ALGARAVÁRIA
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sábado, agosto 26, 2006
Algaravariações (13): Leonardo Fróes

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Leonardo Fróes é poeta, tradutor e ensaísta. Tem publicados pela Editora Rocco os seguintes livros:

Chinês com sono (2005)
Contos orientais (2003)
O triunfo da vida, de Shelley (tradução e ensaio; 2001)
Trilogia da paixão, de Goethe (tradução e ensaio; 1999)
Vertigens, "Obra reunida, 1968-1998" (1998)
Argumentos invisíveis 1995)
Um outro. Varella (1990)

Traduziu dezenas de livros, entre os quais Contos completos, de Virginia Woolf; Esquetes de Nova Orleans, de William Faulkner; Middlemarch, de George Eliot; Panfletos Satíricos, de Jonathan Swift; À sombra do vulcão, de Malcolm Lowry; Os anos loucos, de William Wiser; Em busca de Marcel Proust, de André Maurois.

Vive em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, desde 1971. É montanhista e naturalista amador, tendo também traduzido livros de especialistas em ciências da natureza, como Tukaní, do ornitólogo Helmut Sick, e Naturalista, do mirmecólogo Edward O. Wilson.

Freqüentemente faz palestras em universidades e centros de cultura. Em 2006, já falou em Florianópolis, na Universidade Federal de Santa Catarina, e no Rio de Janeiro, na Casa da Leitura da Biblioteca Nacional. No próximo dia 09 de outubro, segunda, às 17:30, falará sobre tradução de poesia na Academia Brasileira de Letras.


Abaixo, um poema e três traduções inéditos, e uma pertinente e valorosa entrevista cedidos fraternalmente à Algaravária.



CONTEMPLAÇÃO DOS SEIOS DAS BETERRABAS

manhã de chuva banheira
na horta sabiás
cantando
em volta
de uma enorme figueira
cujas raízes abraçam
uma pedra enorme
que parece
um ovo
de musgo cristalizado
depositado pela própria
árvore galinácea
fenomenal
parada entre os canteiros
de alface
e depois uma tira
de terra vermelha
na qual despontam afundados
os seios quase roxos
das beterrabas

___


3 poemas de D.H. Lawrence (1885-1930)
Tradução: Leonardo Fróes


UMA REVOLUÇÃO SADIA

Se você fizer uma revolução, faça curtindo,
não me venha com uma cara zangada
de seriedade mortífera,
faça uma revolução engraçada.

Não a faça por odiar as pessoas
e, sim, só para abrir os seus olhos.

Não faça uma revolução por dinheiro,
faça-a por prazer e que o dinheiro se dane.

Que a revolução não seja pela igualdade,
mesmo porque iguais nós já ficamos demais:
gozado agora seria ter o caldo entornado
e ver que rumo as coisas tomam rolando.

Não faça uma revolução pela classe
dos trabalhadores, mas sim para que cada um de nós
possa ser uma aristocracia em si mesmo,
pulando com euforia, como os burros que escapam.

Sobretudo não faça uma revolução em defesa
do serviço do qual nós já tivemos bastante.
Vamos abolir o serviço, a ocupação compulsória!
O trabalho pode ser divertido, curtido pelos homens, e assim não ser
mais serviço.
Vamos então fazer assim! Vamos fazer uma revolução por prazer!

ELEMENTAR

Por que é que as pessoas não param de ser amáveis
ou de pensar que são amáveis, ou de querer ser amáveis,
e passam a ser um pouco mais elementares?

Como o homem é feito de elementos,
de fogo, chuva, ar e barro,
e como nada disso é amável
mas elementar,
o homem não pende inteiramente para o lado dos anjos.

Quero que os homens recuperem seu perdido equilíbrio
entre os elementos
e sejam mais fogosos ao menos, tão incapazes de mentir
como o próprio fogo.

Quero que eles sejam fiéis à variação natural, que nem a água,
que passa da nascente ao vapor e chega ao gelo
sem perder a cabeça.

Eu estou cheio das pessoas amáveis,
que são, de alguma forma, uma mentira.

PAZ E GUERRA

Eles sempre estão em guerra quando falam de seu amor pela paz.
O amor berrante da paz me faz tremer mais que um grito
de batalha qualquer.
Por que ter de amar a paz, se a guerra é tão obviamente um horror?

Com tanta propaganda de paz a guerra até parece iminente.
No fundo isso é uma forma de guerra, de auto-afirmação, de querer ser
sensato pelos outros.
Que cada qual seja sensato por si. Além do mais
só em raras ocasiões, como casar ou morrer, é que alguém pode
realmente ser sensato.
É de mau gosto ser o tempo sensato, como estar presente
a um funeral que não termina.
Para o uso diário, dêem-me pessoas excêntricas,
sem muito objetivo na vida,
e aí então nós não teremos mais guerra, não será mais preciso
falar de paz.

_____


1. Trajetória de antes

Como construiu o escritor que é hoje? Qual sua trajetória literária até o primeiro livro? E qual a trajetória até os livros seguintes?

Não construí, fui sendo construído pelas circunstâncias da vida. Tornei-me escritor por ter ido excluindo pouco a pouco as coisas que eu não queria ser. Foi assim, digamos, o que sobrou para mim. Até o primeiro livro, a trajetória foi ir dando cabeçadas, tentando aprender como inventar um caminho. Depois, ao descobrir que o caminho se faz quando se anda por ele, fui me tornando cada vez mais ousado.

Ser poeta é mais talento ou esforço? Descobriu?se ou inventou?se poeta?

Acho que as duas coisas. Sem talento, o esforço é vão. Sem esforço, o talento normalmente se perde, se gasta, se atrofia. O poeta se descobre, ao que parece, e depois se inventa e reinventa sem cessar.

Quais livros fizeram parte de sua formação?

Tantos, mas tantos, que é impossível registrá-los aqui. Mas devo mencionar os dos mestres modernistas, Bandeira, Drummond, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Mário de Andrade e outros, que tiveram uma enorme importância na minha formação na adolescência, quando aquilo que somos, ao entrar na idade adulta, mais se agrega.

Teve algum incentivador? Quem?

Não, não tive. Mas um cartão de Drummond, que ainda conservo, quando lhe enviei meu segundo livro, "A vida em comum", e uma conversa com João Cabral, depois de ele ter lido e aprovado meu "Sibilitz", foram enormes incentivos.



2. Psicologia da composição

Com que se inspira para escrever? O que é matéria para a poesia? Quando escreve, qual o efeito estético visado?

Inspiro-me em tudo que me comove, ou me interessa, ou me faz pensar. Tudo, portanto, pode ser matéria para a poesia, a começar pelos fatos mais banais, mais simples, mais destituídos de solenidade do cotidiano. Não viso nenhum efeito, viso apenas ser sincero e intenso, como se eu realmente estivesse vivendo tudo aquilo que escrevo.

Costuma começar pelo primeiro ou pelo último verso? Qual deles é o mais difícil?
Tem dificuldade para nomear os poemas?


Começo pela primeira palavra e termino pela última. Nem sempre é verso, muito vezes escrevo em prosa, ou seja, em blocos de enunciados. E não tenho nenhuma dificuldade para nomear os poemas, os títulos em geral se acoplam aos textos, logo que os termino, com total naturalidade.

Há idéias ou imagens que lhe perseguem no fio dos anos e das obras?

Não.

Para escrever, precisa conhecer muitas cidades e ler todos os livros?

Acho que não. Emily Dickinson, para muitos a maior poeta americana de todos os tempos, nunca saiu de sua cidadezinha e, ao que parece, nunca leu tanto assim. Mas não há regra quanto a isso. Eu, por acaso, morei em muitas grandes cidades, antes de me recolher a Petrópolis, e sempre fui e sou, desde criança, um leitor voraz. Leio até bula de remédio.

Qual é a sua relação com a natureza? No que isso influencia a sua poética?

Não consigo pensar em mim e a natureza como coisas distintas. Sinto-me, isto sim, parte integrante dela, igual aos bichos, parte das árvores, parte da terra, do ar, da água e do fogo. Vivo entre bichos e plantas desde 1971, e assim vivi parte da minha infância, no interior. Bem mais de metade dos meus anos vividos. Minha poética, mais do que ser influenciada pela natureza, apenas tenta expressar esta relação visceral, orgânica.

Uma possível exegese teria algo a ver com o andamento da sua poesia?

Não sei. Quem sabe?


3. Prosa do próprio mundo


Como define a sua poesia? Como caracterizaria suas ambições estéticas principais?

Como poesia, apenas. E uma poesia que não se escreve apenas em versos, mas que derivou para ser escrita numa grande diversidade de estilos. Coisa que naturalmente acontece quando se escreve, como tenho feito, ao longo de tanto tempo. Digamos que eu e minha poesia fomos sempre mudando juntos, ao sabor dos acontecimentos. Ambições estéticas, propriamente, não tenho. Quero tão-só ser capaz de comover alguém com o que digo, ou melhor, com o que se diz por meu intermédio, mas pertence à espécie, e não a mim.

Entre seus próprios poemas, quais os seus preferidos? Eles coincidem com os preferidos dos leitores ou mais divulgados em geral?

Prefiro todos os que já publiquei. Os que eu não preferia, joguei fora. Mas há muitos que se tornaram mais conhecidos, mais divulgados. Fico feliz com isso, e mais feliz eu ficaria se todos fossem lidos no mesmo pé de igualdade, pois cada um corresponde a uma dada experiência que não mais se repete.

Qual a relação entre seu trabalho e sua escrita?

São a mesma coisa.

Em que geração literária você se concebe? Ela tem um projeto definido?

Em nenhuma.

Como percebe suas principais qualidades como escritor? Há algum defeito de que não abra mão?

Não as percebo. E também não me apego, por muito tempo, aos mes defeitos.

Recebeu ou recebe conselhos importantes de escritores na sua trajetória? Como foi e é o diálogo com outros escritores?

Não, nunca recebi conselhos. Como eu disse no início, aprendi (se é que aprendi: pois acho que ainda estou aprendendo) às cabeçadas. Também não tenho diálogo com outros escritores, não porque não o quisesse, mas pelo fato de sempre ter vivido recluso, distante dos encontros e grupos. Apesar disso, tenho alguns poucos amigos escritores cuja afeição prezo muito.

Quanto tempo dedica à leitura de crítica literária? Concorda com a idéia de que ela, nos jornais e revistas, está mais digestivo-introdutória do que analítico-crítica?

Quase não leio crítica em jornais, é muito, muito raro mesmo, embora leia muitos ensaios críticos, em livros, sobre literatura em geral e, em especial, sobre escritores de outras épocas, sobretudo aqueles que traduzo. Quanto à segunda parte da pergunta, concordo.

A crítica literária pode influenciar a produção poética de uma geração?

É bem possível que sim. A crítica de Eliot e Pound, por exemplo, teve muita influência sobre a poesia em língua inglesa por várias décadas e, portanto, por mais de uma geração. No Brasil, o mesmo deve ter acontecido com a crítica de grupos estruturados em torno de um ideário estético, como modernistas, concretistas e os politicamente engajados. Mas não creio que isso seja muito saudável. É melhor que toda crítica seja posterior às obras livremente criadas, sem prévios posicionamentos a favor disso ou daquilo ou contra o que quer que seja.


4. A poesia e suas questões em questão


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

Bem, eu mesmo faço tudo isso, traduzo de várias línguas, escrevo ensaios etc. Mas tudo é parte do meu trabalho, de minha forma de ganhar a vida. Ao mesmo tempo, é muito prazeroso, é um trabalho que me dá alegria e me tem feito, com freqüência, sentir-me útil. Mas não creio, de modo algum, que o poeta precise ser erudito. Pelo contrário: o excesso de erudição pode até atrapalhar, tirar a esponteidade. Poesia só se faz com palavras. O estudo é outra questão.

A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?

A poesia dos poetas mortos, talvez. A dos poetas vivos, nem sempre. Mas a dos "vivos", no sentido de espertos, pode fabricar uma forma, vazia e por isso perecível, de prestígio. E de que vale tal prestígio? A gente come? A gente bebe? A gente vive de algo assim tão abstrato?

Qual a função social da poesia?

Abrir os olhos para o mistério de estar vivo.

A poesia atual é multiplicidade pura. O que deve haver num poema para lhe agradar?

Poesia.

A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

Para mim não se esgotou. Brinco de a fazer reviver, de quando em quando, em formas novas. Para evitar esgotamento, cada poeta indicará seu próprio caminho. Mas deixar de usar os chavões, abster-se dos lugares-comuns, é sempre uma boa precaução. Primeiro viver, depois escrever.

Qual a relação entre a poesia e técnica? Basta dominar certas técnicas para ser poeta?

A mesma relação que há entre técnica e música, por exemplo, ou entre escultura e técnica. Um poema é um objeto escultórico e sonoro, não pode portanto ser construído sem técnica. Mas não basta dominar a técnica, ou certas técnicas, para ser poeta. Sempre será preciso algo mais, o fogo que vem de dentro (ou de fora; onde é dentro e fora?) e derrete a própria técnica. É depois de aprender tudo, talvez, que o poeta aparece, ou seja, quando ele nem mais se lembra, ao escrever, de que está usando uma técnica, a tal ponto é absorvido pelo que se acha fazendo.

Políticas literárias: faz qualquer negócio para a obra ser editada? É justa a percentagem que fica para o editor e para as livrarias? É justo que o escritor seja a causa produtora de um sistema literário que não o beneficia corretamente? O que se pode fazer?

Não faço negócio com poesia, nenhum negócio. Limito-me a publicar meus livros. No tocante à poesia, não acho injusta a percentagem, porque poesia vende mesmo muito pouco, todos sabemos disso, e é fato que os editores correm riscos quando publicam poetas. Escritores que vendem grandes tiragens, com freqüência, têm percentagens maiores que as mais comuns. É preciso ter em mente que as editoras são empresas comerciais, não são centros de cultura. Visam, querem e precisam de lucro. Aos escritores comercialmente bem-sucedidos, cabe negociar, sempre há margem para isso. No meu caso, como eu disse, não faço negócio. Só faço poesia, e olhe lá!

Qual a melhor editora brasileira? E qual a que edita melhor a poesia?

Depende de que ponto de vista: a importância dos títulos, a qualidade gráfica, o alcance da distribuição etc. Não há, a meu ver, "a melhor" editora, há várias que hoje têm muito bom nível. No meu caso específico, do ponto de vista do meu interesse, a melhor é a que publica os meus livros, e onde sempre fui tratado com correção e consideração exemplares.

A figura do escritor precisa ser mais mistificada ou desmistificada? O que isso envolveria?

O escritor é um profissional como qualquer outro. Ou, como disse o poeta irlandês Louis MacNeice, "é um especialista no que todos praticam".

Como avalia o movimento concretista em relação à produção poética contemporânea?

Nunca me interessou em nada.

Há alguma diferença notável entre as poéticas das últimas décadas?

Não sei, nunca refleti a respeito disso.

Quais são os vícios e as virtudes da poesia brasileira moderna e contemporânea?

Prefiro pensar apenas nas virtudes, que são muitas. Tivemos e temos, desde o Romantismo, excelentes poetas.


5. Museu de agora e depois


Já ministrou ou pensa em ministrar oficina de poesia? Como ela foi/será?

Não, nunca ministrei, nem gostaria.

Alguma epígrafe que o acompanha sempre? Algum epitáfio lhe contém?

Epígrafe, sim, mas é secreta, não posso revelar. De epitáfio espero ainda estar muito longe. Ainda tenho muito o que fazer por aqui.

"Escrever sobre escrever é o futuro do escrever"? (Haroldo de Campos)

Lamento discordar. Poesia sobre poesia, para mim, é o fim da picada.

Qual é hoje a marginália da poesia brasileira? Ela ainda é possível depois da internet?

Isso eu realmente não sei.

Que conselhos daria a quem está começando?

Primeiro, começar. Depois, continuar começando. Nunca deixar de perceber que a vida é um permanente começo.

Que livro preparou por agora? Qual seu eixo principal?

Preparei o "Chinês com Sono", que saiu no ano passado. Seu eixo é a simplicidade.

Como você se vê frente ao recebimento de originais? Comenta tudo o que recebe?

Não, não comento tudo. Às vezes por pudor, às vezes por delicadeza.

O que pensa sobre a algaravária?

Que toda experiência desse tipo é válida, que acrescenta alguma coisa à vida, que aproxima pessoas sensíveis e capazes por isso de contribuir para que nosso país cada vez mais se civilize, se imunize contra a barbárie.

algaravária
(5) no algaravial

 

 

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