ALGARAVÁRIA
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quinta-feira, agosto 31, 2006
(algumas noites)

Há barcos que bocejam como gigantes,
violinos em guaritas de vigilância,
há chuva por toda parte,
menos no meu guarda-chuva.

Priscila de Freitas
(1) no algaravial

 


esvaziando gavetas número vinte e dois

[pra ayrsha,
menina das palavras crescentes]


curativo
fecha
a ferida

não
cura
a dor

cicatriza

douglas D.
(1) no algaravial

 

quarta-feira, agosto 30, 2006
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Aforismos

Caímos para aprender a levantar.

Faço-me coroado, grato, vitorioso...Cada lágrima que dos olhos escorrem, cada simplório sorriso, cada adoração que ao viver consinto são espetáculos praticados incansavelmente com a ambivalência dos meus acertos.

A maestria do mundo não está no método das combinações.

Minha determinação é o estado do meu caráter. Quanto mais indomável o caráter, mais a certeza de que um sistema, um método são revolucionados à medida de nosso querer.

Perfeito é o mundo que não se enxerga longe da adversidade.

Digno é o homem que sabendo ser precioso ainda busca a lapidação do seu valor.

Gênio é aquele que teima em continuar tentando.

Nunca, em poucos anos de existência, deixei de acreditar na minha capacidade. Minha capacidade é o resultado da dúvida que tenho em atingir o objeto almejado.

Feliz é o malandro que, sem ter peso na consciência de trair a amante, diz: "eu te amo" à esposa.

Nunca abandonei o adultério. Todas as vezes que traí acharam que não traí. O adultério para mim não passa de uma questão de religiosidade.

Amar é padecer sob bico do seio da amante.

O maior defeito de Jesus Cristo foi ter morrido virgem. Caso contrário, depois da primeira, teria visto que fidelidade não é consciência de espírito, mas a beatificação do eterno aborrecimento.

Todo brasileiro, antes de pagar uma prestação, conta carneirinhos, ao invés de contar com o ovo no cu da galinha.

Diego Ramires
(0) no algaravial

 

terça-feira, agosto 29, 2006
Imp.

Thiago Ponce de Moraes
(0) no algaravial

 

sábado, agosto 26, 2006
Algaravariações (13): Leonardo Fróes

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Leonardo Fróes é poeta, tradutor e ensaísta. Tem publicados pela Editora Rocco os seguintes livros:

Chinês com sono (2005)
Contos orientais (2003)
O triunfo da vida, de Shelley (tradução e ensaio; 2001)
Trilogia da paixão, de Goethe (tradução e ensaio; 1999)
Vertigens, "Obra reunida, 1968-1998" (1998)
Argumentos invisíveis 1995)
Um outro. Varella (1990)

Traduziu dezenas de livros, entre os quais Contos completos, de Virginia Woolf; Esquetes de Nova Orleans, de William Faulkner; Middlemarch, de George Eliot; Panfletos Satíricos, de Jonathan Swift; À sombra do vulcão, de Malcolm Lowry; Os anos loucos, de William Wiser; Em busca de Marcel Proust, de André Maurois.

Vive em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, desde 1971. É montanhista e naturalista amador, tendo também traduzido livros de especialistas em ciências da natureza, como Tukaní, do ornitólogo Helmut Sick, e Naturalista, do mirmecólogo Edward O. Wilson.

Freqüentemente faz palestras em universidades e centros de cultura. Em 2006, já falou em Florianópolis, na Universidade Federal de Santa Catarina, e no Rio de Janeiro, na Casa da Leitura da Biblioteca Nacional. No próximo dia 09 de outubro, segunda, às 17:30, falará sobre tradução de poesia na Academia Brasileira de Letras.


Abaixo, um poema e três traduções inéditos, e uma pertinente e valorosa entrevista cedidos fraternalmente à Algaravária.



CONTEMPLAÇÃO DOS SEIOS DAS BETERRABAS

manhã de chuva banheira
na horta sabiás
cantando
em volta
de uma enorme figueira
cujas raízes abraçam
uma pedra enorme
que parece
um ovo
de musgo cristalizado
depositado pela própria
árvore galinácea
fenomenal
parada entre os canteiros
de alface
e depois uma tira
de terra vermelha
na qual despontam afundados
os seios quase roxos
das beterrabas

___


3 poemas de D.H. Lawrence (1885-1930)
Tradução: Leonardo Fróes


UMA REVOLUÇÃO SADIA

Se você fizer uma revolução, faça curtindo,
não me venha com uma cara zangada
de seriedade mortífera,
faça uma revolução engraçada.

Não a faça por odiar as pessoas
e, sim, só para abrir os seus olhos.

Não faça uma revolução por dinheiro,
faça-a por prazer e que o dinheiro se dane.

Que a revolução não seja pela igualdade,
mesmo porque iguais nós já ficamos demais:
gozado agora seria ter o caldo entornado
e ver que rumo as coisas tomam rolando.

Não faça uma revolução pela classe
dos trabalhadores, mas sim para que cada um de nós
possa ser uma aristocracia em si mesmo,
pulando com euforia, como os burros que escapam.

Sobretudo não faça uma revolução em defesa
do serviço do qual nós já tivemos bastante.
Vamos abolir o serviço, a ocupação compulsória!
O trabalho pode ser divertido, curtido pelos homens, e assim não ser
mais serviço.
Vamos então fazer assim! Vamos fazer uma revolução por prazer!

ELEMENTAR

Por que é que as pessoas não param de ser amáveis
ou de pensar que são amáveis, ou de querer ser amáveis,
e passam a ser um pouco mais elementares?

Como o homem é feito de elementos,
de fogo, chuva, ar e barro,
e como nada disso é amável
mas elementar,
o homem não pende inteiramente para o lado dos anjos.

Quero que os homens recuperem seu perdido equilíbrio
entre os elementos
e sejam mais fogosos ao menos, tão incapazes de mentir
como o próprio fogo.

Quero que eles sejam fiéis à variação natural, que nem a água,
que passa da nascente ao vapor e chega ao gelo
sem perder a cabeça.

Eu estou cheio das pessoas amáveis,
que são, de alguma forma, uma mentira.

PAZ E GUERRA

Eles sempre estão em guerra quando falam de seu amor pela paz.
O amor berrante da paz me faz tremer mais que um grito
de batalha qualquer.
Por que ter de amar a paz, se a guerra é tão obviamente um horror?

Com tanta propaganda de paz a guerra até parece iminente.
No fundo isso é uma forma de guerra, de auto-afirmação, de querer ser
sensato pelos outros.
Que cada qual seja sensato por si. Além do mais
só em raras ocasiões, como casar ou morrer, é que alguém pode
realmente ser sensato.
É de mau gosto ser o tempo sensato, como estar presente
a um funeral que não termina.
Para o uso diário, dêem-me pessoas excêntricas,
sem muito objetivo na vida,
e aí então nós não teremos mais guerra, não será mais preciso
falar de paz.

_____


1. Trajetória de antes

Como construiu o escritor que é hoje? Qual sua trajetória literária até o primeiro livro? E qual a trajetória até os livros seguintes?

Não construí, fui sendo construído pelas circunstâncias da vida. Tornei-me escritor por ter ido excluindo pouco a pouco as coisas que eu não queria ser. Foi assim, digamos, o que sobrou para mim. Até o primeiro livro, a trajetória foi ir dando cabeçadas, tentando aprender como inventar um caminho. Depois, ao descobrir que o caminho se faz quando se anda por ele, fui me tornando cada vez mais ousado.

Ser poeta é mais talento ou esforço? Descobriu?se ou inventou?se poeta?

Acho que as duas coisas. Sem talento, o esforço é vão. Sem esforço, o talento normalmente se perde, se gasta, se atrofia. O poeta se descobre, ao que parece, e depois se inventa e reinventa sem cessar.

Quais livros fizeram parte de sua formação?

Tantos, mas tantos, que é impossível registrá-los aqui. Mas devo mencionar os dos mestres modernistas, Bandeira, Drummond, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Mário de Andrade e outros, que tiveram uma enorme importância na minha formação na adolescência, quando aquilo que somos, ao entrar na idade adulta, mais se agrega.

Teve algum incentivador? Quem?

Não, não tive. Mas um cartão de Drummond, que ainda conservo, quando lhe enviei meu segundo livro, "A vida em comum", e uma conversa com João Cabral, depois de ele ter lido e aprovado meu "Sibilitz", foram enormes incentivos.



2. Psicologia da composição

Com que se inspira para escrever? O que é matéria para a poesia? Quando escreve, qual o efeito estético visado?

Inspiro-me em tudo que me comove, ou me interessa, ou me faz pensar. Tudo, portanto, pode ser matéria para a poesia, a começar pelos fatos mais banais, mais simples, mais destituídos de solenidade do cotidiano. Não viso nenhum efeito, viso apenas ser sincero e intenso, como se eu realmente estivesse vivendo tudo aquilo que escrevo.

Costuma começar pelo primeiro ou pelo último verso? Qual deles é o mais difícil?
Tem dificuldade para nomear os poemas?


Começo pela primeira palavra e termino pela última. Nem sempre é verso, muito vezes escrevo em prosa, ou seja, em blocos de enunciados. E não tenho nenhuma dificuldade para nomear os poemas, os títulos em geral se acoplam aos textos, logo que os termino, com total naturalidade.

Há idéias ou imagens que lhe perseguem no fio dos anos e das obras?

Não.

Para escrever, precisa conhecer muitas cidades e ler todos os livros?

Acho que não. Emily Dickinson, para muitos a maior poeta americana de todos os tempos, nunca saiu de sua cidadezinha e, ao que parece, nunca leu tanto assim. Mas não há regra quanto a isso. Eu, por acaso, morei em muitas grandes cidades, antes de me recolher a Petrópolis, e sempre fui e sou, desde criança, um leitor voraz. Leio até bula de remédio.

Qual é a sua relação com a natureza? No que isso influencia a sua poética?

Não consigo pensar em mim e a natureza como coisas distintas. Sinto-me, isto sim, parte integrante dela, igual aos bichos, parte das árvores, parte da terra, do ar, da água e do fogo. Vivo entre bichos e plantas desde 1971, e assim vivi parte da minha infância, no interior. Bem mais de metade dos meus anos vividos. Minha poética, mais do que ser influenciada pela natureza, apenas tenta expressar esta relação visceral, orgânica.

Uma possível exegese teria algo a ver com o andamento da sua poesia?

Não sei. Quem sabe?


3. Prosa do próprio mundo


Como define a sua poesia? Como caracterizaria suas ambições estéticas principais?

Como poesia, apenas. E uma poesia que não se escreve apenas em versos, mas que derivou para ser escrita numa grande diversidade de estilos. Coisa que naturalmente acontece quando se escreve, como tenho feito, ao longo de tanto tempo. Digamos que eu e minha poesia fomos sempre mudando juntos, ao sabor dos acontecimentos. Ambições estéticas, propriamente, não tenho. Quero tão-só ser capaz de comover alguém com o que digo, ou melhor, com o que se diz por meu intermédio, mas pertence à espécie, e não a mim.

Entre seus próprios poemas, quais os seus preferidos? Eles coincidem com os preferidos dos leitores ou mais divulgados em geral?

Prefiro todos os que já publiquei. Os que eu não preferia, joguei fora. Mas há muitos que se tornaram mais conhecidos, mais divulgados. Fico feliz com isso, e mais feliz eu ficaria se todos fossem lidos no mesmo pé de igualdade, pois cada um corresponde a uma dada experiência que não mais se repete.

Qual a relação entre seu trabalho e sua escrita?

São a mesma coisa.

Em que geração literária você se concebe? Ela tem um projeto definido?

Em nenhuma.

Como percebe suas principais qualidades como escritor? Há algum defeito de que não abra mão?

Não as percebo. E também não me apego, por muito tempo, aos mes defeitos.

Recebeu ou recebe conselhos importantes de escritores na sua trajetória? Como foi e é o diálogo com outros escritores?

Não, nunca recebi conselhos. Como eu disse no início, aprendi (se é que aprendi: pois acho que ainda estou aprendendo) às cabeçadas. Também não tenho diálogo com outros escritores, não porque não o quisesse, mas pelo fato de sempre ter vivido recluso, distante dos encontros e grupos. Apesar disso, tenho alguns poucos amigos escritores cuja afeição prezo muito.

Quanto tempo dedica à leitura de crítica literária? Concorda com a idéia de que ela, nos jornais e revistas, está mais digestivo-introdutória do que analítico-crítica?

Quase não leio crítica em jornais, é muito, muito raro mesmo, embora leia muitos ensaios críticos, em livros, sobre literatura em geral e, em especial, sobre escritores de outras épocas, sobretudo aqueles que traduzo. Quanto à segunda parte da pergunta, concordo.

A crítica literária pode influenciar a produção poética de uma geração?

É bem possível que sim. A crítica de Eliot e Pound, por exemplo, teve muita influência sobre a poesia em língua inglesa por várias décadas e, portanto, por mais de uma geração. No Brasil, o mesmo deve ter acontecido com a crítica de grupos estruturados em torno de um ideário estético, como modernistas, concretistas e os politicamente engajados. Mas não creio que isso seja muito saudável. É melhor que toda crítica seja posterior às obras livremente criadas, sem prévios posicionamentos a favor disso ou daquilo ou contra o que quer que seja.


4. A poesia e suas questões em questão


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

Bem, eu mesmo faço tudo isso, traduzo de várias línguas, escrevo ensaios etc. Mas tudo é parte do meu trabalho, de minha forma de ganhar a vida. Ao mesmo tempo, é muito prazeroso, é um trabalho que me dá alegria e me tem feito, com freqüência, sentir-me útil. Mas não creio, de modo algum, que o poeta precise ser erudito. Pelo contrário: o excesso de erudição pode até atrapalhar, tirar a esponteidade. Poesia só se faz com palavras. O estudo é outra questão.

A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?

A poesia dos poetas mortos, talvez. A dos poetas vivos, nem sempre. Mas a dos "vivos", no sentido de espertos, pode fabricar uma forma, vazia e por isso perecível, de prestígio. E de que vale tal prestígio? A gente come? A gente bebe? A gente vive de algo assim tão abstrato?

Qual a função social da poesia?

Abrir os olhos para o mistério de estar vivo.

A poesia atual é multiplicidade pura. O que deve haver num poema para lhe agradar?

Poesia.

A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

Para mim não se esgotou. Brinco de a fazer reviver, de quando em quando, em formas novas. Para evitar esgotamento, cada poeta indicará seu próprio caminho. Mas deixar de usar os chavões, abster-se dos lugares-comuns, é sempre uma boa precaução. Primeiro viver, depois escrever.

Qual a relação entre a poesia e técnica? Basta dominar certas técnicas para ser poeta?

A mesma relação que há entre técnica e música, por exemplo, ou entre escultura e técnica. Um poema é um objeto escultórico e sonoro, não pode portanto ser construído sem técnica. Mas não basta dominar a técnica, ou certas técnicas, para ser poeta. Sempre será preciso algo mais, o fogo que vem de dentro (ou de fora; onde é dentro e fora?) e derrete a própria técnica. É depois de aprender tudo, talvez, que o poeta aparece, ou seja, quando ele nem mais se lembra, ao escrever, de que está usando uma técnica, a tal ponto é absorvido pelo que se acha fazendo.

Políticas literárias: faz qualquer negócio para a obra ser editada? É justa a percentagem que fica para o editor e para as livrarias? É justo que o escritor seja a causa produtora de um sistema literário que não o beneficia corretamente? O que se pode fazer?

Não faço negócio com poesia, nenhum negócio. Limito-me a publicar meus livros. No tocante à poesia, não acho injusta a percentagem, porque poesia vende mesmo muito pouco, todos sabemos disso, e é fato que os editores correm riscos quando publicam poetas. Escritores que vendem grandes tiragens, com freqüência, têm percentagens maiores que as mais comuns. É preciso ter em mente que as editoras são empresas comerciais, não são centros de cultura. Visam, querem e precisam de lucro. Aos escritores comercialmente bem-sucedidos, cabe negociar, sempre há margem para isso. No meu caso, como eu disse, não faço negócio. Só faço poesia, e olhe lá!

Qual a melhor editora brasileira? E qual a que edita melhor a poesia?

Depende de que ponto de vista: a importância dos títulos, a qualidade gráfica, o alcance da distribuição etc. Não há, a meu ver, "a melhor" editora, há várias que hoje têm muito bom nível. No meu caso específico, do ponto de vista do meu interesse, a melhor é a que publica os meus livros, e onde sempre fui tratado com correção e consideração exemplares.

A figura do escritor precisa ser mais mistificada ou desmistificada? O que isso envolveria?

O escritor é um profissional como qualquer outro. Ou, como disse o poeta irlandês Louis MacNeice, "é um especialista no que todos praticam".

Como avalia o movimento concretista em relação à produção poética contemporânea?

Nunca me interessou em nada.

Há alguma diferença notável entre as poéticas das últimas décadas?

Não sei, nunca refleti a respeito disso.

Quais são os vícios e as virtudes da poesia brasileira moderna e contemporânea?

Prefiro pensar apenas nas virtudes, que são muitas. Tivemos e temos, desde o Romantismo, excelentes poetas.


5. Museu de agora e depois


Já ministrou ou pensa em ministrar oficina de poesia? Como ela foi/será?

Não, nunca ministrei, nem gostaria.

Alguma epígrafe que o acompanha sempre? Algum epitáfio lhe contém?

Epígrafe, sim, mas é secreta, não posso revelar. De epitáfio espero ainda estar muito longe. Ainda tenho muito o que fazer por aqui.

"Escrever sobre escrever é o futuro do escrever"? (Haroldo de Campos)

Lamento discordar. Poesia sobre poesia, para mim, é o fim da picada.

Qual é hoje a marginália da poesia brasileira? Ela ainda é possível depois da internet?

Isso eu realmente não sei.

Que conselhos daria a quem está começando?

Primeiro, começar. Depois, continuar começando. Nunca deixar de perceber que a vida é um permanente começo.

Que livro preparou por agora? Qual seu eixo principal?

Preparei o "Chinês com Sono", que saiu no ano passado. Seu eixo é a simplicidade.

Como você se vê frente ao recebimento de originais? Comenta tudo o que recebe?

Não, não comento tudo. Às vezes por pudor, às vezes por delicadeza.

O que pensa sobre a algaravária?

Que toda experiência desse tipo é válida, que acrescenta alguma coisa à vida, que aproxima pessoas sensíveis e capazes por isso de contribuir para que nosso país cada vez mais se civilize, se imunize contra a barbárie.

algaravária
(5) no algaravial

 

sexta-feira, agosto 25, 2006

enquanto 10





inimigos um frente ao outro
) carros em veloz beijo brutal (
somente se despem
tão logo se calam

)(

O

let it be
let it bleed




.

Pablo Araujo
(0) no algaravial

 

quinta-feira, agosto 24, 2006
Deus

Deus
é a palavra que quero dizer hoje.
Deus, Deus, Deus mil vezes.

A mais plena.
A mais primaveril.

Hoje não quero pensar em Deus
mas redigí-lo,
em quatro letras gordurosas,
em quatro espaços
redentores,
em quatro intervalos
vazios de meus silêncios.

Quem dera Deus
fosse o silêncio.

Ou o piano...

Priscila de Freitas
(4) no algaravial

 


esvaziando gavetas número vinte e um


soletrar o rio
em preces
saber das pedras
o segredo
que a primavera
trará
vestida sob cores
miúdas
onde meus ombros
espantalhos
enfim repousarei

douglas D.
(0) no algaravial

 

quarta-feira, agosto 23, 2006
Entre Parênteses

Soneto ao Aedes

do cérebro asa esquizofrênico
que faz válvula essa o tormento
do mosquito a sangrar vil arsênico

eis assim louco osso sentimento
assume vida laço quão sirênico
fiel insensatez e emagrecimento

então tal gilete desquitada
percorrendo veia esverdeada
vida / válvula pela privada
grita garganta água parada:

"sente desgraça ist'o que aflita!"
- dislexia fobia fase inicial -
precocemente ele um anormal
absorto (dengue) e parasita

Diego Ramires
(0) no algaravial

 

segunda-feira, agosto 21, 2006
Ninguagem (à memória de Russo)

Daniel Sampaio
(3) no algaravial

 

sábado, agosto 19, 2006
Algaravariações (12): Lígia Dabul

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Lígia Dabul nasceu e vive no Rio. Publicou o livro de poemas Som (Editora Bem-Te-Vi, 2005). Tem poemas em revistas, jornais, folhetos e zines impressos e virtuais. É antropóloga e faz pesquisas em Antropologia da Arte. Publicou o livro Um percurso da pintura, etnografia sobre a constituição de carreiras artísticas em um ambiente de arte contemporânea. Trabalha na Universidade Federal Fluminense, no Gragoatá, em Niterói, Rio de Janeiro.

Abaixo, 5 poemas inéditos e uma belíssima entrevista muito gentilmente cedidos à Algaravária.





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BABY BAG



amor um centro e dentro
outro centro - viver
na estepe sem freio sem
estepe com o choro
nasalado de sono leve
de tudo livre no banco
de trás quando aqui
na frente é depressa e
não há air bag ninguém
na hora do tranco do
atropelo lobos cortam
a pista deduzem o carro
ferve aos prantos pois
passo ultrapasso o prazo
sozinha armo a ventarola
a ventoinha que não posso




VALVA



nasciam os pêlos
da perna e as partes
seletas daí nicotina
e a lanugem grudarem
nos beijos

cravaram o solo
na tarde cataram
uns frutos queriam
apenas sementes
calafetar junturas
- os dois inteiros




MEL


O cheiro doce e a abelha ali grudada.
Na tarde não havia nada firme
que pudesse conter alguns cuidados:
tentamos umas flores. Mas mantínhamos
a porta aberta e o vento encaminhando
tudo. Por isso o cheiro doce imenso;
daí ser necessário que crianças
ficassem afastadas por um tempo.
Tanto era o cheiro terno que a primeira
garota obediente desistiu.
Estava presa ao fruto de uma abelha
e as asas da vontade apareciam.
Os meninos queriam de verdade.
Tivemos que fechar a porta rápido.



AERONAVE


o diagrama psicografado dentro
na casa de máquinas fervendo

por fora um gemido desde o
começo de tudo e frio

astronave que deambula pelo céu
desigualmente

seus cânticos de poeira e
dança sem limites

o fio de luz
sobre arcanjos insistentes



MARON


essa vontade de voltar
para Bakafra como
se nunca a diáspora

tivesse um dia envolvido
todos - mesmo aqueles que
não tocassem em dinheiro

que falassem pouco
obedientes - mesmo eu
que sempre fui daqui

voltar e naquelas alturas
encontrar o frio antigo
pedras maçãs nenhum cedro

um céu aberto perplexo
o espaço aéreo
a custo me reconhecer





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ENTREVISTA



1. Trajetória de antes


Como construiu o escritor que é hoje? Qual sua trajetória literária até o primeiro livro?


Há muito tempo escrevo e leio sem inocência. Mas nunca tive pressa para publicar. Meu primeiro livro de poemas, Som, pronto há alguns anos, só saiu em 2005. Foi também há relativamente pouco tempo que comecei a colaborar de maneira mais sistemática com revistas e jornais. Essa comunicação mais larga, com leitores que ultrapassam um círculo conhecido de poetas e de outras pessoas interessadas na minha poesia, tem sido uma medida interessante, para além da avaliação crítica que eu, como todo poeta, já tenho até certo ponto adquirida e ponho em prática quando escrevo. É importante ter o poema domesticado e servido. Faz parte da natureza do poema essa entrega, e do trabalho do poeta providenciá-la no momento e com a abrangência que considerar convenientes. Mas sou lenta nesses assuntos.


Ser poeta é mais talento ou esforço? Descobriu-se ou inventou-se poeta?

Um poema, para mim, é resultado de muito trabalho e reflexão. Por vezes meses, anos, muitas minúcias - ainda naqueles casos em que não mudo nada do que escrevi no primeiro fluxo. Essa capacidade de trabalho, de concentração, quando acompanhada de uma capacidade de fantasia e de crítica, talvez componha algo que costumamos chamar de talento. Norbert Elias esmiúça essa hipótese no seu estudo sobre Mozart, um caso limite.
Penso que a poesia é um conjunto muito extenso de atividades, de práticas que nem sempre resultam diretamente em poemas. Envolve escrita e outras coisas mais: adiamentos, música, disposições estranhíssimas, interlocução, leituras e muito lixo. Dificuldades também. Cada poeta tem seu rol de eventos. No meu caso, a poesia inclui inúmeros procedimentos compulsivos.
Agora, poeta é uma identidade, uma invenção coletiva. Nesse sentido, tornei-me poeta como alguém se torna ladrão, pintor, professor, bombeiro. Jamais portei essência alguma. Ninguém carrega algo como ser poeta ou músico, alguma aptidão inata - e isso pude constatar também em pesquisas. Uma aptidão generalizada acaba por se concentrar em alguns poucos, e isso depende de fatores os mais diferentes e boa parte deles completamente fora do controle do poeta. Mas escrever/ler é algo que faço por escolha e vontade puras.

Quais livros fizeram parte de sua formação?

Tudo o que li na adolescência de Carlos Drummond de Andrade, de Manuel Bandeira, de Cecília Meireles e Clarice Lispector interferem com muita força no que penso e escrevo até hoje. O livro 26 Poetas Hoje, organizado por Heloísa Buarque de Hollanda, me causou grande impacto, uma surpresa que me permitiu reler com outros desejos o que já conhecia, e procurar formas mais inusitadas de fazer poesia: nos poetas que eu buscava, no que eu mesma escrevia. Quando li À mão livre, de Armando Freitas Filho, publicado em 1979, e A teus pés, de Ana Cristina César, publicado em 1982, já me encontrava numa freqüência criativa em poesia. Sua leitura teve então algo de formação, se levo em conta repercussões mais diretas no que escrevo. Depois, em 1988, conheci Trevo, de Orides Fontela. À obra dessa poeta volto sempre. Eu me reformo e oriento por ela, por mais diferente que seja da minha poesia.
Os poetas que li traduzidos, só pude de fato incorporá-los depois, muitas vezes muito depois, lendo-os no seu idioma. Não considero, portanto, que tenham feito parte de minha formação, mesmo aqueles que são hoje referências para mim, como Sylvia Plath.

Teve algum incentivador? Quem?

Os poetas Ele Semog e Rita Moutinho. O leitor Moacir Palmeira.



2. Psicologia da composição

Com que se inspira para escrever? O que é matéria para a poesia? Quando escreve, qual o efeito estético visado?

A poesia parece ser um lapso, um tropeço na linguagem. Não penso muito sobre isso, mas no meu caso tenho evidências do papel dos estranhamentos, de seus acasos, no desencadeamento e no trabalho poéticos.
Busco, por vezes, esse estranhamento. Brinco chamando-o de choque semântico. Eu me vejo compelida a prestar atenção em conversas de homens sobre partidas de futebol, a ler artigos de divulgação científica sobre fenômenos hormonais em elefantes jovens, manuais de pesca, reportagens sobre caça às baleias, livros de cálculo, folhinha, verbetes sobre rituais celtas. É diferente da pesquisa que acompanha a elaboração de alguns poemas. Trata-se de envolvimento com um universo de palavras que causa uma reação poética, que me coloca numa prontidão criativa. Por vezes eu me induzo a este "estado de criação", como o cineasta Joaquim Assis gosta de dizer.
São as palavras a matéria para a poesia. Ainda que um poema deva boa parte de sua força a sensações que provêm de experiências pessoais intensas, depois de tanto trabalho e de submetido a avaliações minhas desde que começa a ser feito, ele acaba por se descolar completamente de sua origem. Parece ser então esse o efeito que busco: o poema que se depura e cede à sua vocação de objeto simplesmente literário, retirado, por acasos e escolhas, da linguagem com a qual o poeta interage, na qual o poeta vive, na qual eu vivo, com todas as suas correlações com sensibilidades, visões de mundo, cotidianos.

Costuma começar pelo primeiro ou pelo último verso? Qual deles é o mais difícil?
Tem dificuldade para nomear os poemas?


Costumo começar pelo primeiro verso, e o mais difícil é intervir em versos que já aparecem prontos, em equilíbrio com os demais. É necessário muito esforço e tempo para desnaturalizá-los. Sobretudo a música costuma atrapalhar a minha poesia.
Atribuir títulos a poemas é uma operação fundamental mas como qualquer outra de criação. Pode ou não demorar, apresentar dificuldades, ser bem feita.

Há idéias ou imagens que lhe perseguem no fio dos anos e das obras?

Sim. Por exemplo uma astronave nos planos de Shiva.

Para escrever, precisa conhecer muitas cidades e ler todos os livros?

Ler todos os livros é sempre bom.

O poema deve intuir uma intenção plástica?

Ele tem sempre uma realização plástica, ainda quando não tivemos controle das intenções estéticas.

Qual a condição sonora que visa atingir com seus poemas? Como a ressonância funciona na sua obra?

Talvez por formação, a música está arraigada no que escrevo. Preciso interferir muito em um poema para que ele não seja mais que tudo uma peça musical. Retirar a musicalidade excessiva faz parte então do meu trabalho, e prezo muito efetuar as operações necessárias para chegar a outro tipo de ritmo, de fluência, andamento que não os que me aparecem de imediato. Venho já há algum tempo experimentando escrever sonetos e em outras formas fixas. São novos problemas e muitas possibilidades que essas "caixas" que delimitam o discurso poético oferecem. Já pelo fato de apresentarem estruturas rítmicas explícitas, tenho mais sob controle o campo sobre o qual devo interferir. Algumas tensões são obtidas com mais potência e facilidade. Mas enfrento o óbvio limite de criar sobre uma métrica e uma rima, fatais.

É possível perceber, em muitos de seus poemas, a opção pelo não-dito, pelo silêncio. Como você, autora das peças que compõem o livro Som, pensa essa preferência?

Não sei se se trata de uma preferência, uma referência tácita. Penso que há um silêncio primordial. É sobre o silêncio que escrevemos, o suporte essencial da poesia. Contra e por conta do vazio branco dele a poesia existe. Não me refiro agora aos aspectos propriamente rítmicos de um poema, das pausas que dão matéria à energia criada com a escrita. Calar precede e se sobrepõe à poesia, e ainda assim escrevemos.


3. Prosa do próprio mundo


Como define a sua poesia? Como caracterizaria suas ambições estéticas principais?

Não saberia caracterizar. Mas quero registrar uma maneira de ser. Um ímpeto, que seja. E gostaria que o resultado fosse exato. Não ser como outros registros, mas experimentar intensamente outros registros é parte desse plano.

Entre seus próprios poemas, quais os seus preferidos? Eles coincidem com os preferidos dos leitores ou mais divulgados em geral?

Não percebo essa relação. São lidos de maneiras muito variadas, avaliados com critérios distintos por leitores bem diferentes. Minhas preferências não coincidem sempre com as dos leitores ou com a divulgação. Me agrada esse ou aquele poema por razões diferentes. Em um eu resolvi uma questão de ritmo difícil. Noutro nomeei algo para mim indizível. Naquele é a síntese bem-sucedida. Ou toquei finalmente em determinado tema. Ou consegui realizar aquele poema contra todas as expectativas. Algumas vezes gosto sem conhecer todas as razões. E ocorre de não apreciar tanto poemas que leitores que prezo valorizam.
Às vezes é o conjunto de poemas que acho interessante. Gosto por exemplo dos sonetos que saíram neste último número da Etcetera. Os poemas publicados na última Jandira também me agradam como reunião.
Costumo preferir os poemas que estou escrevendo ou que acabei de terminar. Estão ainda pulsando, me envolvendo. Um tempo depois já estou ocupada com outros, e aqueles então já posso avaliar com mais tranqüilidade, sem as preferências da paixão.

Qual a relação entre seu trabalho e sua escrita?

Não é tanta. Mas na pesquisa antropológica costumamos nos lançar em situações de diferença - com outros povos, outras classes, outros grupos - e nos apropriar do que então nos causou, em um primeiro momento, estranheza. A idéia é ricochetear o que descobrimos para o entendimento de nosso próprio mundo, que passa, então, a possuir elementos "estranhados". Criamos essa distância do que nos era familiar porque pudemos nos familiarizar com o que foi espanto. Faço de fato algo desse movimento com a linguagem. Eu me assusto, me afasto, trabalho, controlo, incorporo. Mas a poesia é diferente: o poema é "poemacêntrico", medida de tudo, e é inevitável substantivá-lo ao ser composto, descoberto.

Em que geração literária você se concebe? Ela tem um projeto definido?

Pensar em termos de geração e de projeto levaria a um tipo de análise da produção artística que não é a que busco fazer a respeito dos poetas que "freqüento" e a meu próprio respeito. Comecei a tornar mais público meu trabalho tarde, talvez mais madura, e junto a muitos poetas e leitores bem jovens; interajo com poetas cuja experiência com a escrita é extremamente diferente da minha e que têm expectativas em relação a público que não são as que eu tenho.
Não possuo um projeto, muito menos um projeto definido. Tenho desejos que vão se conformando no momento exato em que leio algo, concretamente, em que escrevo, em cada poema; que publico, de cada vez; ou que dou forma a um conjunto - no primeiro livro que organizei, nos que tenho organizado.

Como percebe suas principais qualidades como escritor? Há algum defeito de que não abra mão?

Essa eu passo.

Recebeu ou recebe conselhos importantes de escritores na sua trajetória? Como foi e é o diálogo com outros escritores?

Mantive sempre interlocução com outros poetas e de maneiras muito diferentes. Valorizo esse diálogo, gosto de estar acompanhada, a poesia no plural. Há poetas com quem, mais que tudo, aprendo. De Armando Freitas Filho recebo avaliações cruciais e referências de leituras, atenções, atitudes em relação à poesia. Com Paulo Henriques Brito tenho dialogado em torno de sonetos que venho escrevendo. Noutra freqüência, já há algum tempo uma comunicação estreita me liga a diversos poetas, especialmente a Paula Padilha e a Helena Ortiz. Muitas vezes com tinta ainda fresca, trocamos inéditos.
Os livros Olhar Descalço, de Paula Padilha, Sol sobre o dilúvio, de Helena Ortiz, A filha imperfeita, de Daniel Santos, ainda agora me surpreendem. Nesse momento são muitos os poetas que me deixam surpresa. Li recentemente o belo Isto, uma plaquete de André Luiz Pinto. Estou lendo Miniaturas kinéticas, de Aníbal Cristobo. Mas dialogo com a poesia de muitos poetas com quem não interajo tão diretamente. Acompanho com grande atenção o trabalho de diversos que conheço por meio das revistas que hoje temos, também as virtuais. Tento ler sempre a poesia de Diego Vinhas, de Donizete Galvão, Paula Glenadel, Mônica de Aquino, de Adele Weber, de Flavia Rocha, Eduardo Jorge, Leonardo Martinelli, de Bráulio Tavares, da inédita Fabiana de Farias. A argentina Maria Eugenia Lopez e a mexicana Fanny Enriques escrevem uma poesia que me diz respeito. O chileno Héctor Hernández Montecinos igualmente. Eu me interesso muito pelo trabalho da também artista visual Laura Erber. Alguns poetas que admiro, como Cláudio Daniel, Ana Peluso, Ademir Assunção, leio também nos seus blogs. São diálogos para dentro. Esses e outros, como o que surge sempre que leio a poesia de Claudia Roquette-Pinto e Manoel de Barros.

Quanto tempo dedica à leitura de crítica literária? Concorda com a idéia de que ela, nos jornais e revistas, está mais digestivo-introdutória do que analítico-crítica?

Dentro do possível, leio a crítica, especialmente a feita para poetas e outros interessadíssimos. Encontro essa crítica em publicações literárias, que não são voltadas para o grande público.

A crítica literária de qualidade pode trazer, de fato, algum benefício para a produção poética? De que maneira(s)?

Penso que alguém que se dispõe a fazer crítica tem que saber a quem se dirige. Se pretende atingir o chamado grande público, que não tem o hábito de se mobilizar para ler poesia, que no máximo aceita as indicações da mídia, a inércia dos nomes consagrados, acredito ser uma perda de tempo gastar a pena com a desvalorização do trabalho desse ou daquele poeta. Melhor seria oferecer, apresentando as razões, a poesia que acredita valer a pena ser lida. Perfeito seria sensibilizar leitores para a poesia.
Noutro caso, se a crítica está se dirigindo ao restrito público da poesia não difundida, não oferecida nunca nas escolas, fora do alcance dos olhos, não creio que crie tanta opinião, por exemplo, por meio de grandes jornais. Esses são leitores já equipados. No máximo, vão apurar a leitura se acaso considerarem a possibilidade de ler a crítica. Na verdade, é muito pequeno o público que lê crítica. Menor ainda é o que a lê e que muda escolhas ou a própria leitura da poesia por conta dela.
E em poesia há um enguiço especial na crítica. Críticos poetas com muita freqüência não conseguem deixar de falar de si mesmos. Ocorre até de explicitarem sua pedra de toque. Devia haver espaço para poetas com essa vocação fazerem a crítica de seus próprios trabalhos.


4. A poesia e suas questões em questão


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

São tantas poesias. A que me atrai costuma demandar estudo, leitura, outras línguas.

Qual a função social da poesia?

Francamente, eu não sei. Intuo, contudo, que criar a identidade de poeta, na verdade essa diferença, seja uma função socialmente importante. Mas a prática da poesia e a leitura de poesia ultrapassam muito o circuito dos poetas mais intelectualizados e dos próprios poetas consagrados. Escrever poesia é prática popular, disseminada embora pouco conhecida. Publicar poemas é corrente em jornais, sobretudo os pequenos, locais, referidos a pessoas que se conhecem. É muito comum também o gostar de ler poesia, especialmente a que tem rima e métrica, e a que trata de realidades consideradas belas, moralmente valorizadas ou que emocionam o leitor. Gostar de ler não significa comprar ou buscar livros de poesia. Gostar de escrever também não resulta publicar ou tornar-se poeta com isso, embora muitos poetas sem livros ou com livros não conhecidos pela crítica ou pela academia sejam reconhecidos como tais por um público não especializado.
A poesia submetida sistematicamente à avaliação do próprio poeta, já desde o momento em que é criada, e confrontada por ele com o que leu, pensou, com as precipitações que vão surgindo enquanto escreve, essa poesia deve ter alguma função, mas desconheço qual seja.

A poesia atual é multiplicidade pura. O que deve haver num poema para lhe agradar?

Guardar-se em algum limite, sugerir alturas.

A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

A poesia não se esgota como prática literária. Havendo condições - trabalho, leituras, leitores, interlocução - não se esgota.

Políticas literárias: faz qualquer negócio para sua obra ser editada?

Não faço qualquer negócio para editar um livro. Tive a sorte de ter completa liberdade junto à minha editora. Som saiu como eu queria, com um projeto gráfico delicado, sem erros, com o que desejava incluir.
Também não faço qualquer coisa para publicar poemas. Envio para revistas e jornais sempre poemas prontos. Não mexo, não aceito sugestões, embora aceite com tranqüilidade que um editor não publique um poema meu.


A figura do escritor precisa ser mais mistificada ou desmistificada? O que isso envolveria?

O escritor poderia passar desapercebido como figura. Não há nada que justifique mistificar ou desmistificar o escritor. A poesia prescinde desse foco. Ela tem vida própria e é isso que interessa.


Como avalia o movimento concretista em relação à produção poética contemporânea?

Não sei se tenho como responder. Acho muito importante o que foi feito pelos concretistas. Gosto do trabalho de alguns poetas que produzem referidos ao que concretistas pensaram e escreveram, que refletem sobre isso, como Arnaldo Antunes. Reconheço o fundamental de sublinharem, na sua própria poesia, o caráter de objeto do poema e as implicações de tratá-lo assim. Mas uma avaliação mais completa foge ao que conheço de fato dessa relação.


5. Museu de agora e depois


Já ministrou ou pensa em ministrar oficina de poesia? Como ela foi/será?

Não nos moldes da que eu fiz na OLAC, com Rita Moutinho, experiência que me amadureceu muito e que foi comum no Rio de Janeiro na década de 90. Com a participação em oficinas algumas pessoas praticavam e se agregavam, e construíam instrumentos e referenciais para investirem na escrita poética. Já pensei, numa direção completamente diferente, em ministrar oficinas de texto para alunos de graduação, para sensibilizá-los na escrita, inclusive de textos científicos. Também imaginei em algum momento como ler e escrever poesia poderia ser prática interessante para psicóticos. E como orientá-los nisso poderia ser interessante para mim.

Alguma epígrafe que a acompanha sempre? Algum epitáfio lhe contém?

Não, nenhum.

"Escrever sobre escrever é o futuro do escrever"? (Haroldo de Campos)

Há outros temas igualmente interessantes. De qualquer modo, um poema sempre fala de si.

Qual é hoje a marginália da poesia brasileira? Ela ainda é possível depois da internet?

Marginália?

Que conselhos daria a quem está começando?

Leia como quem escreve. Busque interlocução. Espere.

Como você se vê frente ao recebimento de originais? Comenta tudo o que recebe?

Tenho conseguido ler e quase sempre comentar.

O que pensa sobre a algaravária?

Gostei das entrevistas que li e de muitos poemas. Conheci também alguns poetas por meio dela. Interessante que entrevistados e colaboradores são apresentados por eles mesmos, nos depoimentos e nos poemas que enviam. Não há explicitação de critérios de escolha que preceda o que eles de fato escrevem, ou têm a dizer. Dissonância induzida. Idéia para o leitor.

algaravária
(3) no algaravial

 

sexta-feira, agosto 18, 2006
fase blues

o pensador, de rodin

humano ou não fosse
sentimento que se dobra:
cotovelo na coxa
espalda encurva
genuflexa questão
ser ou não ser
infatigável
a cabeça: um alabastro
de luzes o contorno
abate-se adiante
(a ti ao público) -
epifania de sua
(mineral) condição -
estupor de pedra
lágrima em poeira

Felipe K.
(0) no algaravial

 


DELIVERY


caixa-rápido

fast-food
self-service
lava-rápido

o-poema

está-feito
agora-leia
você-mesmo

Paulo de Toledo
(0) no algaravial

 

quinta-feira, agosto 17, 2006
O Dia da Noite

Lista de compras

De
dos mordidos
Ca
ra de desen
gano
Luz mad
ura
Co
res anti
gas

bios es
forçados
P
az ex
er citada

Pão
rápido
na pia
da cozinha

Não precisa trazer ovos,
- Omelete até fim do mês -

Mas traz a
cara,
os dedos,
a luz,
os lábios,

A paz eu já não tenho
e é
irrecuperável

Mas o pão
eu o quero,
quente

Faz mais esse
favor
Não tranque
essa minha porta

de novo
Virei pensão

(devolve as chaves e fim de ___)

Carol Custodio
(0) no algaravial

 


Amo(r)finado

Dei o nome de Morfeu
a este céu de sódio.
Céu vazio dentre
palmas de persiana.
Uma poça de céu
e umas aves circulares.
Tonelada de mármore polido:
carrego o peso, deitada,
e o céu me avança.
Tento um risco
na superfície enrugada.
Obtuso céu de rigor
e brancura.
Peço que me obture
e me devassa,
como ao ópio sua substância.
Morfeu, deus do sono,
céu de gesso e magnésia,
ampola de fosco vidro com morfina
[me vergo a esse leito de agulhas]
Dormência cervical e escópica
desse olhar horizontal
e amofinado.

Priscila de Freitas
(6) no algaravial

 


esvaziando gavetas número vinte

libélulas
trazem no vôo
o branco das nuvens
&
devolvem
o azul do céu
a nós
os que não sabemos orar

douglas D.
(1) no algaravial

 

terça-feira, agosto 15, 2006
Imp. 20

.
.
.
.
.
.
Naquela janela


E daí o juízo

(suspensa)


Glossário de apreensões sensíveis
reconsultado às quatro
e trinta
puníveis tensões se dão
pensáveis no que esgoela tantíssimas
.
.
.
.
.
.

Thiago Ponce de Moraes
(7) no algaravial

 

segunda-feira, agosto 14, 2006
Ninguagem

Daniel Sampaio
(1) no algaravial

 

sexta-feira, agosto 11, 2006

Paulo de Toledo
(3) no algaravial

 

quinta-feira, agosto 10, 2006
O Dia da Noite

Sporca

Quero me sujar
de todas as coisas

a começar
pelas
escadariasbrancasfrias
do prédio

Vou tirar meus sapatos
e sentir - como são
imundososdegraus
que me levarão
à beleza de todas as coisas

sujas.

Carol Custodio
(0) no algaravial

 


Parto

Gravidade cor de chumbo
a pesar-me o céu da boca.
Enraízo ao dente um nome
que incha e desengonça.
Grávido de língua, o palato inflama,
umedece o dito num edema afônico.
Cuspo seco e a palavra murcha,
desidrato
o significado
até deixar umas letras.

Priscila de Freitas
(2) no algaravial

 


esvaziando gavetas número dezenove

PRELÚDIO III
ciclo: pés descalços
teus cabelos gosto de pássaro voando
.
. .

meus dedos são cores cantando cigarras
.
.
.


douglas D.
(1) no algaravial

 

quarta-feira, agosto 09, 2006
Caps Lock

Tudo uma questão de amor

amar aquele(a) que não ama
é amor
aquele(a) que não ama pode vir a amar
o que ama mas não é amor
é submeter
o não amar ao amor daquele(a) que ama
e isso é mentira
para si
e para aquele(a) que não está mentindo

Diego Ramires
(2) no algaravial

 

terça-feira, agosto 08, 2006
Imp. 19

Implícito

É preferível guardar
Silêncio
Ser nada e apenas nada
Ainda que não ou sim ou seja

Thiago Ponce de Moraes
(8) no algaravial

 

segunda-feira, agosto 07, 2006
Ninguagem (para Paulo de Toledo)

Daniel Sampaio
(4) no algaravial

 

sexta-feira, agosto 04, 2006

Paulo de Toledo
(1) no algaravial

 


fase blues

les cerisiers

no ocre no frio
resta à cerejeira
florir das janelas.

uma velha dama
contempla do casario
a vertigem de galhos
e flores colhidas
nos vidros.

venta-lhe uma saudade.

uma ave salta do telhado.
a tarde ameaça cair.

Felipe K.
(3) no algaravial

 


enquanto 9



a relação das coisas é antiga.
primeira e sempre a relação com as coisas.
não se sabe..........e nasce...........fechamento.
vida.......:.......violentamente delicada.
a velocidade da poeira sob o sol rebatia nos rostos
e não queria fazer nada..........não poderia fazer nada.
há um único modo.......:.......outros modos.
calo e saio...........primeiro.........último.........sempre
abertura.......:.......noite.
pois o canto são dos outros
o canto deles maior do que eu.




.

Pablo Araujo
(2) no algaravial

 

quinta-feira, agosto 03, 2006
O Dia da Noite

A{u}[l]to Meretrício

Por debaixo da minha ponte
Só passava teu rio
E mais minha rua inteira
Depois
Eu ia cuspir a rua
Mas você ia ficando
Debaixo da minha ponte nua

(Nunca vi silêncio maior
Do que este quando te faço presente)

Carol Custodio
(2) no algaravial

 


Notre musique

Quatro pernas
para o meu cansaço,
três garfadas
de tragédia
e um acordo
interesseiro com Deus.

Ravel e Debussy
trilhando acidentes
no terreno.
Pano de linho teso
sob meus passos de violino.

Caminho pautas erradas
mas ouço
o absoluto.

Priscila de Freitas
(5) no algaravial

 


esvaziando gavetas número dezoito

segredo da chuva:



amor de criança
no colo da mãe
sussurrando trovões
para que deus não escute
a amargura de si mesmo


douglas D.
(0) no algaravial

 

quarta-feira, agosto 02, 2006
Abre Aspas

Trocadilho

a burguesia fode
a favelada fede

a burguesia pode
a favelada pede:

"tio tem um trocadinho?"

Diego Ramires
(4) no algaravial

 


18 Riscos

Silêncio

a flauta muda
na gravação

Daniela
(1) no algaravial

 


A imprópria lei do alheio


[Fazer água XV]



Aqui,

entre
mim:

se eu for personagem
de um deus,
se eu for personagem
para um deus:

peço que eu não seja
recolhido à fonte:
peço que me renegue jóia
e me conserve imitação:

peço que eu seja joio
e não estrague o pão
que volta a assar
no líquido da boca:

peço que eu seja sede
que se resolve como fome:
peço que eu continue
impróprio como nudez:

peço que me venda
a um dos seus personagens:
se eu for escritor,
valerei menos do que um livro:

peço que eu seja vendido
ao sebo do diabo:
não tenho medo
de queimar palávora:

sendo papel, que eu sirva
para arder:
imploro não ter que durar
gota à gota:

sei que a eternidade,
água,
água,
é árdua.

Carlos Besen
(5) no algaravial

 

terça-feira, agosto 01, 2006
Imp. 18

Arsenal



Acordes d'accord
Escultura de tintas
Dissonante antinatural



Cantares de polilíngües personae
Pau-brasil
Frag
Hermetismo contundente



Citação, réplica
Recipe





Barbárie assimilada
..........Ou nada

Thiago Ponce de Moraes
(5) no algaravial

 


saraIvada mar mor mur

falar de amor não contém anzol
nem linha
pro umbigo
aconteceu numa calçada, a melhor porcaria da sarjeta, aconteceu e deveria ou não.
passei a acreditar em paixão de bueiros quando o soldadinho de chumbo se afogava com uma perna perdida
pra encontrar a bailarina
o espaguete da dama e o vagabundo é até um luxo.
falar de amor não contém viveiros
nem mudas
pro perigo
aconteceu sem passagem,
sem toalha pra depois,
um balde de sol,
uma estrela de gelatina azul,
bem fundo
eu não durmo
porque a felicidade é um verme que me faz maçã.

francieli spohr
(3) no algaravial

 

 

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