ALGARAVÁRIA
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sábado, julho 15, 2006
Algaravariações (11): Tarso de Melo



Foto: Bruno Hissatugu (Revista Bravo)


Nascido em Santo André (SP) em 1976, Tarso de Melo reside em São Bernardo do Campo. É autor dos livros de poesia A lapso (Alpharrabio, 1999), Carbono (Alpharrabio/Nankin, 2002), Planos de fuga (CosacNaify, 2005) e Lugar algum (escrito com apoio da Bolsa Vitae de Artes, 2005, ainda inédito). É autor ainda de História da Literatura em Santo André: um ensaio através do tempo(Fundo de Cultura, 2000). Colaborou na reedição das cartas de Paulo Leminski em Envie meu dicionário (Editora 34, 1999) e na coletânea de ensaios Drummond revisitado (Unimarco, 2002), além de publicar poemas e resenhas em vários periódicos. Editou a revista Monturo e, com Eduardo Sterzi, a revista Cacto. Faz parte atualmente do comitê editorial de K Jornal de Crítica. Coordena o núcleo de leitura de poesia contemporânea Observatório do poema, na livraria Alpharrabio, em Santo André. É advogado, formado pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, e cursa mestrado em Filosofia do Direito na Universidade de São Paulo.

Logo abaixo, seis poemas absolutamente inéditos e a imperdível entrevista.







SEIS POEMAS INÉDITOS DO LIVRO
Lugar algum




Paradeiro

não é aqui que se encontra
aquele
a quem pertence o exílio
: a casa é feita assim,
ao périplo das portas de aço,
igreja, farmácia, castelos
sob nova direção

assim se investiga a rua
constrói-se o roteiro

como ir a lugar algum
não diz aonde leva
aquela em que fica um amigo,
a outra por onde outro vai

desapareço
................ (a poesia não passa
de uma esquina) viela
das letras adentro



Praça Um

a estaca da praça
corta a rua em duas,
fende o passeio,
trespassa a paisagem,
implanta-se (mendigos
para um lado, para outro
carros)

dali se estuda
a letra fria das tardes,
a letra morta dos sonhos,
a gramática das guias,
lições de escada

já é impossível deter
o cansaço (o suor,
a dor) que despenca
das placas que anunciam
o preço da manhã,
da noite, de tudo



Avenida

segunda depois
do hospital, primeiro
farol à esquerda, dali
em diante se sabe
que não há como fugir,
aonde ir

motores, sonhos, pés
que nos lancem vida afora
não podem garantir chegar
muito além do que os olhos
tímidos
colhem no horizonte (que se fecha
como janela, que se lacra
como uma nuvem
a guardar toda esperança
e toda decepção)



Praça Zero

a regra é não achar
o lugar do qual se parte:
o passo se encaminha
onde se deu o parto
(e as mortes) da cidade

o universo, mínimo,
expande suas linhas a partir
do mármore daquele banco
fétido
.........aqui, onde este
e esse são um só
nada aqui, onde o olhar
perde a passante
na avalanche
................... de gravatas,
ambulantes, estátuas
(umas de carne, outras
de farda)

este é o ponto e o sol
já não pode (ainda mais quente,
por mais que tente) desfazer
esse quadro que o dia
todo dia inaugura e a noite
infecta esconde



Rua do Bar

daqui (desde
dentro) o que
vejo turva
o que via antes
de entrar

a fumaça,
a lua, o vulto
escorregadio
da musa,
escapam
pelas fendas
mínimas
entre

daqui (já há
tempos) a vida
que está
e a que vai
embora
consomem
líquidas
as horas que
restam

não há pressa
(daqui para
dentro), mas
nada quer
durar



Sem saída

o verso acaba no muro,
a vida
......... e o que dela fizemos
: figuras desta rua,
fria metáfora de asfalto
e tijolos, de concreto
e retorno

não tem o que faz
delas, como os carros gostam,
vias; retém,
............tem memória,
barra, volve, encerra
(martela, prensa, martela,
o som toma as formas
que forja)

nosso céu alto e cinza
começa e termina aqui
neste não
que o edifício leva
às costas



Calçadão

nada é daqui (o mar
que não se vê, o amor
que não se diz, as coisas
todas que se vendem
e as palavras que retinem
renitentes)

pensar (placas, veias,
o piso que racha sob os pés,
os ossos, os arcos
que pendem sobre
a cabeça) é obra que não se
completa

e não alivia fingir
que as pessoas que vejo
venham, como estão,
de outro poema
e que, dele, tragam para cá
alguma luz, algum
sentido (o rio,
que é outro,
é sempre o mesmo
esgoto
cano adentro)

nem importa
agora
ver que a tarde
pelas alças, bocas,
pelas dobras
escapa das sacolas
e passa







ENTREVISTA


Como construiu o escritor que é hoje? Qual sua trajetória literária até o primeiro livro? E qual a trajetória até os livros seguintes?

TARSO - Meu percurso desde antes do primeiro poema até hoje (e acho que deve seguir assim) é o de um leitor da poesia alheia que se sente confiante, de vez em quando, para fazer alguns poemas. Gosto muito de ler poesia e acredito que boa parte do que escrevi se deve ao consumo em grandes doses do que foi escrito pelos outros.


Ser poeta é mais talento ou esforço? Descobriu-se ou inventou-se poeta?

TARSO - Dá muito trabalho escrever poesia. Mas acho que existe alguma coisa que une os esforços do poeta (a leitura da poesia alheia, a reflexão sobre a poesia, a dedicação a cada verso) e que escapa um pouco do domínio do trabalho. O acaso, talvez, ou o erro. Um descuido pode deixar o poema construído melhor. E não me lembro da primeira vez em que cismei de escrever um poema.


Quais livros fizeram parte de sua formação?

TARSO - O livro que inaugurou meu interesse por literatura não foi um livro propriamente literário, mas uma biografia do Jim Morrison, vocalista do The Doors, por causa das muitas referências que eram feitas aos poetas do simbolismo francês. Acho que a imagem que criei deles (Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé) naquele momento, no embalo do livro, era de que se tratava de super-roqueiros! E depois fui encontrar os livros deles. Aí já é possível perceber que a coisa já começou meio torta. E posso garantir que nunca foi menos imprevisível a minha relação com os livros.


Com que se inspira para escrever? O que é matéria para a poesia? Quando escreve, qual o efeito estético visado?

TARSO - Meus poemas estão cada vez mais realistas. A inspiração para eles tem vindo cada vez mais de um mesmo lugar: a vida que levo, os lugares por onde passo, as coisas que faço sempre, as pessoas com quem mais convivo. E deve haver também alguma imaginação ligando essas coisas. E eu acabo achando que tudo é matéria para a poesia, desde que o poema ganhe vida, leve o leitor para seu (do poema) espaço.


Costuma começar pela primeiro ou pela último verso? Qual deles é o mais difícil? Tem dificuldade para nomear os poemas?

TARSO - Eu escrevo de um modo bastante aleatório. Em cada poema uma dessas coisas vem antes: o primeiro verso, o último, o título, uma idéia a perseguir. Escrevo normalmente fazendo pequenas anotações e depois vou colando os pedaços.


Há idéias ou imagens que lhe perseguem no fio dos anos e das obras?

TARSO - O passeio pelos livros como um passeio pelas cidades. E vice-versa.


Para escrever, precisa conhecer muitas cidades e ler todos os livros?

TARSO - Não há causalidade nessas coisas. Não é o simples conhecimento das cidades e dos livros que vai gerar poesia. E ele não é condição para a poesia. Para dizer o óbvio: um poeta pode se formar num espaço reduzidíssimo de referências.


Há condição possível para o cotidiano na poesia? Como se pode dar?

TARSO - Se bem entendi, a resposta (para as duas) é: há Manuel Bandeira!


Há jeitos de se escrever poesia que tenda para o social sem cair na simples representatividade dos fatos? Isso envolveria algum tipo de reinvenção?

TARSO - Assumir uma postura política com os poemas (e acho que ela é inevitável) é tão importante quanto todas as outras coisas que o poeta assume ao escrever (opções estéticas, culturais etc.). Mas, em todas elas, nada pode ser simplificado. A poesia, a não ser com si própria, é uma mediação - e é aí que ela pode acertar ou errar. Quero dizer: um "tema elevado" não "eleva" necessariamente o poema, da mesma forma que um "tema rebaixado" não "rebaixa" necessariamente o poema. A gente pode acreditar nisso ou naquilo quanto ao que a poesia consegue fazer, mas sempre acaba aparecendo um poema que mostra que estávamos errados. Sua imprevisibilidade é algo previsível!


Como define a sua poesia? Como caracterizaria suas ambições estéticas principais?

TARSO - Uma poesia que gosta de trabalhar com a dúvida, com o engano, como eu poderia definir o que escrevo, não encontra suas "ambições estéticas principais".


Entre seus próprios poemas, quais os seus preferidos? Eles coincidem com os preferidos dos leitores ou mais divulgados em geral?

TARSO - Gosto muito de uma série de poemas chamada "Deserto" (que está no livro Carbono). E, de certo modo, é uma das coisas que as pessoas mais parecem ter gostado.


Em que geração literária você se concebe? Ela tem um projeto definido?

TARSO - Prefiro pensar que as gerações (se fizermos os recortes temporais de costume) estão sempre em convivência (quem "é" dos anos 70 continua escrevendo nos 80, quando surgem os dos anos 80 e todos eles escreverão nos anos 90...), de modo que a idéia de geração fica bastante pulverizada. O que acaba unindo os poetas é uma afinidade mais profunda, mais livre em relação ao tempo e ao espaço, sem o determinismo que a idéia de geração literária costuma supor.


Há algum defeito de que não abra mão?

TARSO - Achar que os erros fazem parte do (acerto do) poema.


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

TARSO - Como já falei sobre o conhecimento de cidades e livros, vale o que disse acima: não é um "mal em si" nem um "bem em si". Depende do que cada um vai fazer com o que conhece. Fora isso, não concordo que seja algo de "hoje" - a imensa maioria dos poetas sempre teve muito trânsito entre essas linguagens próximas da poesia.


A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?

TARSO - De certo modo, tem. Mas é uma coisa engraçada: as pessoas felicitam alguém por ser poeta, mas isso não faz com que elas queiram ler o que ele escreve...

Qual a função social da poesia?

TARSO - É difícil falar de "função social da poesia" se levarmos em consideração a sociedade como um todo. No Brasil, por exemplo, em que a sociedade é uma colcha de retalhos, e a maior parte da colcha é composta de pessoas que não têm ou têm apenas um acesso formal à educação, não dá para imaginar a poesia fazendo grandes coisas.


A poesia atual é multiplicidade pura. O que deve haver num poema para lhe agradar?

TARSO - Não tenho qualquer prevenção contra formas e formatos que os poemas assumam. Gosto de um poema quando ele força o pensamento e a sensibilidade ao mesmo tempo, quando ele incomoda, quando ele mostra que estávamos vendo errado.


A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

TARSO - Certamente não se esgotou, seja como gênero literário, seja como tudo o mais que a poesia consegue ser. Quanto a um futuro esgotamento, eu prefiro apontar para o passado: conhecendo as transformações da poesia na história (e na geografia!), é muito difícil falar qualquer coisa sobre seu futuro, que é naturalmente (de novo) imprevisível.


Alguma epígrafe que o acompanha sempre? Algum epitáfio lhe contém?

TARSO - "O absoluto é o primeiro motor de todas as relatividades", Murilo Mendes.


O que pensa sobre a Algaravária?

TARSO - Eu acho muito bacana o formato do blog para uma experiência coletiva como a que a Algaravária apresenta. Até mais bacana por ser coletiva, porque o blog individual normalmente é repetitivo, cansativo, "big brother". O fato de ser feito a várias mãos, além de arejar mais o blog, certamente possibilita um diálogo permanente entre os participantes e eventuais colaboradores. Funciona meio como um laboratório, o poema nasce praticamente "no ar" e já dá a cara a tapa. Se todos ali estão começando, tenho certeza de que a passagem pelo Algaravária vai ser determinante para os rumos que cada um vai tomar. Mais que isso: a exposição cotidiana dos poemas e das idéias (e o debate que a ela se segue) vai ajudar a saltar várias das etapas de perplexidade que a gente vive quando inventa que vai escrever poesia. Mas dá muito trabalho... Que a Algaravária prossiga!

algaravária
(7) no algaravial

 

 

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