias núbeis
....de contato.

No avesso das pálpebras:
....onde ver o porto da viagem,
....do mistério ao desatino.

(E para sempre e mais um dia.)

Para Reginabhen




BETTY BLUE (CINCO CENAS)


I

Piano, tarântula;
punho ferido
e o globo ocular
pelo desmanche
da memória.

II

(Ofélia descentrada,
banha-se em prata
de céu abortado.)

III

Paraíso clorofórmio:
inscrever o exílio
dos lábios na pele,
metalizada e muda.

IV

(Flashback)

Nereida meretriz
na gravata epitáfio;
tufos de barba
da morta madre,
como um presságio.

V

(Finale):

Ele travestiu-se
para o ofício de Perséfone,
após domar a dor.
Repousa agora
o olho único da inquieta.

...........................................2005






ENTREVISTA



1. TRAJETÓRIA DE ANTES


Como construiu o escritor que é hoje? Descobriu-se ou inventou-se poeta?

Quando era jovem, eu queria ser lutador de artes marciais, como o Bruce Lee.

Por algum motivo misterioso, caiu em minhas mãos As Flores do Mal, de Baudelaire; na época, eu devia ter uns 13 anos, e essa leitura causou-me forte impressão.

Eu nunca lera nada como aquilo, antes; era um tipo de discurso muito diferente do que eu lia em romances ou jornais. Descobri, nesse primeiro contato com a poesia, que as palavras tinham música, imagens, evocavam sensações e experiências muito além do cotidiano.

Em seguida, li O Corvo e A Filosofia da Composição, de Edgar Allan Poe, e já estava contaminado pelo vírus da poesia: doença incurável, ao que parece (Rimbaud buscou tratamento numa clínica da Abissínia, mas não deu muito certo).

Creio que datam dessa época meus primeiros escritos, que tive o bom senso de destruir.

Aos 16 anos comecei a ler os modernistas, em especial Oswald de Andrade, Raul Bopp, Murilo Mendes e João Cabral de Melo Neto, que me ensinaram a concisão vocabular, a precisão do sentido, a construção do poema como uma estrutura viva, com sua própria lógica, diferente daquela que usamos em outros tipos de pensamento e escrita.

Memórias Sentimentais de João Miramar, por exemplo, reli muitas vezes, fascinado com a capacidade de Oswald de inventar palavras e desarticular a sintaxe e o discurso, chegando a um organismo que não é simplesmente prosa ou poesia, mas invenção de linguagem até o mais alto grau. "É isso o que me interessa", pensei na primeira vez que li essa maravilha.

O impacto provocado pela leitura de João Cabral não foi pequeno: a Psicologia da Composição, Fábula de Anfion e Antiode até hoje ressoam em meus ouvidos, como se eu tivesse escrito esses poemas (tola pretensão). É um poeta completo, que precisa ser estudado, in my opinion, por quem deseja conhecer poesia de verdade.

O terceiro passo importante foi a leitura dos concretistas: Xadrez de Estrelas, de Haroldo de Campos, Viva a Vaia e Caixa Preta, de Augusto de Campos, e Poesia Pois é Poesia, do Décio Pignatari. A poesia concreta foi a conseqüência necessária do Modernismo de 1922, em sua vertente mais radical (Oswald de Andrade-Raul Bopp), e abriu novos caminhos para a criação, com o uso de recursos visuais de diagramação e tipologia, aplicação de cores, busca de novos suportes (o holograma, o vídeo, o compact disc etc.), diferentes seqüências de leitura, além das formas lineares do discurso, entre outras contribuições.

Foi a primeira vanguarda nascida no Brasil, com repercussão internacional, e estimulou as novas gerações a estudarem poesia seriamente. Isso não significa que precisamos continuar nesse caminho, mas a poesia concreta precisa ser levada em conta, a meu ver, como um ponto de partida (e não de chegada) para novas aventuras poéticas.

Well, com essas e outras leituras (Mallarmé, Blake, Celan, Rimbaud e um longo etc.), resolvi: quero ser poeta (e adeus carreira de lutador de kung fu, o que lamento até hoje).

Foi uma decisão motivada pelo entusiasmo, pelo encantamento, e também pelo exercício intelectual, pois nunca separei, no ato da criação, a inteligência e o sentimento: eles agem juntos, não é possível fracionar o cérebro, que funciona de modo integrado (a Virna, que é neurologista, pode confirmar ou refutar minha observação).

Logo, inventei-me e descobri-me poeta, ao mesmo tempo.

Ufa, a resposta ficou longa, vamos a outra pergunta?



Ser poeta é mais talento ou esforço?

Talento e esforço, acredito, andam de mãos dadas; se faltar um ou outro, você não conseguirá escrever o poema. Vinícius de Moraes, por exemplo, é visto como um "poeta do coração", espontâneo, intuitivo, mas ele dominava a métrica e as formas do verso clássico como poucos; João Cabral, com todo o racionalismo dele, foi quem subverteu a métrica, criando uma nova sintaxe para o verso e um ritmo mais livre (justo ele, que não gostava de música). Com o domínio da técnica, vem o improviso, o insight, a segurança para inventar o que você quiser, ou aquilo que tiver a capacidade de fazer, como acontece no jazz.


Qual foi a sua trajetória literária até o primeiro livro? E qual a trajetória até os livros seguintes?

Publiquei meus primeiros poemas em jornais e revistas literárias como a 34 Letras, Dimensão e Cavalo Azul, no final dos anos 80, quando cursava Filosofia, na USP (não completei o curso, pois mal freqüentava as aulas, ocupado com a militância política, o cinema e os papos de boteco). O primeiro livro, Sutra, saiu em 1992, quando tinha 30 anos de idade. Nessa época, eu morava num velho apartamento no bairro do Bexiga com minha mulher, Regina, e trabalhava à noite como revisor no jornal Diário Popular. Esse foi um livro quase secreto, que circulou apenas entre amigos; fiz o lançamento num bar chamado Spazio Pirandello, que era freqüentado na época por minha turma. Relendo hoje os poemas desse livro, ainda gosto de muitas peças, mas reconheço que foi uma lírica inicial, quase um caderno de estudos, embora muitos dos temas e recursos estilísticos usados aqui tenham sido desenvolvidos nos livros seguintes. Fiquei sete anos em silêncio, tempo necessário para a ampliação do repertório, a conquista de novas técnicas e o amadurecimento da escrita (ao menos, gosto de imaginar isso, ainda que não corresponda, rigorosamente, à realidade).

Em 1999, publiquei Yumê, livro organizado em séries sobre a Água, a Noite, o Amor, o Oriente e outras células temáticas; o prefácio desse pequeno volume foi escrito pelo poeta cubano José Kozer, com quem iniciei correspondência, nesse período (anterior ao uso do e-mail: trocávamos cartas, quase sempre acompanhadas de livros ou poemas). A partir desse livro, minha poesia começou a ter maior circulação e visibilidade, e fui conhecendo autores de minha geração, que hoje são meus amigos, como Ademir Assunção e Rodrigo Garcia Lopes.

Um poema de Yumê de que gosto muito é Marinha Barroca, que começa assim: "o azul-espuma-catarata, azul-quase-branco-nébula, de mar branqueado no azul-lótus-krishna; delfim que sulca em saltos as vagas azul-marinho-almíscar como graciosa dançarina cambojana, pés-apsara; e (miríades!) aves aquáticas em mandálicos dervixes rodopios rumo ao meru, imenso portal laqueado, sob o céu-plumas-lakshmi, que se abre como noiva."

O Oriente e o Barroco estão muito presentes nesse livro; como reação inevitável, no título seguinte, busquei outras construções. A Sombra do Leopardo, que saiu em 2001, com prefácio do uruguaio Eduardo Milán, também é dividido em séries temáticas, porém, com ênfase em outros recursos, como a elipse, o ritmo bárbaro, maior fragmentação de imagens e da sintaxe e o olhar voltado a coisas simples, como cabelos, dentes e unhas (embora também haja peças dedicadas a filósofos e países, numa paródia dos verbetes de enciclopédia).

Como exemplo de composição desse livro eu citaria Poros, que começa com as linhas: "O/ verde,/ sua pele/ ácida. Tocar/ os poros/ do verde, florir/ metálico. Ouvir/ sua voz de asa/ e sombra./ Olhos, faisões/ de cegueira./ Jóias de irada/ divindade." Com esse livro, eu ganhei o prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, oferecido pela revista CULT.

Meu título mais recente é a antologia Figuras Metálicas, com "orelha" de João Alexandre Barbosa, que reúne poemas dos três primeiros títulos publicados mais um quarto, inédito, chamado Pequenas Aniquilações, cujo tema central é a guerra; aqui foram coladas citações em sânscrito, extraídas de textos sagrados hindus e budistas, mescladas à descrição fragmentária dos horrores da barbárie em curso, numa deliberada e contraditória polifonia.

Também há peças satíricas sobre a publicidade, o mercado financeiro e objetos retirados do cotidiano como guarda-chuvas, sabonetes e secadores de cabelos. Claro, a "realidade" aparece aqui não de maneira naturalista, imitativa, mas paródica, pela desmontagem e recriação dos referentes; assim, por exemplo, no poema Piolho: "Barítono de carapaça e gravata quase lilás mergulha os olhos baços no copo de cerveja irlandesa entre cotações do mercado financeiro. (Passa uma sombra magra de seios fumantes.) Verde álcool, cogumelos e vozes graves de semblantes que suicidam a noite estrelada". Acredito que, com este volume, que é um resumo de vinte anos de trabalho, eu tenha finalizado uma fase de minha jornada poética. Ufa! O que mais posso dizer sobre isso?



Qual é a importância da poesia e da filosofia do Oriente em sua obra?

Em meus primeiros livros, Sutra e Yumê, utilizo temas, imagens e símbolos da poesia chinesa e japonesa, e também alguns conceitos da filosofia budista, que estudei nesse período. A partir de A Sombra do Leopardo, procurei afastar-me um pouco dessa temática, em busca de diálogos com a cultura ocidental, ou aquilo que me interessa nesse repertório, como a poesia de Dante ou a filosofia de Montaigne e Schopenhauer. De todo modo, ainda que Eduardo Milán tenha me chamado de "lírico cultural", creio que sou mais um fingidor (à maneira de Fernando Pessoa) ou ficcionista: se eu falo de um jardim japonês, de um templo cambojano, de um shopping na Quinta Avenida ou do terceiro tomo da Metafísica de Aristóteles, tudo isso são imagens para o artefato poético, que não pretende ter uma essência profunda: as referências externas definem apenas os níveis aparentes de leitura. Entendo o poema como um teatro onde você mistura vivências, obsessões pessoais e leituras com outros elementos, em busca de uma sinceridade dramática, digamos assim: cada texto é uma persona, tem voz própria e atua conforme seu duende.


Teve algum incentivador? Quem?

Poderia dizer vários nomes. Para ser conciso, citarei apenas um: Haroldo de Campos, que tive a felicidade de conhecer. Conversamos algumas vezes em sua casa, em Perdizes, junto com a Carmem, e foram encontros memoráveis, regados a vinho do porto e histórias engraçadíssimas. Aprendi muito com ele, que foi ao mesmo tempo um grande poeta, erudito, e pessoa bem-humorada, generosa, que incentivou e apoiou autores jovens. A convite de Haroldo, aliás, publiquei Figuras Metálicas pela coleção Signos, da editora Perspectiva, fato que nunca esquecerei. Fiz uma entrevista com ele, publicada no n. 1 da revista Et Cetera, de Curitiba, que foi a última entrevista concedida pelo poeta. Ele sempre acolheu meus projetos com atenção e carinho, inclusive ficou entusiasmado com a revista eletrônica Zunái, que criei em 2003 com Rodrigo de Souza Leão, prometendo colaborar com traduções de poesia asteca e egípcia (ele encomendou um dicionário britânico para traduzir os hieróglifos, e ainda planejava traduzir oAlcorão, junto com Michel Sleiman!). Em nosso último encontro, pouco antes de ser levado ao hospital, ele me perguntou, à queima-roupa: "Eu já te contei como foi a minha visita ao Ezra Pound?". Respondi: "Não, Haroldo, mas vamos falar sobre isso em outra ocasião, agora preciso ir embora, já é meio tarde...". Infelizmente, alguns dias depois, ele foi levado ao Hospital Alemão Oswaldo Cruz, e não voltamos a nos encontrar para prosseguirmos a conversa; houve um último telefonema, do hospital, e falamos algo sobre Salvador Elizondo, depois ele partiu para a música das esferas.



2. PSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO


Com que se inspira para escrever? O que é matéria para a poesia? Quando escreve, qual o efeito estético visado?

Existe uma anedota bem conhecida, mas que vale a pena recordar: o pintor Paul Degas encontrou-se certa vez com Mallarmé, e disse que tinha muitas idéias para escrever poemas, mas que não conseguia realizá-los. Sem pensar duas vezes, Mallarmé respondeu: "Meu amigo, um poema não se faz com idéias, mas com palavras". Flaubert tinha opinião semelhante, em relação à prosa: o que importava mais para ele não era a história, mas o modo de escrevê-la. Esta é a matéria da criação literária: a linguagem. Você pode planejar os recursos e efeitos que deseja obter num poema, seguindo a receita da Filosofia da Composição, de Edgar Allan Poe (método que já adotei em muitas peças), ou pode seguir a intuição, o acaso, e depois corrigir o texto, sem pressa, o que também traz resultados. Já me aconteceu de escrever linhas com aliterações ou paronomásias que não foram pensadas, mas que surgiram espontaneamente, e que ficaram bem colocadas na composição; também já sonhei com versos e estrofes que coloquei no papel, ao sair da cama. O método pode ser mais intelectual ou espontâneo, o que conta é o resultado. Sobre a "inspiração", é algo bastante vago; às vezes, você pode olhar um quadro ou fotografia e ter a idéia para um poema; pode ler o noticiário sobre alguma tragédia internacional (como a situação no Oriente Médio) e já ter o insight para uma estrofe; outros se inspiram com a leitura de um bom livro, com marijuana, vodka, sexo ou chá de cogumelos, não importa. Qualquer que seja o pretexto, o "estopim", esse é apenas a fagulha inicial; o que realiza o poema não é a inspiração, mas a expiração, o trabalho pesado com as palavras. Em tempo: o que me inspira é o jazz bebop, a ópera ou a leitura de algum poema que me pareça quase perfeito, como os de Paul Celan.


O que pensa sobre a imagem como ponto de partida para um poema? Que tipo de imagem seria essa: uma imagem a priori pensada e que, de certo modo, existe (como obra de arte, por exemplo) ou uma imagem que se forma em si, que não o abandona?

Você pode construir o poema a partir de uma palavra, imagem ou sonoridade que desencasula o restante das linhas, como se fosse um fio de bicho da seda. Pode ser uma cena observada na rua, uma passagem lida num livro, uma seqüência sonhada ou pensada a frio, não importa. O que conta são as relações estruturais e semânticas entre essa imagem (núcleo) e o restante do poema; o modo como uma palavra puxa outra, como se fosse a sucessão de notas numa peça de concerto ou num show de jazz. O poema necessita, a meu ver, de uma unidade musical e de sentido (por mais bizarra ou dissonante que seja essa música, e por mais incompreensível que seja o seu sentido). É como um jogo de quebra-cabeças, onde cada peça precisa estar em seu lugar para construir a unidade do conjunto.


Há idéias que lhe perseguem no fio dos anos e das obras?

Claro! Quando criança, meu sonho era compor uma ópera em cinco atos, com sopranos histéricas e orquestra de metais. Infelizmente, nunca fui bom em música. Já na adolescência, pensei em escrever um drama longo em versos, seguindo o modelo do teatro grego, com o mesmo resultado frustrado. Hoje, ainda tenho a vã esperança de escrever algo que preste para o teatro; nunca serei Wagner ou Eurípedes, mas, com alguma sorte, quem sabe não componho uma peça curta para o Espaço dos Satyros?


Para escrever, precisa conhecer muitas cidades e ler todos os livros?

Lezama Lima (dizem) nunca saiu de Havana, mas leu todos os livros (ao menos, aqueles que importavam para ele). Não existem regras para se formar um poeta, mas a conquista de um repertório, da tradição escolhida (e não imposta) é essencial. Não se trata de receber um cânone, mas de inventar o seu próprio cânone, de acordo com aquilo que você busca. Para a minha poesia, por exemplo, Manuel Bandeira não tem importância alguma, mas Raul Bopp é referência imprescindível, pela estranheza imagética e brutalidade rítmica.


Existe perigo em determinar um tema para o poema que se vai escrever?

Sim, se você quiser escrever um poema satirizando Maomé no Irã ou na Arábia Saudita, por exemplo. Brinco, mas é um fato que em boa parte do mundo, hoje, ainda existe censura e repressão aos poetas: na China, no Egito, no Paquistão, creio que em breve nos EUA, se Bush continuar cerceando a liberdade de imprensa e os direitos individuais (além de torturar presos em Guantánamo). Este é o aspecto político. Agora, do ponto de vista estético, nenhum tema é perigoso ou proibido, se o poeta tiver talento e capacidade suficientes para abordá-lo de modo criativo. Você pode falar de cacos de vidro no chão, como William Carlos Williams; da pulga, como John Donne; do fetiche por pés, como o Glauco Mattoso, e assim por diante. Se o resultado final é satisfatório, como construção artística, é o que importa. Planejar o poema antes de escrevê-lo ou definir o assunto durante o ato criativo são dois caminhos pessoais que levam à mesma Roma, tudo depende de como você se sente mais à vontade para escrever.



3. PROSA DO PRÓPRIO MUNDO


Entre seus próprios poemas, quais os seus preferidos? Eles coincidem com os preferidos dos leitores ou mais divulgados em geral?

Gosto muito dos poemas publicados em Figuras Metálicas, como No Olho da Agulha: "Tatuar silêncios como formigas. / Afogar os relógios / numa pálpebra. / Vestir o grito com a pele / do escaravelho. / Torcer os músculos da face / em perplexidade", bem como das peças que escrevo hoje para meu novo livro, Fera Bifronte. Os poemas mais antigos, hoje releio menos, talvez por cansaço; já me acostumei a eles, logo, não conseguem me espantar mais. Sei que os leitores preferem peças como Zauberbuch ou Liber Aquae, por exemplo, que saíram em meu segundo título publicado, Yumê. Não os censuro por isso. A opinião que um autor tem da própria obra é sempre suspeitíssima, para dizer o mínimo.


Qual é a relação entre seu trabalho e sua escrita?

Nenhuma.


Recebeu ou recebe conselhos importantes de escritores em sua trajetória? Como foi e é o diálogo com outros escritores?

Quando tinha 15, 16 anos, visitei o físico Mário Schenberg, que me recebeu em sua casa repleta de quadros e livros. Conversamos por algumas horas, e ele fez uma observação bem interessante: que na poesia moderna havia um excesso de substantivos, e quase ausência de verbos. Na época, creio que não entendi direito o que ele dizia; hoje, compreendo e busco explorar ao máximo possível a variedade de verbos (ou seja, o pensar, o sentir e o agir), não me limitando à mera observação das coisas (retratadas nos substantivos). Sem dúvida, aprendi muito também com outros poetas com quem dialogo, como José Kozer ou Horácio Costa, e sou grato até por quem me ensinou uma única palavra que eu não conhecia.



4. A POESIA E SUAS QUESTÕES EM QUESTÃO


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

Creio que a importância da cultura para o poeta é a mesma que para o cidadão em geral, ou seja, contribuir para formar a sua visão de mundo, e portanto sua cidadania e liberdade de escolha, a partir do conhecimento histórico e das realizações artísticas e intelectuais que marcaram o nosso planeta. Para o trabalho poético, as referências culturais podem ser interessantes como sugestões de temas, ou para a escolha de palavras, formas ou citações, mas isso não é essencial para se fazer um bom poema, que pode ser tão simples e profundo como "velha lagoa / salta uma rã / rumor de água", do poeta-samurai Matsuo Bashô... Por outro lado, na poesia de minha geração, que começou a publicar nos anos 90, há um excesso de referências cultas, e muitas vezes o resultado é algo artificial e afetado, uma espécie de maquiagem de drag queen. É preciso ter cuidado com as citações, com os diálogos intertextuais, para que eles não se sobreponham ao olhar do próprio poeta sobre as coisas; sobretudo, em minha opinião, deve haver sinceridade no texto poético, mesmo quando o autor está mentindo, já que o ofício do camaleão faz parte da escritura e das obsessões de qualquer escritor ou artista. É preciso sinceridade na verdade, e ainda mais na simulação.


A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?

Não.


A poesia atual é multiplicidade pura. O que deve haver num poema para lhe agradar?

O poema precisa me surpreender, me deixar perplexo com uma imagem, um ritmo, uma estrutura ou construção que eu me sinta incapaz de fazer igual. Por exemplo, as Galáxias, de Haroldo de Campos; a novela poética Mar Paraguayo, de Wilson Bueno; o Quadragésimo, de Horácio Costa; e alguns poemas de Claudia Roquette-Pinto, para ficar em poucos exemplos.


A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

"Tudo está dito / tudo está visto / nada é perdido / nada é perfeito / eis o imprevisto / tudo é infinito." (Augusto de Campos). "Caminhos não há, mas os pés, na grama, os inventarão." (Ferreira Gullar)


Políticas literárias: faz qualquer negócio para sua obra ser editada? é justa a percentagem que fica para o editor e para as livrarias? É justo que o escritor seja a causa produtora de um sistema literário que não o beneficia corretamente? O que se pode fazer?

Publiquei meus dois primeiros livros pagando do próprio bolso; apenas a partir do terceiro, A Sombra do Leopardo, passei a receber convites dos editores, que antes fugiam de meus textos como o diabo da cruz. Não tive pai importante, nem amigos influentes na universidade ou na imprensa: segui meu caminho a partir do nada, sem fazer concessões. Com o tempo e a teimosia, fui conseguindo publicar em revistas literárias, ganhei o prêmio da revista CULT e consegui alguma visibilidade para meu trabalho, embora limitada: meu livro de contos Romanceiro de Dona Virgo e a antologia Figuras Metálicas não mereceram nenhuma resenha na Folha de S. Paulo, por exemplo. Porém, prefiro manter a coerência e a sinceridade no caminho que escolhi do que vender a alma por um prato de lentilhas; nunca mudaria de pensamento ou de estilo para ganhar a simpatia de algum medalhão influente. Quanto ao mercado editorial, são os distribuidores e livreiros que ficam com a parte do leão: para os editores e autores, sobram migalhas. Claro que é injusto, e não vejo muitas opções dentro do atual sistema de produção, divulgação e circulação de livros. Pensando nessas questões, o Movimento Literatura Urgente apresentou propostas ao ministro da Cultura, Gilberto Gil, mas até hoje não houve nenhum resultado, em boa parte por causa da apatia dos próprios escritores, que preferem observar pelo microscópio o próprio umbigo.


Quais são as editoras que têm realizado um trabalho mais generoso e criativo no campo da poesia?

Editar poesia no Brasil não é tarefa fácil, já que a distribuição é quase sempre precária, são poucos os leitores interessados e as tiragens levam anos para esgotar. Apesar disso, temos alguns visionários que ainda investem nessa loucura, com critério na escolha dos títulos e qualidade gráfica reconhecida, como a Perspectiva, Iluminuras, Ateliê, Lumme e a Travessa dos Editores (essa última, responsável também pela edição da revista Et Cetera).


Quais são os vícios e as virtudes da poesia brasileira moderna e contemporânea?

A poesia brasileira é uma das mais interessantes, hoje, e não apenas no continente americano: poucos países podem se dar ao luxo de ter autores como Augusto de Campos, Arnaldo Antunes, Duda Machado, Antônio Risério, Horácio Costa, Claudia Roquette-Pinto, Josely Vianna Baptista... não é pouca coisa! Agora, claro que em toda literatura, em qualquer momento histórico, há autores que trabalham seriamente com a linguagem e outros que, apesar do sucesso junto à mídia e à academia, apresentam resultados frágeis; a fama não se sustenta sozinha, é preciso estar acompanhada de obras consistentes, caso contrário, cairá no esquecimento. Nos anos 30, por exemplo, o "grande poeta" não era Drummond ou Murilo, mas Augusto Frederico Schmidt, que hoje ninguém mais lê. Não se pode bajular ou subornar o Tempo, que, como diz o amigo Fred Barbosa, é o maior dos críticos literários. Respondendo, enfim, a sua pergunta: creio que as principais virtudes da poesia brasileira são a sua capacidade de metamorfose, a vocação para a mescla de linguagens e culturas, a síntese antropofágica, a invenção. Em contraponto a esse estado de espírito mais jovem, aberto à inovação, temos os resquícios do passadismo, na diluição da poesia parnasiana e modernista; quando um autor não tem nada de original a dizer, repete o que já foi dito, de modo menos hábil. Enfim, no final das contas, creio que o nosso "saldo bancário" ainda é positivo, ao menos na poesia: temos fundos suficientes para compensar o desperdício.



5. MUSEU DE AGORA E DEPOIS


Quanto tempo dedica à leitura de crítica literária? Concorda com a idéia de que ela, nos jornais e revistas, está mais digestivo-introdutória do que analítico-crítica?

A crítica literária no Brasil tornou-se um gênero semelhante à ficção científica, ou melhor, ao realismo fantástico. Nesse campo, sempre preferi ler os contos de Edgar Allan Poe ou H. P. Lovecraft, que ao menos têm estilo. Escrevi um ensaio para a edição de junho da revista Continente Multicultural, editada em Recife, onde digo que a crítica literária, especialmente aquela ligada às instituições, é muito conservadora, "desejando, na maioria das vezes, perpetuar o estabelecido, evitando o risco de considerar obras que revelem qualquer grau de informação estética nova (para estes casos, cabe o sarcasmo, o silêncio ou o anátema papal)". Os cadernos literários da grande imprensa têm reproduzido essa ideologia: todos os domingos, são publicados longos e soporíferos artigos sobre Drummond, repetindo o óbvio já muitas vezes repetido, e quase nenhuma linha sobre o que se faz de novo na poesia brasileira. Tenho a impressão de estar numa realidade congelada, como se o relógio da história tivesse parado em 1930. Felizmente, não parou, e na margem do establishment surgem autores que se recusam a mastigar o mastigado e preferem jogar seus dados em outros lances. Sinto que não temos hoje críticos bem-informados sobre a produção recente, o que é uma lástima; o que predomina, na maioria das resenhas, são textos curtos e superficiais baseados na leitura apressada de releases, prefácios ou "orelhas" das obras resenhadas.


Existe uma marginália na poesia brasileira, na era da Internet?

"Ser marginal é escrever à margem", como já disse Paulo Leminski. Hoje em dia, os poetas que discordam das formas de escrita canonizadas pela academia e pela mídia têm um espaço bem mais restrito nos jornais, por exemplo. Porém, isso não importa, em termos históricos: o que é medíocre não se sustenta por muito tempo, e o que tem valor será reconhecido. As revistas literárias impressas, como a Coyote, Sibila, Oroboro, Et Cetera, têm ocupado o vazio dos cadernos literários e veiculado o que há de mais forte na produção atual. Com a Internet, surgiram as revistas eletrônicas, como a Mnemozine, Zunái, Germina e outras, que têm publicado autores novos de qualidade. Quando eu quero saber o que as novas gerações estão produzindo, não leio os cadernos culturais da grande imprensa, mas visito sites e blogues literários como o Papel de Rascunho, Uri Geller Algaravária, Folhas de Girapemba, entre outros. Claro que, pela facilidade em se publicar no meio eletrônico, há um volume incalculável de páginas na Web e a qualidade é oscilante: não basta ser jovem e desconhecido para ser um gênio. Há muita bobagem circulando por aí, e muita coisa boa também, é preciso separar o joio do trigo. De todo modo, nossa trincheira é o ciberespaço.


Quais são os poetas que chamam a sua atenção, entre os mais novos?

Há uma safra de qualidade entre os poetas mais jovens, que estão na faixa entre os 25 e os 35 anos; poderia citar Simone Homem de Mello e Adriana Zapparoli, em São Paulo; André Dick, no Rio Grande do Sul; Eduardo Jorge, Diego Vinhas e Virna Teixeira, no Ceará; Franklin Alves, Leonardo Gandolfi e Lígia Dabul, no Rio de Janeiro; Delmo Montenegro, em Pernambuco, entre muitos outros, que publiquei em minha revista eletrônica, a Zunái, e também no blog que edito, Cantar a Pele de Lontra. São jovens que pesquisam, não se conformam com repertórios apodrecidos, buscam novas referências e modos de escritura. Virão boas surpresas no futuro, aguardem.


Você já ministrou oficinas de poesia?

Sim, ministrei alguns cursos, palestras e oficinas na Casa das Rosas e também em centros culturais do ABC paulista e bibliotecas públicas em São Paulo. Em setembro, inclusive, darei um novo curso, Pensando a Poesia Brasileira, na Biblioteca Alceu Amoroso Lima (voltarei a comentar este assunto em meu blog). Esse curso dará continuidade ao ensaio de mesmo título que publiquei na revista Coyote, enfocando a evolução da poesia brasileira desde os anos 50 até os dias de hoje (esse texto encontra-se disponível no site Cronópios). Fica aqui o convite para os possíveis interessados...


Como você se vê frente ao recebimento de originais? Comenta tudo o que recebe?

Eu mal tenho tempo de respirar, e todo dia chegam incessantes e-mails, cartas e livros de autores perguntando a minha opinião sobre os seus escritos... em geral respondo, sempre com atraso, em linhas breves. Raramente algo me surpreende, mas fiz algumas boas descobertas recentes, como a poesia de Andréa Catrópa e Gabriel Kolyniak, que publiquei na Zunái.


Alguma epígrafe que o acompanha sempre? Algum epitáfio lhe contém?

Gosto da sentença latina Nec spe nec metu ("sem esperança nem temor"), que também estava entre as preferidas de Ezra Pound.


"Escrever sobre escrever é o futuro do escrever"? (Haroldo de Campos)

Acredito que todo texto literário de qualidade tem um fundo metalingüístico: ainda que o tema aparente seja o pôr do sol, um carro em alta velocidade, a fumaça do cigarro ou um pastel de palmito comprado na feira, o verdadeiro conteúdo do poema é a sua linguagem.



Que conselhos daria a quem está começando?

"Não siga os antigos; procure o que eles buscavam." (Bashô)


Você está preparando um novo livro? Qual será o seu eixo principal?

Escrevo um novo livro de poemas, Fera Bifronte, a sair, talvez, em 2008. Qual será o eixo? A lombada quadrada.


O que pensa sobre a Algaravária?

Um espaço necessário para a guerrilha cultural. Quando jovens poetas se reúnem para fazer uma ação coletiva, é preciso ficar atento, podem surgir coisas interessantes daí.

algaravária
(5) no algaravial

 

sexta-feira, julho 07, 2006

Paulo de Toledo
(5) no algaravial

 


fase blues

ainda é tempo
de colher a paisagem
deixar o dia
em paz - um papel branco -
deduzir do sol
a flama pura cerrar
a manhã entre
torsos de edifícios
(somente as nuvens
correndo feito tinta
restarão ao teu verso)

Felipe K.
(3) no algaravial

 

quinta-feira, julho 06, 2006
esvaziando gavetas número quatorze

meus olhos descrêem
tuas mãos retêm
nossas horas migram ao vazio
LENTAMENTE
velando o que outrora fora amor

é a vitória dos homens vestidos de cinza
que sob o sol morto
encarnam a felicidade prescrita

(nos FARRAPOS do homem de palha, lágrimas
feitas de sombra
& dor;
no ADEUS da menina que amanhece girassóis, lágrimas
feitas de sonhos
& amor)

douglas D.
(1) no algaravial

 

quarta-feira, julho 05, 2006
Uma estação no aquário


[Fazer água XIV]



Estou em outra estação, alga e vário. Leia-me no Famigerado.com

É o meu melhor, ou serei melhorado?

Carlos Besen
(3) no algaravial

 


14 Riscos

"Matemática discreta"

Há anos, aqui mesmo. Vários sonhos com homens na mesma cama de solteiro de antes. Entendo o suicídio, quando se volta. Como se o que fosse saindo. (A trave, o travessão).

O que estava saindo era lucro, com toda a crise. As palavras são digitais. Manuscritos são terríveis, incriminam, não há voltas, backspace. Rastros da humanidade. Impunidade. Faleceu. Sem + nem -; anote: amanhã, às 17h, na Biblioteca Municipal.

Daniela
(1) no algaravial

 

terça-feira, julho 04, 2006
saraIvada depois do 13

insurreição - lov lov lov

as vezes eu "reborn"
com uma cruz pendurada lá dentro
as vezes eu me conformo
ao pior modelo de mim

mas lov lov lov
não desista
esse deserto é só pra surpreender os pinguins

as vezes eu "reborn"
com internidades demais ao vento
como minhocas que perdem as asas pro sol
o calor apressa o que é ruim

mas lov lov lov
mesmo com o mal de calço
a gente há de dormir, acordar e se beber direitinho

mas lov lov lov
aperto a realidade entre os dedos dos pés
cabem vinte e oito mundos
nossa realidade
e todo o caminho.

francieli spohr
(3) no algaravial

 


Imp. 14

Sobre a distância


Assim principia:

Esculpes areia, é escuro.

*

Sem rugas darias fisionomia às
Datas -
Incólume paisagem
No entulho.

*

De passagem,
Prestes também ao inegável,
Emudeces, mudas
De figura:

Abbild und Nachbild
Perdes; tudo
Perdes, é escuro.

*

Ausência fia restos de sombra,
Vaga ressonância,
Vultos: o

Não-dito, rente ao
Alcance
Que então significa,

Esculpes.

Thiago Ponce de Moraes
(7) no algaravial

 

segunda-feira, julho 03, 2006
96020-014

thank you darlings
merci a vous


vou escrever um poema sem emoção
sem sentimentos malsãos
sem as palavras _______ e _______
viu que fácil? sem menção a horácio
ai, droga, falhei.

vou escrever um poema sem emoção
sem rimar d__ com am__
afinal os dois não têm nada a ver
né, querido leitor? e pra causar envídia
enfiarei em algum lugar que já li ovídio

e sem soro antiofídico, nada explicarei.

vou escrever um poema sem emoção
sem sentimentos malsãos
e agora, principalmente,
sem as mãos











.

Angélica Freitas
(4) no algaravial

 


Ninguagem

Direito de Resposta.


ao "anônimo":


bicho




fala feito um fela
da puta
caga como um macaco
no cio

só pode ser aquilo
que a puta que o
pariu.

Daniel Sampaio
(5) no algaravial

 

sábado, julho 01, 2006
Algaravariações (09): Celso Boaventura





Celso Boaventura Jr, 35 anos, nascido no Rio de Janeiro/RJ, atualmente residindo em Natal/RN, médico, escreve desde 1988, tendo publicado três livros, Ontem Ainda Não Passou, em 1990, Ed. do Autor, Vale Feliz (coletivo), em 1991, Ed. dos Autores e 2 Poetas Reunidos - Lamentações, em 1995, Ed. dos Autores. Desde 2005 mantém o blog O Cárcere das Asas.

Confira logo abaixo poemas e entrevistas inéditos gentilmente cedidos à grata Algaravária.







POEMAS



E DISSESTE, EU NÃO DEVIA TE AQUECER


Depois o frio dos teus olhos, Rainha das Neves,
Antes a morte me vinha aos pedaços,
Levas a morte em teus braços acesos,
Abertos como fossem acabar,
Tão frios os teus olhos de contos de fadas,
Teus beijos extáticos fazem gelar,
E a noite é de plástico.
Agora o calor do teu sexo, Rainha das Neves,
Ontem tu nem me falavas teu nome,
Sangras teu nome em golpes doídos,
E eu, do teu gozo, me faço dormir,
Tão longe teu corpo de bruxa malvada,
Tão longo teu grito de puta, criança,
E o sorriso elástico.

Enquanto descias da torre eu estava aqui,
O leite que havia em teu pranto me pôs a sorrir,
Mas mesmo eu me desescrevendo, exististe sozinha.

Costura com o fio dos teus medos, Rainha,
A neve que queima a tua pele branquinha,
E quando desejas ser minha, estou morto de ti.



AUTOFAGIA

Eu vou sendo consumido pela areia,
Refém de vidro,
Na noite intacta,
Meus olhos, retalhos, recortes, entalhes,
Eu cego,
Não vejo os mortos que vivem em mim.
Eu sou meu calabouço de concreto,
Meu medo insurrecto
É um fogo inextinto,
Meus dedos sangrados, fedidos, salgados,
Eu não tenho nome
E como sem fome o que eu perco de mim.



HIATO

Eu tenho os dentes amarelos de cigarro e vinho velho,
E bebo as noites pródigas,
As promessas compradas,
As roupas em farrapos,
Eu perco meus próprios retratos,
E tenho um estilete enferrujado,
Que ganhei num jogo sujo,
E que uso pra fazer vários pedaços do amor que me armou.
Eu conhecia os bares mais antigos,
As bebidas mais baratas,
Os ratos, os cupins e as baratas,
Que desenham no meu corpo um arremedo de suor.
Eu prendo os meus próprios demônios,
E tenho um esteio de sonhos,
Que comprei de um anjo velho,
Andarilho entre putas que eram feias de doer,
Minhas unhas são lânguidas,
Minhas pernas vão bambas,
O meu sexo é lâmina, sangra este corpo já morto e desconhece o prazer.



O CÁRCERE DAS ASAS

A essência do fogo é a ausência desse amor,
A língua esparramada, a voz está em chamas,
A alma entrecortada, a pele arde, inflama,
E o sangue dos teus nomes não estanca a minha dor.
O calor que nos consome prostitui o vento,
A fé é um artifício, Deus é só um alimento,
E o tamanho da minha fome não melhora o Seu sabor.
A guerra que lutamos é a mais distante,
Perdemos mais pedaços, mais irmãos que antes,
E o céu não está mais perto do que começou.
A terra que escolhemos para erguer a casa,
Hoje é terra desolada, é o cárcere das asas,
E é a ausência desse fogo a essência do amor.



BONECOS DE MÁRMORE

Deus me divirta com os Seus brinquedos,
Me atravesse o ventre feito um animal,
Há retorno em cada céu que desconstruo,
Em todo o rio que fluo,
Deus me defenda, como dito Josemar,
Do silêncio da árvore e do gosto de sal,
O meu corpo é de plástico e não sente o frio,
E o anjo que o obstruiu
É inteiro de mármore.
Deus refletido em espelhos, nascido, de fato,
O parto de um Deus não é um parto normal,
Me arrebata em litros de sangue,
E nem há quem Lhe tranque.
Deus se diverte com seus fantoches,
Felizes são os que têm suas cabeças de pau,
Se do fogo nasce o céu que me abstrai,
Sua nuvem é inflamável.
Deus nos detenha, a mim e a José do Mar,
Deus nos ataque e nos faça soletrar
Seu nome, em tom de profanação,
De fé inviolável.



SÁBADO

Pra limpar meus dias sujos o seu sabonete é pouco,
Tem que ser sabão de coco,
Pra tirar toda a gordura acumulada nos meus braços,
Vou usar palha de aço,
Mais curiosos que apressados,
Os exegetas se masturbam,
Pra afastar quem lhe perturba você usa o inseticida,
E eu já passei massa corrida em cada fresta da parede,
De onde pinga a minha sede.
Somos animais famintos, prescindimos deste luxo,
Trocamos filé por bucho,
Nossos pés estão descalços, as mãos cheias de farinha,
E comemos na cozinha,
Financiamos a saudade,
Com os projetos pro futuro.
Os ferimentos maduros cairão das velhas árvores,
E as crianças vão brincar de vida e dor lá no terraço,
Até morrer sem estardalhaço.
Pra lavar toda essa merda não me serve esta água porca,
Lavo com versos de Lorca,
Despejar livros no ralo, detergente e poesia,
Vão desentupir a pia,
Só não dá pra polir a alma,
Ainda resta muita lama,
E a boa e velha vassoura queda inútil atrás da porta,
Nos largamos, carne morta, suor e sono, sobre a cama,
E você diz que me ama.



MIRAGEM


Chove -
pés sobre a ardósia
rubro-gris - o corpo alheio
: amor.
Outro Bourbon, dias pequenos,
eu desenhei na boca (ficção)
3 pedras;
chuva (
exéquias) e Caronte em pleno inverno,
cabelo ocre, unhas
cheias de esque-
cimento,
eu mordo este bombom, recheio
: sangue.
O rosto sobre a ardósia (fricção)
liquidifica o amor
e o nega.



FLUIDO

O verso que me abrange,
me devora,
a boca cheia de silêncio expande,
decompõe a carne séptica;
nós fomos fome,
comemos todas as porções,
babamos e gozamos ante a imagem
da mulher pétrea,
coberta de pó (estóica e só).
Em cada canto desta lavra,
somos palavra,
nutrindo a água
de saliva, urina e sêmen;
a morte básica
é falsa magra,
é de onde Deus tira o sarcasmo e marca a cara,
é pra onde Deus vai cara a cara com Sua cria,
(quem ainda crê nesta agonia?) cuspir nos alvos,
brinquedos árduos,
ptialina.
A língua cobre os cantinhos
desta menina-musa, elástica,
lambe o sol, inchada e nua,
de cada folha faz bisel,
tirando lascas
que o verbo engole
e incompleta (pobre poeta!).



ENTRE OS JARDINS
.......................................................... à Dona Estultícia

Retalho (de pele),
flor de origami
e sangue,
verbo, lâmina,
olhos em risco,
boca cismada, selada
e fome
(dez homens sem nome espreitam no altar).
Detalhe no gelo (morta flor),
champanhe,
saliva,
eixo anárquico,
braços tísicos,
a mão é culpada, é o centro,
e goza
(tem cheiro de sêmen em todo lugar).



QUEDA

"Quanto a mim, com justiça verei a tua face;
ao despertar, eu me saciarei com a tua imagem
." (Sl 17,15)


assombro
sombras erodindo a face trágica
ofélia e julieta jazem
ávidas
e as cotovias sujam as manhãs
(quase como arribaçãs)
teu peso
é como água morta sobre a página
é um escorpião picando
a alma
o despertar da fome (solidão)
eu homem
meu nome foi espelho e ave tácita
hoje é sol ardendo o rosto
inválido
onde a cruz de uma saudade cai
(signo torto contra o
Pai)






ENTREVISTA


1. Trajetória de antes


Como construiu o escritor que é hoje?

O escritor que é hoje ainda está em construção, é um projeto. Mas vem sendo construído diuturnamente, de forma o mais das vezes intuitiva. Espero construir um dia de modo mais racional. A dor, a angústia e o encontro das formas expressas e impressas da emoção durante a minha vida me empurraram para as letras, pelo fascínio que a literatura sempre me causou e pela minha total falta de habilidade com outras formas de arte.


Ser poeta é mais talento ou esforço? Descobriu-se ou inventou-se poeta?

Não sei se há uma fórmula para ser poeta. Creio que doses bem distribuídas de talento e esforço fazem bons poetas, e essas doses não são predeterminadas. Há que se ter os dois, por certo. Descobri-me poeta. Escrever foi um ímpeto inicialmente. Literalmente, peguei-me escrevendo versos aos 14 anos.


Quais livros fizeram parte de sua formação?

No começo, seletas de Augusto dos Anjos, Cruz e Souza e Vinicius de Moraes. Depois encontrei García Lorca, essencial para mim, junto com Jorge Luís Borges, John Keats, Murilo Mendes e, em prosa, Albert Camus, Cervantes, o próprio Borges, entre outros. Tudo o que eu leio faz parte do escritor sempre em formação, incluindo textos contemporâneos, como Virna Teixeira, Rodrigo Garcia Lopes, J. T. Parreira, entre outros.


Teve algum incentivador? Quem?

Dois grandes amigos e companheiros de versos foram grandes incentivadores de participantes ativos na minha formação; André Vesne e Eli Celso. E sou muito grato a eles. Atualmente, cada leitor do meu blog é um incentivador, e faz com que eu me estimule a continuar escrevendo.


Há uma obra com a qual tenha descoberto a poesia de um modo mais contundente?

O Romanceiro Gitano, de F. García Lorca



2. Psicologia da composição


Com que se inspira para escrever? O que é matéria para a poesia?

Não há um fato ou sentimento isolado que me inspire. E tudo é matéria para a poesia. Nem tudo para a minha poesia, é certo.


Quando escreve, qual o efeito estético visado?

Eu escrevo com a expectativa que a minha letra satisfaça o meu afã. Se satisfizer o leitor de alguma forma, eu estou no lucro.


O resultado final do poema coincide sempre com sua idéia inicial?

Às vezes. Mas coincidir ou não, não está relacionado com a qualidade do texto, então isso não me afeta muito.


Há idéias ou imagens que lhe perseguem no fio dos anos e das obras?

Sim. Quem me lê identifica isso com facilidade.


Para escrever, precisa conhecer muitas cidades e ler todos os livros?

Não. Basta uma caneta bic e um papel.



3. Prosa do próprio mundo


Como define a sua poesia? Como caracterizaria suas ambições estéticas principais?

Nunca me detive nem em uma questão nem na outra. Mas não tenho ambições estéticas dignas de nota.


Entre seus próprios poemas, quais os seus preferidos? Eles coincidem com os preferidos dos leitores ou mais divulgados em geral?

Dependendo da época, a preferência pessoal varia muito. Acredito que ocorra parecido com os leitores.


Quanto tempo dedica à leitura de crítica literária? Concorda com a idéia de que ela, nos jornais e revistas, está mais digestivo-introdutória do que analítico-crítica?

Não leio crítica literária.


Qual a relação entre seu trabalho e sua escrita?

Nenhuma.


Em que geração literária você se concebe? Ela tem um projeto definido?

Não vejo uma geração definida esteticamente para responder estas perguntas


Como se sente quando comparado com outros escritores?

Normalmente fujo de comparações, mas as que me são transmitidas têm sido sempre lisonjeiras para mim.


Como percebe suas principais qualidades como escritor? Há algum defeito de que não abra mão?

Gosto do ritmo da minha poesia e de um certo vigor. Não abro mão de nenhum dos meus defeitos.


Recebeu ou recebe conselhos importantes de escritores na sua trajetória? Como foi e é o diálogo com outros escritores?

Mantenho contato com poetas contemporâneos e participo de saraus em Natal/RN. Todo e qualquer intercâmbio é sempre muito proveitoso para mim. Estou em constante aprendizado, ou tento estar.



4. A poesia e suas questões em questão


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

Poesia se faz com caneta, papel e inspiração. Mas o estudo refina a poesia e é um elemento relevante na formação do escritor. A erudição é opção individual.


Qual a relação entre poesia e religião? Sua obra manifesta, de alguma forma, essa relação?

Acho que a poesia está intimamente relacionada com o pensamento como um todo, o que inclui a religião.



A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?

A nossa cultura não tem âmbito para abraçar a literatura, e a poesia sofre especialmente com essa limitação.


A poesia atual é multiplicidade pura. O que deve haver num poema para lhe agradar?

Minha ligação com o poema é intuitiva.



5. Museu de agora e depois


Alguma epígrafe que o acompanha sempre? Algum epitáfio lhe contém?

"Quanta incerta esperança, quanto engano" Camões. Serve para ambas as funções.


O que pensa sobre a algaravária?

Uma inteligente ferramenta de divulgação de nomes relevantes da poesia contemporânea. Particularmente sou leitor assíduo da grande maioria dos colaboradores, então não há como não considerar o blog uma referência para mim.

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