ALGARAVÁRIA
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sábado, julho 01, 2006
Algaravariações (09): Celso Boaventura





Celso Boaventura Jr, 35 anos, nascido no Rio de Janeiro/RJ, atualmente residindo em Natal/RN, médico, escreve desde 1988, tendo publicado três livros, Ontem Ainda Não Passou, em 1990, Ed. do Autor, Vale Feliz (coletivo), em 1991, Ed. dos Autores e 2 Poetas Reunidos - Lamentações, em 1995, Ed. dos Autores. Desde 2005 mantém o blog O Cárcere das Asas.

Confira logo abaixo poemas e entrevistas inéditos gentilmente cedidos à grata Algaravária.







POEMAS



E DISSESTE, EU NÃO DEVIA TE AQUECER


Depois o frio dos teus olhos, Rainha das Neves,
Antes a morte me vinha aos pedaços,
Levas a morte em teus braços acesos,
Abertos como fossem acabar,
Tão frios os teus olhos de contos de fadas,
Teus beijos extáticos fazem gelar,
E a noite é de plástico.
Agora o calor do teu sexo, Rainha das Neves,
Ontem tu nem me falavas teu nome,
Sangras teu nome em golpes doídos,
E eu, do teu gozo, me faço dormir,
Tão longe teu corpo de bruxa malvada,
Tão longo teu grito de puta, criança,
E o sorriso elástico.

Enquanto descias da torre eu estava aqui,
O leite que havia em teu pranto me pôs a sorrir,
Mas mesmo eu me desescrevendo, exististe sozinha.

Costura com o fio dos teus medos, Rainha,
A neve que queima a tua pele branquinha,
E quando desejas ser minha, estou morto de ti.



AUTOFAGIA

Eu vou sendo consumido pela areia,
Refém de vidro,
Na noite intacta,
Meus olhos, retalhos, recortes, entalhes,
Eu cego,
Não vejo os mortos que vivem em mim.
Eu sou meu calabouço de concreto,
Meu medo insurrecto
É um fogo inextinto,
Meus dedos sangrados, fedidos, salgados,
Eu não tenho nome
E como sem fome o que eu perco de mim.



HIATO

Eu tenho os dentes amarelos de cigarro e vinho velho,
E bebo as noites pródigas,
As promessas compradas,
As roupas em farrapos,
Eu perco meus próprios retratos,
E tenho um estilete enferrujado,
Que ganhei num jogo sujo,
E que uso pra fazer vários pedaços do amor que me armou.
Eu conhecia os bares mais antigos,
As bebidas mais baratas,
Os ratos, os cupins e as baratas,
Que desenham no meu corpo um arremedo de suor.
Eu prendo os meus próprios demônios,
E tenho um esteio de sonhos,
Que comprei de um anjo velho,
Andarilho entre putas que eram feias de doer,
Minhas unhas são lânguidas,
Minhas pernas vão bambas,
O meu sexo é lâmina, sangra este corpo já morto e desconhece o prazer.



O CÁRCERE DAS ASAS

A essência do fogo é a ausência desse amor,
A língua esparramada, a voz está em chamas,
A alma entrecortada, a pele arde, inflama,
E o sangue dos teus nomes não estanca a minha dor.
O calor que nos consome prostitui o vento,
A fé é um artifício, Deus é só um alimento,
E o tamanho da minha fome não melhora o Seu sabor.
A guerra que lutamos é a mais distante,
Perdemos mais pedaços, mais irmãos que antes,
E o céu não está mais perto do que começou.
A terra que escolhemos para erguer a casa,
Hoje é terra desolada, é o cárcere das asas,
E é a ausência desse fogo a essência do amor.



BONECOS DE MÁRMORE

Deus me divirta com os Seus brinquedos,
Me atravesse o ventre feito um animal,
Há retorno em cada céu que desconstruo,
Em todo o rio que fluo,
Deus me defenda, como dito Josemar,
Do silêncio da árvore e do gosto de sal,
O meu corpo é de plástico e não sente o frio,
E o anjo que o obstruiu
É inteiro de mármore.
Deus refletido em espelhos, nascido, de fato,
O parto de um Deus não é um parto normal,
Me arrebata em litros de sangue,
E nem há quem Lhe tranque.
Deus se diverte com seus fantoches,
Felizes são os que têm suas cabeças de pau,
Se do fogo nasce o céu que me abstrai,
Sua nuvem é inflamável.
Deus nos detenha, a mim e a José do Mar,
Deus nos ataque e nos faça soletrar
Seu nome, em tom de profanação,
De fé inviolável.



SÁBADO

Pra limpar meus dias sujos o seu sabonete é pouco,
Tem que ser sabão de coco,
Pra tirar toda a gordura acumulada nos meus braços,
Vou usar palha de aço,
Mais curiosos que apressados,
Os exegetas se masturbam,
Pra afastar quem lhe perturba você usa o inseticida,
E eu já passei massa corrida em cada fresta da parede,
De onde pinga a minha sede.
Somos animais famintos, prescindimos deste luxo,
Trocamos filé por bucho,
Nossos pés estão descalços, as mãos cheias de farinha,
E comemos na cozinha,
Financiamos a saudade,
Com os projetos pro futuro.
Os ferimentos maduros cairão das velhas árvores,
E as crianças vão brincar de vida e dor lá no terraço,
Até morrer sem estardalhaço.
Pra lavar toda essa merda não me serve esta água porca,
Lavo com versos de Lorca,
Despejar livros no ralo, detergente e poesia,
Vão desentupir a pia,
Só não dá pra polir a alma,
Ainda resta muita lama,
E a boa e velha vassoura queda inútil atrás da porta,
Nos largamos, carne morta, suor e sono, sobre a cama,
E você diz que me ama.



MIRAGEM


Chove -
pés sobre a ardósia
rubro-gris - o corpo alheio
: amor.
Outro Bourbon, dias pequenos,
eu desenhei na boca (ficção)
3 pedras;
chuva (
exéquias) e Caronte em pleno inverno,
cabelo ocre, unhas
cheias de esque-
cimento,
eu mordo este bombom, recheio
: sangue.
O rosto sobre a ardósia (fricção)
liquidifica o amor
e o nega.



FLUIDO

O verso que me abrange,
me devora,
a boca cheia de silêncio expande,
decompõe a carne séptica;
nós fomos fome,
comemos todas as porções,
babamos e gozamos ante a imagem
da mulher pétrea,
coberta de pó (estóica e só).
Em cada canto desta lavra,
somos palavra,
nutrindo a água
de saliva, urina e sêmen;
a morte básica
é falsa magra,
é de onde Deus tira o sarcasmo e marca a cara,
é pra onde Deus vai cara a cara com Sua cria,
(quem ainda crê nesta agonia?) cuspir nos alvos,
brinquedos árduos,
ptialina.
A língua cobre os cantinhos
desta menina-musa, elástica,
lambe o sol, inchada e nua,
de cada folha faz bisel,
tirando lascas
que o verbo engole
e incompleta (pobre poeta!).



ENTRE OS JARDINS
.......................................................... à Dona Estultícia

Retalho (de pele),
flor de origami
e sangue,
verbo, lâmina,
olhos em risco,
boca cismada, selada
e fome
(dez homens sem nome espreitam no altar).
Detalhe no gelo (morta flor),
champanhe,
saliva,
eixo anárquico,
braços tísicos,
a mão é culpada, é o centro,
e goza
(tem cheiro de sêmen em todo lugar).



QUEDA

"Quanto a mim, com justiça verei a tua face;
ao despertar, eu me saciarei com a tua imagem
." (Sl 17,15)


assombro
sombras erodindo a face trágica
ofélia e julieta jazem
ávidas
e as cotovias sujam as manhãs
(quase como arribaçãs)
teu peso
é como água morta sobre a página
é um escorpião picando
a alma
o despertar da fome (solidão)
eu homem
meu nome foi espelho e ave tácita
hoje é sol ardendo o rosto
inválido
onde a cruz de uma saudade cai
(signo torto contra o
Pai)






ENTREVISTA


1. Trajetória de antes


Como construiu o escritor que é hoje?

O escritor que é hoje ainda está em construção, é um projeto. Mas vem sendo construído diuturnamente, de forma o mais das vezes intuitiva. Espero construir um dia de modo mais racional. A dor, a angústia e o encontro das formas expressas e impressas da emoção durante a minha vida me empurraram para as letras, pelo fascínio que a literatura sempre me causou e pela minha total falta de habilidade com outras formas de arte.


Ser poeta é mais talento ou esforço? Descobriu-se ou inventou-se poeta?

Não sei se há uma fórmula para ser poeta. Creio que doses bem distribuídas de talento e esforço fazem bons poetas, e essas doses não são predeterminadas. Há que se ter os dois, por certo. Descobri-me poeta. Escrever foi um ímpeto inicialmente. Literalmente, peguei-me escrevendo versos aos 14 anos.


Quais livros fizeram parte de sua formação?

No começo, seletas de Augusto dos Anjos, Cruz e Souza e Vinicius de Moraes. Depois encontrei García Lorca, essencial para mim, junto com Jorge Luís Borges, John Keats, Murilo Mendes e, em prosa, Albert Camus, Cervantes, o próprio Borges, entre outros. Tudo o que eu leio faz parte do escritor sempre em formação, incluindo textos contemporâneos, como Virna Teixeira, Rodrigo Garcia Lopes, J. T. Parreira, entre outros.


Teve algum incentivador? Quem?

Dois grandes amigos e companheiros de versos foram grandes incentivadores de participantes ativos na minha formação; André Vesne e Eli Celso. E sou muito grato a eles. Atualmente, cada leitor do meu blog é um incentivador, e faz com que eu me estimule a continuar escrevendo.


Há uma obra com a qual tenha descoberto a poesia de um modo mais contundente?

O Romanceiro Gitano, de F. García Lorca



2. Psicologia da composição


Com que se inspira para escrever? O que é matéria para a poesia?

Não há um fato ou sentimento isolado que me inspire. E tudo é matéria para a poesia. Nem tudo para a minha poesia, é certo.


Quando escreve, qual o efeito estético visado?

Eu escrevo com a expectativa que a minha letra satisfaça o meu afã. Se satisfizer o leitor de alguma forma, eu estou no lucro.


O resultado final do poema coincide sempre com sua idéia inicial?

Às vezes. Mas coincidir ou não, não está relacionado com a qualidade do texto, então isso não me afeta muito.


Há idéias ou imagens que lhe perseguem no fio dos anos e das obras?

Sim. Quem me lê identifica isso com facilidade.


Para escrever, precisa conhecer muitas cidades e ler todos os livros?

Não. Basta uma caneta bic e um papel.



3. Prosa do próprio mundo


Como define a sua poesia? Como caracterizaria suas ambições estéticas principais?

Nunca me detive nem em uma questão nem na outra. Mas não tenho ambições estéticas dignas de nota.


Entre seus próprios poemas, quais os seus preferidos? Eles coincidem com os preferidos dos leitores ou mais divulgados em geral?

Dependendo da época, a preferência pessoal varia muito. Acredito que ocorra parecido com os leitores.


Quanto tempo dedica à leitura de crítica literária? Concorda com a idéia de que ela, nos jornais e revistas, está mais digestivo-introdutória do que analítico-crítica?

Não leio crítica literária.


Qual a relação entre seu trabalho e sua escrita?

Nenhuma.


Em que geração literária você se concebe? Ela tem um projeto definido?

Não vejo uma geração definida esteticamente para responder estas perguntas


Como se sente quando comparado com outros escritores?

Normalmente fujo de comparações, mas as que me são transmitidas têm sido sempre lisonjeiras para mim.


Como percebe suas principais qualidades como escritor? Há algum defeito de que não abra mão?

Gosto do ritmo da minha poesia e de um certo vigor. Não abro mão de nenhum dos meus defeitos.


Recebeu ou recebe conselhos importantes de escritores na sua trajetória? Como foi e é o diálogo com outros escritores?

Mantenho contato com poetas contemporâneos e participo de saraus em Natal/RN. Todo e qualquer intercâmbio é sempre muito proveitoso para mim. Estou em constante aprendizado, ou tento estar.



4. A poesia e suas questões em questão


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

Poesia se faz com caneta, papel e inspiração. Mas o estudo refina a poesia e é um elemento relevante na formação do escritor. A erudição é opção individual.


Qual a relação entre poesia e religião? Sua obra manifesta, de alguma forma, essa relação?

Acho que a poesia está intimamente relacionada com o pensamento como um todo, o que inclui a religião.



A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?

A nossa cultura não tem âmbito para abraçar a literatura, e a poesia sofre especialmente com essa limitação.


A poesia atual é multiplicidade pura. O que deve haver num poema para lhe agradar?

Minha ligação com o poema é intuitiva.



5. Museu de agora e depois


Alguma epígrafe que o acompanha sempre? Algum epitáfio lhe contém?

"Quanta incerta esperança, quanto engano" Camões. Serve para ambas as funções.


O que pensa sobre a algaravária?

Uma inteligente ferramenta de divulgação de nomes relevantes da poesia contemporânea. Particularmente sou leitor assíduo da grande maioria dos colaboradores, então não há como não considerar o blog uma referência para mim.

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