ALGARAVÁRIA
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sábado, julho 08, 2006
Algaravariações (10): Claudio Daniel




Claudio Daniel, poeta, tradutor e ensaísta, publicou, entre outros títulos, os livros Yumê (poesia, 1999), A Sombra do Leopardo (poesia, 2001), Na Virada do Século, Poesia de Invenção no Brasil (2002, com Frederico Barbosa), Romanceiro de Dona Virgo (contos, 2004), Jardim de Camaleões, A Poesia Neobarroca na América Latina (2004) e Figuras Metálicas (poesia, 2005). É co-editor de Zunái, Revista de Poesia e Debates (www.revistazunai.com.br) e mantém o blog Cantar a Pele de Lontra (http://cantarapeledelontra.zip.net).

Logo abaixo, duas vastas belezas: 11 poemas e a entrevista.







ANTICABEÇA

apartado de mim; ferocidade;
esse olhar atravessando folhas;
cegasse o vento reptante:
replicantes jias, alinhavando deserções.
entre breus, seara difratada
onde retráteis
garras do ínfero.
ao modo de borrão: ambíguo
desgarre, em acúmulo
áspero de grafias.
escavasse desde o centro
em desmedida,
e anulasse as cores da paisagem.

***

ambivalência do inseto
que se desenha íbis,
amêijoa, escaravelho,
folhas ou fíbulas, fúrias ou órbitas
insustentáveis
de outra orla, outro círculo
plasmático. tudo está
no dorso da pupila.



PARTITURA

Perplexidade, raios de um sol
que redesenha seu centro;
essa matéria tão delicada,
ferozes epitélios da flor;
deslizando das pupilas,
revoluta, para outro mar,
após tingir o flanco da noite.
Fosse apenas o perambular
em outra relva, seria tema
de chanson; dissociada de mim,
reclinada em lua minguante,
seria musa de retrato fauvista,
excedendo o rubro tigrino.
De todo modo, um dia vou
felinizá-la em partitura.



DEPURAR

Depurar a paisagem manuscrita,
seu árido vocabulário de fraturas.
Onde cada figura musical delineia
um animal desconhecido: animal
porque obscuro, entre rasurado
e ambíguo. Ler na pele do carneiro
a oblíqua sentença do desenlace
(seqüência de corvos e equívocos)
até borrar os planos da agrimensura
em cor amorfa, membrana devoluta.



RAPTO

Para iniciar uma lua pelos filamentos,
em articulações de répteis. Obliterar
os arredores ao esquadrinhar a pele.
Descrever joelhos como náutilos,
seios como escabelos, esse é o meu
hibridismo, minha fome vertebrada.
Acontece que a expansão do branco
bifurca-se, espraia-se esqualidamente
do lábio ao umbigo, em simulado
rapto. Ame o mapa de meu rosto,
sua caligrafia de incinerações.



DESVIO

Farto já de tanta ambigüidade, flor excessiva,
alfabeto cego que se desdobra em vogais.
Peixe branco, gris ou amarelo desgarrado
de sua guelra, no desvio das águas,
entre suposições, eufórico, justaposto
à inevitável precariedade. À meia-noite,
desmanchar esqueletos de anões,
é sempre a mesma música proliferante,
pautada nas ranhuras da cervical.
Até dilatar os debruns coaxiais da caixa
craniana; sublime é a arte do esquecimento.



EPIDERME EXILADA DE SI

Nenhum sol, minério ou latência do casulo:
só o silêncio duplicado em orquídea,
occipital do neblí que desinventa a metáfora
de uma estrela.



DECLIVE

aludindo incisões, talvez sombras,
tão híbridas que vociferam;
lupinas alinhadas abolindo
delicadeza; guturais,
obcecando
lúpulo.



ESCRITO EM OSSO (I)


(...)

Fósseis de argumentos
Esqueletos de grafias
Autofágica página
Inescrita, devoluta.



*
lepra da língua simulando sêmele.
mão-do-caos
olho-de-treva
um corvo azul irrompe
no poema.


*
Extinção de estrela ou
Mudez do mar.



*
falange deslabiada contradição
entre memória e mundo.


*
Fossem falcões de simetria,
Mas apenas figuras
Expiradas.



*
palavras desventradas
da cadela, sons fecais
em hinos de desmemória.


*
Pois toda história humana
É um volume fechado
De cíclica desleitura.



*
um corvo azul irrompe
no poema.


*
Essa a letra fosca a peripécia
O motejo expandido

Em espelhismo de lacraias.

(...)



ESCRITO EM OSSO (II)


(...)

sou espectro de mim.

*
no extravio das hipóteses,
expansão de territórios
fermentando fêmures

(ruínas de um vocabulário;
escura caligrafia
rasurando crânios).

desfoliante na curva do vento,
onde o leão do labirinto
recifra-se em ecos.

(...)

sou alimária de mim.

*

a mente como um focinho
escavando raízes
no aterro da memória

(palavras são despojos,
o sentido fraturado de tudo:
cegueira inventando cores).

precárias percepções
do caos ensimesmado:
nenhuma música aqui.

(...)

sou descosturado de mim.

*

flagelar os chifres do céu,
catarata-capricórnio
esfumada em carbono

(destrinchar o mapa celeste
com cálculos e equações
até o nada absoluto.)

num ponto qualquer
do planeta, órgãos retirados
de corpos sem autópsia.



ESCRITO EM FLOR (I)

Quem és tu, mulher inumerável?
- Kurt Schwitters


Paisagem musical onde o amarelo
....dá sentido ao vermelho:

esta é uma canção
....de amor.

Lábio (pétala) submerge
....em topázio-tigre,
....até sangrar as ilhas
....do desejo.

Esfinge do espelho
....ou cegueira:
....(real)
....imaginária.

Uma flor (a lebre), partículas
....do mundo
....nas retinas.

Cada abelha sonha
....uma rosa
....imantada.

Violetas indagam onde trópicos noturnos,
....ritmos
....bruxos,
....areias núbeis
....de contato.

No avesso das pálpebras:
....onde ver o porto da viagem,
....do mistério ao desatino.

(E para sempre e mais um dia.)

Para Reginabhen




BETTY BLUE (CINCO CENAS)


I

Piano, tarântula;
punho ferido
e o globo ocular
pelo desmanche
da memória.

II

(Ofélia descentrada,
banha-se em prata
de céu abortado.)

III

Paraíso clorofórmio:
inscrever o exílio
dos lábios na pele,
metalizada e muda.

IV

(Flashback)

Nereida meretriz
na gravata epitáfio;
tufos de barba
da morta madre,
como um presságio.

V

(Finale):

Ele travestiu-se
para o ofício de Perséfone,
após domar a dor.
Repousa agora
o olho único da inquieta.

...........................................2005






ENTREVISTA



1. TRAJETÓRIA DE ANTES


Como construiu o escritor que é hoje? Descobriu-se ou inventou-se poeta?

Quando era jovem, eu queria ser lutador de artes marciais, como o Bruce Lee.

Por algum motivo misterioso, caiu em minhas mãos As Flores do Mal, de Baudelaire; na época, eu devia ter uns 13 anos, e essa leitura causou-me forte impressão.

Eu nunca lera nada como aquilo, antes; era um tipo de discurso muito diferente do que eu lia em romances ou jornais. Descobri, nesse primeiro contato com a poesia, que as palavras tinham música, imagens, evocavam sensações e experiências muito além do cotidiano.

Em seguida, li O Corvo e A Filosofia da Composição, de Edgar Allan Poe, e já estava contaminado pelo vírus da poesia: doença incurável, ao que parece (Rimbaud buscou tratamento numa clínica da Abissínia, mas não deu muito certo).

Creio que datam dessa época meus primeiros escritos, que tive o bom senso de destruir.

Aos 16 anos comecei a ler os modernistas, em especial Oswald de Andrade, Raul Bopp, Murilo Mendes e João Cabral de Melo Neto, que me ensinaram a concisão vocabular, a precisão do sentido, a construção do poema como uma estrutura viva, com sua própria lógica, diferente daquela que usamos em outros tipos de pensamento e escrita.

Memórias Sentimentais de João Miramar, por exemplo, reli muitas vezes, fascinado com a capacidade de Oswald de inventar palavras e desarticular a sintaxe e o discurso, chegando a um organismo que não é simplesmente prosa ou poesia, mas invenção de linguagem até o mais alto grau. "É isso o que me interessa", pensei na primeira vez que li essa maravilha.

O impacto provocado pela leitura de João Cabral não foi pequeno: a Psicologia da Composição, Fábula de Anfion e Antiode até hoje ressoam em meus ouvidos, como se eu tivesse escrito esses poemas (tola pretensão). É um poeta completo, que precisa ser estudado, in my opinion, por quem deseja conhecer poesia de verdade.

O terceiro passo importante foi a leitura dos concretistas: Xadrez de Estrelas, de Haroldo de Campos, Viva a Vaia e Caixa Preta, de Augusto de Campos, e Poesia Pois é Poesia, do Décio Pignatari. A poesia concreta foi a conseqüência necessária do Modernismo de 1922, em sua vertente mais radical (Oswald de Andrade-Raul Bopp), e abriu novos caminhos para a criação, com o uso de recursos visuais de diagramação e tipologia, aplicação de cores, busca de novos suportes (o holograma, o vídeo, o compact disc etc.), diferentes seqüências de leitura, além das formas lineares do discurso, entre outras contribuições.

Foi a primeira vanguarda nascida no Brasil, com repercussão internacional, e estimulou as novas gerações a estudarem poesia seriamente. Isso não significa que precisamos continuar nesse caminho, mas a poesia concreta precisa ser levada em conta, a meu ver, como um ponto de partida (e não de chegada) para novas aventuras poéticas.

Well, com essas e outras leituras (Mallarmé, Blake, Celan, Rimbaud e um longo etc.), resolvi: quero ser poeta (e adeus carreira de lutador de kung fu, o que lamento até hoje).

Foi uma decisão motivada pelo entusiasmo, pelo encantamento, e também pelo exercício intelectual, pois nunca separei, no ato da criação, a inteligência e o sentimento: eles agem juntos, não é possível fracionar o cérebro, que funciona de modo integrado (a Virna, que é neurologista, pode confirmar ou refutar minha observação).

Logo, inventei-me e descobri-me poeta, ao mesmo tempo.

Ufa, a resposta ficou longa, vamos a outra pergunta?



Ser poeta é mais talento ou esforço?

Talento e esforço, acredito, andam de mãos dadas; se faltar um ou outro, você não conseguirá escrever o poema. Vinícius de Moraes, por exemplo, é visto como um "poeta do coração", espontâneo, intuitivo, mas ele dominava a métrica e as formas do verso clássico como poucos; João Cabral, com todo o racionalismo dele, foi quem subverteu a métrica, criando uma nova sintaxe para o verso e um ritmo mais livre (justo ele, que não gostava de música). Com o domínio da técnica, vem o improviso, o insight, a segurança para inventar o que você quiser, ou aquilo que tiver a capacidade de fazer, como acontece no jazz.


Qual foi a sua trajetória literária até o primeiro livro? E qual a trajetória até os livros seguintes?

Publiquei meus primeiros poemas em jornais e revistas literárias como a 34 Letras, Dimensão e Cavalo Azul, no final dos anos 80, quando cursava Filosofia, na USP (não completei o curso, pois mal freqüentava as aulas, ocupado com a militância política, o cinema e os papos de boteco). O primeiro livro, Sutra, saiu em 1992, quando tinha 30 anos de idade. Nessa época, eu morava num velho apartamento no bairro do Bexiga com minha mulher, Regina, e trabalhava à noite como revisor no jornal Diário Popular. Esse foi um livro quase secreto, que circulou apenas entre amigos; fiz o lançamento num bar chamado Spazio Pirandello, que era freqüentado na época por minha turma. Relendo hoje os poemas desse livro, ainda gosto de muitas peças, mas reconheço que foi uma lírica inicial, quase um caderno de estudos, embora muitos dos temas e recursos estilísticos usados aqui tenham sido desenvolvidos nos livros seguintes. Fiquei sete anos em silêncio, tempo necessário para a ampliação do repertório, a conquista de novas técnicas e o amadurecimento da escrita (ao menos, gosto de imaginar isso, ainda que não corresponda, rigorosamente, à realidade).

Em 1999, publiquei Yumê, livro organizado em séries sobre a Água, a Noite, o Amor, o Oriente e outras células temáticas; o prefácio desse pequeno volume foi escrito pelo poeta cubano José Kozer, com quem iniciei correspondência, nesse período (anterior ao uso do e-mail: trocávamos cartas, quase sempre acompanhadas de livros ou poemas). A partir desse livro, minha poesia começou a ter maior circulação e visibilidade, e fui conhecendo autores de minha geração, que hoje são meus amigos, como Ademir Assunção e Rodrigo Garcia Lopes.

Um poema de Yumê de que gosto muito é Marinha Barroca, que começa assim: "o azul-espuma-catarata, azul-quase-branco-nébula, de mar branqueado no azul-lótus-krishna; delfim que sulca em saltos as vagas azul-marinho-almíscar como graciosa dançarina cambojana, pés-apsara; e (miríades!) aves aquáticas em mandálicos dervixes rodopios rumo ao meru, imenso portal laqueado, sob o céu-plumas-lakshmi, que se abre como noiva."

O Oriente e o Barroco estão muito presentes nesse livro; como reação inevitável, no título seguinte, busquei outras construções. A Sombra do Leopardo, que saiu em 2001, com prefácio do uruguaio Eduardo Milán, também é dividido em séries temáticas, porém, com ênfase em outros recursos, como a elipse, o ritmo bárbaro, maior fragmentação de imagens e da sintaxe e o olhar voltado a coisas simples, como cabelos, dentes e unhas (embora também haja peças dedicadas a filósofos e países, numa paródia dos verbetes de enciclopédia).

Como exemplo de composição desse livro eu citaria Poros, que começa com as linhas: "O/ verde,/ sua pele/ ácida. Tocar/ os poros/ do verde, florir/ metálico. Ouvir/ sua voz de asa/ e sombra./ Olhos, faisões/ de cegueira./ Jóias de irada/ divindade." Com esse livro, eu ganhei o prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, oferecido pela revista CULT.

Meu título mais recente é a antologia Figuras Metálicas, com "orelha" de João Alexandre Barbosa, que reúne poemas dos três primeiros títulos publicados mais um quarto, inédito, chamado Pequenas Aniquilações, cujo tema central é a guerra; aqui foram coladas citações em sânscrito, extraídas de textos sagrados hindus e budistas, mescladas à descrição fragmentária dos horrores da barbárie em curso, numa deliberada e contraditória polifonia.

Também há peças satíricas sobre a publicidade, o mercado financeiro e objetos retirados do cotidiano como guarda-chuvas, sabonetes e secadores de cabelos. Claro, a "realidade" aparece aqui não de maneira naturalista, imitativa, mas paródica, pela desmontagem e recriação dos referentes; assim, por exemplo, no poema Piolho: "Barítono de carapaça e gravata quase lilás mergulha os olhos baços no copo de cerveja irlandesa entre cotações do mercado financeiro. (Passa uma sombra magra de seios fumantes.) Verde álcool, cogumelos e vozes graves de semblantes que suicidam a noite estrelada". Acredito que, com este volume, que é um resumo de vinte anos de trabalho, eu tenha finalizado uma fase de minha jornada poética. Ufa! O que mais posso dizer sobre isso?



Qual é a importância da poesia e da filosofia do Oriente em sua obra?

Em meus primeiros livros, Sutra e Yumê, utilizo temas, imagens e símbolos da poesia chinesa e japonesa, e também alguns conceitos da filosofia budista, que estudei nesse período. A partir de A Sombra do Leopardo, procurei afastar-me um pouco dessa temática, em busca de diálogos com a cultura ocidental, ou aquilo que me interessa nesse repertório, como a poesia de Dante ou a filosofia de Montaigne e Schopenhauer. De todo modo, ainda que Eduardo Milán tenha me chamado de "lírico cultural", creio que sou mais um fingidor (à maneira de Fernando Pessoa) ou ficcionista: se eu falo de um jardim japonês, de um templo cambojano, de um shopping na Quinta Avenida ou do terceiro tomo da Metafísica de Aristóteles, tudo isso são imagens para o artefato poético, que não pretende ter uma essência profunda: as referências externas definem apenas os níveis aparentes de leitura. Entendo o poema como um teatro onde você mistura vivências, obsessões pessoais e leituras com outros elementos, em busca de uma sinceridade dramática, digamos assim: cada texto é uma persona, tem voz própria e atua conforme seu duende.


Teve algum incentivador? Quem?

Poderia dizer vários nomes. Para ser conciso, citarei apenas um: Haroldo de Campos, que tive a felicidade de conhecer. Conversamos algumas vezes em sua casa, em Perdizes, junto com a Carmem, e foram encontros memoráveis, regados a vinho do porto e histórias engraçadíssimas. Aprendi muito com ele, que foi ao mesmo tempo um grande poeta, erudito, e pessoa bem-humorada, generosa, que incentivou e apoiou autores jovens. A convite de Haroldo, aliás, publiquei Figuras Metálicas pela coleção Signos, da editora Perspectiva, fato que nunca esquecerei. Fiz uma entrevista com ele, publicada no n. 1 da revista Et Cetera, de Curitiba, que foi a última entrevista concedida pelo poeta. Ele sempre acolheu meus projetos com atenção e carinho, inclusive ficou entusiasmado com a revista eletrônica Zunái, que criei em 2003 com Rodrigo de Souza Leão, prometendo colaborar com traduções de poesia asteca e egípcia (ele encomendou um dicionário britânico para traduzir os hieróglifos, e ainda planejava traduzir oAlcorão, junto com Michel Sleiman!). Em nosso último encontro, pouco antes de ser levado ao hospital, ele me perguntou, à queima-roupa: "Eu já te contei como foi a minha visita ao Ezra Pound?". Respondi: "Não, Haroldo, mas vamos falar sobre isso em outra ocasião, agora preciso ir embora, já é meio tarde...". Infelizmente, alguns dias depois, ele foi levado ao Hospital Alemão Oswaldo Cruz, e não voltamos a nos encontrar para prosseguirmos a conversa; houve um último telefonema, do hospital, e falamos algo sobre Salvador Elizondo, depois ele partiu para a música das esferas.



2. PSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO


Com que se inspira para escrever? O que é matéria para a poesia? Quando escreve, qual o efeito estético visado?

Existe uma anedota bem conhecida, mas que vale a pena recordar: o pintor Paul Degas encontrou-se certa vez com Mallarmé, e disse que tinha muitas idéias para escrever poemas, mas que não conseguia realizá-los. Sem pensar duas vezes, Mallarmé respondeu: "Meu amigo, um poema não se faz com idéias, mas com palavras". Flaubert tinha opinião semelhante, em relação à prosa: o que importava mais para ele não era a história, mas o modo de escrevê-la. Esta é a matéria da criação literária: a linguagem. Você pode planejar os recursos e efeitos que deseja obter num poema, seguindo a receita da Filosofia da Composição, de Edgar Allan Poe (método que já adotei em muitas peças), ou pode seguir a intuição, o acaso, e depois corrigir o texto, sem pressa, o que também traz resultados. Já me aconteceu de escrever linhas com aliterações ou paronomásias que não foram pensadas, mas que surgiram espontaneamente, e que ficaram bem colocadas na composição; também já sonhei com versos e estrofes que coloquei no papel, ao sair da cama. O método pode ser mais intelectual ou espontâneo, o que conta é o resultado. Sobre a "inspiração", é algo bastante vago; às vezes, você pode olhar um quadro ou fotografia e ter a idéia para um poema; pode ler o noticiário sobre alguma tragédia internacional (como a situação no Oriente Médio) e já ter o insight para uma estrofe; outros se inspiram com a leitura de um bom livro, com marijuana, vodka, sexo ou chá de cogumelos, não importa. Qualquer que seja o pretexto, o "estopim", esse é apenas a fagulha inicial; o que realiza o poema não é a inspiração, mas a expiração, o trabalho pesado com as palavras. Em tempo: o que me inspira é o jazz bebop, a ópera ou a leitura de algum poema que me pareça quase perfeito, como os de Paul Celan.


O que pensa sobre a imagem como ponto de partida para um poema? Que tipo de imagem seria essa: uma imagem a priori pensada e que, de certo modo, existe (como obra de arte, por exemplo) ou uma imagem que se forma em si, que não o abandona?

Você pode construir o poema a partir de uma palavra, imagem ou sonoridade que desencasula o restante das linhas, como se fosse um fio de bicho da seda. Pode ser uma cena observada na rua, uma passagem lida num livro, uma seqüência sonhada ou pensada a frio, não importa. O que conta são as relações estruturais e semânticas entre essa imagem (núcleo) e o restante do poema; o modo como uma palavra puxa outra, como se fosse a sucessão de notas numa peça de concerto ou num show de jazz. O poema necessita, a meu ver, de uma unidade musical e de sentido (por mais bizarra ou dissonante que seja essa música, e por mais incompreensível que seja o seu sentido). É como um jogo de quebra-cabeças, onde cada peça precisa estar em seu lugar para construir a unidade do conjunto.


Há idéias que lhe perseguem no fio dos anos e das obras?

Claro! Quando criança, meu sonho era compor uma ópera em cinco atos, com sopranos histéricas e orquestra de metais. Infelizmente, nunca fui bom em música. Já na adolescência, pensei em escrever um drama longo em versos, seguindo o modelo do teatro grego, com o mesmo resultado frustrado. Hoje, ainda tenho a vã esperança de escrever algo que preste para o teatro; nunca serei Wagner ou Eurípedes, mas, com alguma sorte, quem sabe não componho uma peça curta para o Espaço dos Satyros?


Para escrever, precisa conhecer muitas cidades e ler todos os livros?

Lezama Lima (dizem) nunca saiu de Havana, mas leu todos os livros (ao menos, aqueles que importavam para ele). Não existem regras para se formar um poeta, mas a conquista de um repertório, da tradição escolhida (e não imposta) é essencial. Não se trata de receber um cânone, mas de inventar o seu próprio cânone, de acordo com aquilo que você busca. Para a minha poesia, por exemplo, Manuel Bandeira não tem importância alguma, mas Raul Bopp é referência imprescindível, pela estranheza imagética e brutalidade rítmica.


Existe perigo em determinar um tema para o poema que se vai escrever?

Sim, se você quiser escrever um poema satirizando Maomé no Irã ou na Arábia Saudita, por exemplo. Brinco, mas é um fato que em boa parte do mundo, hoje, ainda existe censura e repressão aos poetas: na China, no Egito, no Paquistão, creio que em breve nos EUA, se Bush continuar cerceando a liberdade de imprensa e os direitos individuais (além de torturar presos em Guantánamo). Este é o aspecto político. Agora, do ponto de vista estético, nenhum tema é perigoso ou proibido, se o poeta tiver talento e capacidade suficientes para abordá-lo de modo criativo. Você pode falar de cacos de vidro no chão, como William Carlos Williams; da pulga, como John Donne; do fetiche por pés, como o Glauco Mattoso, e assim por diante. Se o resultado final é satisfatório, como construção artística, é o que importa. Planejar o poema antes de escrevê-lo ou definir o assunto durante o ato criativo são dois caminhos pessoais que levam à mesma Roma, tudo depende de como você se sente mais à vontade para escrever.



3. PROSA DO PRÓPRIO MUNDO


Entre seus próprios poemas, quais os seus preferidos? Eles coincidem com os preferidos dos leitores ou mais divulgados em geral?

Gosto muito dos poemas publicados em Figuras Metálicas, como No Olho da Agulha: "Tatuar silêncios como formigas. / Afogar os relógios / numa pálpebra. / Vestir o grito com a pele / do escaravelho. / Torcer os músculos da face / em perplexidade", bem como das peças que escrevo hoje para meu novo livro, Fera Bifronte. Os poemas mais antigos, hoje releio menos, talvez por cansaço; já me acostumei a eles, logo, não conseguem me espantar mais. Sei que os leitores preferem peças como Zauberbuch ou Liber Aquae, por exemplo, que saíram em meu segundo título publicado, Yumê. Não os censuro por isso. A opinião que um autor tem da própria obra é sempre suspeitíssima, para dizer o mínimo.


Qual é a relação entre seu trabalho e sua escrita?

Nenhuma.


Recebeu ou recebe conselhos importantes de escritores em sua trajetória? Como foi e é o diálogo com outros escritores?

Quando tinha 15, 16 anos, visitei o físico Mário Schenberg, que me recebeu em sua casa repleta de quadros e livros. Conversamos por algumas horas, e ele fez uma observação bem interessante: que na poesia moderna havia um excesso de substantivos, e quase ausência de verbos. Na época, creio que não entendi direito o que ele dizia; hoje, compreendo e busco explorar ao máximo possível a variedade de verbos (ou seja, o pensar, o sentir e o agir), não me limitando à mera observação das coisas (retratadas nos substantivos). Sem dúvida, aprendi muito também com outros poetas com quem dialogo, como José Kozer ou Horácio Costa, e sou grato até por quem me ensinou uma única palavra que eu não conhecia.



4. A POESIA E SUAS QUESTÕES EM QUESTÃO


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

Creio que a importância da cultura para o poeta é a mesma que para o cidadão em geral, ou seja, contribuir para formar a sua visão de mundo, e portanto sua cidadania e liberdade de escolha, a partir do conhecimento histórico e das realizações artísticas e intelectuais que marcaram o nosso planeta. Para o trabalho poético, as referências culturais podem ser interessantes como sugestões de temas, ou para a escolha de palavras, formas ou citações, mas isso não é essencial para se fazer um bom poema, que pode ser tão simples e profundo como "velha lagoa / salta uma rã / rumor de água", do poeta-samurai Matsuo Bashô... Por outro lado, na poesia de minha geração, que começou a publicar nos anos 90, há um excesso de referências cultas, e muitas vezes o resultado é algo artificial e afetado, uma espécie de maquiagem de drag queen. É preciso ter cuidado com as citações, com os diálogos intertextuais, para que eles não se sobreponham ao olhar do próprio poeta sobre as coisas; sobretudo, em minha opinião, deve haver sinceridade no texto poético, mesmo quando o autor está mentindo, já que o ofício do camaleão faz parte da escritura e das obsessões de qualquer escritor ou artista. É preciso sinceridade na verdade, e ainda mais na simulação.


A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?

Não.


A poesia atual é multiplicidade pura. O que deve haver num poema para lhe agradar?

O poema precisa me surpreender, me deixar perplexo com uma imagem, um ritmo, uma estrutura ou construção que eu me sinta incapaz de fazer igual. Por exemplo, as Galáxias, de Haroldo de Campos; a novela poética Mar Paraguayo, de Wilson Bueno; o Quadragésimo, de Horácio Costa; e alguns poemas de Claudia Roquette-Pinto, para ficar em poucos exemplos.


A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

"Tudo está dito / tudo está visto / nada é perdido / nada é perfeito / eis o imprevisto / tudo é infinito." (Augusto de Campos). "Caminhos não há, mas os pés, na grama, os inventarão." (Ferreira Gullar)


Políticas literárias: faz qualquer negócio para sua obra ser editada? é justa a percentagem que fica para o editor e para as livrarias? É justo que o escritor seja a causa produtora de um sistema literário que não o beneficia corretamente? O que se pode fazer?

Publiquei meus dois primeiros livros pagando do próprio bolso; apenas a partir do terceiro, A Sombra do Leopardo, passei a receber convites dos editores, que antes fugiam de meus textos como o diabo da cruz. Não tive pai importante, nem amigos influentes na universidade ou na imprensa: segui meu caminho a partir do nada, sem fazer concessões. Com o tempo e a teimosia, fui conseguindo publicar em revistas literárias, ganhei o prêmio da revista CULT e consegui alguma visibilidade para meu trabalho, embora limitada: meu livro de contos Romanceiro de Dona Virgo e a antologia Figuras Metálicas não mereceram nenhuma resenha na Folha de S. Paulo, por exemplo. Porém, prefiro manter a coerência e a sinceridade no caminho que escolhi do que vender a alma por um prato de lentilhas; nunca mudaria de pensamento ou de estilo para ganhar a simpatia de algum medalhão influente. Quanto ao mercado editorial, são os distribuidores e livreiros que ficam com a parte do leão: para os editores e autores, sobram migalhas. Claro que é injusto, e não vejo muitas opções dentro do atual sistema de produção, divulgação e circulação de livros. Pensando nessas questões, o Movimento Literatura Urgente apresentou propostas ao ministro da Cultura, Gilberto Gil, mas até hoje não houve nenhum resultado, em boa parte por causa da apatia dos próprios escritores, que preferem observar pelo microscópio o próprio umbigo.


Quais são as editoras que têm realizado um trabalho mais generoso e criativo no campo da poesia?

Editar poesia no Brasil não é tarefa fácil, já que a distribuição é quase sempre precária, são poucos os leitores interessados e as tiragens levam anos para esgotar. Apesar disso, temos alguns visionários que ainda investem nessa loucura, com critério na escolha dos títulos e qualidade gráfica reconhecida, como a Perspectiva, Iluminuras, Ateliê, Lumme e a Travessa dos Editores (essa última, responsável também pela edição da revista Et Cetera).


Quais são os vícios e as virtudes da poesia brasileira moderna e contemporânea?

A poesia brasileira é uma das mais interessantes, hoje, e não apenas no continente americano: poucos países podem se dar ao luxo de ter autores como Augusto de Campos, Arnaldo Antunes, Duda Machado, Antônio Risério, Horácio Costa, Claudia Roquette-Pinto, Josely Vianna Baptista... não é pouca coisa! Agora, claro que em toda literatura, em qualquer momento histórico, há autores que trabalham seriamente com a linguagem e outros que, apesar do sucesso junto à mídia e à academia, apresentam resultados frágeis; a fama não se sustenta sozinha, é preciso estar acompanhada de obras consistentes, caso contrário, cairá no esquecimento. Nos anos 30, por exemplo, o "grande poeta" não era Drummond ou Murilo, mas Augusto Frederico Schmidt, que hoje ninguém mais lê. Não se pode bajular ou subornar o Tempo, que, como diz o amigo Fred Barbosa, é o maior dos críticos literários. Respondendo, enfim, a sua pergunta: creio que as principais virtudes da poesia brasileira são a sua capacidade de metamorfose, a vocação para a mescla de linguagens e culturas, a síntese antropofágica, a invenção. Em contraponto a esse estado de espírito mais jovem, aberto à inovação, temos os resquícios do passadismo, na diluição da poesia parnasiana e modernista; quando um autor não tem nada de original a dizer, repete o que já foi dito, de modo menos hábil. Enfim, no final das contas, creio que o nosso "saldo bancário" ainda é positivo, ao menos na poesia: temos fundos suficientes para compensar o desperdício.



5. MUSEU DE AGORA E DEPOIS


Quanto tempo dedica à leitura de crítica literária? Concorda com a idéia de que ela, nos jornais e revistas, está mais digestivo-introdutória do que analítico-crítica?

A crítica literária no Brasil tornou-se um gênero semelhante à ficção científica, ou melhor, ao realismo fantástico. Nesse campo, sempre preferi ler os contos de Edgar Allan Poe ou H. P. Lovecraft, que ao menos têm estilo. Escrevi um ensaio para a edição de junho da revista Continente Multicultural, editada em Recife, onde digo que a crítica literária, especialmente aquela ligada às instituições, é muito conservadora, "desejando, na maioria das vezes, perpetuar o estabelecido, evitando o risco de considerar obras que revelem qualquer grau de informação estética nova (para estes casos, cabe o sarcasmo, o silêncio ou o anátema papal)". Os cadernos literários da grande imprensa têm reproduzido essa ideologia: todos os domingos, são publicados longos e soporíferos artigos sobre Drummond, repetindo o óbvio já muitas vezes repetido, e quase nenhuma linha sobre o que se faz de novo na poesia brasileira. Tenho a impressão de estar numa realidade congelada, como se o relógio da história tivesse parado em 1930. Felizmente, não parou, e na margem do establishment surgem autores que se recusam a mastigar o mastigado e preferem jogar seus dados em outros lances. Sinto que não temos hoje críticos bem-informados sobre a produção recente, o que é uma lástima; o que predomina, na maioria das resenhas, são textos curtos e superficiais baseados na leitura apressada de releases, prefácios ou "orelhas" das obras resenhadas.


Existe uma marginália na poesia brasileira, na era da Internet?

"Ser marginal é escrever à margem", como já disse Paulo Leminski. Hoje em dia, os poetas que discordam das formas de escrita canonizadas pela academia e pela mídia têm um espaço bem mais restrito nos jornais, por exemplo. Porém, isso não importa, em termos históricos: o que é medíocre não se sustenta por muito tempo, e o que tem valor será reconhecido. As revistas literárias impressas, como a Coyote, Sibila, Oroboro, Et Cetera, têm ocupado o vazio dos cadernos literários e veiculado o que há de mais forte na produção atual. Com a Internet, surgiram as revistas eletrônicas, como a Mnemozine, Zunái, Germina e outras, que têm publicado autores novos de qualidade. Quando eu quero saber o que as novas gerações estão produzindo, não leio os cadernos culturais da grande imprensa, mas visito sites e blogues literários como o Papel de Rascunho, Uri Geller Algaravária, Folhas de Girapemba, entre outros. Claro que, pela facilidade em se publicar no meio eletrônico, há um volume incalculável de páginas na Web e a qualidade é oscilante: não basta ser jovem e desconhecido para ser um gênio. Há muita bobagem circulando por aí, e muita coisa boa também, é preciso separar o joio do trigo. De todo modo, nossa trincheira é o ciberespaço.


Quais são os poetas que chamam a sua atenção, entre os mais novos?

Há uma safra de qualidade entre os poetas mais jovens, que estão na faixa entre os 25 e os 35 anos; poderia citar Simone Homem de Mello e Adriana Zapparoli, em São Paulo; André Dick, no Rio Grande do Sul; Eduardo Jorge, Diego Vinhas e Virna Teixeira, no Ceará; Franklin Alves, Leonardo Gandolfi e Lígia Dabul, no Rio de Janeiro; Delmo Montenegro, em Pernambuco, entre muitos outros, que publiquei em minha revista eletrônica, a Zunái, e também no blog que edito, Cantar a Pele de Lontra. São jovens que pesquisam, não se conformam com repertórios apodrecidos, buscam novas referências e modos de escritura. Virão boas surpresas no futuro, aguardem.


Você já ministrou oficinas de poesia?

Sim, ministrei alguns cursos, palestras e oficinas na Casa das Rosas e também em centros culturais do ABC paulista e bibliotecas públicas em São Paulo. Em setembro, inclusive, darei um novo curso, Pensando a Poesia Brasileira, na Biblioteca Alceu Amoroso Lima (voltarei a comentar este assunto em meu blog). Esse curso dará continuidade ao ensaio de mesmo título que publiquei na revista Coyote, enfocando a evolução da poesia brasileira desde os anos 50 até os dias de hoje (esse texto encontra-se disponível no site Cronópios). Fica aqui o convite para os possíveis interessados...


Como você se vê frente ao recebimento de originais? Comenta tudo o que recebe?

Eu mal tenho tempo de respirar, e todo dia chegam incessantes e-mails, cartas e livros de autores perguntando a minha opinião sobre os seus escritos... em geral respondo, sempre com atraso, em linhas breves. Raramente algo me surpreende, mas fiz algumas boas descobertas recentes, como a poesia de Andréa Catrópa e Gabriel Kolyniak, que publiquei na Zunái.


Alguma epígrafe que o acompanha sempre? Algum epitáfio lhe contém?

Gosto da sentença latina Nec spe nec metu ("sem esperança nem temor"), que também estava entre as preferidas de Ezra Pound.


"Escrever sobre escrever é o futuro do escrever"? (Haroldo de Campos)

Acredito que todo texto literário de qualidade tem um fundo metalingüístico: ainda que o tema aparente seja o pôr do sol, um carro em alta velocidade, a fumaça do cigarro ou um pastel de palmito comprado na feira, o verdadeiro conteúdo do poema é a sua linguagem.



Que conselhos daria a quem está começando?

"Não siga os antigos; procure o que eles buscavam." (Bashô)


Você está preparando um novo livro? Qual será o seu eixo principal?

Escrevo um novo livro de poemas, Fera Bifronte, a sair, talvez, em 2008. Qual será o eixo? A lombada quadrada.


O que pensa sobre a Algaravária?

Um espaço necessário para a guerrilha cultural. Quando jovens poetas se reúnem para fazer uma ação coletiva, é preciso ficar atento, podem surgir coisas interessantes daí.

algaravária
(5) no algaravial

 

 

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